Capítulo 1 – Pressupostos teóricos da perspectiva histórico cultural
1.5. Pensamento e linguagem – princípios gerais
“O desenvolvimento do pensamento da criança depende de seu domínio dos meios sociais do pensamento, isto é, da linguagem”. (VIGOTSKI, 2009, p.149)
Outra discussão basilar para o desenvolvimento teórico sobre os processos volitivos é a questão da linguagem. Neste sentido, se faz necessário traçarmos algumas considerações – ainda que seja em linhas gerais – procurando oferecer subsídios para a compreensão da discussão teórica dos capítulos posteriores.
Iremos realizar um recorte na densa discussão (estudo) que Vigotski realiza sobre o pensamento e linguagem. Nossa intenção é ressaltar os seguintes tópicos: função da linguagem; pensamento e linguagem egocêntrica; linguagem interior; a formação conceitual por meios de processos intermediados por signos. A compreensão destes processos, bem como seu caráter de construção histórica/social e suas interfuncionalidades nos permite compreender o quanto o comportamento humano – os processos volitivos – são direcionados pelo desenvolvimento destes processos.
Entre outros teóricos, Vigotski dedicou especial atenção aos estudos sobre a linguagem80. Além de se tratar “(...) de uma das questões mais complexas e confusas da
psicologia experimental” (VIGOTSKI, 2009, p. 15), para ele, o problema da linguagem tinha especial relevância. Seus estudos demonstraram que a partir do desenvolvimento da linguagem, os processos de constituição humana – as funções psicológicas superiores – se dinamizam por meio de um salto qualitativo contribuindo exponencialmente para o desenvolvimento do sujeito como um todo. Tais considerações se originaram fruto de um denso trabalho realizado por ele em conjunto com os colaboradores de seu laboratório de pesquisa.
O primeiro princípio que Vigotski procurou alicerçar em seus estudos foi a questão do método de pesquisa – aliás, recorrente na maioria dos trabalhos. Em sua análise os estudos que investigavam e problematizam as questões que envolviam o pensamento e linguagem, partiam de um princípio metodológico equivocado. Com isso, conduziam –
80 No Brasil a obra que condensa a discussão realizada sobre o problema da linguagem foi publicada sob o título “A construção do pensamento e da linguagem” (traduzido do russo Pensamento e linguagem, primeira ed. 2001). Antes porém, em 1987, temos a publicação de uma versão resumida deste discussão, obra intitulada “Pensamento e Linguagem”.
consequentemente – o desenvolvimento dos estudos a conclusões, que em seu entender, não respondiam as questões principais relacionados ao pensamento e linguagem, ou seja, a um estudo que realmente revelasse as raízes genéticas do pensamento e da linguagem (VIGOTSKI, 2009).
Entre os equívocos apontados por ele, podemos salientar a falta de delimitação entre as raízes genéticas tanto do pensamento quanto da linguagem, bem como, a decomposição em elementos de questões psicológicas complexas, o que, em sua apreciação, provinha do desconhecimento das relações interfuncionais – os diversos elementos que interagem – se organizando numa estrutura integral (VIGOTSKI, 2009).
O pensamento e a linguagem seguem por trajetórias diferentes de desenvolvimento. Há um momento, porém, em que essas trajetórias (pensamento e a linguagem) se "encontram" caracterizando o que Vigotski denominou como linguagem racional e pensamento verbal.
O pensamento verbal não é uma forma de comportamento natural e inata, mas é determinado por um processo histórico-cultural e tem propriedades e leis específicas que não podem ser encontradas nas formas naturais de pensamento e fala. [...] A natureza própria do desenvolvimento se transforma do biológico para o sóciohistórico. (VIGOTSKI, 2008.p.63)
Com o surgimento da linguagem racional e do pensamento verbal, o sujeito, fazendo uso do sistema da linguagem simbólica (semiótica), tem acesso a formas mais sofisticadas do funcionamento psicológico.
A palavra somente tem sentido com o seu significado e estes são construídos historicamente. Os significados não são estáticos, eles sofrem alterações ou ressignificações, pois, são construídos nas relações humanas variando de cultura para cultura.
A descoberta que o significado da palavra evolui tira o estudo do pensamento e da fala de um beco sem saída. Os significados das palavras são formações dinâmicas, e não estáticas. Modificam-se à medida que a criança se desenvolve; e também de acordo com as várias formas pelas quais o pensamento funciona. Se os significados das palavras se alteram em sua natureza intrínseca, então a relação entre pensamento e a palavra também se modifica. (VIGOTSKI, 2008, p.156)
O significado da palavra refere-se ao conhecimento partilhado pelo grupo relacionado ao uso objetivo, determinado. Porém, o processo de significação compreende uma complexa relação entre significado e sentido, entre sujeito, meio, cultura, etc. Vigotski, assumia os pressupostos teóricos desenvolvidos por Paulham, que,
Mostrou que o sentido de uma palavra é a soma de todos os fatos psicológicos que ela desperta em nossa consciência. Assim o sentido é sempre uma formação dinâmica, fluida, complexa, que tem várias zonas de estabilidade variada. (VIGOTSKI, 2009, p.465).
O sentido da palavra está estreitamente ligado ao seu contexto de produção, nunca é estático, pelo contrário, caracteriza-se pela inconstância e mutabilidade a partir dos contextos: “O sentido real de cada palavra é determinado, no fim das contas, por toda a riqueza dos momentos existentes na consciência e relacionados àquilo que está expresso por uma determinada palavra” (...) “O sentido da palavra é inesgotável” (VIGOTSKI, 2009, p.466).
Isto posto, para o desenvolvimento teórico que ora propomos, achamos por bem focalizar diretamente um ponto central ao qual se direcionam as análises de Vigotski, uma vez que extrapolaria os parâmetros do presente estudo uma discussão que discorresse sobre os diversos aspectos do problema “Pensamento e linguagem”, visto que, numa visão geral, percebe-se o quanto de conhecimento acumulado sobre o assunto, não somente na área da psicologia, mas também na interdisciplinaridade que envolve tal tema, emana dos estudos de Vigotski. Discorrendo diretamente sobre o ponto central da discussão, que versa sobre o desenvolvimento dos conceitos na infância, teremos elucidado os principais elementos que estruturam a discussão sobre o pensamento e linguagem (no que toca o referencial teórico apontado anteriormente).
Por representar um marco nos estudos da teoria do pensamento e da linguagem, Vigotski inicia sua discussão retomando os estudos realizados por Piaget. Tais pesquisas representaram uma verdadeira revolução nos estudos do pensamento e linguagem da criança. O mérito de Piaget – utilizando-se de uma metodologia totalmente nova embasada pelo método clínico – é amplamente reconhecido nos estudos de Vigotski, porém, este encontra nela lacunas que sistematicamente faz questão de problematizar. Entre as questões que discute, encontra-se a conhecida polêmica entre a fala interior, fala egocêntrica e fala socializada (e por mais que esta última tenha menos relevância na
discussão, Vigotski aponta um erro de compreensão teórico/semântica bastante importante para o presente estudo).
O ponto inicial desta discussão recai sobre a questão do pensamento egocêntrico da criança, porque chama a atenção de Vigotski a maneira como Piaget concebe este fenômeno. Segundo ele, Piaget concentra neste fenômeno (fala egocêntrica) “(...) todas as peculiaridades do pensamento infantil (...)” (2009, p.27). Constituindo-se como “(...) nervo basilar de todo o sistema piagetiano, a pedra angular de toda sua construção teórica” (2009, p.27). E no que consiste tais considerações de Piaget? E porque Vigotski se contrapõe ao explicitado pelo cientista suíço?
A questão consiste no seguinte,
“Piaget define o pensamento egocêntrico como forma transitória de pensamento que, do ponto de vista genético, funcional e estrutural, está situado entre o pensamento autístico e o pensamento inteligente dirigido. Assim, a fase transitória que forma um elo genético, é uma formação intermediária na história do desenvolvimento do pensamento” (VIGOTSKI, 2009, p.28)
Esta concepção do pensamento egocêntrico como um elo entre pensamento autístico (individualizado, caracterizado por devaneios e que não está direcionado por um princípio lógico) e a inteligência dirigida não se fundamenta no entendimento de Vigotski, visto que, em nenhum momento do desenvolvimento filogenético ou ontogenético pode se tomar o pensamento autístico como ponto de partida para o desenvolvimento intelectual da criança (2009). Para Vigotski,
Piaget reduz a uma unidade toda a diversidade de traços particulares, que caracterizam a lógica da criança, e os transforma de multiplicidade desconexa, desordenada e caótica em um complexo estrutural de fenômenos rigorosamente concatenados e condicionados por uma causa única” (2009, p.45)
A partir desta concepção do pensamento egocêntrico e sua acentuada característica autística, Piaget desenvolve seu estudo sobre as funções da linguagem nas crianças em princípio dividindo-as em dois grupos: linguagem egocêntrica e linguagem socializada. Piaget caracteriza a linguagem egocêntrica a partir de sua função:
(...) essa linguagem é egocêntrica antes de mais nada, porque a criança fala apenas de si e principalmente não tenta se colocar no ponto de vista do interlocutor. Não lhe interessa se a estão ouvindo, não aguarda resposta, não experimenta vontade de influenciar o interlocutor efetivamente comunicar-lhe alguma coisa. (VIGOTSKI, 2009, p.46)
Já no que toca a função da linguagem socializada as características são outras, uma vez que “(...) a criança realmente troca ideias com outras; pede, ordena, ameaça, comunica, critica, pergunta”. (VIGOTSKI, 2009, p.46). Ou seja, Vigotski conclui que na concepção teórica desenvolvida por Piaget, a função da linguagem egocêntrica não altera (modifica) nada nas atividades da criança, sendo algo secundário na comunicação das mesmas, visto que “(...) não serve para fins de comunicação, não cumpre funções comunicativas, apenas copia, imprime ritmo (...) (VIGOTSKI, 2009, p. 50). Concluí-se, a partir das considerações de Piaget, que a linguagem egocêntrica tende a desaparecer uma vez que não realiza nenhuma função no direcionamento do comportamento da criança, caracterizando uma fase imatura do desenvolvimento do pensamento infantil.
A crítica (desconstrução) que Vigotski realiza em relação à teoria desenvolvida por Piaget, parte dos estudos experimentais que realizou juntamente com seus colaboradores. O primeiro princípio que contradiz os dados de seus estudos, refere-se à relação (realizada por Piaget) entre linguagem egocêntrica e pensamento egocêntrico. Ou seja, os estudos de Piaget caracterizam o fato, de a criança na idade escolar ainda apresentar linguagem egocêntrica, como uma ligação direta com o caráter egocêntrico do pensamento infantil. Os estudos elaborados por Vigotski e seus colaboradores, demonstram que esta relação entre pensamento e fala egocêntrica pode carecer totalmente de fundamento. Segundo os dados coletados e analisados demonstra o fato:
(...) de que a linguagem egocêntrica da criança não só pode não ser expressão do pensamento egocêntrico como ainda exercer uma função diametralmente oposta ao pensamento egocêntrico – a função de pensamento realista –, e assim aproximar-se não da lógica do sonho e do devaneio mas da lógica da ação e do pensamento racionais e sensatos. (VIGOTSKI, 2009, p.60)
Tal análise realizada por Vigotski provém não somente dos estudos experimentais que realizou – produzindo um material dificilmente questionável do ponto de vista teórico – , como também de sua concepção de linguagem egocêntrica que difere diametralmente da
concepção piagetiana. Segundo Vigotski “a linguagem egocêntrica surge com base na linguagem social, com a criança transferindo formas sociais de pensamento e formas de colaboração coletiva para o campo das funções psicológicas pessoais”. (2009, p.63,64). Não somente sua concepção da função da linguagem egocêntrica difere da de Piaget, mas também o seu entendimento do processo do desenvolvimento da linguagem. Em suas palavras,
A função primária da linguagem é comunicar, relacionar socialmente, influenciar os circundantes tanto do lado dos adultos quanto do lado da criança. Assim, a linguagem primordial da criança é puramente social; seria incorreto denominá-la linguagem socializada, uma vez que a esse termo se associa algo incialmente não social, que só se tornaria social no processo de sua mudança e desenvolvimento. (VIGOTSKI, 2009, p.63)
O que ocorre com a linguagem, segundo expressão de Vigotski, é que “a linguagem social da criança, que é plurificada” (VIGOTSKI, 2009, p. 63) se divide acentuadamente entre linguagem egocêntrica e linguagem comunicativa. Ou seja, para Vigotski, as duas formas de linguagem elucidadas por Piaget (egocêntrica e socializada) ambas são sociais, o que às difere é exatamente a maneira como são direcionadas. E “Com base na linguagem egocêntrica da criança, que se dissociou da linguagem social, surge posteriormente a linguagem interior da criança, que é a base do seu pensamento autístico quanto lógico” (VIGOTSKI, 2009, p.64).
Vigotski desenvolve a ideia que a linguagem egocêntrica é de extrema importância para os estudos da linguagem, pois, se para Piaget tal linguagem representava um degrau entre o autismo e a lógica, para Vigotski, se referia a uma fase transitória entre a linguagem exterior e a linguagem interior, pois “(...) muito facilmente ela se torna pensamento na verdadeira acepção do termo, melhor dizendo, assume a função de operação de planejamento, de solução de tarefas que surgem no comportamento”. (VIGOTSKI, 2009, p.136).
Piaget havia demonstrado em seus estudos que as crianças possuíam a tendência de “aplicar a si própria as mesmas formas de comportamento que antes eram formas sociais de comportamento” e que “a reflexão infantil surge depois de instalar-se no grupo infantil a discussão” (VIGOTSKI, 2009, p.64). Vigotski assume tal pressuposto elaborado por Piaget, e comenta que o mesmo processo ocorre quando a criança fala sozinha, ela recria um diálogo da mesma maneira que conversava com as outras crianças. Para ilustrar essas etapas de desenvolvimento da linguagem, Vigotski elabora o seguinte esquema:
“linguagem social – linguagem egocêntrica – linguagem interior”. (2009, p.65). E seu raciocínio culmina numa importante definição “O movimento real do processo de desenvolvimento do pensamento infantil não se realiza do individual para o socializado mas do social para o individual. “(VIGOTSKI, 2009, 67).
O estatuto da linguagem, sobretudo da função da palavra no processo de constituição humana está no cerne dos estudos que objetivam a compreensão da formação conceitual. Este complexo processo, que se consolida no período da adolescência (VIGOTSKI, 2009) tem na palavra – enquanto signo – o seu principal elemento mediador. Não se tratando (também) de um elemento estático e imutável, ou seja, o conceito interage, sofre influências das relações sociais – de significações – e do pensamento. Vigotski enfatiza o papel da palavra nos seguintes termos:
(...) a questão central desse processo é o emprego funcional do signo ou da palavra como meio através do qual o adolescente subordina ao seu poder as suas próprias operações psicológicas, através do qual ele domina o fluxo dos próprios processos psicológicos e lhes orienta a atividade no sentido de resolver os problemas que tem pela frente. (2009, p.169)
E mais adiante enfatiza o papel da palavra na formação conceitual:
O conceito é impossível sem palavras, o pensamento em conceitos é impossível fora do pensamento verbal; em todo esse processo, o momento central, que tem todos os fundamentos para ser considerado causa decorrente do amadurecimento de conceitos, é o emprego específico da palavra, o emprego funcional do signo como meio de formação de conceitos. (2009, p.170)
Essas duas citações – literais – de Vigotski nos fornecem subsídios necessários para embasar o leitor na compreensão dos processos que envolvem a função da linguagem no desenvolvimento das funções psicológicas superiores. Ou seja, o emprego da palavra enquanto processo de significação (que se relaciona tanto com o social quanto com o subjetivo, como significado e o sentido) se constrói na apropriação dos conceitos socialmente partilhados. Tal processo – ocasionado pela aquisição da linguagem – propicia ao sujeito uma maior autonomia no direcionamento do próprio comportamento. A discussão em si é muito mais abrangente do que expomos acima, inclusive por se tratar de um assunto
discutido e estudado por diversas áreas do conhecimento (psicologia – várias vertentes – linguística, filosofia, etc.). Vigotski entra nesta discussão trazendo à tona a colaboração de todas essas áreas. Porém, não nos cabe aqui – por questões de parâmetros e objetivo – adensar essa discussão, pois, somente no que toca a questão da formação conceitual um adensamento exigiria uma explicação aprofundada sobre as diversas fases (e subfases) por qual passa a criança no seu processo de desenvolvimento conceitual.
O que objetivamos ressalvar – entre outras coisas – refere-se ao caráter funcional e diretivo que a linguagem exerce no comportamento humano com base no processo de significação, “(...) ou seja, ao processo de produção de signos e sentidos (...)” (SMOLKA, 1995, p.2), construídos historicamente.
Este processo de significação, que surge por meio das relações sociais, se constitui “(...) no movimento de produção/construção conjunta dos interlocutores em interação” (SMOLKA, 1995, p.5). Neste sentido,
(...) dizemos que o homem produz linguagem, e se produz simultaneamente na/pela linguagem. Neste trabalho social e simbólico de produção de signos e sentidos, a linguagem não é só meio e modo de (inter/oper)ação, mas também é produto histórico, objetivado; é constitutiva/constituidora do homem enquanto sujeito (da e na linguagem). (SMOLKA, 1995, p.3)
A linguagem não figura no desenvolvimento humano somente como uma característica do processo de desenvolvimento, mas passa a exercer domínio e direcionar as operações psicológicas. A clareza na formação desses processos, nos auxilia na compreensão da influência que a linguagem exerce sobre os processos volitivos.