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Pelo que estes exemplares do Hospital de Todos-os

século XVI. tendo o hospital de Lisboa provavelmente sido o modelo

conhecidos 56. Pelo que estes exemplares do Hospital de Todos-os

Santos, sem dúvida

pertencentes

à fase

joanina

das obras,

ganham

súbita

importância,

maior ainda do que a intuída por Raul Lino.

Como

explicar

o seu

aparecimento?

Desde a

conquista

de Pisa por

Florença,

em

1406,

que a escultura

pisana

entrara em

decadência,

ao contrário da

pintura

onde ainda brilhou um Álvaro Pires de Évora.

Como

principal porto

florentino. Pisa tinha uma

próspera

colónia de

traficantes e feitores

portugueses ( cujas

actividades conheceremos melhor

quando

for

publicada

a

correspondência

do Abade D. Gomes.

um de seus

principais intermediários)

com interesses artísticos bem

56 P.

Sampaolesi,

/.' Duomo di Pisa e /' architettura românica toscana delle

origini. Pisa. 1975:

"

Un tale

capi.ello

non mi pare che si ritrova altrove per

quanto io ne so, né in questo tempo né

dopo.

Esso resta caratteristica deli'area di influenza deli' architettura

pi.>ana, perche

è presente da Pistoia a Siena. a

Massa Marittima. eec. La sua forrnazione è incerta,

perche

modelli antichi non

se ne conoscono" (p. 247-8: cfr. uv. LXXXIV, b.d.).

documentados, que decerto estenderam-se à

segunda

metade do

século.

Seria

então que esse

capiteis

- os

originais

românicos ou. mais

provavelmente, cópias

tardias - devem ter

chegado

a

Lisboa,

trazidos

pelas

naves que mantinham o tráfico corrente entre os

dois portos,

assim como um

tipo

de bases com enrolamento muito

protuberante

nos

ângulos

( como uma folha

larga

e

ponteaguda cobrindo

uma

bola,

resolvida em voluta

) igualmente característico

do Românico

pisano.

que

acompanha alguns daqueles capiteis.

Talvez a razão para esta estranha

importação

de peças

que

remetem a um revivalismo neo-românico em

pleno Quattrocento pisano

57 resida no

glorioso passado

marítimo dessa

república

toscana, que

orgulhava-se

de sua

participação

oficial na

conquista

de

Jerusalém em

1098:

a "cruzada

pisana". pela qual

controlara de facto

o comércio com o

Oriente

através de seu

bispo Daimberto,

o

primeiro patriarca

de Jerusalém

5S.

Esses

vestígios supostamente

trazidos da

Cidade

Santa foram mostrados ao Conde de Ourém

quando

da sua

visita à

Toscânia,

como colunas, bronzes, mármores e o

Campo

Santo

com sua terra

sagrada:

o mito

hierosolimitano

de Pisa estava então no

auge. e seria tanto mais ncbilitante ( e lucrativo )

quanto

"vendido" a uma

potência

marítima

estrangeira

também ela

empenhada

numa

No entanto nâo referenciado

pelos

estudiosos locais, que sublinham o"modesto profilo" da arte

pisana

de cerca 1430: cfr. R. P. Ciardi. "II

Quattrocento'.

Scultura a Pisa tra Quattro e Seicento, Pisa, 1978, p. 13. Tratar-se-á,

pois,

de um fenómeno destinado exclusivamente á .'xportação.

58 R. Grosset, Histoire des Croisades et du Royaume Franc de Jerusalém, I, Paris.

1934, pp. 189.

Segundo

A. Main (/ Pisani alia Prima Crociata, Livorno. 1891). daí vieram numerosas

relíquias,

corno o Santo Sudário de Turim, a lança que

trespassou Cristo dada ao conde Raimundo de Tolosa. etc. A captura de obras de

arte é mencionada a

propósito

do saque a Maiorca em 1113 (C. Carlisse,

pref.

a

Líber Maiolichinus, Instituto Storico Italiano, Roma. 1904. p, 131). mas não de Jerusalém.

4 1

nova cruzada...

Parece, pois. lógico

que a vinda dessas exóticas

relíquias

da idade áurea do

poderio pisano

tenha a ver com o

empenho ideológico

por

parte

de

Portugal

de fazer renascer esse

passado,

num

pré-Renascimento românico

mais que romano. Tendo

em conta que não há edifício medieval mais evocador de

Jerusalém

do que o

Baptistério

de Pisa

(1153), réplica

fiel da Anástasis ou

Santo

Sepulcro 59,

somos tentados a lembrar o forte

paralelo

do

Hospital

de Lisboa com o

Templo

de Jerusalém com que o

capelão

Pe.

Monçón

encerra o seu tratado sobre os deveres do rei

português.

Mas. no estado actual dos nossos conhecimentos, não ousamos

afirmar que a

circunstância

de um deles

incorporar despojos

decorativos

supostamente provenientes

do outro obedecesse a

algum tipo

de intencionalidade :

pode

tratar-se de

simples

coincidência.

Um emblema político: Santa Maria do Pópulo

Menos conhecido do que o

Hospital

de Todos-os-Santos é o das Caldas da Rainha, ou Caídas de Óbidos,

criação assistencial da

rainha

D.

Leonor na nova vila aí fundada por D. João II em

1488

60. O que

hoje

vemos é. na sua maior parte, uma

reconstrução

de 1747-51

59 R. Krautheimer. Studies in

Early

Christian, Medieval and Renaissance art. N.

York, 1969.

p.131.

para a

arquitectura,

e C. Alison Smhh.The

Baptistery of

Pisa,

Univ. New York Ph.D. . Ann Arbor, 1975, para a decoração

esculpida.

60 Carta

régia

de

privilégio

a 30 moradores que viessem povoar a villa das Caldas da rainha D. Leonor:

Beja.

4 ue Dezembro de 1488 (J. Veríssimo Serrão,

Itinerários de D. João II, I. 1975, p. 307. Ta! como no caso de Viia Nova de

Milfontes (fund.1436), a instauração do couto deve ter sido imediata à criação da

vila. A data de 1485 que é comum referir, é mera conjectura do cronista

seiscentista Frei Jorsje de São Paulo, O

Hospital

das Caldas da Rainha até ao ano

de 1656. I. 1967, p.

*95.

levada a cabo por uma

equipa dirigida

por Manuel da

Maia

que

integrava Eugénio

dos

Santos. Carlos Mardel,

Elias

Poppe,

etc.

6I.

Apenas

a

igreja

é a

primitiva.

Ela

foi

fundada por volta de

1490.

junto

com o

Hospital

de que era a

capela, servindo

para administrar

os sacramentos aos doentes e aos moradores da nova vila. Já estaria

em conclusão em

1496,

ao receber esse

privilégio papal

e

indulgências

aos que a visitassem e contribuíssem ad dictam

capellam

beate Maria de

Populo 62, pois. segundo

a

inscrição gótica

que se

sobre a

porta

da sacristia. Esra

capella

mãdou

fazer

a

muyto

alta he

escrarecida he

enlustrisima Rainha Dona

Lianor

molher do muito

alto

he

potentisimo

Rei dom Joham ho

segundo

e se

aquabou

na era de miil b ( =1500

). Na festa

do

Corpo

de

Deus,

a 6

de Junho de

1504.

representou

Gil Vicente uma de suas

primeiras

obras, o "Auto de São

Martinho",

no que seriam talvez as cerimónias

inaugurais

na presença da Rainha : e em

1508

as obras eram ditas

já de todo

bem acabadas . 63

É

uma

igreja humilde,

em que o elemento de maior

destaque

é a

torre, talvez

ligeiramente posterior 64.

que lembra mais as

bellfries

61

Arquivo

do Hospital Termal das Caldas da Rainha (=AHTCR), pastas tf 8 e 9. As

paginas seguintes

apresentam os resultados de uma

investigação

inédita a que aí

procedemos

no Verão de 1985. a

pedido

da

Fundação

C. Gulbenkian.

62

Súplica

da Rainha D. Leonor e bulas do

Papa

Alexandre VI. 3 e 10 de

Setembro de 1496 e 1 de Junho de 1497: A. D. de Sousa Costa,

"Hospitais

e

Albergarias

na documentação

pontifícia

da

segunda

metado do século XV". in A

Pobreza e a Assistência aos Pobres na Península Ibérica durante a Idade Média.

Lisboa, 1973, I, pp. 280-282.

63

Doação perpétua

das rendas da vilas de Óbidos e Aldeia

Galega

da iMerceana ao

Hospital

das Caldas por D. Leonor, a 1 1 de Dezembro de 1508 : transcr. in A. da Silva Carvalho. Memórias das Caldas da Rainha (14S4-ISS4). Lisboa, 1933, Doe.

B, pp. 300-303.

64 Sobre esta torre veja-se o

artigo

de J.

Segurado, "Boytac

e a

Capela

de Nossa

Senhora do

PópuloS

Belas-Artes, Revista e Boletim da Academia Nacional de Belas-Artes , 2S Série, n* 31, Lisboa, 1977, pp. 15-18. e a

monografia

de J. C.

inglesas

do Gótico

perpendicular

do que os

campanários manuelinos.

A

decoração

do pequeno edifício concentra-se no interior : no arco

triunfal, cujo traçado

imita uma cortina

arregaçada

e

galões

de seda

de

paramentos;

e nas

abóbadas,

sendo a da nave mais

frágil

e a da

capela-mor mais trabalhada,

com nervuras curvilíneas

(

a lembrar as da

Igreja de Jesus

em Setúbal ) que

sofrem

uma subtil torsão sobre si

próprias. Esse

movimento ondulante, além

de

constituir

exibição

de

virtuosismo técnico, introduz um sopro de vida natural que anima também a encantadora

portinha

da

sacristia

com a sua

decoração

simétrica de

jarras

e filactéria com a

inscrição

fundacional 6:> . Há aí

um mal contido

desejo

de pompa, em que sob a capa

tardo-gótica,

muito

refinada, irrompem lembranças mudéjares associadas

a

modelos decorativos da Itália, senão à

sedução

exótica de bordados orientais.

Este estilo sugere-nos um nome.

avançado

com certeira

intuição

por

Reynaldo

dos Santos 66 , mas que

podemos

agora escrever com

segurança : o de Mateus

Fernandes,

mestre das obras do Mosteiro da Batalha.

Tivemos,

com

efeito,

a

fortuna

de encontrar uma nota do pagamento

feito

em 1521 a seu filho homónimo

pela empreitada

de

uma varanda

junto

ao

hospital,

obra apenas

justificada

se viesse na

Vieira da Silva. A

Igreja

de Nossa Senhora do

Pópulo

das Caldas da Rainha . Caldas da Rainha, 1985.

65 As

jarras

com lírios aludem à

Anunciação,

festa natalícia de D. Leonor e

orago do convento fundado por seus

pais

em

Beja

; e os

"pergaminhos"

sobre a

porta parecem ser timbre de instituições assistenciais de iniciativa oficial,

pois

repetem-se nos

portais

do

Hospital

de Todos-os-Santos, do

Hospital

de S. Lázaro

em Coimbra e da

Igreja

da

Golegã

(onde existiu uma

albergaria).

66 Em 1952

punha hipótese

de

"algum

mestre trazido por D. Lenor de

Beja"

(O

estilo Manuelino, p. 21), mas em 1959 sugere Mateus Fernandes

(Colóquio,

cit.,

p. 4).

sequência

de outras

de maior porte 67. Sabido que

Mateus

Fernandes

II

( 1516-1528 )

foi essencialmente um continuador

das

obras do

pai.

é a Mateus

Fernandes

I

(

act.

1480-15 15)

que.

logicamente,

devemos

atribuir a

construção

e

projecto

da

igreja

e

hospital

das

Caldas.

Obscurecido

pela fortuna historiográfica

de

Boytac,

não lhe tem

sido reconhecido o

lugar

que merece de

principal artífice

do

Gótico

Final

português.

O elevado estatuto de

que

gozava mede-se bem

pelo

seu túmulo, colocado no

lugar

de maior relevo à entrada da

igreja do

Mosteiro da

Batalha, afirmando

a sua concordância com o

pensamento religioso

da

"Devotio

moderna" de D. Leonor

(para

quem trabalhou durante mais de duas

décadas)

nas

legendas

em verso

sobrepostas

a duas caveiras :

Vos

homes que pasaes a Ds

Sor

nos

rogay . e Nã deixeis de bem

fazer

por que asi aves

de

ser, que aliás lembram de

perto

os da campa

sepulcral

de Gil

Vicente,

a que

aludiremos.

Com ele

jaz

sua

mulher,

Isabel

Guilhelme. filha

do

Mestre

Guilhelme.

isto é.

Willelm (

nome

aparentemente inglês )

que foi o

mestre de obras no mosteiro entre 1477 e

1480.

embora aí trabalhando deste muito antes : decerto um último avatar da escola

ao modo de

Inglaterra

de

Huguet.

que

pode explicar

a

ausência

de

67 AHTCR. Pasta n2 1 ."Livro de Receitas e

Despesas.

1520-1521", fl. 356 v:

Pagou

doam de

Coja allmoxarife

deste

espritall

per hum rnandado do

provedor

a Mestre

Mateus da

enpreitada

que tomou a rainha nossa Senhora pera

fazer

dabobada

ha baranda da

Rouparja

oytenta

mjll

reais os quaes entregou (a)

Alej.xo

enrjqez seu

jrmão

aos

xxbiij djas

de agosto de 1521. (Tínhamos este dado inédito

e

fotografia

do documento, bem como de outros dois que

reputávamos

mais interessantes, entregues a uma

tipografia

local para

impressão

do falhado catálogo,

quando

vimos, com pasmo, esses três elementos e as fotos serem

publicados

pelo Dr. João Saavedra Machado na introdução de um seu volume

sobre

azulejaria

setecentista nas Caidas.

Aqui

fica feito o reparo, sem comentários.)

Mateus Fernandes entre 1480 e

1490. Nascido pelo

meado

do século,

ele

pode

ter

viajado

então

pela Europa

do Norte,

pois

tinha filhas

casadoiras

em

1497,

uma das

quais devia

ser a Isabel

Henriques (fal.1522)

que casaria com Mestre

Boytac.

Este aparece

documentado

pela primeira

vez em

1498 precisamente

a receber uma tença de D,

Manuel na

condição

de efectuar esse casamento :

assim, tornar-se-ia

sucessor e genro de Mateus Fernandes. Esta

ligação

ilumina

aspectos

da

relação

entre ambos e das

diferentes

tendências

estilísticas

que têm constituído

espinhoso problema

para a

historiografia 68.

mas

que

interessam

essencialmente

às

origens

do manuelino, de que

aqui

não

nos

ocupamos.

Tendo na

prossecução

das

"Capelas Imperfeitas"

da Batalha a obra

de sua

vida, cujo

feérico

pórtico

monumental

( 1509 ) leva

ao

paroxismo

o

gosto tardo-gótico internacionalista,

de

inspiração

inslesa

como viu bem Chico, num tour de

force

a que não será estranho o desafio

constituído

por uma

proposta renascentista

simultânea para o túmulo de D. João II

69.

a

atribuição

ao

arquitecto

favorito da Rainha D. Leonor do

complexo

monumental das Caldas

emerge como um elo de uma cadeia evolutiva, o que torna mais

68 Cfr. R. dos Samos. O Estilo Manuelino cit..

p.26.

e S. Vhahy.Dicionário. I, p.

26. onde se encontra o essencial da documentação em que

aqui

nos baseamos.

69 Sobre esse

projecto

ver o que escrevemos no

catálogo

da XVII*

Exp.

do

Conselho da

Europa

Os Descobrimentos

Portugueses

e a

Europa

do

Renascimento, Arte Antiga I : As Descobertas e o Renascimento, formas de coincidência e de cultura (Lisboa, 1983), pp. 309-32! e Est. à p. 94. No vestíbulo das

Capelas Imperfeitas,

a marca de D. Leonor é patente na sugestão de

polifonia

musical (a

repetição,

como se num coro. do

segundo

verso da divisa de

D. Duarte "Léauté ferai tant

je

serai" - era que, alia», os "erros" da

grafia

francesa de ya serey têm dado azo aos maiores

disparates

- e do final

Ey

no

escudo das

sobreporias);

e no toque de humildade dado

pelos pequeninos

caracóis lavrados sob o imenso

portal, iguais

aos que ornam a base da custódia

entretanto feita por seu ourives Gil Vicente para o Mosteiro de Belém.

atraente o seu estudo. Ao contrário do

Hospital

de

Lisboa,

o das

Caldas apresenta ainda de pé

estruturas que constituem um indício

precioso

para o conhecimento das

intenções

e da cultura

arquitectónica

do

tempo

de D. João

II.

Se

somente um autor

abalançou-se

até agora a procurar estabelecer o seu

aspecto originário,

para concluir com candura que ele "era bastante

complicado" 70.

tentemos balisar as

linhas gerais

da

sua

evolução

para deixar aparecer, como resíduo, o núcleo incial. Com

efeito,

o

complexo hospitalar

descrito em 1656

pelo provedor

Padre

Jorge

de S.

Paulo

era o resultado da

acumulação

de uma série de

campanhas

de

ampliação,

levadas a cabo na sua maior

parte

de

1575

a

1590 pelo pedreiro Diogo

Vaz . que

obrigaram

à

redecoração

interior maneirista

pelo pintor

local Belchior de Matos

(1595-1628).

A

planta

da vila em 1742

(Biblioteca

Nacional de

Lisboa)

e uma

perspectiva

de

1747 (Arquivo

do

Hospital)

-

aparentemente

os únicos desenhos que se conservaram, dos muitos que devem ter

existido

- apresentam, além

disso, algumas modificações

ulteriores ;

mas nem as

condições topográficas,

nem as directrizes da

construção,

parecem ter sido substancialmente alteradas, tratando-se de obras

pontuais. Seguindo

essas linhas,

poderemos

ler sob os sucessivos

estratos do

hospital primitivo, captando

a ideia

surpreendentemente

lógica

e

regular

do

projecto

de

origem.

A

intervenção

de mestre Mateus Fernandes terá essencialmente consistido em

organizar

os elementos

preexistentes,

as

piscinas

balneares por onde se faz a

captação

das

águas

sulfúreas - a

70 F. Silva Correia, lim balneário português no

fim

do século XV Caldas da

Rainha ), Coimbra, 1928,

p.7.

4 7

reservada

às mulheres ao norte (como ainda

hoje),

e ao sul as dos

homens e doentes da

pele.

Elas

derivam

da

tipologia antiga

do

tanque

em

cripta

abobadada com

respiradouro

central, como se em

alguns

banhos romanos

(Lugo, Alange)

e na "Piscina de D. Afonso

Henriques"

em São Pedro do Sul. que D. Leonor certamente visitou no Outono de 1483 ao

viajar

de Viseu para o Porto. A

construção

da

capela

do

hospital,

dedicada a

Nossa

Senhora do

Pópulo.

deve ter sido

acompanhado

do funcionamento imediato de instalações e do

início

do

Hospital

definitivo,

que

levaria três décadas a

concluir-se

até ser

entregue

à

administração

dos

padres

Lóios em

1532.

Entre os dois balneários,

prolongando

a actual

igreja.

Mateus

Fernandes colocou uma zona de

ligação

como uma

grande

nave

central, que ainda

hoje

continua a ser o eixo de todo o esquema. A

cabeceira

ficou

a

capela,

não por acaso o único segmento que se

conservou intacto. No extremo

oposto,

uma sala

quadrada

e alta a

servir de acesso ao

Hospital,

a copa. era uma

espécie

de átrio

público

rodeado de bancos. Ao

longo

dessa

espinha

dorsal alinhavam-se

paralelamente

a Enfermaria dos Homens à mão direita e a das

Mulheres à

esquerda,

abrindo por

portais

de

pedra

para os

respectivos

banhos, com a porta

principal

voltada à copa e outra ao

fundo subindo por

alguns degraus

ao recinto fechado de onde os

doentes

podiam acompanhar

os ofícios divinos. A nível mais baixo

que o do soio, esses dormitórios eram iluminados por clarabóias

junto

ao tecto e tinham

capacidade

para

20

leitos cada um,

dispostos

ao

longo

das

paredes

sobre estrados

separados

por

tabiques.

num

conjunto

em madeira feito antes de

1518

(ano em que a

documentação

conservada se

inicia) pelo carpinteiro

Pêro Anes que a

seguir

faria os leitos da Casa dos

Convalescentes,

decerto o mesmo

que viria

a ser "mestre das

obras

de

carpintaria

dos paços de

Coimbra"

e sogro de João de Ruão e

Cristóvão de Figueiredo.

71

Perpendicularmente,

corria a

longa

fachada do

Hospital

: Huma

fermoza

varanda

principiada

na

Enfermaria

de Sam

Pedro (no ângulo NO)

e se remata na dos

Religiosos

como de Norte a

Sul

,

omando-se pera a parte da praça com

quatro janellas rasgadas

como

de paço Real

72. Dessas janelas

manuelinas e

arcarias

nada resta ;

mas o desenho de 1747 e

alguns

documentos são concordes em

mostrar que havia 5 arcos a cada lado da "varanda da

copa",

por detrás dos

quais

alinhavam-se

dependências

utilitárias e

6 aposentos

para nobres,

repetindo-se

no andar alto a mesma

configuração.

Entre os

braços

desse

T.

em torno dos

pátios

dos banhos.

distribuíam-se outras áreas de

serviço,

como a

cozinha,

armazéns,

casa do

pão

e

dispensa

onde se cortava a carne de carneiro para os doentes. Não se

chegou, porém,

a realizar

integralmente

o

projecto

inicial :

segundo

o

Compromisso

concedido em

1512 pela fundadora,

devia

haver

um total de 100 camas - sendo

60

para doentes

pobres.

20 para

religiosos

e 20 para

nobres,

distribuindo-se em dois terços entre homens e mulheres - de que apenas

60'^

foi efectivamente executado. Diante da

rigorosa distribuição

destes números e de sua

transposição

para o espaço edificado - face visível do

minucioso

modelo

organizacional,

quase

utópico,

exposto no

Compromisso

- não

podem

restar dúvidas quanto ao

espírito

sistemático e

racional,

tão

71 Para as referências documentais, extraídas do AHTCR e

Arquivo

Distrital de

Leiria,

veja-se

R. Moreira, "Nossa Senhora do

Pópulo

e Santa Maria dei

Popolo"

ia

publicar).

/2

Jorge

de Sáo Paulo. ob. cit., I, p. 181.

distante da

irregularidade

dos

hospitais

medievais

agrupados

em

torno de um

pátio,

que

presidiu

à estrutura

pensada

por Mateus

Fernandes.

Apenas

o acesso à

igreja pelo exterior, obrigando

a uma

longa circulação

para

atingi-la (

que o

provedor

diariamente

percorria ).

trai a inabilidade do

arquitecto

manuelino em conciliar os

espaços uniformes com a

necessidade prática

de articulá-los,

pecha

comum à

arquitectura quinhentista portuguesa

que João de Castilho

resolveria modelarmente no Convento de Cristo em Tomar.

A volumetria de escala

não-monumental.

quase

popular,

do

Hospital,

a emblemática

régia

da torre e do

portal,

e a

própria implantação

na

região

de Óbidos, não são dados

desprovidos

de

significado. Vivia-se

em

1488

um momento de

euforia

de

afirmação

do

poder

real.

Esmagada

a

conjura

dos nobres e solucionado o conflito com a

Igreja 73.

D. João II

assumira

o título de Senhor da

Guiné

e

reformava

a

organização

heráldica do Reino, ao mesmo

tempo que

garantia

para futuro

próximo

o seu acesso directo à índia.

Interessar-lhe-ia, assim,

demonstrar a

capacidade

realizadora do seu programa de estado através de um acto de

colonização

capaz de promover economicamente as terras

régias

do centro do

país

em

detrimento dos senhorios locais

(

como o vizinho

potentado

do

Mosteiro de

Alcobaça ).

reeditando para uso interno o êxito obtido

com a

fundação

do castelo de São

Jorge

da Mina

(1482)

na costa

africana.

Operação

de

propaganda política portanto,

o

Hospital

73 Cfr. J. D. Vicente. "D. João II e o

Beneplácito Régio

em

Portugal",

liine rarium

. 85-87, Braga, 1974-75 : Ao contrário do que se tem unanimemente afirmado, ele (Cardeal

Alpedrinha)

foi nos dois

primeiros

anos de governo de D. João II

um seu precioso auxiliar em Roma"

(p.7

da separata). Para essa

conjuntura

ainda é útil A. Fontoura da Costa. As portas da índia em 1484 . Lisboa. 1935.

constituía na sua

reordenação

da

hierarquia

social como que uma pequena

utopia urbana,

microcosmo

emblemático

da natureza

contratual e

paternalista

da nova

monarquia portuguesa.

O

que

importa, sobretudo,

verificar é o modo como essa

intenção ideológica

se reflecte na

organização

concreta dos espaços. A

planta copia,

com

ligeiras alterações,

a do

Hospital do

Santo

Spirito

in

Sassia

em

Roma,

o mais moderno no

género

dos

hospitais cruciformes.

realizado

pelo engenheiro

florentino Baccio Pontelli

(1473-76

) sob iniciativa

papal.

A

planta

em

T.

com as duas alas da fachada e a axial centradas num

portal

- em

que.

ao

contrário

das

Caldas,

a

capela fica

à entrada -

apresenta semelhanças flagrantes. Houve,

sem

dúvida.

desenhos e

instruções

vindo de

Roma.

e

aqui

cuidadosamente estudados. Outro traço revelador de um

desejo

de

adaptação

da mais

recente cultura

arquitectónica

e urbanística

italiana,

é a abertura do

conjunto

ao exterior.

Ao

lote

trapezoidal ocupado pela

área

construída

correspondia

o

trapézio

invertido da praça da

vila,

com

seu chafariz e

pelourinho,

em que desembocava a meio a estrada de Lisboa. A

Praça

- como em Pienza - abria-se

assim,

perspecticamente,

para a

frontaria,

dominada ao centro

pelo grande portal

da copa, a ser lavrado em 1532 por 5

pedreiros

de Lisboa

ainda em estilo manuelino.

Segundo

a

descrição

de Frei

Jorge

de S.

Paulo

(I. 186)

era

precedido

por uma

galilé

entre contrafortes e

constava de um arco

conopial

terminando numa

grande

esfera

armilar ladeada

pelos

camaroeiros de D.

Leonor,

e tendo nas

ombreiras, sob ricos

baldaquinos,

as

imagens

da

Virgem

e do

Anjo

da

Anunciação:

sem dúvida as mesmas que se encontram desde o século XVIII na torre da

igreja

e a que

Vergilio

Correia e

Reynaldo

dos