Araújo e Mazur (2013) afirmam que não se pode esperar alcançar resultados diferentes, fazendo o que sempre fez. O Peer Instruction (IpC) é um método ativo de ensino desenvolvido desde a década de 90 na Universidade de Harvard (EUA) pelo professor Eric Mazur, na tradução para a língua portuguesa ele é conhecido como Instrução em Pares, ou Instrução pelos colegas. De modo geral esse método de ensino visa promover a dinâmica em sala de aula para alcançar resultados positivos tanto na aprendizagem conceitual de conteúdos científicos quanto no desenvolvimento de habilidades cognitivas e sociais. Além disso, pode articular uma aprendizagem com foco no questionamento e discussões entre os aprendizes. Isto faz que estes valorizem o tempo e o diálogo em sala de aula para discutir ideias relacionadas ao conteúdo, promovendo assim uma aprendizagem ativa com a discussão entre os colegas, e não exclusivamente por aulas expositivas.
Mazur explica em uma entrevista concedida a revista Ensino Superior no site Insper (Instituição de Ensino Superior de São Paulo) que entende que a educação consiste em dois processos, a transferência de informações e a assimilação do conteúdo pelos estudantes. A metodologia tradicional e utilizada em grande parte dos centros de ensino pelo mundo se preocupam em centrar-se na primeira etapa, enquanto a segunda e mais complicada é deixada para que o aluno faça sozinho ou em grupo com os colegas. Assim ele começou a inverter os papéis, trocar a ênfase da entrega de informações para o processo de assimilação. Neste novo formato de educação o professor atua como instrutor, ensinando por questionamento, que tenham a oportunidade de pensar, comprometer-se com suas respostas e terem tempo para discutir uns com os outros.
Segundo Araújo e Mazur (2013) este “método se baseia no estudo de materiais prévios apresentados pelo professor, e na apresentação de questões conceituais fundamentais para que os alunos respondam e discutam entre si”. Ao oposto do que é feito tradicionalmente quando explica o conteúdo, geralmente com auxílio do livro didático, este método foca em promover a negociação de significados entre os estudantes.
O processo é feito em duas etapas, primeiro de forma individual, e depois em forma de discussão. Primeiramente o professor apresenta oralmente o conteúdo com os principais pontos, logo após ele lança questões conceituais de múltipla escolha e pede aos alunos que votem na resposta correta com a utilização dos flash cards. A partir da respostas obtidas, podem ser tomadas 3 ações:
Se mais de 70 % dos alunos responderem corretamente, o professor passa para o tópico seguinte e da prosseguimento ao conteúdo.
Se as respostas corretas estiverem entre 30% e 70% o professor abre um momento de discussão, para que os alunos possam interagir e dialogarem sobre qual a resposta correta. Após aproximadamente 2 ou 3 minutos de discussão o professor retoma a palavra e realiza novamente a votação.
Se apenas 30% das respostas estiverem corretas o professor retoma a exposição oral e então só depois realiza a votação novamente.
No esquema apresentado na figura 3.1 pode ser visualizado o Diagrama de aplicação do Peer Instruction (Araújo e Mazur 2013).
Figura 1- Diagrama de Aplicação do Peer Instruction.
Fonte: Araújo e Mazur (2013)
Araújo e Mazur (2013) ainda elucida que este método não deve ser utilizado como única alternativa, devendo ser combinado com outras ferramentas. Deve-se resaltar que a essência do Peer Instruction consiste na discussão e troca de informações e significados entre os estudantes, que somente a utilização de um sistema de votação como os flash cards, não é caracterizado aplicação do IpC. Contudo, na execução deste trabalho haverá um momento onde será utilizado os flash cards mas não será uma aula com IpC.
5 UTILIZAÇÃO DE EXPERIMENTOS MULTISSENSORIAIS
É compreensível que um estudante com deficiência visual apresente dificuldades de aprendizagem no ensino atual, onde praticamente todas as metodologias de ensino estão fundamentadas e dependentes do sentido visual. Ainda que existam experimentos, atividades e modelos que ora requer a utilização dos demais sentidos, o sentido da visão tem dominado quase que totalmente o ambiente escolar, contribuindo para o insucesso tanto intelectual, quanto social do aprendiz.
Motivadas pela LDEBEN 9394/96 (Brasil, 1996), a inserção de pessoas com deficiências (visual. Auditiva, física e intelectual) no ambiente escolar mostra-se uma prática crescente. Contudo, Camargo (2010) considera que tal inserção não garante a inclusão desse perfil de alunos. Esta prática só é positiva quando produz a busca por alternativas da adequação social da nova realidade escolar.
Éder Pires de Camargo é professor do departamento de Física e Química na UNESP, portador deficiência visual, hoje é um dos principais pesquisadores em ensino de Física para pessoas com deficiência visual no país. Segundo ele o aprendiz portador dessa limitação permanece oculto permeado a um sistema em que necessariamente o conhecer está atrelado ao ver.
Todas as pessoas necessitam de um conhecimento científico para se desenvolver socialmente no mundo do trabalho e dos estudos. Com isso, a educação básica deve favorecer a qualquer tipo de aluno, independente de suas limitações sensoriais, subsídios básicos fazendo-o capaz de utilizar esse conhecimento em diferentes contextos sociais em que ele atua.
Contudo inserido no atual sistema educacional, um portador de deficiência visual não possui a oportunidade de desenvolver sua educação científica, isso ocorre porque ele se encontra totalmente excluso e impossibilitado de exercer sua ação social. De acordo com Camargo (2010), conviver com a diversidade humana, a aceitação das ferramentas individuais, a valorização de cada pessoa e a aprendizagem por intermédio da cooperação são valores éticos que norteiam a
inclusão. Sendo assim, a efetiva participação desse aluno no contexto escolar deve envolver atividades sensoriais que sejam independentes da visão.
As dificuldades hoje em ensino para pessoas com deficiência visual são recorrentes em todo o país. Sendo assim adaptar certos modelos pedagógicos às necessidades inclusivas torna-se uma missão desafiadora, não só na Física, mas também na Química, Biologia, Matemática, Geografia, etc. E deve ir além de princípios gerais, visto que temos uma recorrente falta de investimentos em pesquisas nessa área, assim como falta de mão de obra disposta a pesquisar neste campo do saber.
Com isso surge a necessidade de se pensar uma didática multissensorial, onde todos os sentidos podem ser utilizados como oportunidade para que o aluno desenvolva o conhecimento a cerca de determinado fenômeno. Segundo Camargo (2011) elaborar experimentos multissensoriais amplia as chances de o aprendiz alcançar uma aprendizagem mais significativa. Orlando (2012) mostra em seu livro Pesquisa e Prática Pedagógica em Laboratório de Física IV que é possível desenvolver atividades multissensoriais acrescentando ainda critérios de desenvolvimento baseados no paradigma de Física de Baixo Custo.
Nesta perspectiva, acredita-se que o presente trabalho em partes também atende às necessidades de alunos com deficiência visual, uma vez que os experimentos investigativos referentes à construção do conceito de Quantidade de Movimento (QM) e o de Impulso podem ser explorados através dos sentidos do tato e da audição.
A Quantidade de Movimento é o produto da massa pela velocidade no qual um corpo se encontra. Quanto a este conceito, é possível para um estudante analisar o impacto que recebe do carrinho. Ele pode distinguir quando o impacto será maior ou menor através do tato. Ao parar com a mão um carrinho em movimento, em diferentes momentos ora com maior massa e menor velocidade e vice versa, o estudante é confrontado a levantar hipóteses sobre quais fatores dependem o impacto que ele recebe. Logo após alguns testes é possível que ele perceba que um maior impacto será devido a uma maior massa, ou a uma maior velocidade. Podendo assim, como um aluno sem limitações sensoriais, após a discussão dos
resultados em grupo concluir que a QM é uma grandeza dependente do produto da massa pela velocidade de um corpo.
No caso do conceito de impulso que é ralação entre a Força e o Tempo, ele pode ser explorado utilizando um brinquedo de criança denominado vai e vem. Na brincadeira, uma pessoa abre os braços lançando o vai e vem para o outro lado e vice versa. Só que este vai e vem possui um nó entre as cordas que limita a atuação do tempo que a pessoa aplica quando o lança.
O conceito de impulso pode ser explorado duas maneiras nesta atividade. Primeiro através da percepção do impacto de quem recebe o vai e vem, visto que pode ser utilizado um brinquedo com um nó permitindo uma curta, ou uma longa atuação da força. Podendo a pessoa que recebe o impacto perceber quando a força foi aplicada em tempo grande ou um tempo mais curto. E também pode se utilizar o sentido da audição devido ao som emitido quando o vai e vem chega à mão de quem o recebe, assim como o som emitido pelo contato do vai e vem com a corda quando a pessoa o lança, podendo ser possível perceber que o tempo que força atuou.
Vale ressaltar que essas são duas das atividades presentes na UEPS que permitem que alunos com deficiência visual ou baixa visão participem. Elas também são realizadas por alunos que dispõe de todos os sentidos. Uma vez que a proposta deste trabalho não é criar uma metodologia para alunos com limitações, mas sim ressaltar que caso eventualmente a turma possua este aluno, ele tenha condições de participar de parte da UEPS e condições para compreender os principais conceitos.
6 IMPULSO E QUANTIDADE DE MOVIMENTO
O estudo do Impulso e Quantidade de Movimento são conceitos fundamentais no estudo da mecânica. Geralmente é trabalhado no primeiro ano do ensino médio e nos cursos superiores Física, de Engenharias e alguns cursos da área de Ciências Exatas.
A escolha desse tema se deu devido a sua importância histórica na evolução e desenvolvimento da Física Clássica como compartilhado por Carvalho (1989), a conservação da quantidade de movimento desempenhou um papel fundamental na consolidação da mecânica clássica e das Leis de Newton, onde se estabeleceu uma “rede de relações lógicas entre massa, velocidade, tempo, força, impulso e aceleração. Podendo ser considerada um germe da Física clássica.
Já quanto a sua relevância na Física Contemporânea, no domínio da Mecânica Quântica é interessante destacar que embora seja difícil definir exatamente o que significa a velocidade de uma partícula, o momento ainda existe. Mesmo que o momento da partícula não seja mais representado por mv, o conceito de conservação do momento ainda é válido, ou seja, a Conservação da Quantidade de Movimento também é válida para a Mecânica Quântica.
Ademais o estudo desses conceitos é de grande importância para a interpretação e análise de inúmeros fenômenos no cotidiano dos aprendizes, podendo ser explorado em inúmeros contextos onde é possível o estreitamento entre o conteúdo e a vida diária.