4 A CARTOGRAFIA DA SOLTEIRICE
4.3 SOLTEIRAS E SOLTEIROS? – SIM – E SOLTEIRONAS E SOLTEIRÕES, TAMBÉM?
riscos a serem enfrentados.
Em suma, se para as mulheres o trabalho, o investimento nos estudos e na carreira profissional são conquistas que exaltam, para os homens o trabalho é o caminho através do qual se inserem no mundo (NOLASCO, 1993) e, por isso, o estudo se torna mais uma batalha da qual devem sair vencedores. Certamente, burlam algumas regras, mas nem todas, tanto para os homens quanto para as mulheres, a dedicação à carreira profissional se torna quase exclusiva, o que afeta a vida pessoal e influencia a elaboração de novas construções subjetivas acerca da solteirice, embora cada um (a) interprete seus enredos de acordo com o contexto sócio-histórico em que estão imersos (as), ao mesmo tempo em que deixam impressas a trajetória de vida e a faixa /geração a que pertencem.
4.3 SOLTEIRAS E SOLTEIROS? – SIM. – E SOLTEIRONAS E SOLTEIRÕES, TAMBÉM?
As mulheres entrevistadas buscam construir uma diferenciação com as solteiras de idades/gerações anteriores à suas, avós, mães e tias, cuja trajetória de vida parece desbotar diante de suas conquistas. Para tanto, a solteirice é pensada a partir da intersecção entre os parâmetros definidos na convivência familiar e a elaboração de suas próprias visões de mundo, conforme demonstram seus depoimentos:
[...] eu tinha aquelas fantasias na cabeça de Cinderela, do príncipe, do homem ideal, muito carinhoso, o cara perfeito que saberia me salvar de qualquer situação, aquelas histórias todas mentirosas que a gente aprende e ficam na cabeça, [...] mas, inconscientemente eu sempre associei o casamento à morte, então eu nunca pensei em casar. [...] Possivelmente, porque vi desde a minha infância ou algo assim, que a mulher casava e era como que morresse para o mundo, [...] ela ficava muito só naquela vida de família, de tudo o que eu não queria para mim, eu não saberia naquela época dizer, mas hoje eu traduzo assim, [...] e tinha outra coisa que me apavorava, minha mãe ficou viúva com trinta e cinco anos, meu pai se suicidou, e nós ficamos meio à deriva, minha mãe trabalhava em casa mas não sabia gerir o que havia fora, então depois é que eu concluí que a pessoa ficava à mercê desse destino e [...] aí eu disse, comigo não vai acontecer isso não, porque eu não vou ter filhos, não vou casar, nada disso (Indira).
Isso é uma vitalina velha, sabe? Não pode dar uma opinião porque você é uma frustrada que nunca pariu. [...] Já de vez em quando, tem essas brincadeirinhas: Ah! Vai dar para São Pedro,entendeu? [...] ser solteira é uma identificação na carteira de identidade, nunca firmei contrato com ninguém, estado civil oficial, entendeu? Mas não tem maiores problemas, não me qualifica nem desqualifica (Ana).
Na década de 1960, a “moça de família” ainda é educada para seguir sua vocação natural – mãe e esposa – e, sob a influência do amor romântico, aprende a sonhar com príncipes encantados, belos, fortes, corajosos, que pertencem ao seu grupo social e têm uma situação financeira estável, ou seja, um “bom partido”, que irá protegê-la e assegurar segurança e felicidade. Contudo, essa imagem pode ser desidealizada quando a figura paterna, principal modelo masculino, revela-se a antítese do príncipe e, por meio do suicídio, exime-se da responsabilidade de conduzir o destino do grupo familiar, que se desestabiliza, uma vez que a esposa não havia sido educada para exercer o papel de chefe de família e transitar com desenvoltura na esfera pública.
Finalmente, o príncipe se transforma em um sujeito inencontrável diante dos pretendentes a marido: para Indira, aquele que não se mostra “carinhoso”, “sensível”, trata-a com “desprezo” e, apesar da “atração física”, o diálogo inexiste na relação, porque seus “interesses” são incompatíveis, além de outros homens com quem se envolve na vida adulta e, a despeito de “outras afinidades” que compartilham, como o lado intelectual e a posição social, adotam comportamentos “machistas” e “autoritários”. Por isso, a solteirice é concebida como escolha, determinada pelo desejo de preservar sua independência e conduzir seu próprio destino. Entretanto, sua opção é também atribuída aos conselhos da mãe – “o casamento
quando é bom o tempo chega e quando é mau o tempo sobra” – motivada pelo desapontamento com o próprio matrimônio ou por medo da solidão, uma postura considerada condenável no período em questão, uma vez que cabe à figura materna encorajar as filhas com relação ao casamento.
Vale destacar que as classes médias têm uma maior tendência à racionalização que outros estratos sociais. As mudanças na trajetória de vida, em função de crises familiares, por exemplo, podem impulsionar a adesão dos indivíduos a certos valores e crenças, ou seja, se em determinado momento de sua vida, Indira almejou casamento, dentro dos moldes considerados tradicionais, uma tragédia pessoal a instiga a comportamentos tidos como modernos. Em suma, o conflito e tensão provocados pela morte do pai são por ela acionados no momento atual, para tentar racionalizar o não casamento.
Ainda hoje, para a família e a sociedade, uma mulher solteira com mais de 60 anos é concebida como uma “vitalina”, moça-velha frustrada e incompleta porque não conseguiu casar e ter filhos e, portanto, desqualificada para opinar sobre assuntos do coração, isto é, supõe-se que permanece solteira porque tem algum problema, é egoísta ou desprovida de atrativos, nunca despertou o desejo sexual masculino e, por isso, nada sabe sobre o relacionamento entre homem e mulher. Para a sociedade, é inconcebível que a solteirice feminina seja escolhida, sequer é cogitado que a liberação sexual possibilita o exercício de sua sexualidade dentro e fora do casamento, independente da idade. Em outras palavras, pouco importa como se auto-represente, a “vitalina” ainda é definida como uma mulher cuja virgindade permanece intacta, pois nunca teve penetração vaginal, enfim, é mal amada, solitária, estigma que parece acompanhar as mulheres nascidas na década seguinte. Senão, vejamos:
[...] eu acho que toda mulher tem o sonho, certo? [...] Eu nunca fui de namorar, então eu não vou me preocupar com isso. [...] Agora eu digo a você, tranquilamente, se hoje em dia eu tivesse conhecido uma pessoa que eu conheci, ai! Acho que há mais de trinta anos atrás, [...] se hoje eu tivesse a idade que eu tinha, eu perdi essa pessoa por minha culpa, eu não sei se eu queria agora, me casar hoje em dia não, que
eu não tenho mais idade. Por que eu tive culpa? Porque eu era medrosa, eu tinha muito medo de pai e mãe, de família. Eu não cheguei a namorar com ele, [...] quando ele chegava, eu fugia doida. [...] Nunca sofri discriminação, porque também se eu sofresse, não ia fazer bem para mim. [...] Porque eu moro só, então a humanidade, eu não fui criada assim, [...] como dizia um colega meu, ‘você vai levar para São Pedro’, eu dizia, ‘vai inteiro’. [...] Não me sinto frustrada de jeito nenhum, eu sou feliz, [...] eu acho o seguinte, não teve que acontecer, e hoje em dia é tão comum, sou uma pessoa normal como qualquer outra (Jandira).
A jovem nascida na década de 1950 é ensinada a sonhar com o casamento e, tal qual Bela Adormecida, tecer a espera pelo príncipe que irá despertá-la para a vida e fazê-la feliz até que a morte os separe, enquanto é resguardada das tentações e perigos pela vigilância dos pais e irmãos mais velhos, atentos à moral sexual vigente, isto é, a preservação da virtude e continência sexual exigida às moças de família. No entanto, sua espera pode se alongar e, chegados os 25 anos, a ameaça do não-casamento passa a assombrá-la, ou seja, as possibilidades de conquistar um marido se tornam remotas e, para constrangimento da jovem e de sua família, ela é rotulada como mercadoria “encalhada” no mercado matrimonial.70
Isso não significa que o sonho de casar tenha morrido com o avançar dos anos, mas apenas que é silenciado. Jandira, por exemplo, não se permite expressá-lo, porque já não tem idade, embora não se esquive de fantasiar uma viagem no tempo, uma volta ao passado em que se fizesse outra pessoa, menos tímida, “retraída”, “medrosa” e obediente, ou seja, gostaria de não ter sido criada “direita demais”, pois somente assim poderia “ter aproveitado muito mais da vida”.
Jandira afirma que não existe mais discriminação em relação à mulher solteira, ao mesmo tempo em que deixa escapar, através de frases incompletas, o estranhamento das pessoas pelo fato de morar sozinha, de não ter um companheiro ou vida sexual. Em outras palavras, para se autoproteger, prefere ignorar a discriminação, ressalta o crescente número de mulheres não-casadas e, valida às avessas os estereótipos que desenham a imagem da solteirona – não é frustrada, nem infeliz, enfim, é normal. Contudo, as mulheres que rejeitam
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os padrões estandartizados acerca do matrimônio têm suas restrições interpretadas como despeito ou desculpa para o não-casamento, conforme evidencia o seguinte depoimento:
As pessoas perguntam assim : ‘Tão linda e nunca casou?’ ou então ‘já casou?’Quando eu era mais jovem, ‘quantos anos você tem?’, ‘já deu o tiro na macaca?’ Eu tomei um susto, [...] um tio velho meu disse que é, passou dos 25 anos, eu já tinha dado o primeiro tiro na macaca. Hoje em dia, é como se fosse assim, uma moça velha, já não tem nem idade para casar, já passou, ninguém quer, então nem perguntam mais. [...] Há alguns anos atrás, [...] eu estava discutindo com minha irmã sobre casamento e falei ‘por isso que eu não quis casar, nunca pensei em casar’, aí minha mãe disse: ‘Não? Porque não achou, se você achasse uma pessoa que quisesse casar com você, você já tinha casado’. [...] Eu acho que para você casar, você tem que ter aptidão, eu não tenho de jeito nenhum, é um aprisionamento, aquela coisa que é para sempre. [...]
É como se eu não quisesse enraizar nada, não quisesse fincar nada definitivamente, até a coisa do casamento. [...] Justifica casar, as pessoas geralmente casam, pelo menos devia ser assim, porque têm uma grande paixão, [...] mas a paixão acaba, se você casou porque está apaixonado e a paixão acaba, para que casar? [...] Casar porque eu amo é um sentimento muito morno para mim, que não justifica você querer dividir a vida com uma pessoa, [...] como se fosse assim, aquele ninho intocável, o homem pode ter outras mulheres, mas se ele não tiver coragem de se separar, se não tiver vontade alguma de se separar para ficar com aquela outra pessoa, ele preserva aquele ninho intocável, [...] sem sentimento, um ninho morno, então eu não tenho interesse nisso, acho uma bobagem muito grande, as pessoas hoje em dia casam, botam aquela roupa, aquela fantasia branca, aquela musiquinha [cantarola a Marcha Nupcial], parece um teatro (Débora).
Se, na adolescência, Débora repetia sem refletir o modelo materno no tocante ao casamento e número de filhos, como forma de se resguardar do incômodo causado por ser considerada questionadora e anti-social, a partir dos 19 anos renega o destino “natural” reservado às moças de família do interior da Bahia, quando se muda para Salvador, passa a morar sozinha e, distante da censura familiar, pode dar vazão ao seu lado transgressor e “irreverente”. A “estranha” encontra seus pares – artistas, homossexuais – e se torna “saliente”, “o centro das atenções”, rompe definitivamente com a imagem de moça casadoira e, conseqüentemente, passa a ser rotulada por possíveis pretendentes como uma “mulher moderníssima”, o que não a incomoda, pois “eu era eu mesma”.
Sua autenticidade implica em construir interpretações próprias sobre a dinâmica dos afetos, contrarrestar as convenções sociais e adotar comportamentos vanguardistas, ou seja, renegar a insipidez do amor institucionalizado pela via do matrimônio, tripudiar a cerimônia que encena a consagração de algo que inexiste – a eternização do sentimento amoroso –, para
exaltar o caráter insurreto e desmedido da paixão e toda a indisciplina e desgoverno que a acompanham. Em outras palavras, a narrativa de Débora evidencia a incorporação dos referenciais valorativos da contracultura, cuja revolução se estende para a vida pessoal cotidiana e promove o confronto entre intensidade, desrazão, instabilidade e desregramento dos sentidos contra a disciplina, segurança, moralização/controle da conduta sexual feminina e rotinização oferecidas pelo “ninho morno” do amor sacralizado pelo matrimônio. Em suma, opta por vivenciar relações amorosas sem compromissos formais, até exaurir o fogo fátuo da paixão.
Por essa razão, Débora se surpreende quando é enquadrada pelo tio na categoria das solteironas, ao mesmo tempo em que releva as cobranças sutis desde os 25 anos, ou melhor, após dar “o primeiro tiro na macaca”; ignora o silêncio pesaroso das pessoas que evitam o assunto para não deixá-la constrangida, pois o seu destino de “moça velha” está definitivamente selado, mas ainda fica “indignada” com a mãe, que desacredita de suas concepções e inaptidão para o matrimônio. “Eu achei que ela me conhecesse”, mas ao contrário do que pensava, a mãe a desqualifica como mulher e reifica o estigma da solteirona como alguém sem atrativos, fadada à solidão porque nenhum homem a desejou para esposa.
Por outro lado, as moças nascidas no final da década de 1950 e início da década de 1960, confrontadas com o processo de reordenamento das condutas e valores morais em curso, ensaiam uma postura menos radical, indisciplinada e, por conseguinte, concebem o solteirismo feminino diferentemente, buscam se apropriar dos valores emergentes sem, no entanto, comprometer totalmente o ideal burguês feminino associado ao casamento, conforme evidencia o seguinte depoimento:
Eu saí para o doutorado solteirona e voltei solteira. [...] Solteirona é aquela que está no caritó, aquela que não teve relação, que é casta, e a solteira [...] tem uma vida sexual e que tem uma independência e que não é aquela pessoa bloqueada. Eu até os 46 anos era uma solteirona porque ainda não tinha tido uma relação sexual com penetração, [...] mas as outras coisas a gente fazia numa boa, as preliminares, [...] eu não amadureci para esse lado sexual como aconteceu com o lado profissional (Clara).
Embora na década de 1970 o lema “é proibido proibir” tenha liberado a mulher para exercitar sua sexualidade sem culpas, a década seguinte é marcada pela tentativa de conciliação entre velhos e novos padrões de comportamento e modelos arquetípicos em construção, ou seja, mais uma vez a sexualidade é reprimida, retoma-se a busca pelo conforto e segurança que, por suposto, o casamento oferece. Talvez por isso, mulheres como Clara, Lúcia e Nelma, adotem comportamentos modernizantes e invistam nos estudos e carreira profissional, ao mesmo tempo em que mantêm vivas as aspirações no tocante ao casamento e formação de uma família, concebidos como abrigos contra a insegurança e instabilidade contemporâneas e, enquanto aguardam o matrimônio/uma relação estável, há quem, como Clara, por exemplo, prefira adiar a perda da virgindade, o que não significa abdicar das carícias preliminares ao ato amoroso.
Contudo, o avançar da idade cobra seus tributos, aos 46 anos, as chances de Clara no mercado matrimonial se tornam remotas e, refrear o desejo perde o sentido. Então, escolhe sair do “caritó”, deixa de ser uma virgem “bloqueada” e se transforma em uma mulher independente, desta feita solteira, mas solteirona reprimida, nunca mais, o que a distingue de mulheres mais jovens, com mais de 30 anos, que embora sejam alvo de cobranças sociais, atribuem sua solteirice apenas à recusa em serem submissas ao parceiro e se anularem, o que caracteriza a liberdade de escolha, a despeito de suas necessidades e desejos.
Não sou aquela pessoa ímpar, não é? Eu me encontro sem pares como pessoas parecidas nessa questão da solteirice, mas há cobrança da família sim. [...] Não é fácil, às vezes me sinto sozinha, [...] tem determinados momentos da minha vida que eu queria estar casada, com filhos, [...] algumas vezes já me perguntaram se eu não era lésbica, e aí, não, mas se fosse? [...] Um amigo meu me disse: Você assusta. [...] mas eu não vou me anular para ser uma pessoa que diga sempre amém, meu nome [...] não é Amélia, com todo respeito às Amélias (Eva).
Nos últimos anos, tem crescido o contingente de mulheres solteiras que, artífices de seu destino, têm como meta precípua a felicidade e auto-realização. Diferentemente de décadas anteriores, uma mulher de 35 anos, que ainda não casou ou está em vias de se casar, sabe que sua independência e autonomia assustam possíveis parceiros e, ou pretendentes, mas
sabe o que quer e, ainda que o preço a pagar seja a solidão, recusa-se a ser dependente e submissa, sem personalidade e opiniões próprias, tal qual Amélia71, a musa da canção
popular. Em outras palavras, Eva prefere estar só do que manter um relacionamento amoroso insatisfatório, com alguém que não respeite suas escolhas. Afinal, sempre pode contar com a amizade e cumplicidade de seus pares, isto é, grupos de amigas (os) também solteiras (os), para se sentir menos inadequada, diferente e conseguir lidar com as cobranças da família e da sociedade relativas ao não-casamento, bem como especulações acerca de sua orientação sexual.
O certo é que, apesar da revolução sexual, as mulheres solteiras acima dos 30 anos continuam sendo alvo de cobranças familiares e pressões sociais, embora estas sejam feitas mais sutilmente. Por exemplo, perguntas como – “tão linda e nunca casou?” (Débora) são reformuladas – “por que você vai morar sozinha, nunca quis casar?” (Flora), de forma a acomodar os velhos e novos modelos de feminilidade e papéis sociais designados à mulher. Ou seja, enquanto a primeira pergunta deixa subentendido que, apesar de reunir os atributos exigidos para uma moça casadoira, ela foi preterida no mercado matrimonial, a segunda indagação alarga as fronteiras simbólicas e a coloca na posição de sujeito que escolhe se deseja casar ou não, embora ainda reforce a idéia do lar como refúgio, no qual as mulheres sem marido se sentem protegidas. Em suma, a mulher só deve abandonar a residência paterna para casar, o que não acontece com os homens.
Com efeito, o fato de os homens transitarem em outros espaços de sociabilidade faz com que suas reflexões sobre a solteirice sejam elaboradas de forma diferente, ainda que também enfrentem cobranças sociais e familiares em torno do não-casamento: uns priorizam a vida profissional e adiam a formação de uma família e o matrimônio; outros se ancoram nos enredos familiares para fugir de um compromisso formal; há quem questione o próprio
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A entrevistada se refere à música “Ai que saudades da Amélia” (1940), em que Ataulfo Alves e Mário Lago reverenciam a resignação, sacrifício e devotamento da mulher ao homem amado.
significado do casamento e da solteirice; mas também aqueles que não conseguem estabelecer um vínculo duradouro e buscam alternativas para se enquadrarem e, finalmente, outros tantos que validam o matrimônio e a constituição de uma família, mas não se sentem preparados para casar e preferem permanecer sob a proteção paterna por tempo indefinido, de acordo com a idade/geração e contexto sócio-histórico em que se inserem. Por exemplo, entre aqueles instigados pelos valores da contracultura, o olhar antidisciplinar pode apenas se concentrar na dimensão do trabalho ou então se espraiar pelo campo dos afetos.
Minha vida afetiva sempre foi confusa, eu sou homossexual, acho que tive umas duas paixões mais intensas, não que eu tenha pensado em viver com nenhum dos dois. [...] Nós éramos muito jovens, anos 70, [...] eu ia para a cama com várias pessoas e essas duas pessoas também iam [...], agora, por exemplo, eu estou há um bom tempo sem namorar com absolutamente ninguém, [...] faz falta, mas eu gosto também da sensação de fechar a porta e pensar, agora só entra se eu deixar, porque as pessoas não têm botão de desligar, tem um momento que elas são muito interessantes, depois a gente começa a encher o saco. [...] Eu entrei numa comunidade do Orkut de pessoas que moram só, todas falando que [...] é ótimo porque você chega à tarde e encontra as coisas exatamente do jeito que você deixou. [...] eu sou muito desorganizado, [...] isso eu acho o lado ruim de ser solteiro,eu agora contratei um servente aqui do prédio para fazer faxina, mesmo assim é essa bagunça, [...] o lado positivo é poder ficar só, eu gosto, tem gente que convive muito mal consigo próprio, eu não, sou capaz de ficar horas ouvindo música, jogando no computador, fazendo outras coisas, olhando o teto. [...] Já fui discriminado, mas não que fosse algo significativo, eu acho que hoje em dia a gente goza de certa liberdade, você já pode escolher um grupo de amigos que são pessoas que convivem bem com isso (Bernardo).
A partir da década de 1960, os jovens passam a divergir de alguns valores que norteiam as formas de pensar e agir dos pais e, sob a influência da tríade “sexo, drogas e rock and roll” (GOLDENBERG E TOSCANO, 1992) adotam novos comportamentos modelizadores, ainda que preservem um ou outro elemento simbólico abstraído da convivência com o grupo familiar. Ao abraçarem como ideal a demolição dos valores burgueses na vida adulta, os indivíduos se deparam com possibilidades ilimitadas no campo da sexualidade, pois tudo é permitido, ou seja, contra toda disciplina e repressão, o jogo erótico é conduzido pelas leis do desejo e, portanto, ensaiado com vários (as) parceiros (as), em meio à liberdade e rotatividade sexual experimentada.