2. Revisão da literatura
2.5 Percepção do risco e governança ambiental
A complexidade dos problemas e os riscos enfrentados pela sociedade têm levado pesquisadores, governantes e representantes de órgãos governamentais a refletirem sobre a necessidade de colocar em prática uma nova abordagem no enfrentamento dos riscos (GIULIO; FIGUEIREDO; FERREIRA, 2008).
Essa nova abordagem entende que, tanto o risco como as respostas a ele são construções coletivas e sociais, interagindo com processos sensoriais, pessoais e coletivos. Assim, os riscos são parte de experiências cotidianas e, por atingir parte da população, todos os atingidos têm o direito de participar na definição de soluções. Dessa maneira, é necessário que haja diálogo entre os gestores e as pessoas que realmente sofrem com os riscos (GIULIO; FIGUEIREDO; FERREIRA, 2008).
Porém, para que as pessoas tomem parte no processo decisório sobre os riscos a que estão submetidas, é necessário que percebam e entendam o que se passa. É necessário que as pessoas tenham a percepção dos riscos a que estão submetidas.
A percepção de risco é o processo pelo qual a pessoa organiza e interpreta os dados sensoriais recebidos diante de um evento perigoso ou inesperado, que pode prejudicar os seres humanos, os recursos naturais, a fauna, a flora e os bens materiais (POFFO, 2011, p. 07).
Navarro e Cardoso (2011, p. 68) acreditam que o processo cognitivo, por vezes preterido nos estudos de risco, é que elabora a percepção do risco, fenômeno que ocorre em concorrência com a autopercepção, abrangendo a perspectiva comportamental. Na perspectiva de que o risco depende da percepção individual e coletiva, a decisão por enfrentar ou não situações de risco depende do contexto em que ele ocorre e a importância dada ao evento.
As autoras defendem que o risco toma forma pelos diferentes atores envolvidos na percepção como a sociedade científica, os campos administrativos, políticos e sociais, e pela instrumentalização dada. Porém, percebe-se que a dificuldade para o reconhecimento pela comunidade dos riscos ambientais, geralmente difusos, é a ausência de atores que, conscientemente, sintam-se vítimas ou causadores dos potenciais riscos.
Assim, para que a comunidade comece a fazer parte do processo decisório sobre os riscos a que estão submetidas, é necessário mais clareza na comunicação desses riscos.
O enfrentamento por parte da população exige exercício e estratégia de comunicação do risco que envolva orientações e ferramentas para que cientistas, governantes, técnicos e comunicadores saibam como construir uma atmosfera de confiança com todos os atores sociais envolvidos (GIULIO; FIGUEIREDO; FERREIRA, 2008).
Esses autores destacam, entre os objetivos da comunicação de risco, a promoção de um diálogo sensível às necessidades daqueles que vivem em situações de riscos. Dessa maneira, poderá existir uma confiança entre os atores, levando-os a participarem ativamente do processo de gestão de risco.
Não é sempre, porém, que a comunicação de risco tem obtido sucesso, pois o processo de comunicação ainda é falho por não considerar os fatores psicológicos, sociais e políticos que envolvem as percepções e atitudes das pessoas. Esses fatores são tão importantes para a mensuração do risco pela população quanto à maneira como a mídia o divulga (GIULIO; FIGUEIREDO; FERREIRA, 2008).
Esse processo de comunicação é muito importante uma vez que os riscos ambientais não podem continuar a ser vistos como “democráticos”, em que todos sofrem da mesma maneira.
Segundo Herculano (2002), na sociedade de risco que vivemos, apesar dos riscos ambientais não respeitarem fronteiras e submeterem a todos, isso não se dá de maneira igual, havendo, ainda, hierarquias que fazem com que os mais pobres, as classes subalternas sofram mais com a degradação ambiental. Mais do que isso, a autora ainda afirma que os problemas, por atingirem de maneira maior os mais pobres, tornam-se cada vez mais insolúveis e invisíveis e além disso crescentes.
A desigualdade social faz com que as classes mais pobres, os trabalhadores, as minorias, como alguns grupos étnicos ou os migrantes, sejam “empurrados” para as periferias das cidades e, no caso de DF, para as cidades satélites. Esse processo, que não é acompanhado pelo desenvolvimento de infraestrutura, faz com que essas pessoas sejam submetidas a uma carga maior de riscos ambientais do que o restante da sociedade. Isso é o que Herculano (2002) chama de injustiça ambiental. De maneira complementar, a autora define justiça ambiental como um conjunto de mecanismos e princípios que asseguram que nenhum grupo social sofra com uma carga maior de danos ambientais causados por processos coletivos.
A noção de justiça ambiental, no entendimento de Acselrad et al. (2009), implica em um direito a um meio ambiente seguro, sadio e produtivo para todos,
considerando todas as dimensões, sejam elas ecológicas, sociais, políticas, entre outras.
O alcance de um ambiente mais justo pelas comunidades só ocorre se houver uma mobilização, um trabalho coletivo que passa pela percepção dos riscos a que estão submetidas, resultado de um processo transparente e eficiente de comunicação dos riscos, até chegar a um ponto em que essa comunidade faça parte do processo decisório sobre a gestão dos riscos. Esse processo culmina na chamada “governança do risco”.
Giulio; Figueiredo e Ferreira (2008) acreditam que o termo governança do risco tem bases na ideia de que os processos decisórios devem ser democráticos e participativos, ou seja, que haja um compartilhamento no poder decisório do Estado em relação às questões ambientais, a fim de assegurar que o Governo tenha uma atuação responsável diante dos cidadãos.
As soluções técnicas para os riscos ambientais, quando se acredita que o melhoramento e investimento em tecnologia no método de produção possa ser a solução do problema, é um dos exemplos de falta do processo de governança do risco. Isso porque, muitas vezes, a própria população que está submetida aos riscos, tem as soluções mais viáveis e talvez mais baratas, porém, não é ouvida pelas autoridades ou responsáveis. Portanto, é importante notar que o risco tem uma dimensão social, com percepção individual dos seus efeitos, e que pode servir como uma ligação entre o público e o privado, subsidiando a tomada de decisões sobre as alternativas de desenvolvimento e gastos públicos, num processo de gestão territorial mais democrático (EGLER, 1996).
Assim, em seu trabalho, Egler (1996), usando critérios de governança de riscos, propõe que o risco ambiental seja um critério para a gestão do território. Essa visão é importante, pois coloca a questão ambiental como protagonista no processo de gestão do território e não somente uma questão de riscos, que devem ser mitigados ou adaptados.
Os processos e conceitos analisados neste item são ferramentas importantes para entendermos a situação apresentada no estudo de caso da comunidade do Núcleo Rural do Córrego do Urubu.
Neste estudo, será mostrada a influência que a percepção do risco de incêndios florestais, junto com um processo de comunicação dos riscos, feito pelas instituições e movimentos presentes na região, propiciou à comunidade o início de
um trabalho de governança, tendo o risco de incêndios florestais como fator a ser analisado.
A situação do DF difere da comunidade do Núcleo Rural, uma vez que não existe um processo de governança para o risco de incêndios florestais, mas um Plano de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais, voltado à proteção apenas das unidades de conservação no DF.
Além do processo de governança, é necessário avaliar a comunicação social dos riscos existente no DF, se ele é mesmo efetivo e se consegue sensibilizar a população da importância de se enfrentar os riscos, de maneira organizada e permanente.
2.6 MUDANÇAS CLIMÁTICAS E INCÊNDIOS FLORESTAIS: MITIGAÇÃO E