Descartes contribuiu, sem dúvida, para a história do conhecimento. No entanto, um pensamento não se cria sozinho, ou seja, não elaboramos um pensamento partindo do nada, ou apenas do sujeito que pensa (DALMÁSIO, 1996). O pensamento e a sua expressão – a linguagem – se dão nas relações sociais. Logo, para pensar é preciso remeter-se a um outro, mesmo quando esse outro for um desdobramento do próprio eu (diálogo interior).
O pensamento, o conhecimento e a maneira como os expressamos estão intimamente imbricados às questões de ordem social, histórica e cultural, tanto em seu aspecto macro quanto micro. Só somos humanos porque nos comunicamos. Portanto, poderíamos reavaliar o cogito cartesiano e dizê-lo assim: Comunico, logo existo. Existo como ser-humano; existo como um animal político (Aristóteles); existo como um ser no mundo e para o mundo. Mas, sobretudo, existo para o outro, pois sei que o outro existe para mim.
Buscando não separar conhecimento experienciado e conhecimento teorizado, Mikhail Bakhtin, no início do século passado, concebeu um novo paradigma epistemológico para as ciências humanas.
Não se pode negar à nossa época o grande mérito de ter se aproximado do ideal da filosofia científica, mas tal filosofia científica não pode ser mais que uma filosofia especializada, isto é, uma filosofia dos diversos domínios da cultura e de sua unidade, sob a forma de uma transcrição teórica desde o interior dos objetos em si da criação cultural e da lei imanente de seu desenvolvimento. Portanto, esta filosofia teórica não pode pretender ser uma filosofia primeira, isto é, uma doutrina não sobre a criação cultural unitária, mas sobre o existir-evento unitário e singular. (BAKHTIN, 2010, p. 68)
Segundo ele, a filosofia contemporânea não fornece princípios para a união desses dois tipos de conhecimento, e nisso consiste a sua crise.
Estes dois mundos não se comunicam entre si e não existe um princípio que sirva para incluir e envolver o mundo válido da teoria e da cultura teorizada no existir-evento singular da vida. O ser humano contemporâneo se sente seguro, com inteira liberdade e conhecedor de si, precisamente lá onde ele, por princípio, não está, isto é, no mundo autônomo de um domínio cultural e da sua lei imanente de criação; mas se sente inseguro, privado de recursos e desanimado quando se trata dele mesmo, quando ele é o centro da origem do ato, na vida real e única. (BAKHTIN, 2010, pp. 69-70)
Aqui o jovem Bakhtin já apontava para o perigo de se estabelecer para o mundo objetivo um lugar e para o mundo subjetivo outro.
Esse ensaio de Bakhtin, intitulado “Para uma filosofia do ato responsável”, escrito no início dos anos vinte do século passado, inacabado e não publicado em vida, agora traduzido e publicado em português (bem como em outras línguas, como o italiano e o espanhol, por exemplo), é um dos primeiros trabalhos que trazem a gênese da filosofia bakhtiniana. Nele encontramos repetidamente a postura desse filósofo diante do mundo e da vida no seu mais amplo sentido.
Bakhtin dialoga com vozes, ora explícitas, ora implícitas, assumindo os riscos que uma exposição carrega. Deste modo, ele não só enfrenta a visão positivista de ciência, sobretudo nas áreas das humanidades, mas também descarta absolutamente as visões puramente subjetivistas, individualistas e idealistas, que buscam apenas no sujeito, como ser total e completo, as origens do conhecimento, e, ainda, as visões que não acreditam na possibilidade do conhecimento.
Percebe-se, com Bakhtin, que todas essas visões, quando se fecham em si mesmas, apresentam o mesmo problema. Elas são monológicas, autoritárias, irresponsáveis, e não passam de teoricismos que tentam no fundo impor a sua verdade, única e acabada, mesmo aquelas que dizem não existir verdade alguma.
Como já foi dito, o ensaio em questão (“Para uma filosofia do ato responsável”) é bastante complexo, muito denso, apresentando várias limitações, seja pelo seu caráter de “rascunho incompleto”, seja pela época e circunstâncias em que foi escrito. Porém, ele é perfeitamente coerente com o conjunto da obra bakhtiniana, a qual, por mais profunda, consistente, contundente que nos pareça, é antes de tudo dialógica, aberta e inacabada. Inacabada não no sentido medíocre, mas no sentido de dar àquele que a recebe, o direito de respondê-la, enfrentá-la, ou compartilhá-la.
É por isso que Bakhtin não concebe a verdade do conhecimento como uma verdade fixa em visões de mundo, que, por si mesmas, foram se constituindo/construindo a partir do entre, das relações históricas, sociais e culturais entre os sujeitos que defendem uma ou outra visão. Ou, em termos bakhtinianos, entre o eu e o outro, que podem respectivamente aqui serem assumidos entre o mundo que se
Bakhtin era um homem apaixonado pela vida, pela palavra, pelo ser humano. Ele pesquisava o outro através do encontro com este. Reconhecia no outro e no contato com ele as medidas do seu próprio eu. “O outro me dá a medida de mim.”
Mesmo conhecendo o lado feio da vida e dos homens, Bakhtin não deixou de ver a beleza na feiura. Do mesmo modo, é, também, possível ver no discurso do rap a beleza poética com que se trata a “feiura social” por ele representada. Assim como Bakhtin, o rapper se mostra como um sujeito interpenetrado por vozes e ecos do grande tempo, consciente do seu papel social e do seu compromisso com a palavra e com o outro.
Neste trabalho, pretendo articular/orquestrar a voz do rap, a voz da academia e a minha própria voz de pesquisadora, apontando para uma possibilidade metodológica de compreensão e de conhecimento em ciências humanas, o que de fato só acontece a partir do reconhecimento das múltiplas vozes, múltiplos planos, múltiplos lugares e sujeitos. Através de uma espécie de tradução busco a compreensão do outro, da sua palavra, da sua singularidade.
Para isso é preciso assumidamente estar aberto e sensível às fragilidades humanas, ser hospitaleiro e ir ao encontro com o outro numa atitude de acolhimento, sem, no entanto, se perder de vista (tarefa muito difícil em um mundo capitalista/individualista, porém não é impossível).
Nesse sentido, entre aquilo que me localiza e aquilo que me extralocaliza, podemos buscar os indícios e marcas desses momentos de singularidades, porém não podemos fechar o eu e o outro em entidades fixas, inertes, presas a um único território ou uma única identidade. Segundo Susan Petrilli (2010), devemos tomar cuidado ao usar a palavra identidade. Para ela, identidade é uma palavra “feia” e arriscada. Não é possível reduzir a pessoa humana a uma única identidade. A questão da alteridade não
pode ser resolvida com uma simples demarcação de fronteiras, “guetizando” os territórios e os sujeitos, condicionando-os aos seus espaços físicos e sociais. Se fizermos isso, estaremos, sem dúvida, empobrecendo não só a existência do outro como também a nossa, limitando o nosso repertório interacional, e perdendo a possibilidade de experimentar novos ângulos de visão, novas realidades, novas posturas perante a minha existência singular e única e a minha existência refratada e coletiva.
Nesse sentido, Bakhtin nos convida a tomar distância do nosso próprio eixo, do nosso próprio eu, da nossa própria comunidade, seja ela pequena ou mesmo uma nação. Tomar distância do nosso próprio tempo cronológico é não mais nos identificarmos conosco mesmo (completamente). Pois a incapacidade de nos distanciarmos é, também, a incapacidade de criticar, inclusive, nossa própria existência.
Para Augusto Ponzio (2010), todo o trabalho de Bakhtin gira em torno desse distanciamento. Um distanciamento dialético, pois ao mesmo tempo em que você se distancia, você também não pode se perder. Podemos chamar esse movimento em conformidade com Bakhtin (2005, p.29) de “movimento turbilhão” (BAKHTIN, 2005, p.29) em que as forças centrípetas e centrífugas atuam no sentido de forjar o espaço do entre, da interação discursiva, do diálogo, enfim. Portanto, é preciso se perguntar:
Quem sou eu? [em tom sério]
Mas, sobretudo:
Este sou eu? [em tom cômico]
Assim, parece que Bakhtin continua a nos convidar a deixarmos a arrogância e a soberba das verdades fechadas e monológicas para nos enveredarmos ao encontro com o outro nas suas mais diversas circunstâncias e realidades. Se me fechar na minha identidade, não ouço nem a minha própria voz, que necessita do eco alheio para se constituir própria. Portanto, é preciso não apenas ir ao encontro do outro que está fora de mim, mas também do outro que se projeta e se encontra em mim.