Jô Lessa, ao publicar a sua história de vida em 2014, o faz confirmando o quanto a invisibilização da transmasculinidade como uma identidade possível o impediu de existir como uma pessoa até os 45 anos de idade, comprometendo o seu reconhecimento enquanto sujeito com direito a uma existência nomeável como todo e qualquer cidadão, bem como fazer parte de uma comunidade:
Eu sou alguém que aos 45 anos de idade se viu diante de várias indagações, talvez nunca antes pensadas ou que já tivessem passado pela minha cabeça, porém, por achar as respostas tão malucas, tão fora de propósito calei aquela voz que gritava dentro do meu corpo. (LESSA, 2014, p. 101)
“Desconhecimento identitário”, como destaca Guilherme Almeida (2012), que vem sendo garantido por um processo de invisibilização duplo: o primeiro porque a sociedade ainda não considera a possibilidade de transição do gênero feminino ao masculino (o que se explica, em grande medida, em razão do olhar falocêntrico que impregna as representações
sobre a experiência masculina) e o segundo, devido ao anonimato daqueles que garantem a “passabilidade”85 no trânsito de gênero, pois
Essa invisibilidade adquirida com frequência a duras penas significa para a maior parte um agradável momento de trégua na estressante e contínua batalha por respeito à identidade/expressão de gênero (ALMEIDA, 2012, p. 519).
Porém, é exatamente neste contexto que a obra de Lessa (2014) irrompe como um testemunho emblemático, pois não só nasce a partir do encontro com a enunciação de um outro homem trans, João W. Nery, comprovando os efeitos de sua invisibilização, quanto contribui para a sua visibilização na contemporaneidade:
Até que em uma noite, de 06 de agosto de 2013 se deparou com outro alguém que contou a sua trajetória sem nunca ter feito parte da mesma viagem e entendeu que todos nós, fazemos na realidade, as suas viagens solitárias e os encontros das histórias dessas viagens podem mudar a trajetória dali em diante e o ponto de chegada. (LESSA, 2014, p. 101)
Importante destacar que esse encontro fora viabilizado, como registra o autor, pelo Grupo Humanos de Maricá, vinculado à Secretaria de Direitos Humanos do Estado do Rio de Janeiro, que em 2013 promoveu, na cidade de Maricá, uma agenda de atividades formativas com a temática LGBT. Portanto, uma ação determinante para que Jô Lessa pudesse acessar respostas para suas indagações, as quais, ao longo de sua vida, foram qualificadas como “tão malucas” e “tão fora de propósito”.
A agenda formativa viabilizada pela ação do Estado, o qual numa democracia deve promover por meio de políticas públicas programas, projetos e ações voltadas para grupos minorizados, foi um meio estruturante de conscientização de Lessa acerca dos direitos que possuía, bem como de promoção do respeito às múltiplas formas de existir (MELLO et al., 2012).
Como testemunha o autor, até ele se deparar com Nery, vivia a vida como uma luta que travava todos os dias. Uma luta que só ele se feria, só ele se refugiava, só ele morria. Conforme qualifica, conhecer alguém que também dizia de si mesmo lhe permitiu nascer, “Talvez tenha sido o segundo momento mais importante da minha vida, esse era o meu nascimento. Naquele dia entrei naquela palestra de um jeito e saí completamente diferente, saí revirado, saí mesmo do avesso” (p. 104). Ao ouvir o autor de VS, Jô Lessa se depara com um
85 As expressões “passar por”, “passabilidade”, “passável” têm sido manejadas para “qualificar” as performances de gênero em nossa sociedade, recaindo também sobre as pessoas cisgêneras. Nas palavras de Karla Bessa (2017): “A desconfiança acerca do gênero de alguém é justamente um sintoma de que a passabilidade não é automática, é um aprendizado para ambas, quem passa e quem o/a reconhece. É uma relação histórica que nos permite entrever as inseguranças e os desafios de quem dispõe a viver numa condição desviante das normas hegemônicas de gênero e sexualidade.” (p. 13)
semelhante e naquele momento se sente parte integrante de algo que até então não sabia existir:
Ouvi cada palavra dita por aquele homem que lutou sozinho em uma época que não poderia ser de outra maneira e fui pouco a pouco me reconhecendo, parecia que ele falava de mim, do que eu sentia, da luta que eu travava todos os dias dentro de mim e nessa luta tanto fazia ganhar ou perder, de qualquer maneira só eu me feria, só eu me refugiava, só eu morria para nascer de novo todos os dias. (p. 104)
Ao descrever o efeito dessa palestra em sua vida, o autor tanto evidencia a sua emoção em descobrir uma identidade para si, quanto em não se saber só, aspecto abordado nesta tese como um direito reivindicado:
No final, perguntaram se alguém queria falar alguma coisa [...]: “– Vai fala, você tem tanto para falar.” Mas eu não conseguia, estava muito emocionado, me faltavam palavras e sobravam lágrimas, mas tirei forças nem sei de onde, tomei coragem e peguei o microfone. Fiquei de pé e só me lembro de ter agradecido o João por sua coragem, por não ter desistido de si mesmo e de hoje, naquela sala, ter me contado a sua história fazendo com que eu me reconhecesse nela (p. 104).
O encontro com um semelhante fez com que Lessa “se reconectasse” consigo mesmo, como me ajuda a identificar Zinnia Jones (2017), pois, conforme discute esta ativista, trata-se de um sentimento que ultrapassa o possível conforto permitido pela transição de gênero. Nesse sentido, quando nos deparamos, ainda na contemporaneidade, com narrativas como a de Lessa, deparamo-nos igualmente com a denúncia de violação do princípio da dignidade humana, uma vez que se sentir conectado atinge a percepção que as pessoas têm de si mesmas bem com a relação com o mundo, garantindo-lhes, portanto, o autorreconhecimento como humanos. Esse princípio é determinante para o direito à vida, à saúde, já que o não se sentir conectado consigo mesmo, o não se saber parte de uma comunidade tem produzido severos sofrimentos a essas pessoas, consoante demonstra Lessa (2014) e discute Jones (2017).
Interessante notar que, até a palestra proferida por Nery, Lessa, conforme narra, não havia lido a sua obra, o que fará logo em seguida. Uma leitura que o impactará profundamente, pois confirmará que a sua vida, como a de João Nery, também é digna de viver: “Até então, esse sonho parecia utópico demais, algo que jamais alcançaria, mas agora começava a ter contornos sólidos e eu já começava a planejar como fazer a cirurgia necessária” (LESSA, 2014, p. 107). Esse encontro permitiu-lhe sentir parte de uma comunidade: “Comecei a procurar reportagens a respeito e a interagir com outros transhomens (essa é a definição pela qual nos reconhecemos) o que foi ótimo para me aproximar ainda mais de mim mesmo” (p. 107). Isso foi determinante no seu processo de conexão. Como sublinha Collins (2019), discutindo a importância e a potência das narrativas
de mulheres negras, ninguém tratará das dores e feridas, tampouco dos sonhos e desejos dos grupos subalternizados a não ser eles mesmos.