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1. O CONCELHO DE ALVERCA: TESTEMUNHOS DE UM “PODER

1.3. O Pelourinho

Sem perder de vista o objecto principal deste trabalho, é imprescindível caracterizar o pelourinho de Alverca, sobretudo pela íntima ligação, deste elemento, com a Casa da Câmara. Os pelourinhos são símbolos da jurisdição, da administração e da autonomia dos Concelhos78. Era no pelourinho que se executavam algumas das penas do direito e se fixavam os decretos régios ou municipais79. Mais adiante, quando se abordar o capítulo relativo à funcionalidade da Casa da Câmara, serão desenvolvidas, de modo mais sistematizado, as suas várias funções. Importa agora salientar a sua valorização como “símbolo do poder” e autonomia do Concelho80.

Segundo Lino de Macedo: “Não havia a mínima uniformidade na construção dos pelourinhos, cada câmara mandava fazer os seus, como queria, e segundo a habilidade do pedreiro, ou a quantia que para isso era aplicada.”81 A identificação de diversos pelourinhos, datados do mesmo período, muito idênticos ao de Alverca, permite depreender terem sido todos construídos pelo mesmo canteiro, ou na mesma oficina. A reforçar esta hipótese, é de acrescentar localizarem-se todos esses pelourinhos em

77

Arquitectura Popular em Portugal, vol. II, Lisboa, Ordem dos Arquitectos, 2004, pág. 117.

78

Cf. Luís Chaves, Os Pelourinhos Portugueses, Gaia, Edições Apolino, 1930, p. 15; Manuel Tavares dos Santos, Pelourinhos de Portugal, Separata do Boletim da C. P., Lisboa Oficinas Gráficas da C. P., 1941, pp. 7-8; AAVV, Pelourinho de Viana do Alentejo – propostas para a sua Reconstrução, Viana do Alentejo, Câmara Municipal de Viana do Alentejo, 20 de Setembro de 2003, p. 2.

79

Cf. Manuel Tavares dos Santos, Pelourinhos de Portugal, Separata do Boletim da C. P., Lisboa Oficinas Gráficas da C. P., 1941, pp. 5-6.

80

Cf. Idem, p. 7.

81

Fig. 3 – Praça João Mantas. Finais do séc. XIX. MMVFX-NA. Pormenor.

regiões muito próximas. São exemplo os pelourinhos de Azambuja82, Colares83, Povos e Vila Franca de Xira84.

O pelourinho de Alverca construído, em 1530, ergue-se de uma plataforma de quatro degraus octogonais. De base cilíndrica com anéis, superiormente facetada, tomando forma oitavada côncava, de secção estrelar. O fuste é cilíndrico helicoidal, de estrias espiraladas, com dois registos que torcem em sentidos opostos, separados por nó oitavado, saliente, com anel central. O primeiro

registo é original e está decorado com rosetas. Quanto ao segundo é desprovido de decoração, tratando-se de uma reconstrução, aspecto que obedece ao Artigo 12º da Carta de Veneza85, sobre a conservação e restauro de monumentos e sítios, segundo o qual: “Os elementos destinados a substituir as partes inexistentes de uma edificação devem integrar-se harmoniosamente no conjunto, distinguindo-se sempre das originais […]”86, desse modo respeita-se a autenticidade do monumento, valorizando o que resta do mesmo, sem procurar copiar o que na realidade não existe. Na fotografia (Fig. 3), datada de finais do século XIX, percebe- se que ambos os registos eram decorados da mesma forma.

O capitel prismático octogonal é decorado inferiormente com quatro cabeças, cada uma agarrando na boca duas flores, intercaladas superiormente por quatro escudos: um deles contendo esfera armilar; outro representando um castelo de três torres; um terceiro

82

Cf. E. B. de Ataíde Malafaia, Pelourinhos Portugueses – Tentâmen de Inventário Geral, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1997, p. 111.

83

Cf. Idem, p. 176.

84

Cf. Idem, p. 425.

85

A carta de Veneza foi o produto do II Congresso de Arquitectos e Técnicos dos Monumentos Históricos, realizado naquela cidade entre 25 a 31 de Maio de 1964. Cf. Flávio Lopes; Miguel Brito Correia, Op. Cit., p. 103.

86

representando o brasão real encimado pela coroa; e o último apresentando um rosto masculino, com cartela, saindo-lhe da boca, contendo inscrita a data87. O remate, que pode ser observado na fotografia, perdeu-se.

Em relação ao simbolismo de que se reveste o capitel, Luís Chaves aponta algumas interpretações um tanto fantasistas. A repetição exaustiva das mesmas justifica a confrontação com os factos registados em documentos, compulsados nesta investigação. Assim, segundo Luís Chaves identificam-se quatro símbolos: “1º símbolo: do doador do Foral: - BRASÃO REAL, à frente – ESFERA ARMILAR, na face oposta; 2º símbolo: da VILA DE SANTARÉM; onde foi feita a doação real: - CASTELO DE TRÊS TORRES a dominarem as muralhas; 3º símbolo: SANTARÉM e ALVERCA, ribeirinhas do TEJO, aquela dominando-o em altura: as cinco cabeças de significação alegórica: a masculina anunciando a data do pelourinho; as quatro juvenis «as Tágides minhas», de Camões, a cercarem o conjunto com o cordão seguro na boca, união total do simbolismo representado; 4º símbolo: - o fundo GRANITADO dos anteriores a representar o Tejo, comum às duas vilas manuelinas (séc. XVI).”88

Em relação ao primeiro símbolo é, sem dúvida, o brasão real utilizado desde D. Manuel I, embora – recorde-se o que ficou escrito relativamente ao foral – nada indique a existência de um foral manuelino autorgado a Alverca. É forçada a ligação entre Santarém e Alverca no terceiro e quarto símbolos, desconhecem-se relações estreitas entre os dois concelhos, é verdade que o Tejo banha as duas povoações, assim como tantas outras que se encontram de permeio. Também forçada é a referência a Luís Vaz de Camões. Embora a data de nascimento do poeta seja incerta89, este seria uma criança, à data da construção deste pelourinho.

87

A descrição artística do Pelourinho foi baseada, parcialmente, na ficha da DGEMN, em http://www.monumentos.pt.

88

Luís Chaves, «Os Pelourinhos no actual concelho de Vila Franca de Xira, na província da Estremadura e Distrito de Lisboa», 25º Aniversário da Biblioteca-Museu Municipal Dr. Vidal Baptista, Boletim Comemorativo, Vila Franca de Xira, Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, 1972, p. 166. Maiúsculas no original.

89

A data do seu nascimento é apontada entre 1524 e 1525, Cf. Maria Leonor Carvalhão Buescu, Literatura Portuguesa Clássica, Lisboa, Universidade Aberta, 1992, p. 127.

Quanto ao segundo símbolo – deliberadamente deixado para o fim – a ideia de se tratar do brasão de Santarém, devido a ter sido realizada a doação real nessa localidade, carece de fundamentação, apesar de ter sido divulgada por diversos autores como E. B. de Ataíde Malafaia90 e Júlio Rocha e Sousa91, ambos na esteira de Luís Chaves. Na presente pesquisa não foi encontrada qualquer fonte indicando a doação real em Santarém, ainda que se tenha investigado nas Chancelarias de D. Manuel e no índice dos Forais Velhos e Forais Novos, como já foi referido. Por outro lado, não era prática, inserir-se, na simbologia dos pelourinhos, o brasão do local de doação, fosse ele qual fosse, pelo menos pelo que é dado perceber pela análise dos pelourinhos92. No concelho de Vila Franca de Xira, como já foi mencionado, existem outros pelourinhos do mesmo período, nomeadamente os de Vila Franca e Povos. Este último apresenta no remate o brasão dos Ataídes, Condes da Castanheira, senhores de Povos93. Outros exemplos mostram poder ser comum a inclusão do brasão dos senhores da terra ou do próprio concelho no pelourinho, como no de Azambuja, já anteriormente referido como sendo um exemplar muito semelhante ao de Alverca94, que inclui, na simbologia heráldica do remate, dois brasões de armas reais e dois do concelho.

De facto o brasão no pelourinho de Alverca apresenta algumas semelhanças com o brasão de Santarém, todavia a simbologia do castelo com três torres é comum a outros brasões, como são exemplo, para além de outros, os de Albufeira, Sesimbra e Leiria. Para além disso, no brasão de Santarém, apesar de ter vindo a ser ligeiramente modificado ao longo dos séculos95, há um elemento que se mantém inalterado: a torre central do castelo de três torres é encimada pelas armas régias: o escudo com cinco quinas. Segundo José Mattoso as

90

E. B. de Ataíde Malafaia, Op. Cit., p. 92.

91

Júlio Rocha e Sousa, Pelourinhos do Distrito de Lisboa, Viseu, Edição do Autor, 2005, p. 42.

92

Cuja descrição está disponível nas obras referidas e na pesquisa efectuada na página informática da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN), www.monumentos.pt.

93

Cf. Luís Chaves, Op. Cit., 1972, p.161.

94

Cf. E. B. de Ataíde Malafaia, Op. Cit., p. 111

95

Cf. Estrela Branco, A Heráldica do Município de Santarém, Santarém, Câmara Municipal de Santarém, Novembro 2001.

Fig. 4 - Brasão da Vila de Santarém, Finais do século XV. Estrela Branco, Op. Cit., p. 236

armas régias sobre o castelo significavam a submissão do concelho à coroa96. Todos os brasões de Santarém, apresentados por Estrela Branco, – autora da obra A Heráldica do Município de Santarém97, onde apresenta um estudo aprofundado relativamente à heráldica existente naquele Concelho –, inclusivamente o exemplar datado do século XV mostra esta simbologia (Fig. 4). No brasão, presente no Pelourinho de Alverca, a torre central não apresenta o escudo com as quinas (Fig. 5).

Para além do já mencionado, a comparação entre o brasão quinhentista de Santarém e o exemplar presente no pelourinho de Alverca denotam outras diferenças: ao contrário deste último o brasão de Santarém do século XVI-XVII não apresenta pano de muralha98; por outro lado as três torres ameiadas, no interior da muralha, são redondas no brasão do pelourinho de Alverca e rectangulares nos brasões de Santarém. Deste modo, embora ambos os brasões apresentem semelhanças, existem demasiadas particularidades, entre um e outro, para se poder concluir que o brasão no pelourinho de Alverca não é o símbolo de Santarém.

Se de facto, segundo se pensa, os pelourinhos eram erigidos às custas da Câmara, os canteiros deviam, obviamente, respeitar as indicações fornecidas. É duvidoso, sobretudo, tratando-se de um símbolo de autonomia, que os edis alverquenses, no século XVI, tivessem pretendido, no pelourinho do seu Concelho, colocar uma simbologia que o ligavam a uma outra localidade, bem maior e, como se não bastasse, tão distante como Santarém. Isto só seria possível se Alverca tivesse qualquer dependência a Santarém, contudo não se encontraram dados de que alguma vez tal tenha acontecido, além do

96

Cf. José Mattoso, Obras Completas – Identificação de um País: Oposição, Volume 2, Rio de Mouro, Círculo de Leitores e Autor, Janeiro de 2001, p. 318.

97

Estrela Branco, Op. Cit., pp. 233-255.

98

Cf. Idem., p. 237.

Fig. 5 - Brasão do Pelourinho de Alverca, 1530. Anabela Ferreira. 2006.

mais, de acordo com Maria Helena da Cruz Coelho e Joaquim Romero Magalhães: “Em geral, pode dizer-se que não havia concelhos subordinados a outros concelhos […].”99

Assim, em vista de tudo quanto foi exposto, deve ponderar-se a hipótese daquele brasão ser o da vila de Alverca, povoação acastelada no século XV, como indicam as fontes e testemunham as ruínas do castelo, ainda existentes na localidade. Citando José Mattoso: “[…] o concelho procura e encontra símbolos que exprimem a sua unidade, e os ostenta face ao exterior, nas suas bandeiras, selos e escudos […]”100, mesmo os concelhos mais modestos não dispensavam esta simbologia101. Deste modo o brasão do concelho, como “símbolo de poder local”, era representado também na arquitectura municipal. Assim, seria coerente fazê-lo representar num dos símbolos maiores da autonomia concelhia, como é o pelourinho.

Desconhecido, até se ter dado início à presente investigação, qualquer indício relativo ao primitivo brasão de Alverca, este permaneceu ignorado. Em Setembro de 1855, por ocasião dos festejos de aclamação de D. Pedro V: “Entre cada varanda do andar nobre que rodeia a praça [do Terreiro do Paço] estava um escudo das armas das principaes cidades e villas do reino pintadas, transparentes, para serem iluminadas.”102 Embora entre os exemplos referidos não conste a vila de Alverca, na realidade ela está representada numa gravura inserida, numa colecção guardada no ANTT onde, por trás, se lê: “O brasão d’armas da villa de Alverca é um escudo com as armas reaes de D. Affonso 4.º.”103

99

Cf. Maria Helena da Cruz Coelho, Joaquim Romero Magalhães, O Poder Concelhio – das Origens às Cortes Constituintes, Coimbra, Centro de Estudos e Formação Autárquica, 1986, p. 34.

100

José Mattoso, Op. Cit., Janeiro de 2001, p. 316.

101

Cf. Idem, p. 317.

102

BN, Descripção da solenidade de Aclamaçaõ de Sua Magestade El-Rei de Potugal o Senhor D. Pedro V e dos festejos publicos que tiverem lugar em Lisboa por essa occasiaõ, nos dias 16,17 e 18 de Septembro de 1855, Lisboa, Typographia do Correio Mercantil, 1855.

103

ANTT, Cartório da Nobreza, mç. 73, cx 82, nº 10.

Fig. 6 - Brasão atribuído a Alverca. Imagem digitalizada do exemplar do espólio documental do MMVFX-NA.

Esta colecção terá servido de base para a execução dos escudos de armas dos festejos de aclamação de D. Pedro V. Algumas dessas gravuras desta colecção estão reproduzidas na obra de Vilhena Barbosa, As cidades e villas da Monarchia Portuguesa. Relata este autor que “A aparição d’esses brasões n’aquelles festejos […] excitou a curiosidade publica, e deu origem a algumas contorvecias ácêrca da exactidão dos ditos brasões.”104 Os jornais literários da época terão decidido publicar, em estampas, os escudos de armas, que posteriormente dariam origem á obra105, contudo nem todos os brasões terão sido utilizados, não se encontrando qualquer indicação relativa ao critério utilizado na selecção dos mesmos. Entre estes os brasões, excluídos da obra, conta-se o de Alverca.

No seguimento desta informação, na edição de 1876, da Chorographia Moderna do Reino de Portugal, João Maria Baptista afirma referindo-se a Alverca: “Tem por brazão as armas reaes do tempo de D. Affonso IV em campo branco. Não vem este brazão no livro da Torre do Tombo; mas sim nos quadros anonymos das cid.es e V.as de Portugal.”106 Esta indicação não será de todo correcta, pois, embora a povoação pertencesse às Capelas de D. Afonso IV, as armas apresentadas são utilizadas no reinado de D. João IV107. Por outro lado as outras terras das Capelas, aparentemente, não adoptavam o escudo real como seu brasão, como é exemplo Viana do Alentejo.

Em Junho de 1935 foi atribuído um brasão a Alverca, pela portaria 8.181108, cuja descrição refere: “armas de prata com duas faxas de azul acompanhados por dois crescentes de vermelho. Coroa mural de prata de quatro torres. Listel branco com os dizeres «Vila de Alverca do Ribatejo»”109. De acordo com José do Carmo Pacheco, estas armas foram aprovadas pela Comissão de Heráldica da Associação dos

104

I. de Vilhena Barbosa, As cidades e villas da Monarchia Portuguesa, 3 volumes, Lisboa, Typographia do Panorama, 1860, p. IV-V.

105

Cf. Idem, p. V.

106

Joaõ Maria Bautista, Op. Cit., p. 810.

107

Cf. http://www.tuvalkin.web.pt/terravista/Guincho/1421/bandeira/pt_hist.htm, consulta a 29 de Agosto de 2006.

108

Cf. “Freguesias do Concelho de Vila Franca de Xira - Freguesia de Alverca”, Boletim da Junta de Provincia do Ribatejo, n.º 1, anos de 1937-1940, Lisboa, Oficinas Bertrand (Irmãos), L.da, 1940, p. 662.

109

Arqueólogas, sob parecer de Afonso Dornelas110. Em 1990, após a elevação de Alverca a cidade foi acrescentada mais uma torre à coroa do brasão111.

Ainda em relação ao pelourinho cuja relevância Luís Chaves evidencia ao afirmar: “Os pelourinhos […] balizam no território português o caminho da história dos concelhos [...]”112, sublinhe-se que a existência deste elemento do património só faz sentido quando relacionado com a Casa da Câmara e com as acções desempenhadas por aquele organismo, ainda que o seu funcionamento dependesse, em grande medida, de outros “poderes” que se lhe sobrepunham, como se verá no capítulo seguinte.

110

Cf. José do Carmo Pacheco, Op. Cit., p. 74.

111

Idem, p. 75.

112

Luís Chaves, Op. Cit., 1930, p. 9.

Fig. 7 - Actual brasão de Alverca, inserido na fachada do Mercado Municipal. Anabela Ferreira. 2006.

2. A RELAÇÃO DOS “PODERES” EXTERNOS COM O

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