2. Revisão da literatura
4.3 Estudo de caso da governança ambiental e da mobilização social contra
4.3.2 Percepção de risco de queimadas e mudanças climáticas
O estudo de Percepção dos Riscos Ambientais (ANDRADE et al., 2011), citado anteriormente, calculou o nível de percepção que os moradores da Microbacia têm para 11 cenários considerados problemas e, na sequência, para 22 riscos que ocorrem na região da Microbacia do Córrego do Urubu.
Os 11 cenários analisados (AIDS, mudanças climáticas, terremotos, maremotos, lixo, crescimento urbano desordenado, pobreza, perda de biodiversidade, terrorismo, violência e epidemias) foram graduados pelos participantes com valores de 1 (pouca preocupação) a 4 (muita preocupação).
O resultado, apresentado no Gráfico 4.1, indica que seis dos 11 problemas são vistos pelos moradores com um grau de preocupação alto, com média acima de três pontos, dos quatro possíveis. Entre esses seis problemas está a questão das mudanças climáticas.
AIDS Mudanças climáticas Terremotos Maremotos Lixo Crescimento urbano desordenado Pobreza Perda de biodiversidade Terrorismo Violência Epidemias 0,00 0,50 1,00 1,50 2,00 2,50 3,00 3,50 4,00
Percepção média dos problemas
valores entre 1 (pouca preocupação) e 4 (alta preocupação)
Preocupação média
Gráfico 4.1 - Preocupação média que os moradores da Microbacia do Córrego do Urubu têm quanto a 11 problemas>
Fonte: Pedroso e Santos (2008)>
Quando perguntado especificamente sobre os impactos das mudanças climáticas globais, a percepção da população da Microbacia é que essas mudanças afetam todos os ambientes, pois de uma escala de 1 (pouco impacto) a 4 (alto impacto) todos os cenários receberam nota média superior a três pontos (florestas, rios, geleiras, oceanos, tempestades, secas, biodiversidades, plantas, animais, comunidades rurais e urbanas, cidades, chuvas e disponibilidade de água).
Em relação às informações sobre as mudanças climáticas, a única instituição que recebeu nota média de confiança, superior a três pontos, em escala de um a quatro, foi o das universidades, acima inclusive dos ministérios do Meio Ambiente e de Ciências e Tecnologia, além dos meios de comunicação em massa, como televisão e internet. As associações de moradores e as equipes técnicas de ONGs
receberam notas médias acima de 2,5 pontos, estando entre as sete principais fontes de informação para os moradores, entre as 16 possíveis.
Desses estudos, infere-se que os moradores da Microbacia do Córrego do Urubu têm uma percepção importante sobre as mudanças climáticas e seus efeitos e que dão valor importante às origens das informações sobre essas mudanças.
Para conhecer os riscos a que as pessoas estão submetidas, na percepção dos próprios entrevistados, foram elaboradas questões que apresentavam 22 riscos para que fossem graduados quanto ao impacto no ambiente, na propriedade e sobre os bens, variando de 1 (baixo impacto) a 3 (alto impacto), e a frequência de ocorrência variando de 1 (nunca) a 4 (com frequência).
Dos valores médios por pessoa, montou-se uma matriz de percepção de risco multiplicando os valores de frequência e do impacto das ameaças, chegando aos seguintes valores: de 3 a 8- risco insignificante, de 8 a 14- risco tolerável, de 14 a 28- risco alto e de 28 a 36- risco crítico.
O Gráfico 4.2 apresenta a média dos resultados dos entrevistados para a percepção dos 22 riscos. Destes, somente a epidemia de dengue foi classificada como insignificante, enquanto erosão, seca, enxurrada, queimada, poeira e estrada esburacada são consideradas riscos altos.
Ressalta-se que neste tópico é trabalhado o termo queimada como sinônimo de incêndios florestais, uma vez que é usado na pesquisa e nos questionários aplicados. Não foi feita diferenciação dos termos neste tópico, pois as diferentes terminologias são usadas de maneira mais formal, sendo que para a população rural, de maneira geral, queimada e incêndio florestal são sinônimos.
Gráfico 4.2 - Percepção média de risco ambiental para cada uma das 22 ameaças na microbacia do Córrego do Urubu.
Fonte: Andrade et al. (2011).
Por se tratar de uma percepção média para a população da Microbacia do Córrego do Urubu, não existe nenhuma ameaça com percepção de risco crítico, pois não se apresentam em todas as áreas da Microbacia com a mesma intensidade. No Gráfico 4.3, onde o risco é analisado por ameaça e por região da microbacia, o resultado é diferente.
Gráfico 4.3 - Percepção media dos riscos ambientais de 22 ameaças para as cinco regiões identificadas na Microbacia do Córrego do Urubu.
Fonte: Andrade et al. (2011).
De acordo com o Gráfico 4.3, a percepção do risco ambiental à ameaça de queimada aparece como crítica (acima de 28 pontos) na região de Olhos d’Água, exatamente onde há a aproximação com o Bairro Taquari, que é uma área bastante povoada e de crescimento urbano. Já nas outras regiões, a percepção do risco é alta (14 a 28 pontos).
Na Figura 4.6 é espacializada a percepção do risco de queimadas por indivíduo entrevistado.
Figura 4.6 - Percepção de risco a queimadas na microbacia do Córrego do Urubu. Fonte: Andrade et al. (2011) – editado
Esse mapa mantém o padrão por Microrregião, apresentando os valores mais altos para a região de Olhos d´Água e Ladeira, enquanto as outras regiões apresentam variações maiores, desde percepção de risco insignificante até crítico.
A população que mora na região da Microbacia do Córrego do Urubu, como mostrado no ecomapeamento, escolheu morar ali por causa das características ambientais existentes, como os remanescentes de vegetação e rios. Graças ao interesse pela manutenção das características locais, os moradores estão atentos aos distúrbios que ocorrem, como as queimadas, apontadas como uma ameaça de risco elevado.
Aos moradores também foi solicitado que indicassem se as ameaças citadas sofreram algum tipo de mudança na sua frequência, desde que eles se mudaram para a Microbacia. O Gráfico 4.4 apresenta o resultado para algumas dessas ameaças. A ss or ea m en to C hu va e xc es si va R ai o D es ba rr an ca m en to E nx ur ra da E ro sã o P ol uiç ão d a ág ua F alt a de á gu a P er da d e bio div er sid ad e D es m at am en to S ec a Q ue im ad a V en ta nia P oe ira 0 5 10 15 20 25 30
Percepção da mudança nas frequências de ocorrência das ameaças
diminui aumenta não muda
Gráfico 4.4 - Percepção dos moradores quanto à variação da frequência das ameaças na Microbacia do Córrego do Urubu.
As respostas dos moradores indicam que poucas ameaças diminuíram de frequência, sendo que a maioria mantém-se na mesma proporção nos últimos anos. Algumas ameaças aumentaram, principalmente a das seca e das enxurradas.
O estudo de percepção mostra que a comunidade tem consciência das consequências das mudanças climáticas e seus impactos, em nível global e local, ao perceber a que ameaças está submetida, e suas variações ao longo do tempo. Com a consciência de estar sob ameaças, a população pode, então, começar a se organizar para diminuir sua vulnerabilidade.
Esse estudo de percepção de risco é primeiro ponto importante a ser levantado em relação à implementação de um PGRIFAP, como forma de adaptação às mudanças climáticas, em nível local, pois, para que haja qualquer mobilização em relação à gestão de risco, é necessária a percepção desse risco.
Além de a percepção ser um ponto de partida para as ações, é a partir dela que serão definidos os critérios de risco e o seu processo de avaliação, dentro do processo de gestão, conforme mostrado na Figura 4.1.
4.3.3 Capacidade de mobilização da Comunidade do Núcleo Rural do