6.1 As turmas: os agrupamentos IA e IB
6.1.2 O período da tarde: crianças e monitoras
As crianças acordavam, as monitoras colocavam seus calçados, guardavam os colchões e começavam a chamá-las para o refeitório para tomarem o café. Este momento ocorre da mesma maneira que o café do período da manhã. O ritual permanece; as monitoras servem a criança e esta deve seguir as regras impostas. O que é mais cobrado é a postura ao sentar-se à mesa, que deve ser a do corpo virado para dentro. Esta postura é cobrada a todo momento. Isto é verificado através das falas das monitoras: “O Fernando, senta direito, perninha de índio”.
Além disso, não é permitido que a criança fuja ao ritual estabelecido. A hora do café tem o objetivo certo, alimentar-se e nada que extrapole o previsível, é desejado. Apesar do controle, as crianças também resistiam a esta forma de conduta, conversavam, mexiam-se, brincavam, enfim, manifestavam-se de diferentes formas dentro dos limites que eram impostos, já que o
poder do adulto era maior que o da criança. Destaquei um episódio para apresentar o controle exercido e as formas de transgressão das crianças. Este episódio revela como o imprevisto (a chuva) não é bem aceito e explorado, mas proibido.
Episódio 11: Agrupamento IB
As crianças comiam e algumas viravam o corpo para fora da mesa. A monitora A recolhia as canecas e virava-as para dentro da mesa.
O Leandro falava e virava o corpo para fora da mesa, a monitora A se aproximou e virou seu corpo para dentro.
A monitora MMA passava pano em uma mesa e a chuva continuava. O Leandro falava para o colega: Está chovendo.
A monitora MA saiu do refeitório. Algumas crianças levantam, a monitora A saiu do banheiro.
Monitora A: Por que você está sem o sapato? (colocou a sandália no Fernando). Laís senta direito. Marcos, você está comendo, senta direito.
A monitora A foi falar com a monitora MA: A TV está ocupada, está chovendo (não deu para escutar tudo, enfim, parecia que combinavam o que iam fazer).
A monitora A pegou o pano e limpou a mesa.
Monitora A: Ô Fernando senta direito, perninha para dentro. A monitora A estava sentada.
Monitora MA: vem comigo quem já acabou.
As crianças levantaram e foram correndo. O Leandro e o Fernando pararam no galpão e ficaram olhando para a porta, abaixavam para ver a chuva.
A monitora MA gritou do refeitório: Leandro e Fernando podem ir para a sala. Eles continuaram, ela foi até o local, pegou na mão do Fernando e foi para a sala, o Leandro foi também. (DC, 11/11/04).
Após o café, as crianças voltavam para a sala. Neste momento, as monitoras se dividem, algumas realizam a troca e outras ficavam com as demais. É também a hora que decidem o que vão fazer. “A monitora SI disse: vamos lá fora?”. “A monitora LU respondeu: O sol não está quente? Esse não é
o melhor horário, mas não tem outra opção”. “Monitora SI: Vamos então?”. “Monitora LU: vamos”. (agrupamento IA, 28/10/04). Outra situação semelhante aconteceu no agrupamento IB: “A monitora A
abriu a porta, e as crianças foram entrando. Ela disse: vamos pegar brinquedo? (ela pegou uma caixa com pratos, copos, panelas, colher... e foi dando um pouco para cada criança, dividindo os brinquedos)”. (agrupamento IB, 27/09/04).
As crianças dos agrupamentos IA e IB, ficam dentro da sala e no solário. Não presenciei, nas visitas realizadas, as crianças ocuparem outros espaços, como o parque, a EMEI, a entrada da creche, o galpão e outros. Mesmo limitando-se à sala e ao solário, não vi qualquer experiência diversificada que tenha sido explorada pelas crianças e proposta pelas monitoras.
Há uma improvisação do trabalho realizado com as crianças. Elas fazem o que é mais prático e possível de ser feito naquele momento, já que não houve um planejamento prévio.
Assim, como disponibilizar materiais, objetos e brinquedos diferentes? Como proporcionar às crianças ambientes diferentes? O possível é abrir a porta do solário, colocar os brinquedos disponíveis na sala, cantar, colocar um CD, reduzindo as experiências das crianças e seu repertório.
Quanto à relação das monitoras com as crianças, observei que a qualidade das interações, dos diálogos, das brincadeiras depende de cada monitora, algumas cantam, conversam com as crianças. “As crianças brincavam, a monitora LU começou a cantar, interagindo com as crianças próximas e conversava com a Roberta”. (agrupamento IA, 28/10/04). Algumas vezes, entram nas brincadeiras das crianças. “A monitora MA disse: Agora vamos fazer bolo (sentou no chão). Uma menina deu uma xícara para ela.
Monitora MA: Eu vou beber. A monitora A sentou também e algumas crianças ficaram em sua volta, brincavam de dar comida para ela e ela também dava. MA: Que gostoso! Está bom? Está gostoso? (as crianças faziam gesto com a cabeça confirmando). (agrupamento IB, 27/09/04).
Outras, apenas fazem a troca, oferecem as refeições, olham as crianças, sem muita interação. “A monitora SI encostou ao muro do solário e ficou olhando as crianças.” (agrupamento IA, 28/10/04).
Com maior ou menor interação, a vigia e o controle sobre a criança permanecem. A ela é permitido apenas ter atitudes e comportamentos que são aprovados e desejados aos olhos das monitoras. Quando a criança inventa algo que não é aprovado, é repreendida verbalmente.
“Algumas crianças brincando de fazer “comidinha” começaram a bater os copos de plásticos no chão. A monitora A disse: Pára de bater”. (agrupamento IB, 27/09/04). Ou quando experimenta também é inibida: “O
Leandro tomava água e colocava a mão dentro do copo. A monitora A disse: Você está lavando a mão (tirou seu copo e guardou). Ele começou a chorar e pedia água, depois parou”. (agrupamento IB, 27/09/04). Há um desencontro entre a visão do Leandro e da monitora A, ele explorando a água e ela, com olhar de reprovação em relação à sua atitude. Olhar que não observa, que não conhece os interesses e as curiosidades das crianças, que reprime, coage e limita sua imaginação.
Após este momento, as monitoras começavam a preparar as crianças para o jantar. Todos os dias o cardápio é o mesmo: é servida uma sopa independente do clima.
Por volta das 15h40min o jantar começa a ser servido. Como todos os momentos de refeição, o ritual é o mesmo. Até na última refeição, momento que se aproxima do final do dia, as cobranças permanecem com a mesma intensidade e rigor como no início do dia. “As monitoras entregaram os pratos e davam para as crianças. A Maria e o Vagner começaram a bater com a mão na mesa. Monitora RO: Ah, ah, agora silêncio, na hora de comer. O Vagner terminou de comer e virou o corpo para fora da mesa. Monitora LU: V senta direito”. (agrupamento IA, 28/10/04).
No agrupamento IB, a situação também é a mesma: “Algumas crianças que terminavam,
levantavam da mesa. A monitora E disse: Fabiana senta”. (agrupamento IB, 25/11/04).
Como a ordem deve ser seguida, tudo o que foge a este padrão é reprimido, até situações que são imprevisíveis, que despertam o interesse e a curiosidade das crianças, não são exploradas, ao contrário são coibidas. Como no episódio que relata a curiosidade das crianças pela chuva, neste caso, a situação é semelhante.
Episódio 12: Agrupamento IB
Apareceu uma pomba andando pelo refeitório, a Maria Antonieta e o Fernando levantaram e saíram correndo atrás dela. A monitora A falou: Maria Antonieta e Fernando voltam.
As monitoras recolhiam os pratos, serviam mais sopa e limpavam a mesa. O Vagner e a Maria Antonieta levantaram em direção a pomba. A monitora T trouxe os dois de volta para a mesa. (DC, 25/11/04).
Além da reprovação das atitudes, a ameaça também é presente: “O Alexandre desceu do banco
e ficou embaixo da mesa. A monitora LU falou: Olha o Alexandre. A monitora SI disse: Vem Alexandre, você vai para a sala (ela o colocou sentado). Agora come a comida”. (agrupamento IA, 28/10/04).
Terminado o jantar, as crianças voltam para a sala, no agrupamento IA as monitoras colocam os colchões para as crianças dormirem.
O ritual se repete como no horário do descanso que ocorre antes do almoço. Selecionei um exemplo para ilustrar o momento final do dia.
Episódio 13: Agrupamento IA
Monitora SU: Natanael pode deitar no seu colchão, pode parar de ficar zanzando (ele viu uma bolinha no chão e foi pegá-la). Você também Tatiana, Ricardo.
A monitora SU sentou entre o Ricardo e a Laura.
A Roberta ficou em pé, o Igor estava sentado, o Vinícius se mexia. Monitora SU: Ô Vinícius deita aí no seu colchão.
Quatro crianças estavam deitadas, algumas sentadas, o Vinícius e o Tadeu no berço, o Wilian ficou com a bolinha, a Vanessa pegou um livro e ficou chacoalhando-o, a Roberta andava pela sala.
Monitora SU: Vem Roberta aqui.
Monitora SI: Vagner deita no seu colchão (estava em pé).
A Simone e o Vagner seguravam na barra e mexiam o corpo, pulando. A Tatiana levantou e foi para a barra.
Monitoras SI e SU: Vanessa (chamando a menina). O Alexandre começou a engatinhar.
A monitora RO saiu do banheiro.
Enquanto isso, o Alexandre, a Tatiana, o Natanael, a Roberta , o Wilian, o Alberto e a Simone estavam andando pela sala.
Monitora SI: Vem Alexandre. Monitora SU: Vem Roberta.
Monitora SI: Deita Bruno. (DC, 02/12/04).
O embate entre a vontade das monitoras e das crianças se inicia. As monitoras tentam colocar as crianças nos colchões e elas sinalizam que não querem dormir, levantam, andam pela sala, emitem sons, enfim, através de diversas linguagens mostram seus desejos e vontades. “A monitora SU falava: Deita lá Alexandre. As crianças deitavam e levantavam, andavam pela sala. Algumas sentavam juntas no mesmo colchão. A Laura entrou em um carrinho de bebê que estava na sala. A monitora SU falou: Olha lá, vamos sair Laura, pode deitar e tirar um cochilo, você também Roberta”. (DC, agrupamento IA, 02/12/04).
Apesar da recorrência de sinais emitidos pelas crianças, parece que não eram visíveis aos olhos das monitoras: “A monitora RO diz: Eles estão dormindo? A monitora SU responde: Estão querendo”. (saiu da sala). (DC, agrupamento IA, 02/12/04).
Observava que este era um desejo apenas das monitoras e não das crianças que continuavam inventando o que fazer.
No agrupamento IB, as monitoras dão as chupetas às crianças, abrem o solário, colocam alguns brinquedos na sala ou cantam. É visível nos dois agrupamentos, a presença de uma avaliação em relação ao comportamento das crianças de maneira constante e intensa até o momento da saída.
6.2 As turmas: os agrupamentos IIB e IIC
Abaixo segue um quadro síntese da organização do dia dos agrupamentos II, de maneira a apresentar todos os momentos e suas diferenças em relação ao agrupamento I.
10. Quadro síntese da organização do dia dos agrupamentos IIB e IIC
Momentos do cotidiano Distribuição do tempo Espaço Atores Entrada das crianças
Roda 7h30min- 8h15min
Sala Professora e monitoras
Café 8h15min-
8h30min
Refeitório Professora e Monitoras
1- Experiências diversas/Dirigidas pela professora 2- Brincadeiras 8h30min- 10h20min 1-Sala 2-Parque/Buraco/Galpão 1- Professora 2- Monitoras Higiene 10h20min- 10h30min
Banheiro/Galpão Professora e Monitoras
Almoço 10h30min-11h Refeitório Professora e Monitoras
Escovação20 11h-11h15min Banheiro/Galpão Professora e Monitoras
Descanso 11h15min-
13h40min
Sala Professora e Monitoras
Troca21/Café 13h40min- 14h/14h- 14h15min Sala/Refeitório Monitoras 1- Experiências diversas/Dirigidas pelas monitoras 2- Brincadeiras 16h15min 1- Sala 2-Parque/Buraco/Galpão Monitoras Higiene 15h30min- 15h40min Banheiro/Galpão Monitoras
Jantar 15h40min-16h Refeitório Monitoras
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A escovação era realizada com maior freqüência no agrupamento IIB, no IIC poucas vezes presenciei esta prática.
21
Saída 16h15min Sala Monitoras