2 MEIO AMBIENTE E PAISAGEM
2.3 Percepção da Paisagem pelo Visitante
O estudo da percepção do indivíduo é bastante utilizado pela psicologia, que a vê como um processo dinâmico pelo qual o indivíduo recebe estímulos e lhe atribui um significado, baseado em memórias de aprendizado, expectativas, fantasias, crenças, atitudes e personalidade.
Para Bennett e Karssajian (1975 apud Sperling, 2004, p. 22) o indivíduo passa por fases de percepção, tais como:
Subjetiva: é a forma como o indivíduo se apropria de determinada coisa. Nesta fase ocorre um “viés perceptual” entre o estímulo emitido pelo ambiente e aquele recebido pelo indivíduo;
Seletiva: devido ao consumidor estar em contato com muitos estímulos simultâneos, acaba por perceber (selecionar) apenas os de seu interesse;
Simplificada: parte do pressuposto anterior, onde o indivíduo não é capaz de perceber todas as unidades de informação dispostas;
Limitada no tempo: a informação percebida é armazenada por pouco tempo, a menos que, durante este período, seja desencadeado um processo de memorização;
Cumulativa: pressupõe que o indivíduo olha o produto, vê uma propaganda, escuta o que outras pessoas dizem, examina a embalagem e, somente depois disso, estrutura sua impressão global.
Diante destas fases propostas, entende-se que a percepção é subjetiva ao indivíduo (Swarbrooke & Horner, 2002), ou seja, é própria e exclusiva de cada um, assim como sua história passada, seu meio ambiente físico e social e sua personalidade. Cada ser humano elabora seleções pessoais e julgamentos de valor de acordo com a análise individual de sua percepção. Essa análise sofre influências sociais, culturais, ambientais e emocionais, conforme o tipo de uso da paisagem para cada pessoa.
Acredita-se, ainda, que nem todos os estímulos do meio ambiente, como a paisagem, são percebidos simultaneamente pela mesma pessoa (YÁZIGI, 2002). Boullón (2002, p. 136)
reforça essa idéia ao afirmar que “como o homem faz contato com o mundo exterior por meio dos sentidos, essa experiência depende, obviamente, de sua capacidade sensorial”. Portanto, visão, audição, pressão, tato, temperatura, cinestesia, dor, gosto e sentido se combinam com a percepção, sendo a visão o sentido mais completo e também o mais importante.
A concepção de Silva (2004), no que tange à percepção da paisagem, reforça o comentado pelos autores de que é uma interpretação particular do ambiente e acrescenta a afirmação de que visitantes e autóctones focalizam aspectos diferentes de um mesmo ambiente. “O que para o turista é uma experiência essencialmente estética, para o nativo é uma avaliação do próprio modo de vida” (SILVA, 2004, p. 31). Para exemplificar, a autora cita cidades turísticas brasileiras como o Rio de Janeiro e suas favelas, nos morros, e São Paulo com suas ruas centrais repletas de camelôs.
Figueiredo & Manhi (2006, p. 158) salientam que:
a percepção é fundamental para o conceito de paisagem, pois distribui a significação entre o objeto e o sujeito percebedor. A percepção da paisagem se dá de uma forma complexa, por meio de um importante elemento do processo, chamado juízo perceptivo, que seleciona aquilo que é percebido e o analisa.
A percepção é fortemente influenciada pelas nossas próprias motivações, porém Pires (2005, p. 2) alerta apontando que:
a relação sensorial do homem com a paisagem não é só visual. Font (1992) argumenta que há uma relação global onde a paisagem, ale de algo visível, é constituída de ruídos, sons, odores, temperaturas e outras impressões sensoriais repletas de conteúdo espacial e temporal. Contudo, a visão assume um papel predominante na percepção humana da paisagem. De toda a maneira, a percepção individual da paisagem é um ato criativo que é influenciada pelas próprias características fisiológicas do ser humana, pelo seu caráter e personalidade e também por suas influências sociais e culturais.
O observador, motivado pela informação que já tinha e pela que está recebendo no próprio lugar, é possível que, espontaneamente, sua memória aporte imagens-lembrança de outro lugar conhecido, para que, comparando com o que está vendo, possa estabelecer semelhanças e diferenças que enriqueçam as imagens que está elaborando (Fig. 9). Assim, o processo de formação de imagens se origina no contato do sujeito/observador com o meio ambiente (objeto), ativando o mecanismo da percepção mediante seus sentidos e sua vontade, na seleção do campo visual (BOULLÓN, 2002).
Figura 9: Formação de imagens da paisagem. Fonte: Boullón (2002, p. 156).
Ruschmann (1990) afirma que o que influencia a percepção do consumidor em turismo são: a) as expectativas em relação aos produtos turísticos; b) a propaganda; c) as experiências de viagens; e d) as informações (recomendações de amigos e família) de quem conhece ou já conheceu o local a ser visitado.
Porém o termo “olhar” também é utilizado na área do turismo e o que Urry (2001) afirma ser fundamental para o turismo. Numa viagem, pelo menos parte de nossas experiências consiste em lançar um olhar para um conjunto de diferentes cenários, paisagens ou vistas de cidades que não nos são comuns ou habituais. Portanto, Urry (2001, p. 16) defende que:
Não existe um único olhar do turista enquanto tal. Ele varia de acordo com a sociedade, o grupo social e o período histórico. Tais olhares são construídos por meio da diferença. Com isso quero dizer que não existe apenas uma experiência universal verdadeira para todos os turistas, em todas as épocas. Na verdade, o olhar do turista, em qualquer período histórico, é construído em relacionamento com seu oposto, com formas não-turísticas de experiência e de consciência social: o que faz
Meio Natural Objeto
Campo Visual Sujeito Vontade Sentidos Percepção Pensamento Consciência Significação Imagem-lembrança Memória Pré- paisagem Imagem da paisagem
com que um determinado olhar do turista depende daquilo com que ele contrasta; quais são as formas de uma experiência não-turística28.
O mesmo autor aponta que a mídia, como o cinema, a televisão, a literatura, as revistas, os discos e os vídeos constroem e reforçam o olhar do turista. O olhar no turismo é direcionado para aspectos da paisagem do campo, da cidade, da praia, enfim, que os separam da experiência de todos os dias, como algo que se situa fora daquilo que é habitual.
Portanto, “[...] o olhar demonstra como os turistas são, de certo modo, praticantes da semiótica, lendo a paisagem à procura de significados ou de certos conceitos ou signos preestabelecidos, que derivam dos vários discursos da viagem e do turismo” (URRY, 2001, p. 29). Esta análise do autor permite um entendimento do que, realmente, o olhar do turista irá captar em certa paisagem, ou o que a percepção subjetiva dele permitirá observar. Isso também é defendido por Walter (1982 apud Urry, 2001) ao apontar que a capacidade de percepção é imensamente variável, dependendo de determinadas concepções da natureza e das circunstâncias nas quais as pessoas esperam contemplá - la.
Portanto, compreender como os indivíduos percebem determinado ambiente, conhecer seus conceitos e valores, identificar o que mais desperta atenção, bem como quais são suas expectativas e satisfações são tarefas relevantes para planejar e desenvolver ações ambientais bem sucedidas, utilizando como base a realidade percepcionada do público-alvo do destino turístico em questão, o Vale dos Vinhedos.