O direito à intimidade, expresso no Art. 5º da Constituição Federal de 1988, vinculado ao princípio da dignidade da pessoa humana, é adquirido com o simples fato do nascimento, bem como irrenunciável e inviolável, “[...] o qual possibilita o desfrute das faculdades do corpo e do espírito, essência[l] ao bem-estar, e que encerr[a], por isso, categoria autônoma, a ponto de não se[r] absolutamente indisponível[l]”, conforme interpreta Gilberto Haddad Jabur (2000, p. 359). Em acréscimo, Paulo José da Costa Júnior (1995) destaca: “Na expressão ‘direito à intimidade’ são tutelados dois interesses, que se somam: o interesse de que a intimidade não venha sofrer agressões e o de que não venha a ser divulgada” (p. 34). Assim, são dois os aspectos a serem protegidos: a invasão e a divulgação não autorizada da intimidade legitimamente conquistada, uma vez que
[...] é o direito de que dispõe o indivíduo de não ser arrastado para a ribalta contra a sua vontade. De subtrair-se à publicidade e de permanecer recolhido na sua intimidade. [...] portanto, não é o direito de ser reservado, ou de comportar-se com reservas, mas o direito de manter afastados dessa esfera de reserva olhos e ouvidos indiscretos, e o direito de impedir a divulgação de palavras, escritos e atos realizados nessa esfera de intimidade. (COSTA JÚNIOR, 1995, p. 43)
Todavia, ainda nos dias atuais, este é um direito não garantido para os corpos trans, como demonstra Amanda Guimarães (2016) em MNA. Como evidencia em sua narrativa, ela sofre esse tipo de bullying desde os primeiros anos de vida nos mais diversos espaços sociais, do privado ao público. Como relata, vêm da infância suas primeiras lembranças sobre isso:
[...] acho que eu devia ter pelo menos uns cinco anos de idade. Eu estava na casa do meus tios com toda a minha família. Durante o almoço, eles começaram a conversar e falar sobre mim: que eu era muito delicado e que só brincava com menina. Rapidamente a coisa partiu pras piadinhas [...] (p. 84).
Na adolescência, era constantemente interpelada sobre a sua sexualidade, muitas vezes pelos próprios amigos e amigas. “Estas perguntas eram quase diárias e parecia um verdadeiro inferno, principalmente quando faziam piadinhas ou vinham sem discrição alguma já afirmando que eu era gay – hoje o nome disso seria bullying, é bem claro” (GUIMARÃES, 2016, p. 34). No ambiente de trabalho, quando ainda não havia realizado as cirurgias de redesignação sexual que vinculava a troca da documentação civil, era constantemente infligida a ouvir comentários abjetificantes, banalmente qualificados como “piadinha”: “Então um dia, quando estávamos trabalhando, um garoto falou: ‘Hoje em dia precisamos ter
cuidado, porque quando a gente menos espera tem mulher com banana por perto’. E todo mundo riu!” (p. 64). No ambiente virtual, quando já era uma mulher passável (BESSA, 2017), Amanda Guimarães lembra que
Naquela época, ninguém sabia que eu era uma transexual, mas eu sempre tive esse meu jeito despirocado, então mesmo quando o canal era pequeno, com apenas quatrocentas visualizações no máximo, sempre apareciam comentários de pessoas me xingando por ser mulher fazendo gameplay, usando decotes [...]. O corpo é meu, a roupa é minha e eu me visto como quiser. [...] E no meio de tanto comentário, um dia um cara falou que eu parecia um “traveco” e, quando eu li isso, eu gelei! Porque ninguém sabia que eu era trans! Inclusive, já fazia anos que eu tinha corrigido meus documentos e tinha medo que descobrissem isso. (GUIMARÃES, 2016, p. 124) Esse episódio, que teve uma potência de alcance inimaginável, pois ocorrido numa rede social, fez Amanda Guimarães “gelar”, causando-lhe sensação de pavor, pânico; sentimento justificável, “Por causa das barbaridades que eu escutava, eu tinha medo que soubessem que era transexual, sabe?” (p. 124). Em seguida, acrescenta: “Eu achava que este tipo de comentário ia acabar com as minhas amizades na internet e fora dela. Então por medo de uma exposição, acabei parando com os vídeos por um tempo” (p. 126).
Como a autora registra em seu livro, trata-se de uma violação que foi capaz de alterar o seu estado psíquico, impedindo-lhe de desfrutar as faculdades do seu corpo e do seu espírito (JABUR, 2000); entretanto responsável pelo seu enraivecimento (BUTLER, 2018), quando pouco tempo depois, ainda em 2015, com 25 anos de idade, publicou nesse mesmo canal um vídeo enunciando a sua identidade de gênero, fato que lhe garantiu o título de primeira
youtuber trans do Brasil86:
[...] depois de pensar muito, gravar diversas e diversas vezes, eu postei um vídeo contando que eu era uma mulher transexual e abrindo meu coração para o público! Se quiser ver o vídeo, vai lá no meu canal no Youtube e procura pelo seguinte título: “Sim, sou uma MULHER TRANSEXUAL! Prazer, Amanda!” É um dos primeiros do canal” (GUIMARÃES, 2016, p. 124).
Conforme narra a autora, essa postagem definitivamente garantiu o seu sucesso como
youtuber: da noite para o dia, de 400 inscritos passou a ter 12 mil visualizações.
A partir daí, eu senti um certo estímulo e então comecei a contar mais sobre minha história no canal e passei a falar sobre transexualidade (que infelizmente ainda é um assunto pouco abordado nas mídias) com muita naturalidade e honestidade. (p. 127) Mas não só, ela transformou o seu canal de gameplay pioneiramente num espaço de compartilhamento de experiências e informações sobre a temática. Constituiu-se, naquele
contexto, numa comunicadora-cidadã87 na maior plataforma de compartilhamento do planeta, obtendo um sucesso que a fez acreditar na importância de escrever a sua história, publicada um ano depois no Brasil, como afirma na abertura da obra:
[...] Eu sou uma youtuber, tenho um canal chamado de Mandy Candy, em que falo sobre relacionamentos, sexualidade e também um montão de coisas bobas! Ah, e também conto um pouco sobre minha vida e tudo que passei por ser uma mulher transexual. Gostaria muito de falar desse assunto porque tem um monte de gente cheia de preconceitos de um lado e uma galera linda, iluminada, mas sofrendo do outro lado. [...] Já passei por muita coisa ruim e vou contar algumas delas aqui neste livro, mas tudo isso não é pra você ficar com pena de mim “Coitadinha da Amanda...!”. Escrevo pra você pensar melhor sobre o que faz com os outros e principalmente consigo mesmo. (p. 7-8)
Sua narrativa, em retrospectiva, compartilhará desde suas memórias de infância ao seu processo de transição, enfocando tanto as violências sofridas por ter fraturado a norma, quanto as suas conquistas pessoais, apesar do cistema. Como uma comunicadora-cidadã, estrategicamente, Amanda Guimarães também usa o espaço autobiográfico para informar sobre direitos conquistados pela comunidade (uso do nome social e a garantia do processo transexualizador pelo SUS) e denunciar a violação de muitos outros, dentre eles o da intimidade, como tenho discutido. A violação do seu direito à intimidade, ao fim e ao cabo, motivou-a a expor a sua história nas redes sociais e escrever a sua autobiografia, contribuindo para desnudar a banalização da transfobia em nossa sociedade.
Posso dizer que sofri piadinhas durante toda minha vida – e para falar a verdade ainda sofro com elas. Recebo diariamente xingamentos como trap, cilada, traveco, armadilha, homem capado, mulher kinder ovo, etc. Além disso, algumas pessoas me chamam de abominação (usando Deus como escudo), outras me mandam mensagens desejando que eu queime no inferno, chego a me sentir o anticristo! (p. 83)
Como a autora sintetiza no trecho acima, a violação que sofre é muito cruel, pois capaz de afetar o seu autorreconhecimento como humana. Para demonstrar essa violência contra si, usa a expressão máxima disso: “chego a me sentir anticristo”. No entanto, rebeldemente, ao publicitar a sua história de vida simultaneamente confirma sua existência como digna de reconhecimento; garante como parte dessa agenda de luta o direito à intimidade, estruturador de sua escrita.
87 Uso a expressão cunhada por Alberto Dines (2007) para qualificar como relevante o trabalho de comunicação desenvolvido por Amanda Guimarães, pois, pioneiramente, usou o seu canal para democratizar informações sobre transexualidade e os desafios dessa vivência numa sociedade transfóbica, portanto, de relevância para a sociedade.