2. A RELAÇÃO DOS “PODERES” EXTERNOS COM O CONCELHO
2.1. O Poder do Rei
No capítulo anterior foi abordado um dos aspectos da influência do poder régio nos concelhos: a confirmação real dos mesmos. Como se deve imaginar a influência da Coroa não se ficava por aí. Embora tenha existido alguma liberdade legislativa, resultado dos costumes registados nas posturas, naturalmente a jurisdição emanada pela Coroa relevava-se à dos concelhos116. Conhecem-se, desde a Idade Média, várias compilações legislativas117, contendo leis relativas, não só a aspectos judiciais, mas também ao funcionamento do Concelho e, em particular, à função devida aos diversos ofícios locais. No âmbito deste trabalho não cabe uma análise profunda da legislação, contudo é imprescindível referir o conhecimento da existência das compilações legislativas, sobretudo quando se tratam de fontes estreitamente relacionadas com a administração e jurisdição concelhias. Deste modo impõe-se a menção de alguns dados.
Assim, no século XV, fruto de um longo trabalho de compilação surgem as Ordenações Afonsinas, “primeira compilação das nossas leis geraes, quasi sem modelo, até então, na Europa, [por elas] uniformizou-se as magistratura dos concelhos.”118 Esta obra apresenta, entre outros, os regimentos dos cargos municipais119. Do reinado de D. Manuel conhece-se o Regimento dos Oficiais das Cidades, Vilas e Lugares Destes
116
Cf. José Mattoso, Op. Cit., p. 116.
117
Cf. Luís Miguel Duarte, «O Direito e as Instituições», Humberto Baquero Moreno (coord.), História de Portugal Medievo – Político e Institucional, Lisboa, Universidade Aberta, 1995, p. 313.
118
J. Félix Henriques, O Município no Século XIX, Edição facsimilada, Lisboa, Ulmeiro, Agosto 1993, p. 45. Esta obra teve a sua promeira edição em 1856.
119
Reinos120, datado de 1504, obra indispensável para o conhecimento das reais funções dos oficiais das Câmaras, cujos títulos definem, entre outros, os ofícios camarários e as “cousas que ao dito oficio pertencem”. No mesmo reinado surgem em 1521 as Ordenações Manuelinas, ordenadas em 1505121. No primeiro volume, do título XLIII ao LXXVIII, trata-se dos ofícios e de normas relacionadas com os concelhos. A legislação seria largamente ampliada nos reinados seguintes e, novamente, compiladas nas Ordenações Filipinas, o grande documento legislador durante toda a Idade Moderna. Na nota de apresentação de Mário Júlio de Almeida Costa no Livro I lê-se: “As Ordenações Filipinas tiveram multiplas edições, o que não admira pela longa vigência [...] que conheceram em Portugal e no Brasil.”122 Segundo a mesma fonte a ultima edição em Portugal data de 1865, na Universidade de Coimbra. Cinco anos depois seria editada no Brasil123.
As leis contidas nas Ordenações eram desconhecidas da grande maioria dos magistrados locais, designados como juízes ordinários, devido sobretudo ao facto de, tratando-se de obras extensas, ser difícil a sua reprodução, fazendo com que, na prática, o juiz exercesse as suas funções “de acordo com a tradição, o seu bom senso, e a sua experiência humana.”124 A dificuldade de divulgação da legislação levava à necessidade de se efectuar, o seu registo, nos livros da câmara125. Embora, aparentemente, se tenham perdido inúmeros documentos do arquivo da Câmara de Alverca, é possível encontrar, no Livro de Registo de Provisões e mais papeis, para os anos de 1773-1781, o traslado de regulamentos e alvarás com força de lei, como o Regulamento para Arrecadação das Colectas de 10 de Novembro de 1772126, ou o Alvará sobre os direitos dos Regatões127, atestando a continuidade do costume de registo de legislação no livro da Câmara.
120
Regimento dos Oficiais das Cidades, Vilas e Lugares Destes Reinos, Edição Facsimilada, Lisboa, Fundação Casa de Bragança, 1955. Esta obra teve a sua primeira edição em 1504.
121
Cf. Ordenações Manuelinas, fac-símile da edição da Real Imprensa da Universidade de Coimbra [1797], Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Dezembro 1984. Nota de apresentação de Mário Júlio de Almeida Costa, no Livro I, pp. 5-6.
122
Ordenações Filipinas, Rio de Janeiro, fac-símile da edição de Cândido Mendes de Almeida, 1870, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Dezembro 1985.
123
Cf. Idem, Ibidem.
124
Luís Miguel Duarte, Op. Cit., p. 315.
125
Cf. Luís Miguel Duarte, Op. Cit., p. 313.
126
Cf. AHVFX, Livro para registo das provisões e mais papeis, 1773-1781, Concelho de Alverca, B/A 002, fls. 6v-12v.
127
Para além da legislação, reguladora dos ofícios e de muitos outros aspectos da vivência do Concelho, ao rei cabia a nomeação de diversos cargos, constituindo estes, um modo de ligação dos povos ao seu monarca. Entre os cargos oficiais, nomeados pelo poder central, com intervenção directa no Concelho, contava-se o de juiz de fora, também designados como juízes de fóra-parte128. Tinham funções administrativas e judiciais, substituindo os magistrados locais, “[…] ficavam a chefiar toda a gestão camarária[…].”129 O cargo de juiz de fora terá sido criado no século XIV, tendo sido incrementado após a Peste Negra. A elevada mortandade, provocada por aquela pandemia, terá originado inúmeros testamentos cuja redacção se tornava difícil sem o apoio de um juiz letrado130. Contudo o motivo maior ter-se-á prendido com o facto de se considerar existir demasiados obstáculos, por parte dos juízes ordinários, para o correcto provimento da justiça, José Anastácio de Figueiredo enumera-os: por um lado sendo pessoas da terra tinham “[...] nella muitos parentes, e amigos, compadres, e companheiros, ou tambem malquerenças, e odios com outros [...].”131 Por outro lado podiam sentir-se impedidos de exercer uma correcta justiça, contra a prepotência dos poderosos, com receio de represálias quando, no fim dos mandato, se encontrassem à mercê dos mesmos poderosos132. Os juízes de fora, para além de constituir, de acordo com Luís Miguel Duarte, um dos “instrumentos poderosos que os monarcas usam para intervir na administração local”133, eram magistrados estranhos ao concelho, pelo que se pressupunha agirem com maior imparcialidade no exercício das suas funções134.
Todavia, o ofício de juiz de fora nunca se generalizou por todo o reino. Segundo António Manuel Hespanha, no século XVII, estes magistrados exerciam funções
128
Cf. J. Félix Henriques, O Município no Século XIX [1856], Edição facsimilada, Lisboa, Ulmeiro, Agosto 1993, p. 40. Nesta obra o autor traça uma breve história dos municípios, desde a Idade Média ao século XVIII – seguindo de perto a História de Portugal de Alexandre Herculano -, antes de se centrar na problemática dos municípios do século XIX.
129
Luís Miguel Duarte, Op. Cit., p. 310.
130
Cf. Luís Miguel Duarte, Op. Cit., p. 116.
131
Jozé Anastasio de Figueiredo, “Memoria sobre a origem dos nossos Juizes de Fóra”, Memorias de Literatura Portugueza publicadas pela Academia Real das Sciencias, Tomo I, Lisboa, Officina da Academia Real das Sciencias, 1772, p. 32.
132
Idem, Ibidem.
133
Luís Miguel Duarte, Op. Cit., p. 311.
134
somente em oito por cento dos concelhos do reino135. No principio do século XIX, Luís Vidigal adianta que, “[…] estavam presentes em menos de ¼ dos concelhos do país.”136 Pelo facto do cargo de juiz de fora nunca se ter generalizado, na maioria dos concelhos a justiça e administração continuavam a ser exercidas por juízes locais.
Ainda segundo António Manuel Hespanha, os juízes de fora terão sido alvo de contestação popular137. Uma das razões terá a ver com o facto de se tratarem de pessoas desconhecidas da terra. No entanto este não era, por certo, o principal motivo. Embora fosse um cargo de nomeação régia, o seu mantimento decorria por conta do Concelho. Refira-se um exemplo concreto, relacionado com Alverca. Em 28 de Abril de 1501 D. Manuel I faz mercê a João Lopes do ofício de juiz de fora da vila de Alverca, “[…] de que receberia o Mantimento de 6.000 reais, em cada ano, pagos à custa dessa vila.”138 Embora não tenham sido encontradas quaisquer fontes contestando esta decisão, por parte da população de Alverca, a posição não deverá ter sido diversa à ocorrida outros locais. Luís Miguel Duarte afirma: “Os povos insistirão sempre junto do monarca para que seja ele a pagar o salário dos «seus» juízes […].”139 No reinado de D. João III, nas cortes de Torres Novas, no ano de 1525, e de Évora em 1535, “[...] requereraõ os Póvos, entre outras cousas, que ou tirasse de todo os Juizes de Fóra, ou os mandasse satisfazer á custa de sua Fazenda [...]. E assim lho concedeo [...]”140, dali em diante os ofícios de nomeação régia auferiam rendimentos directamente da fazenda real ou do senhor da terra141.
Até ao século XVIII, a coroa não voltou a nomear juízes de fora para Alverca. A documentação encontrada revela a existência da função de juízes ordinários, pelo menos a partir de 1560142. Só no reinado de D. Maria I seria criado, para Alhandra e Alverca, o
135
António Manuel Hespanha, As vésperas do Leviathan – Instituições e poder político – Portugal – séc. XVII, Coimbra, Livraria Almedina, 1994, pp. 171-172.
136
Luís Vidigal, O Municipalismo em Portugal no século XVIII, Lisboa, Livros Horizonte, 1989, p. 43.
137
António Manuel Hespanha, História das Instituições – Épocas medieval e moderna, Coimbra, Liraria Almedina, 1982, p. 268.
138
ANTT, Chancelaria D. Manuel I – Comuns, livro 1, fl. 21v.
139
Luís Miguel Duarte, Op. Cit., p. 311.
140
Jozé Anastasio de Figueiredo, Op. Cit., p. 42.
141
Idem, pp. 42-43.
142
lugar de Juiz de Fora de modo sistemático143. No Alvará, datado de 21 de Abril de 1795, definia-se a nomeação trienal de um letrado e abolia-se as justiças ordinárias.
Para além dos juízes de fora também os corregedores eram oficiais da coroa. Desde o reinado de D. Dinis144, eram os oficiais responsáveis pelo governo das comarcas, com funções administrativas e judiciais, devendo inspeccionar e fiscalizar com regularidade as acções dos concelhos sob a sua alçada. Essa inspecção incluía: a averiguação do bom funcionamento da Câmara e a verificação das condições de manutenção dos bens do Concelho145. Tratando-se de uma figura de intervenção e vigilância sobre os concelhos e sobre o exercício dos oficiais concelhios, foram alvo de várias contestações ao longo dos séculos146. Entre as suas atribuições contava-se o dever de tratar da preservação das obras públicas da comarca, incluindo das casas do concelho e dos pelourinhos147.
Do século XVI ao XIX o Concelho de Alverca estava integrado na comarca de Torres Vedras148, contudo, devido ao privilégio de pertencer aos bens das Capelas de D. Afonso IV, a entrada do corregedor na povoação estava condicionada, pelo menos no século XVIII, como mais adiante se verá. De facto, nas terras sob alçada de um provedor, como o que representava as Capelas de D. Afonso IV, o corregedor não
143
ANTT, Alvará de criação do lugar de Juiz de Fora de Alhandra e Alverca, de 21 de Abril de 1795, Leis, Mç. 8, n.65.
144
Cf. Amélia Aguiar Andrade, “Estado, territórios e ‘administração régia periférica”, Maria Helena da Cruz Coelho, Armando Luís de Carvalho Homem, (Coor.), a Génese do Estado Moderno no Portugal Tardo-Medievo (séculos XIII-XV) – Ciclo de Conferências, Lisboa, Universidade Autónoma de Lisboa, 1999, p. 167.
145
Só no século XIX, com as novas mudanças administrativas, Alverca passaria a integrar a Comarca do Ribatejo. Nesse período as Capelas de D. Afonso IV tinham perdido o seu domínio sobre o Concelho. A partir de 1810 o corregedor daquela Comarca, viria regularmente a Alverca, para realizar Audiências de Capítulo, Cf. AHVFX, Livro de Registo das Audiências de Capítulos que os Corregedores das Comarcas Fizeram na Vila de Alverca, 1810-1832, Concelho de Alverca, J/A 001.1. Este assunto será desenvolvido no capítulo 4.
146
Cf. Maria Helena da Cruz Coelho, Joaquim Romero Magalhães, O Poder Concelhio – das Origens às Cortes Constituintes, Coimbra, Centro de Estudos e Formação Autárquica, 1986, pp. 11-12.
147
Cf. António Manuel Hespanha, As vésperas do Leviathan – Instituições e poder político – Portugal – séc. XVII, Coimbra, Livraria Almedina, 1994, p. 201.
148
Cf. sobre a criação da Comarca de Torres Vedras: AAVV, Torres Vedras – Passado e Presente, Torres Vedras, Câmara Municipal de Torres Vedras, 1996, p. 142; Joaquim Romero Magalhães, “O enquadramento do Espaço Nacional”, José Mattoso, (Dir.), História de Portugal, Vol. 3, Lisboa, Circulo dos Leitores, 1993, pp. 36-37. Relativamente revisão administrativa no século XIX: Mário Reis Marques “Estruturas Jurídicas” José Mattoso, (Dir.), História de Portugal, Vol. 5, Lisboa, Circulo dos Leitores, 1993, pp. 171-173.
intervinha, salvo na falta daquele, ou na sequência de uma ordem expressa da coroa149. A isenção, à acção do corregedor, seria abolida por carta de Lei de 19 de Junho de 1790150.
Existiam outros ofícios camarários dependentes de nomeação régia. No decorrer da pesquisa, para realização deste trabalho, foram encontrados documentos a partir dos quais foi realizada a Tabela de Oficiais151. A sua análise permite perceber que, em Alverca, os tabeliães, juízes de Sisas e dos Órfãos – e seus escrivães –, escrivães da Câmara, almoxarifes, meirinhos da Arrecadação dos Direitos dos Vinhos eram, pelo menos até ao final do século XVIII, ofícios nomeados pela Coroa152.
Embora ao rei coubesse a confirmação anual das pautas153, em Alverca, como se verá mais adiante, essa confirmação seria realizada pelo provedor das Capelas de D. Afonso IV, até finais do século XVIII. Em 1795, num ofício dirigido ao Desembargo do Paço, o provedor da Comarca de Torres Vedras, informa que: “[…] Alhandra e Alverca desta comarca em q.to se naõ concluir a demarcaçaõ, eraõ athe ao prez.te de Juízes ordina.os, sendo estes os mais rústicos eleitos na forma da Ley, e confermados pelo Sr Donat.os por Alvará de V. Mag.de se creou nellas hum novo lugar de Vara branca e poriso informado, que devo taõ bem em vertude daquella provisão proceder a pauttas, nas ditas duas Villas. Apesar do que naõ o executo, sem que V. Mag.de mo determine.”154 O despacho régio, escrito na margem esquerda do documento, determina que se devem proceder às pautas das referidas vilas155. Assim, a partir do século XIX podem ser encontradas pautas de elegíveis para os ofícios de vereador, procurador e tesoureiro em Alverca, enviadas para o Desembargo do Paço, de modo a serem confirmadas pela Coroa. Foram encontradas, relacionadas com Alverca, pautas e confirmações reais de
149
Cf. António Manuel Hespanha, Op. Cit., p. 201.
150
Cf. Joel Serrão (Dir.), Dicionário de História de Portugal, Volume II, Porto, Livraria Figueirinhas, s/d, p. 192. Este assunto será abordado de modo mais concreto no capítulo 4.
151
Cf. volume de Anexos pp. 71-107.
152
Para mais informações sobre outros ofícios de nomeação régia, consultar António Manuel Hespanha, Op. Cit., 1994, pp. 195-224.
153
Cf. Maria Helena da Cruz Coelho, Joaquim Romero Magalhães, O Poder Concelhio – das Origens às Cortes Constituintes, Coimbra, Centro de Estudos e Formação Autárquica, 1986,p. 44.
154
ANTT, Desembargo do Paço – Diversas Repartições, Mç. 590, Doc. 38. Transcrito no volume de Anexos p. 108.
155
1805 até 1829156. Estes documentos fornecem elementos, essenciais, para a caracterização do poder local157.
Para além da Coroa outros poderes interferiam nos concelhos, a maioria na dependência de um senhorio. Alverca esteve, pelo menos durante o reinado de D. Dinis, sob o domínio de João Afonso. Sob o seu jugo o Concelho perdeu alguns dos seus privilégios como ficou visto no capítulo anterior. Tendo voltado à posse da Coroa, no tempo de D. Afonso IV, em 1354 esse mesmo monarca fazia doação de Alverca – entre outros bens e terras da Coroa – às capelas por si instituídas na Sé de Lisboa158. A partir de então, e até ao século XIX, a povoação e os seus moradores ficam na dependência dessa instituição cujo representante máximo era o provedor. Este era nomeado pela coroa, fazendo com que de facto todos os poderes externos relacionados com o Concelho de Alverca fossem, de uma forma ou de outra, entroncar no Rei. A ligação de Alverca às Capelas de D. Afonso IV contribuiu, em muitos aspectos, para distinguir a acção deste Concelho, comparativamente com o acontecia na generalidade dos concelhos portugueses.