século XVI. tendo o hospital de Lisboa provavelmente sido o modelo
conhecidos 56. Pelo que estes exemplares do Hospital de Todos-os
Santos, sem dúvida
pertencentes
à fasejoanina
das obras,ganham
súbita
importância,
maior ainda do que a intuída por Raul Lino.Como
explicar
o seuaparecimento?
Desde aconquista
de Pisa porFlorença,
em1406,
que a esculturapisana
entrara emdecadência,
ao contrário dapintura
onde ainda brilhou um Álvaro Pires de Évora.Como
principal porto
florentino. Pisa tinha umapróspera
colónia detraficantes e feitores
portugueses ( cujas
actividades conheceremos melhorquando
forpublicada
acorrespondência
do Abade D. Gomes.um de seus
principais intermediários)
com interesses artísticos bem56 P.
Sampaolesi,
/.' Duomo di Pisa e /' architettura românica toscana delleorigini. Pisa. 1975:
"
Un tale
capi.ello
non mi pare che si ritrova altrove perquanto io ne so, né in questo tempo né
dopo.
Esso resta caratteristica deli'area di influenza deli' architetturapi.>ana, perche
è presente da Pistoia a Siena. aMassa Marittima. eec. La sua forrnazione è incerta,
perche
modelli antichi nonse ne conoscono" (p. 247-8: cfr. uv. LXXXIV, b.d.).
documentados, que decerto estenderam-se à
segunda
metade doséculo.
Seria
então que essecapiteis
- osoriginais
românicos ou. maisprovavelmente, cópias
tardias - devem terchegado
aLisboa,
trazidospelas
naves que mantinham o tráfico corrente entre osdois portos,
assim como umtipo
de bases com enrolamento muitoprotuberante
nos
ângulos
( como uma folhalarga
eponteaguda cobrindo
umabola,
resolvida em voluta
) igualmente característico
do Românicopisano.
que
acompanha alguns daqueles capiteis.
Talvez a razão para esta estranha
importação
de peçasque
remetem a um revivalismo neo-românico em
pleno Quattrocento pisano
57 resida noglorioso passado
marítimo dessarepública
toscana, que
orgulhava-se
de suaparticipação
oficial naconquista
deJerusalém em
1098:
a "cruzadapisana". pela qual
controlara de factoo comércio com o
Oriente
através de seubispo Daimberto,
oprimeiro patriarca
de Jerusalém5S.
Essesvestígios supostamente
trazidos daCidade
Santa foram mostrados ao Conde de Ourémquando
da suavisita à
Toscânia,
como colunas, bronzes, mármores e oCampo
Santocom sua terra
sagrada:
o mitohierosolimitano
de Pisa estava então noauge. e seria tanto mais ncbilitante ( e lucrativo )
quanto
"vendido" a umapotência
marítimaestrangeira
também elaempenhada
numaNo entanto nâo referenciado
pelos
estudiosos locais, que sublinham o"modesto profilo" da artepisana
de cerca 1430: cfr. R. P. Ciardi. "IIQuattrocento'.
Scultura a Pisa tra Quattro e Seicento, Pisa, 1978, p. 13. Tratar-se-á,pois,
de um fenómeno destinado exclusivamente á .'xportação.58 R. Grosset, Histoire des Croisades et du Royaume Franc de Jerusalém, I, Paris.
1934, pp. 189.
Segundo
A. Main (/ Pisani alia Prima Crociata, Livorno. 1891). daí vieram numerosasrelíquias,
corno o Santo Sudário de Turim, a lança quetrespassou Cristo dada ao conde Raimundo de Tolosa. etc. A captura de obras de
arte é mencionada a
propósito
do saque a Maiorca em 1113 (C. Carlisse,pref.
aLíber Maiolichinus, Instituto Storico Italiano, Roma. 1904. p, 131). mas não de Jerusalém.
4 1
nova cruzada...
Parece, pois. lógico
que a vinda dessas exóticasrelíquias
da idade áurea dopoderio pisano
tenha a ver com oempenho ideológico
porparte
dePortugal
de fazer renascer essepassado,
numpré-Renascimento românico
mais que romano. Tendoem conta que não há edifício medieval mais evocador de
Jerusalém
do que oBaptistério
de Pisa(1153), réplica
fiel da Anástasis ouSanto
Sepulcro 59,
somos tentados a lembrar o forteparalelo
doHospital
de Lisboa com oTemplo
de Jerusalém com que ocapelão
Pe.Monçón
encerra o seu tratado sobre os deveres do reiportuguês.
Mas. no estado actual dos nossos conhecimentos, não ousamos
afirmar que a
circunstância
de um delesincorporar despojos
decorativos
supostamente provenientes
do outro obedecesse aalgum tipo
de intencionalidade :pode
tratar-se desimples
coincidência.Um emblema político: Santa Maria do Pópulo
Menos conhecido do que o
Hospital
de Todos-os-Santos é o das Caldas da Rainha, ou Caídas de Óbidos,criação assistencial da
rainhaD.
Leonor na nova vila aí fundada por D. João II em1488
60. O quehoje
aí vemos é. na sua maior parte, umareconstrução
de 1747-5159 R. Krautheimer. Studies in
Early
Christian, Medieval and Renaissance art. N.York, 1969.
p.131.
para aarquitectura,
e C. Alison Smhh.TheBaptistery of
Pisa,Univ. New York Ph.D. . Ann Arbor, 1975, para a decoração
esculpida.
60 Carta
régia
deprivilégio
a 30 moradores que viessem povoar a villa das Caldas da rainha D. Leonor:Beja.
4 ue Dezembro de 1488 (J. Veríssimo Serrão,Itinerários de D. João II, I. 1975, p. 307. Ta! como no caso de Viia Nova de
Milfontes (fund.1436), a instauração do couto deve ter sido imediata à criação da
vila. A data de 1485 que é comum referir, é mera conjectura do cronista
seiscentista Frei Jorsje de São Paulo, O
Hospital
das Caldas da Rainha até ao anode 1656. I. 1967, p.
*95.
levada a cabo por uma
equipa dirigida
por Manuel daMaia
queintegrava Eugénio
dosSantos. Carlos Mardel,
EliasPoppe,
etc.6I.
Apenas
aigreja
é aprimitiva.
Elafoi
fundada por volta de1490.
junto
com oHospital
de que era acapela, servindo
para administraros sacramentos aos doentes e aos moradores da nova vila. Já estaria
em conclusão em
1496,
ao receber esseprivilégio papal
eindulgências
aos que a visitassem e contribuíssem ad dictamcapellam
beate Maria dePopulo 62, pois. segundo
ainscrição gótica
que se
lê
sobre aporta
da sacristia. Esracapella
mãdoufazer
amuyto
alta heescrarecida he
enlustrisima Rainha DonaLianor
molher do muitoalto
hepotentisimo
Rei dom Joham hosegundo
e seaquabou
na era de miil b ( =1500). Na festa
doCorpo
deDeus,
a 6de Junho de
1504.
aírepresentou
Gil Vicente uma de suasprimeiras
obras, o "Auto de São
Martinho",
no que seriam talvez as cerimóniasinaugurais
na presença da Rainha : e em1508
as obras eram ditasjá de todo
bem acabadas . 63É
umaigreja humilde,
em que o elemento de maiordestaque
é atorre, talvez
ligeiramente posterior 64.
que lembra mais asbellfries
61
Arquivo
do Hospital Termal das Caldas da Rainha (=AHTCR), pastas tf 8 e 9. Aspaginas seguintes
apresentam os resultados de umainvestigação
inédita a que aíprocedemos
no Verão de 1985. apedido
daFundação
C. Gulbenkian.62
Súplica
da Rainha D. Leonor e bulas doPapa
Alexandre VI. 3 e 10 deSetembro de 1496 e 1 de Junho de 1497: A. D. de Sousa Costa,
"Hospitais
eAlbergarias
na documentaçãopontifícia
dasegunda
metado do século XV". in APobreza e a Assistência aos Pobres na Península Ibérica durante a Idade Média.
Lisboa, 1973, I, pp. 280-282.
63
Doação perpétua
das rendas da vilas de Óbidos e AldeiaGalega
da iMerceana aoHospital
das Caldas por D. Leonor, a 1 1 de Dezembro de 1508 : transcr. in A. da Silva Carvalho. Memórias das Caldas da Rainha (14S4-ISS4). Lisboa, 1933, Doe.B, pp. 300-303.
64 Sobre esta torre veja-se o
artigo
de J.Segurado, "Boytac
e aCapela
de NossaSenhora do
PópuloS
Belas-Artes, Revista e Boletim da Academia Nacional de Belas-Artes , 2S Série, n* 31, Lisboa, 1977, pp. 15-18. e amonografia
de J. C.inglesas
do Góticoperpendicular
do que oscampanários manuelinos.
A
decoração
do pequeno edifício concentra-se no interior : no arcotriunfal, cujo traçado
imita uma cortinaarregaçada
egalões
de sedade
paramentos;
e nasabóbadas,
sendo a da nave maisfrágil
e a dacapela-mor mais trabalhada,
com nervuras curvilíneas(
a lembrar as daIgreja de Jesus
em Setúbal ) quesofrem
uma subtil torsão sobre sipróprias. Esse
movimento ondulante, alémde
constituirexibição
devirtuosismo técnico, introduz um sopro de vida natural que anima também a encantadora
portinha
dasacristia
com a suadecoração
simétrica de
jarras
e filactéria com ainscrição
fundacional 6:> . Há aíum mal contido
desejo
de pompa, em que sob a capatardo-gótica,
muito
refinada, irrompem lembranças mudéjares associadas
amodelos decorativos da Itália, senão à
sedução
exótica de bordados orientais.Este estilo sugere-nos um nome.
já avançado
com certeiraintuição
por
Reynaldo
dos Santos 66 , mas quepodemos
agora escrever comsegurança : o de Mateus
Fernandes,
mestre das obras do Mosteiro da Batalha.Tivemos,
comefeito,
afortuna
de encontrar uma nota do pagamentofeito
em 1521 a seu filho homónimopela empreitada
deuma varanda
junto
aohospital,
obra apenasjustificada
se viesse naVieira da Silva. A
Igreja
de Nossa Senhora doPópulo
das Caldas da Rainha . Caldas da Rainha, 1985.65 As
jarras
com lírios aludem àAnunciação,
festa natalícia de D. Leonor eorago do convento fundado por seus
pais
emBeja
; e os"pergaminhos"
sobre aporta parecem ser timbre de instituições assistenciais de iniciativa oficial,
pois
repetem-se nos
portais
doHospital
de Todos-os-Santos, doHospital
de S. Lázaroem Coimbra e da
Igreja
daGolegã
(onde existiu umaalbergaria).
66 Em 1952
punha hipótese
de"algum
mestre trazido por D. Lenor deBeja"
(Oestilo Manuelino, p. 21), mas em 1959 sugere Mateus Fernandes
(Colóquio,
cit.,p. 4).
sequência
de outrasde maior porte 67. Sabido que
MateusFernandes
II( 1516-1528 )
foi essencialmente um continuadordas
obras dopai.
é a Mateus
Fernandes
I(
act.1480-15 15)
que.logicamente,
devemosatribuir a
construção
eprojecto
daigreja
ehospital
dasCaldas.
Obscurecido
pela fortuna historiográfica
deBoytac,
não lhe temsido reconhecido o
lugar
que merece deprincipal artífice
doGótico
Final
português.
O elevado estatuto deque
gozava mede-se bempelo
seu túmulo, colocado no
lugar
de maior relevo à entrada daigreja do
Mosteiro da
Batalha, afirmando
a sua concordância com opensamento religioso
da"Devotio
moderna" de D. Leonor(para
quem trabalhou durante mais de duasdécadas)
naslegendas
em versosobrepostas
a duas caveiras :Vos
homes que pasaes a DsSor
nosrogay . e Nã deixeis de bem
fazer
por que asi avesde
ser, que aliás lembram deperto
os da campasepulcral
de GilVicente,
a quealudiremos.
Com ele
jaz
suamulher,
IsabelGuilhelme. filha
doMestre
Guilhelme.
isto é.Willelm (
nomeaparentemente inglês )
que foi omestre de obras no mosteiro entre 1477 e
1480.
embora aí trabalhando deste muito antes : decerto um último avatar da escolaao modo de
Inglaterra
deHuguet.
quepode explicar
aausência
de67 AHTCR. Pasta n2 1 ."Livro de Receitas e
Despesas.
1520-1521", fl. 356 v:Pagou
doam de
Coja allmoxarife
desteespritall
per hum rnandado doprovedor
a MestreMateus da
enpreitada
que tomou a rainha nossa Senhora perafazer
dabobadaha baranda da
Rouparja
oytentamjll
reais os quaes entregou (a)Alej.xo
enrjqez seu
jrmão
aosxxbiij djas
de agosto de 1521. (Tínhamos este dado inéditoe
fotografia
do documento, bem como de outros dois quereputávamos
mais interessantes, entregues a umatipografia
local paraimpressão
do falhado catálogo,quando
vimos, com pasmo, esses três elementos e as fotos serempublicados
pelo Dr. João Saavedra Machado na introdução de um seu volumesobre
azulejaria
setecentista nas Caidas.Aqui
fica feito o reparo, sem comentários.)Mateus Fernandes entre 1480 e
1490. Nascido pelo
meadodo século,
ele
pode
terviajado
entãopela Europa
do Norte,pois
tinha filhascasadoiras
em1497,
uma dasquais devia
ser a IsabelHenriques (fal.1522)
que casaria com MestreBoytac.
Este aparecedocumentado
pela primeira
vez em1498 precisamente
a receber uma tença de D,Manuel na
condição
de efectuar esse casamento :assim, tornar-se-ia
sucessor e genro de Mateus Fernandes. Esta
ligação
iluminaaspectos
da
relação
entre ambos e dasdiferentes
tendênciasestilísticas
que têm constituídoespinhoso problema
para ahistoriografia 68.
masque
interessamessencialmente
àsorigens
do manuelino, de queaqui
nãonos
ocupamos.
Tendo na
prossecução
das"Capelas Imperfeitas"
da Batalha a obrade sua
vida, cujo
feéricopórtico
monumental( 1509 ) leva
aoparoxismo
ogosto tardo-gótico internacionalista,
deinspiração
inslesa
como viu bem Chico, num tour deforce
a que não será estranho o desafioconstituído
por umaproposta renascentista
simultânea para o túmulo de D. João II69.
aatribuição
aoarquitecto
favorito da Rainha D. Leonor do
complexo
monumental das Caldasemerge como um elo de uma cadeia evolutiva, o que torna mais
68 Cfr. R. dos Samos. O Estilo Manuelino cit..
p.26.
e S. Vhahy.Dicionário. I, p.26. onde se encontra o essencial da documentação em que
aqui
nos baseamos.69 Sobre esse
projecto
ver o que escrevemos nocatálogo
da XVII*Exp.
doConselho da
Europa
Os DescobrimentosPortugueses
e aEuropa
doRenascimento, Arte Antiga I : As Descobertas e o Renascimento, formas de coincidência e de cultura (Lisboa, 1983), pp. 309-32! e Est. à p. 94. No vestíbulo das
Capelas Imperfeitas,
a marca de D. Leonor é patente na sugestão depolifonia
musical (arepetição,
como se num coro. dosegundo
verso da divisa deD. Duarte "Léauté ferai tant
je
serai" - era que, alia», os "erros" dagrafia
francesa de tá ya serey têm dado azo aos maiores
disparates
- e do finalEy
noescudo das
sobreporias);
e no toque de humildade dadopelos pequeninos
caracóis lavrados sob o imenso
portal, iguais
aos que ornam a base da custódiaentretanto feita por seu ourives Gil Vicente para o Mosteiro de Belém.
atraente o seu estudo. Ao contrário do
Hospital
deLisboa,
o dasCaldas apresenta ainda de pé
estruturas que constituem um indícioprecioso
para o conhecimento dasintenções
e da culturaarquitectónica
dotempo
de D. JoãoII.
Se
somente um autorabalançou-se
até agora a procurar estabelecer o seuaspecto originário,
para concluir com candura que ele "era bastantecomplicado" 70.
tentemos balisar aslinhas gerais
dasua
evolução
para deixar aparecer, como resíduo, o núcleo incial. Comefeito,
ocomplexo hospitalar
descrito em 1656pelo provedor
PadreJorge
de S.Paulo
era o resultado daacumulação
de uma série decampanhas
deampliação,
levadas a cabo na sua maiorparte
de1575
a
1590 pelo pedreiro Diogo
Vaz . queobrigaram
àredecoração
interior maneirista
pelo pintor
local Belchior de Matos(1595-1628).
A
planta
da vila em 1742(Biblioteca
Nacional deLisboa)
e umaperspectiva
de1747 (Arquivo
doHospital)
-aparentemente
os únicos desenhos que se conservaram, dos muitos que devem terexistido
- apresentam, alémdisso, algumas modificações
ulteriores ;mas nem as
condições topográficas,
nem as directrizes daconstrução,
parecem ter sido substancialmente alteradas, tratando-se de obras
pontuais. Seguindo
essas linhas,poderemos
ler sob os sucessivosestratos do
hospital primitivo, captando
a ideiasurpreendentemente
lógica
eregular
doprojecto
deorigem.
A
intervenção
de mestre Mateus Fernandes terá essencialmente consistido emorganizar
os elementospreexistentes,
aspiscinas
balneares por onde se faz a
captação
daságuas
sulfúreas - a70 F. Silva Correia, lim balneário português no
fim
do século XV Caldas daRainha ), Coimbra, 1928,
p.7.
4 7
reservada
às mulheres ao norte (como aindahoje),
e ao sul as doshomens e doentes da
pele.
Elasderivam
datipologia antiga
dotanque
em
cripta
abobadada comrespiradouro
central, como se vê emalguns
banhos romanos
(Lugo, Alange)
e na "Piscina de D. AfonsoHenriques"
em São Pedro do Sul. que D. Leonor certamente visitou no Outono de 1483 ao
viajar
de Viseu para o Porto. Aconstrução
dacapela
dohospital,
dedicada aNossa
Senhora doPópulo.
deve ter sidoacompanhado
do funcionamento imediato de instalações e doinício
doHospital
definitivo,que
levaria três décadas aconcluir-se
até serentregue
àadministração
dospadres
Lóios em1532.
Entre os dois balneários,
prolongando
a actualigreja.
MateusFernandes colocou uma zona de
ligação
como umagrande
navecentral, que ainda
hoje
continua a ser o eixo de todo o esquema. Acabeceira
ficou
acapela,
não por acaso o único segmento que seconservou intacto. No extremo
oposto,
uma salaquadrada
e alta aservir de acesso ao
Hospital,
a copa. era umaespécie
de átriopúblico
rodeado de bancos. Ao
longo
dessaespinha
dorsal alinhavam-separalelamente
a Enfermaria dos Homens à mão direita e a dasMulheres à
esquerda,
abrindo porportais
depedra
para osrespectivos
banhos, com a portaprincipal
voltada à copa e outra aofundo subindo por
alguns degraus
ao recinto fechado de onde osdoentes
podiam acompanhar
os ofícios divinos. A nível mais baixoque o do soio, esses dormitórios eram iluminados por clarabóias
junto
ao tecto e tinham
capacidade
para20
leitos cada um,dispostos
aolongo
dasparedes
sobre estradosseparados
portabiques.
numconjunto
em madeira feito antes de1518
(ano em que adocumentação
conservada seinicia) pelo carpinteiro
Pêro Anes que aseguir
faria os leitos da Casa dosConvalescentes,
decerto o mesmoque viria
a ser "mestre dasobras
decarpintaria
dos paços deCoimbra"
e sogro de João de Ruão eCristóvão de Figueiredo.
71Perpendicularmente,
corria alonga
fachada doHospital
: Humafermoza
varandaprincipiada
naEnfermaria
de SamPedro (no ângulo NO)
e se remata na dosReligiosos
como de Norte aSul
,omando-se pera a parte da praça com
quatro janellas rasgadas
comode paço Real
72. Dessas janelas
manuelinas earcarias
nada resta ;mas o desenho de 1747 e
alguns
documentos são concordes emmostrar que havia 5 arcos a cada lado da "varanda da
copa",
por detrás dosquais
alinhavam-sedependências
utilitárias e6 aposentos
para nobres,repetindo-se
no andar alto a mesmaconfiguração.
Entre os
braços
desseT.
em torno dospátios
dos banhos.distribuíam-se outras áreas de
serviço,
como acozinha,
armazéns,casa do
pão
edispensa
onde se cortava a carne de carneiro para os doentes. Não sechegou, porém,
a realizarintegralmente
oprojecto
inicial :
segundo
oCompromisso
concedido em1512 pela fundadora,
devia
haver
um total de 100 camas - sendo60
para doentespobres.
20 para
religiosos
e 20 paranobres,
distribuindo-se em dois terços entre homens e mulheres - de que apenas60'^
foi efectivamente executado. Diante darigorosa distribuição
destes números e de suatransposição
para o espaço edificado - face visível dominucioso
modeloorganizacional,
quaseutópico,
exposto noCompromisso
- nãopodem
restar dúvidas quanto aoespírito
sistemático eracional,
tão71 Para as referências documentais, extraídas do AHTCR e
Arquivo
Distrital deLeiria,
veja-se
R. Moreira, "Nossa Senhora doPópulo
e Santa Maria deiPopolo"
ia
publicar).
/2
Jorge
de Sáo Paulo. ob. cit., I, p. 181.distante da
irregularidade
doshospitais
medievaisagrupados
emtorno de um
pátio,
quepresidiu
à estruturapensada
por MateusFernandes.
Apenas
o acesso àigreja pelo exterior, obrigando
a umalonga circulação
paraatingi-la (
que oprovedor
diariamentepercorria ).
trai a inabilidade doarquitecto
manuelino em conciliar osespaços uniformes com a
necessidade prática
de articulá-los,pecha
comum à
arquitectura quinhentista portuguesa
que João de Castilhoresolveria modelarmente no Convento de Cristo em Tomar.
A volumetria de escala
não-monumental.
quasepopular,
doHospital,
a emblemáticarégia
da torre e doportal,
e aprópria implantação
naregião
de Óbidos, não são dadosdesprovidos
designificado. Vivia-se
em1488
um momento deeuforia
deafirmação
do
poder
real.Esmagada
aconjura
dos nobres e solucionado o conflito com aIgreja 73.
D. João IIassumira
o título de Senhor daGuiné
ereformava
aorganização
heráldica do Reino, ao mesmotempo que
garantia
para futuropróximo
o seu acesso directo à índia.Interessar-lhe-ia, assim,
demonstrar acapacidade
realizadora do seu programa de estado através de um acto decolonização
capaz de promover economicamente as terrasrégias
do centro dopaís
emdetrimento dos senhorios locais
(
como o vizinhopotentado
doMosteiro de
Alcobaça ).
reeditando para uso interno o êxito obtidocom a
fundação
do castelo de SãoJorge
da Mina(1482)
na costaafricana.
Operação
depropaganda política portanto,
oHospital
73 Cfr. J. D. Vicente. "D. João II e o
Beneplácito Régio
emPortugal",
liine rarium. 85-87, Braga, 1974-75 : Ao contrário do que se tem unanimemente afirmado, ele (Cardeal
Alpedrinha)
foi nos doisprimeiros
anos de governo de D. João IIum seu precioso auxiliar em Roma"
(p.7
da separata). Para essaconjuntura
ainda é útil A. Fontoura da Costa. As portas da índia em 1484 . Lisboa. 1935.
constituía na sua
reordenação
dahierarquia
social como que uma pequenautopia urbana,
microcosmoemblemático
da naturezacontratual e
paternalista
da novamonarquia portuguesa.
O
queimporta, sobretudo,
verificar é o modo como essaintenção ideológica
se reflecte naorganização
concreta dos espaços. Aplanta copia,
comligeiras alterações,
a doHospital do
SantoSpirito
inSassia
em
Roma,
o mais moderno nogénero
doshospitais cruciformes.
realizado
pelo engenheiro
florentino Baccio Pontelli(1473-76
) sob iniciativapapal.
Aplanta
emT.
com as duas alas da fachada e a axial centradas numportal
- emque.
aocontrário
dasCaldas,
acapela fica
à entrada -
apresenta semelhanças flagrantes. Houve,
semdúvida.
desenhos e
instruções
vindo deRoma.
eaqui
cuidadosamente estudados. Outro traço revelador de umdesejo
deadaptação
da maisrecente cultura
arquitectónica
e urbanísticaitaliana,
é a abertura doconjunto
ao exterior.Ao
lotetrapezoidal ocupado pela
áreaconstruída
correspondia
otrapézio
invertido da praça davila,
comseu chafariz e
pelourinho,
em que desembocava a meio a estrada de Lisboa. APraça
- como em Pienza - abria-seassim,
perspecticamente,
para afrontaria,
dominada ao centropelo grande portal
da copa, a ser lavrado em 1532 por 5pedreiros
de Lisboaainda em estilo manuelino.
Segundo
adescrição
de FreiJorge
de S.Paulo
(I. 186)
eraprecedido
por umagalilé
entre contrafortes econstava de um arco
conopial
terminando numagrande
esferaarmilar ladeada
pelos
camaroeiros de D.Leonor,
e tendo nasombreiras, sob ricos