CONTEMPOR ANEIDADE.
3 CAMINHOS E ATALHOS PARA DECIFRAR A SOLTEIRICE EM ARACAJU E SALVADOR
3.2 PERCORRENDO OS TERRITÓRIOS DA SOLTEIRICE EM ARACAJU
E SALVADOR
Parte importante deste estudo foi mapear os espaços por onde transitam as mulheres e homens solteiros de Aracaju e Salvador, percorrer lugares que emolduram suas práticas sociais. Para tanto, segui os passos da solteirice em bares, teatros, cinemas e Shoppings, a partir das pistas lançadas pelos entrevistados ao longo de suas narrativas biográficas.
Desta forma, procurei rever ambas as cidades sob um novo ângulo – os espaços de recreação por onde circulam os solteiros, mas sem perder de vista que tais espaços não são inanimados, eles guardam a pulsação da vida desses sujeitos, ou seja, acolhem seus estilos de vida e hábitos de classe, assim como comportamentos e vivências cotidianas dos afetos, de interação ou isolamento, marcações geracionais e de gênero.
Todavia, olhar para as paisagens citadinas evocadas pelos entrevistados exigiu movimentos distintos: Afinal, moro em Aracaju, sou solteira, freqüento lugares mencionados pelos sujeitos, assim como evito locais por considerá-los incompatíveis com minha faixa etária, gostos e interesses pessoais. Procurei, portanto, libertar o meu olhar da domesticação a que estava condicionado, captar aspectos que, de tão familiares, passavam desapercebidos nos espaços por onde também transito, bem como busquei atravessar as fronteiras que me distanciavam de outros lugares e poderiam afetar a inteligibilidade do meu olhar, isto é, tentei me desvestir de resistência ou indiferença para conseguir ultrapassar os limites do que até então me fora revelado.
Já em Salvador, minhas andanças foram marcadas por movimentos de reconhecimento, uma vez que não residia na cidade. Durante o período em que cursei as disciplinas do Doutorado, viajava exclusivamente para assistir as aulas, o meu circuito se restringia ao Shopping Iguatemi, onde almoçava e à Faculdade de Filosofia onde assistia às
aulas, para no mesmo dia retornar a Aracaju, o que me impediu de formar laços de amizade com as(os) colegas, participar de confraternizações ou mesmo circular nos espaços de recreação da cidade. Decerto, nos dois últimos anos, quando os encontros de orientação se tornaram regulares, dada a necessidade de acompanhamento da feitura do trabalho, passei a prolongar minha estada na cidade. Além disso, a pesquisa empírica aconteceu nos finais de semana, ocasião em que os entrevistados tinham mais disponibilidade de tempo para prestarem seus depoimentos.
Entre uma atividade e outra, aventurei-me a dirigir pela cidade, percorri ladeiras, ruas e bairros, visitei livrarias e museus, assisti a filmes e a peças teatrais, tomei sorvete na Ribeira e acompanhei o ensaio do Olodum no Pelourinho, degustei o acarajé da “Dinha”, no Largo do Rio Vermelho e, na companhia de familiares e amigos, fui a restaurantes e bares citados pelos entrevistados. No entanto, o deslumbramento pelo novo comandava meu olhar de turista acidental, era preciso retornar aos lugares e refazer o percurso desse olhar, ou melhor, reconhecer tais espaços através das imagens construídas pelos sujeitos investigados, perscrutar o que até então se fizera invisível, flagrar padronizações e condutas. Em suma, explorar o território atenta para a complexidade que se esconde no “como, onde, por quem, por quê e para quê” (SANTOS apud CARDOSO, 2007, p. 40) as pessoas utilizam esses espaços de recreação.
Neste sentido, pude constatar que, tanto em Aracaju como em Salvador, “todo mundo se encontra em tudo que é canto”36, cada segmento social circula por espaços claramente
demarcados, ou seja, os entrevistados freqüentam os mesmos lugares. Contudo, enquanto em Aracaju todos se conhecem, na paisagem soteropolitana, apesar do fluxo de pessoas que se cruzam, os corpos e olhares se mantêm ausentes uns dos outros, ou seja, os grupos não
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Expressão utilizada por um entrevistado de Aracaju, durante a pesquisa do Mestrado, para se referir à delimitação espacial a que estão subordinadas as classes médias nessa cidade (TAVARES, 2002).
interagem. Assim, o cenário repetitivo trama a impessoalidade e distanciamento, dificulta a renovação dos círculos de convivialidade e inibe a confluência entre as pessoas.
Acompanhando as indicações fornecidas pelos entrevistados, pude revisitar os pontos de encontro da categoria social investigada nas diferentes cidades: Em Aracaju, a vida noturna está concentrada na Orla de Atalaia, as mulheres e homens solteiros, com mais de trinta anos, deslocam-se para o Teimonde, onde renovam afinidades com a intelectualidade local, ao som de bandas de jazz e blues, mas também podem assistir clássicos do cinema ou dançarem ao som de músicas das décadas de 1970 – 1980, na boate anexa. Em Salvador, a vida noturna converge para o bairro do Rio Vermelho, as mulheres e homens se dirigem ao Pós-Tudo, geralmente acompanhadas (os) por um grupo de amigas (os), onde se desligam de suas atividades rotineiras e tecem relações episódicas com parceiros (as) ou apenas se rendem a conversas amenas entre um gole e outro de cerveja gelada.
Decerto, a ida constante a esses lugares gera fastio e, habitualmente, mulheres e homens migram para outras paragens: Em Aracaju, as pessoas se deslocam para o Cabala, onde os grupos de solteiros se localizam próximo a um ciber café ou nas cercanias do palco, enquanto os casais e seus acompanhantes permanecem próximos à televisão e adiam conversações até encerrar o capítulo da “novela das oito”. No entanto, após as 23:00 horas, as palavras não ditas são esquecidas em meio à observação dos rodopios de um ou outro par na pista de dança improvisada, acompanhamento das músicas populares interpretadas pelos cantores contratados para entretenimento dos freqüentadores. No bar e restaurante Cabala, da mesma forma que no Teimonde:
O chegar e estar adquirem proporções de um ritual para homens e mulheres desacompanhadas. As mulheres se dirigem às mesas e ficam em compasso de espera, trocando comentários ou lançando olhares curiosos, ora fugidios ora mais atentos, aos homens que perfilados no balcão, lançam seu olhar perscrutador sobre o ambiente, visitando uma ou outra mesa à medida que reconhecem alguém ou um outro olhar curioso e solitário lhes atrai. E nasce então a possibilidade de mais um par por alguns minutos, alguns dias ou sempre (TAVARES, 2002, p. 85).
Em Aracaju, a vida noturna começa por volta das 22: 00 horas, uma vez que as pessoas costumam sair do trabalho e retornar à casa, arrumam-se com esmero e, sem pressa, tomam o caminho da Orla, cuja distância vencem rapidamente, mas novos comportamentos começam a ser adotados. Assim como em Salvador, as mulheres e homens solteiros têm optado por lugares mais descontraídos, para onde se dirigem depois de encerradas as atividades laborativas: Em Aracaju os solteiros iniciam a noite no Boteco do Ferreira, no Brand’s ou no Bar do Bel, podem prolongar a diversão no Coqueiral, dançar ao som do reagge e baladas no Etnia, assim como música tecno ou caribenha no Live, “que atrai na sua maioria pessoas solteiras e mais jovens, ainda que sua dimensão geracional atinja somente as mulheres, caracterizando-se também pelo semelhante ritual de chegar e estar” (TAVARES, 2002, p. 85).
Já em Salvador, a vida noturna começa e acaba cedo, as pessoas solteiras se deslocam após o trabalho para o Boteco do França, o Largo do Acarajé ou a Borracharia, embora haja quem, Para Começar, prefira interagir sob os acordes do samba. Conforme coloca Júlio, um dos entrevistados, “as pessoas vão para fazer o que querem, ouvir uma música legal e interagir, conhecer gente nova”. Porém, se em Aracaju os homens chegam aos bares desacompanhados, pois eles têm a certeza de encontrar conhecidos, em Salvador isso não acontece, os homens só costumam sair com um grupo de amigos.
Em Aracaju e Salvador, pude observar a conversa animada de grupos formados por mulheres e homens que chegam juntos aos bares; olhares que vagueiam e não são correspondidos, assim como outros tantos que se atraem e conduzem a formação de um par. No entanto, a aproximação e interação do par acontecem de forma mais desinibida em Salvador, há mutualidade no jogo da sedução e os papéis de gênero são mais fluidos, ou seja, as mulheres não desfiam a espera e tomam a iniciativa sem acanhamento, o que parece não inibir os parceiros episódicos, passageiros ou duradouros.
Vale destacar outro contraste entre as duas capitais: Ao contrário de Aracaju, observei em Salvador grupos de mulheres sem companhia masculina, que fumam e bebem despreocupadamente, aparentemente livres de censura37, alheias aos olhares interessados dos
homens presentes. Segundo uma das minhas informantes, as mulheres solteiras acima de trinta e cinco anos, desapontadas com os relacionamentos descartáveis, decidiram evitar a aproximação masculina e têm formado “Clubes da Luluzinha”. Fazem programações em grupo, vão a Shoppings e bares, assim como organizam excursões para outras capitais, onde assistem às peças teatrais e shows musicais que não têm previsão de ser exibidos em Salvador.
Por outro lado, as mulheres e homens dedicados aos estudos e expansão profissional, restringem suas saídas a cafés e restaurantes, onde confabulam com amigos por um curto espaço de tempo, para logo mais retomarem suas atividades. Dessa forma, escolhem o Austríaco, mas vez por outra optam pelos fast foods do Shopping Barra, enquanto aguardam a próxima sessão de cinema.
Há de se observar também que, tanto em Aracaju quanto em Salvador, a geração de solteiros na faixa etária de trinta a quarenta e três anos se ressente da escassez de opções e considera a vida noturna das respectivas cidades sem atrativos, embora costumem sair freqüentemente, pois a companhia dos amigos consegue amenizar o tédio experimentado.
Durante o dia, entretanto, as praias revolvem a placidez e monotonia por algumas horas, os sergipanos se deslocam para a praia do Sarney, onde diferentes gerações de solteiros e casados se irmanam ao som do axé, da batida do caranguejo e algumas cervejas, enquanto os baianos preferem se dirigir a praias mais distantes como Aleluia, embora possam retornar ao Farol da Barra para usufruírem do Caranguejo de Sergipe, temperado com uma cerveja
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As mulheres solteiras e, ou descasadas investigadas na pesquisa do Mestrado, assim como as solteiras aracajuanas que entrevistei neste estudo se queixam da vigilância social em relação ao que vestem, com quem andam, se fumam ou bebem e que lugares freqüentam.
gelada e a companhia prazerosa dos amigos e, no caso das mulheres acima dos cinqüenta anos, irmãos e sobrinhos.
A geração na faixa etária dos cinqüenta anos já não vara madrugadas, tanto as mulheres quanto os homens preferem assistir peças teatrais, espetáculos de dança e musicais, mas como são exibidos raramente, costumam freqüentar os cinemas e livrarias ou se encontram com amigos para conversarem em suas próprias residências e, ou restaurantes. Em Aracaju, dirigem-se aos Teatros Tobias Barreto e Atheneu, aos Shoppings Jardins e Rio Mar e, em Salvador, deslocam-se para os Teatros Castro Alves e Vila Velha, Shoppings Barra e Iguatemi ou Aliança Francesa, espaços onde as mulheres se sentem seguras e circulam sozinhas.
Tanto em Aracaju quanto em Salvador, encontrei poucas mulheres desacompanhadas nos cinemas e teatros, ao contrário dos homens. Em Salvador, encontrei mulheres que tomavam chopp nas praças de alimentação dos Shoppings, enquanto observavam a movimentação ao seu redor, comportamento que não identifiquei em Aracaju. Além disso, as mulheres e homens entrevistados nas duas capitais, apesar de mencionarem o hábito de saírem para almoçar e, ou jantar em restaurantes, omitiram o nome dos restaurantes freqüentados, o que não aconteceu com os bares.
Aracaju e Salvador oferecem poucas opções de lazer para pessoas acima dos cinqüenta anos, com um perfil mais intelectualizado e exigente, mas enquanto os homens alegam falta de tempo, de dinheiro e se concentram na vida profissional, outros se declaram boêmios resistentes, ao passo que as mulheres atribuem a redução da vida social à ausência de serviços voltados para um público mais maduro e solteiro. E se suas cidades não as acolhem, elas viajam temporariamente para outros países ou centros urbanos mais cosmopolitas.
Observa-se, portanto, que os mapas da solteirice variam de uma geração para outra, assim como apresentam traçados desiguais entre os gêneros, mas é preciso entender como e
por que isso acontece, não basta apenas percorrer espaços por onde os solteiros circulam, é preciso analisar como ela é pensada e vivenciada por mulheres e homens em cada geração. Por essa razão, no próximo tópico, tenho como intenção refletir sobre os desafios enfrentados para realização do trabalho de campo.
3.3 TECENDO A REDE: À PROCURA DE MULHERES E HOMENS SOLTEIROS