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Percurso do termo entre 1975 e 2009

No documento MICRO-COMUNIDADES E PRÁTICAS DA LUSOFONIA (páginas 102-115)

Capítulo 1. Discorrendo sobre a lusofonia

1.1. Percurso do termo nos dicionários de língua portuguesa

1.1.3. Análise de conteúdo

1.1.3.2. Percurso do termo entre 1975 e 2009

Observando a tabela 5, torna-se claro que este segundo período temporal em análise é muito mais representativo do que o primeiro no que toca à produção de significados para os vocábulos examinados. De acordo com o registo de ocorrências, verificamos que apenas a palavra luso se encontra contemplada na totalidade de nomenclaturas; e que apenas duas das 26 obras (um dicionário de edição portuguesa e um de edição mista) continham simultaneamente as quatro entradas. Verificou-se ainda que os restantes vocábulos, lusotropicalismo, lusófono e lusofonia, foram usados, em maior percentagem, nas obras de edição brasileira do que nas portuguesas.

Tabela 5 - Registo de ocorrências, em termos de inclusão dos vocábulos na nomenclatura das 26 obras de referência consultadas entre 1975 e 2009

1975-2009 Edição Portuguesa Edição Brasileira Edição Mista

16 Dicion. 9 Dicion. 1 Dicion.

Ocorrências % Ocorrências % Ocorrências %

Luso 16 100% 9 100% 1 100%

Lusofonia 6 38% 4 44% 1 100%

Lusófono 6 38% 6 66% 1 100%

Lusotropicalismo 4 25% 4 44% 1 100% As 4 em simultâneo 1 6% 0 0% 1 100% Entre os autores deste segundo período em análise, contam-se vários especialistas da língua portuguesa como os portugueses José Pedro Machado e Francisco Fernandes, e os brasileiros Aurélio Buarque de Holanda Ferreira ou Antônio Houaiss. Todos eles laborando num ambiente científico pautado pela busca de rigor e dando «especial ênfase […] ao registro de novas palavras que surgiram com o desenvolvimento das ciências e da tecnologia» (Weiszflog, 1998: VII). Em Portugal, na sua relação com as ex-colónias, referimo-nos a um período pós-colonial, marcado pelas afirmações nacionais dos PALOP; em termos gerais, referimo-nos a um período marcado pelos importantes passos dos países de língua portuguesa na constituição da CPLP e pela aceleração da globalização.

77 A institucionalização da CPLP, em 1996, e a demanda sócio-política por laços cada vez mais estreitos entre os países que a compõem, terão contribuído para que algumas das obras se assumissem de ―vocação lusófona‖, debruçando-se dessa forma sobre «dialectismos tanto brasileiros como portugueses, assim como regist[ando] e defini[ndo] na sua nomenclatura palavras e locuções dos crioulos orientais e africanos de origem portuguesa» (Villar, Tomo I: XV). Atentos à evolução da língua, como reflexo do progresso societal e do saber, os autores parecem contribuir para uma espécie de ‗ecumenização‘ da mesma (ainda que, por vezes, através de processos conflituosos) que lhe tem «possibilita[do] também a conquista de um novo patamar no desenvolvimeno da nossa lexicografia» (ibidem).

Grosso modo, as obras de referência continuam a ser produzidas para os estudiosos e outros interessados na língua portuguesa, enfatizando-se, em todas elas, o esforço de actualização que corresponderia às necessidades do seu presente.

Descritas as características gerais, analisemos em detalhe os resultados dos dados recolhidos.

Tabela 6 - Registo de ocorrências, dos significados para Luso entre 1900 e 1974 e entre 1975 e 2009

Significados para Luso 1900-1974 1975-2009

Ocorrências % Ocorrências %

Lusitano 23 92% 21 81%

Da Lusitânia 5 20% 5 19%

Português 6 24% 14 54%

Relativo a Portugal 8 32% 13 50%

Elemento de composição de palavras 13 52% 15 58%

Luso-Africano 8 32% 14 54% Luso-Africanismo 1 4% X X Luso-Angolano X X 2 8% Luso-Brasileiro 9 36% 20 77% Luso-Brasilidade 1 4% 1 4% Luso-Caboverdeano X X 2 8% Luso-Cultura 4 16% 3 12% Luso-Guineense X X 1 4% Luso-Macaense X X 1 4% Luso-Moçambicano X X 1 4% Luso-São-Tomense X X 2 8% Luso-Timorense X X 2 8% Lusófono X X 1 4%

78 No que toca à entrada para luso verificamos (tabela 6) que o significado mais recorrente continua a ser o de lusitano, no entanto, a utilização dos significados

português e relativo a Portugal aumentou consideravelmente em relação ao período anterior. Não encontrámos, nas obras de referência, qualquer explicação para este facto, mas admitimos que possa estar relacionado com o desmembramento do império colonial, que terá contribuído para uma maior identificação dos ―lusos‖ como os ―portugueses‖, de Portugal; e, consequentemente para uma consciencialização da conotação étnica associada ao vocábulo luso. Aumentam, também, os vocábulos compostos a partir do elemento luso-, como é o caso de luso-brasileiro (cujo registo de ocorrências passa de 36% para 77%) ou luso-africano (de 32% para 54%); aparecem ainda associadas a luso- as noções de luso-angolano, luso-caboverdeano, luso-são-

tomense e luso-timorense, em 1986, as de luso-guineense, luso-macaense e luso-

moçambicano, em 1992, e a de lusófono, em 2006.

Este último termo, praticamente inexistente até 1972, ganha expressividade no segundo período em análise, passando a ser mencionado em 66% das obras de referência de edição brasileira e em 38% das de edição portuguesa (tabela 5).

De acordo com os dados da tabela 7, o significado usado de forma mais frequente para designar lusófono, traduz genericamente o ―indivíduo ou povo que fala português‖ (77%), seguindo-se a descrição, mais concreta, que lusófono se refere apenas aos povos e países que têm a língua portuguesa como língua materna e/ou oficial (54%).

Tabela 7 - Registo de ocorrências, dos significados para Lusófono entre 1975 e 2009, nas 13 obras de referência que contêm o vocábulo

Significados para Lusófono Ocorrências %

Pessoa de idioma português 2 15%

Indivíduo ou povo que fala português 10 77%

País onde se fala português 1 8%

Indivíduo ou povo que, não tendo a LG PT como materna, a adoptou como LG de

cultura, LG franca ou base para crioulos 3 23%

País ou povo que tem a LG PT como LG materna e/ou oficial 7 54% País ou Comunidade onde a LG PT é a LG dominante 4 31%

Minoria 1 8%

Numa análise comparativa com o significado avançado no período anterior («Diz-se de um indivíduo ou povo que, não tendo a língua portuguêsa como seu vernáculo, a adotam ou a adotaram como língua de cultura, ou base de língua franca ou

79 de crioulos portuguêses» [AAVV, 1972, Vol.9: 4130]), observamos que o vocábulo evoluiu tanto de forma parafrásica, como de modo polissémico, sendo de realçar os novos sentidos de ―língua oficial‖, ―língua dominante‖ e ―comunidade‖ que lhe passam a estar adjacentes.

A definição de lusófono, definido a partir da relação com a língua falada, surge marcada por distintos entendimentos plasmados nas edições brasileiras e nas portuguesas. Enquanto as primeiras se referem primordialmente àqueles que não a tendo como vernácula a adoptam como língua franca ou de cultura (dando o exemplo do que aconteceu e acontece nas regiões africanas e asiáticas), as segundas designam, sempre, que lusófono é aquele que tem a língua portuguesa como sua língua materna e/ou oficial.

A possibilidade de se atribuir o termo a uma comunidade, a comunidade

lusófona, surge em 2001, no Brasil (em 2003, em Portugal), com o Dicionário Houaiss

da Língua Portuguesa:

Lusófono: « Adj. s.m. 1. que ou aquele que fala português; adj. 2. Cuja língua

oficial ou dominante é o português (diz-se de comunidade)» (Houaiss et alii, 2003, Tomo II: 2323).

Como Antônio Houaiss viria a afirmar no prefácio da 2ª edição, em 2005, «a língua portuguesa – a nossa e da lusofonia, na qual se inserem os usos linguísticos dos brasileiros, portugueses, angolanos, moçambicanos, cabo-verdenses, bissanenses, santomenses e quantos aceitam falar à sua imagem, onde quer que estejam – [… insere- se …] numa colectividade numerosa.» (Houaiss, 2005, Tomo I: XVI).

Se bem que o vocábulo lusófono fosse sendo integrado em boa parte das obras de referência, várias foram as edições dadas à estampa, em Portugal e no Brasil, desde 1975 até meados da década de 80, que não incluíram o termo lusofonia. Da análise de conteúdo percebemos que terá sido através de um processo de construção de neologismo (a partir do vocábulo lusófono), que o mesmo apareceu.

Em 1976, com a tentativa de publicação da 2ª Edição do Dicionário da Língua

Portuguesa, da Academia das Ciências de Lisboa, ter-se-á criado grande expectativa na elaboração de uma obra de referência que pudesse preencher as necessidades até então sentidas quanto a um dicionário de língua ―literária e corrente‖ e de um dicionário «que servisse para manter a intercomunicação com o património literário português, um

80 ―dicionário académico‖ que ―deveria utilizar largamente as autoridades da língua e abonar e concretizar o mais possível as acepções, os valores estilísticos e as circunstâncias contextuais do emprego‖» (Verdelho, 2002: 47). No entanto, tal como ancontecera na edição anterior, de 1793, a publicação ficou circunscrita à letra A, desperdiçando-se assim, uma oportunidade de aumentar o número de vocábulos e de ampliar conhecimentos.

Fernando Cristóvão, cientista social associado a várias instituições científicas do ‗espaço lusófono‘, comenta que terá sido nas «últimas décadas do século passado […], sobretudo, com o início das negociações para um acordo ortográfico, cuja primeira proposta foi debatida no Rio de Janeiro em Maio de 1986, [que] tom[ou] lugar cada vez mais importante nos debates culturais o termo ‗Lusofonia‘…» (Cristóvão, 2005: 5).

Ana Madeira argumenta no mesmo sentido, afirmando que no seu percurso até à «consagração lexical, […] a utilização familiar [do termo lusofonia] vinha em crescendo [desde a década de 80], empregue em domínios tão diversos como diverso o seu uso nos vários domínios, do ensaio jornalístico à poesia, passando pela produção académica da crítica literária, da economia ou da sociologia da cultura.» (Madeira, 2003:11).

Na nossa exploração, foi exactamente no ano de 1986 que encontrámos a primeira definição para lusofonia, numa edição brasileira, do Novo Dicionário Aurélio

da Língua Portuguesa, coordenado por Aurélio Buarque de Holanda Ferreira e editado no Rio de Janeiro pela Nova Fronteira:

Lusofonia: «[De lusófono + -ia] s.f. Adoção da língua portuguesa como língua de cultura ou língua franca por quem não a tem como vernácula; tal como ocorre, por exemplo, em vários países de colonização portuguesa» (Ferreira, 1986: 1053).

Esta definição, elaborada em contexto brasileiro, define a lusofonia precisamente nos mesmos moldes que vimos acima para a significação de lusófono (confirmando o neologismo), reiterando a aplicação do termo exclusivamente aos casos em que há uma adopção da língua portuguesa como língua de cultura ou língua franca - e não como língua oficial. Neste sentido, tudo indica que os especialistas brasileiros, autores deste ―discurso‖, se remetem a um vocábulo com aplicação externa aos portugueses, reafirmando a adopção da língua por quem não a tem como vernácula, isto é, nativa.

Ainda que sem poder provar empiricamente que os dois factos estão relacionados, parece-nos lógico que terá sido por força de se tentar incluir nos discursos

81 científicos, políticos e jornalísticos, desde meados da década de 80, a noção de

lusofonia e a ideia cada vez mais abrangente de que o termo lusófono incluía todos os indivíduos e países de língua portuguesa, que terão surgido, pela primeira vez, também no ano de 1986, as expressões até então sem qualquer definição: luso-angolano, luso-

caboverdeano, luso-são-tomense e luso-timorense (recorde-se que até à data apenas existiam as designações de luso-africano e luso-brasileiro). Ter-se-á sentido, com as independências e os movimentos de afirmação nacional de cada um dos países africanos, a necessidade de invocá-los de forma autónoma, como países singulares e distintos do antigo centro?

Eduardo Lourenço, crítico e ensaísta português, defensor de uma abordagem multinacional, apresentava a 14 de Agosto de 1987, no ―VII Encontro Nacional de Professores Universitários Brasileiros da Literatura Portuguesa, em Belo Horizonte, uma comunicação intitulada ―Errância e busca num imaginário lusófono‖. Nela podíamos ler as seguintes declarações:

«O imaginário lusófono tornou-se, definitivamente, o da pluralidade e da

diferença e é através desta evidência que nos cabe, ou nos cumpre, descobrir a comunidade e a confraternidade inerentes a um espaço cultural fragmentado […]. Se queremos dar algum sentido à galáxia lusófona, temos de vivê-la, na medida do possível, como inextricavelmente portuguesa, brasileira, angolana, moçambicana, cabo-verdiana ou são-tomense» (Lourenço,1999 [1987]: 112).

Nesse mesmo ano, em 1987, surge o primeiro número da Revista Internacional

da Lusofonia, inserida na colecção Cadernos do Povo do Instituto de Estudos Lusogalaicos da Fundação Europeia Viqueira – com publicação simultânea em Ponte Vedra (Galiza, Espanha) e em Braga (Portugal).

José Luís Fontenla, director da revista, foi um dos participantes no ―Encontro da Uniformização da Língua Portuguesa‖ que decorrera em Maio de 1986 no Rio de Janeiro – acontecimento que, relembramos, terá contribuido (segundo Cristóvão, 2005) para a vulgarização do termo lusofonia. Não será então de surpreender que, logo no ano seguinte, tenha saído uma publicação contendo no seu título o termo lusofonia. Acontecimento que marcará, indelevelmente, a vontade de incluir a Galiza no ‗imaginário lusófono‘.

Sensivelmente doze anos depois, em 1998, voltamos a encontrar nova referência ao termo no Michaelis: Moderno Dicionário da Língua Portuguesa. Elaborado

82 igualmente em contexto brasileiro, editado pela Companhia Melhoramentos, a lusofonia é apresentada exactamente nos mesmos moldes que em 1986.

Duas reedições de dicionários publicados em Portugal, trazem, em 1999, o vocábulo lusofonia para o contexto português: a 3ª edição do Dicionário Universal de

Língua Portuguesa (da Texto Editora) e a 8ª edição do Dicionário da Língua

Portuguesa (da Porto Editora). As definições são, respectivamente:

Lusofonia: «s.f. (neol.) Adopção da língua portuguesa como língua oficial, por quem não a tem como vernácula; o falar português» (AAVV, 1999: 949).

Lusofonia: «s.f. 1) Conjunto das identidades culturais existentes entre os sete países de língua oficial portuguesa; 2) conjunto dos falantes de português. (de

luso-+-fonia). (AAVV, 1999: 1025).

Na definição da Texto Editora (a primeira), a lusofonia é apresentada nos mesmos moldes que nas edições brasileiras, só que com uma nova nuance: refere-se à adopção da língua como língua oficial - e não como língua de cultura, franca ou base de crioulos.

Para Maria Teresa Biderman (2002: 92), lexicóloga e dicionarista brasileira, estas subtis diferenças nas designações remetem-nos para especificidades geográficas, da antiga metrópole e suas ex-periferias, e podem querer reafirmar a divisão entre falantes do português de Portugal e ‗outros‘ que falam um português não europeu. Este argumento seria suficiente para rejeitar a institucionalização do termo lusofonia ou da expressão comunidade lusófona.

Na definição da Porto Editora (a segunda), a lusofonia é descrita de forma original, alargando-se a concepção polissémica do termo, que passa a contemplar os significados de ‗colectividade‘ e de ‗identidade cultural‘ (nas expressões ―conjunto de identidades culturais‖ e ―conjunto de falantes de português‖).

Ainda no mesmo ano (em 1999), sai para o mercado um novo dicionário brasileiro, da Nova Fronteira, o Aurélio Século XXI. Aurélio Buarque de Holanda Ferreira traz agora uma nova contribuição à definição de lusofonia, explicando-a de forma mais inclusiva e em consonância com a definição da Porto Editora:

Lusofonia: «Comunidade formada por povos que habitualmente falam português» (Ferreira, 1999: 1241).

83 De acordo com Rosário, há «razões de ordem conjuntural, de ordem política e até estratégica que tornam a utilização de cada expressão um instrumento móvel, dificilmente cristalizável em definição perene de uma realidade» (Rosário, 1996: 37).

Seguindo o raciocínio do autor, é interessante notar que, até 1999, a lusofonia era definida apenas como a adopção da língua portuguesa como língua de cultura, franca ou oficial, mas, a partir dessa data (recorde-se que a CPLP tinha sido institucionalizada três anos antes e dava então os primeiros passos para se afirmar), as noções de ―colectividade‖ e ―comunidade‖ começam a estar integradas nas definições avançadas nos dicionários, tanto brasileiros como portugueses. Do nosso ponto de vista, a lusofonia passa então de ‗fenómeno linguístico‘ (adopção de uma língua), a ‗fenómeno social‘ (reunião de povos, falantes, países; formação de ―identidades culturais‖).

O dicionário da Texto Editora remata a sua definição com um englobante ―falar português‖; o da Porto Editora refere o ―conjunto dos falantes de português‖ e o da Nova Fronteira enfatiza uma comunidade composta por aqueles que ―habitualmente falam português‖. Verificamos que todas as definições, não limitando quem são esses falantes, deixam em aberto a possibilidade de o leitor deduzir que o termo se estende a todos os que usem a língua portuguesa, independentemente das condições subjacentes à sua adopção, que, refira-se, podem ocorrer em condições muito diversas, eventualmente até diametralmente opostas. Por outro lado, uma vez que não se faz corresponder essa ―colectividade‖ ou ―comunidade‖ com a recém-criada CPLP, pode deduzir-se que a comunidade enformada pela lusofonia seria mais ampla que essa instituição – uma comunidade que não se resume à instituição fundada a 17 de Julho de 1996.

Ainda que se verifiquem semelhanças nas definições brasileiras e portuguesas, note-se que, à mesma data, os dicionários publicados no Brasil, para lá de divergirem na questão da adopção da língua (como vimos acima), exemplificam a lusofonia com a situação vivida nos países de colonização portuguesa, enquanto os de edição portuguesa, omitem qualquer relação com o passado colonial e não oferecem nenhum exemplo ou ilustração. O que estaria por detrás desta ‗necessidade‘ da parte dos brasileiros de invocar a situação colonial dos portugueses como exemplo da prática da

lusofonia? E o que estaria oculto na omissão portuguesa? Poder-se-á ver aqui o começo de uma incorporação, ainda que subtil, de uma certa estratégia retórica da lusofonia nos documentos que fixam os significados da língua?

84 Não nos podemos alhear do facto de que, nesta questão de construir e fornecer significados, ao esquecimento involuntário, há que juntar aquilo que se deseja ocultar. Como refere José Manuel Sobral (1995), na construção de uma realidade, aquilo que se invoca e o que se retém é sobretudo o que se revela pertinente em dada altura e mediante determinadas circunstâncias. Neste processo, intervêm, indissociavelmente, as publicações e os documentos escritos que conferem significação à realidade.

Em 2001, no desejado Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da

Academia das Ciências de Lisboa64, acentua-se mais um pouco o carácter polissémico do vocábulo; a lusofonia passa a ser descrita como uma ―qualidade‖, uma ―comunidade‖ ou um ―meio de difusão‖ da língua:

Lusofonia: «s.f. (de lusófono + sufixo -ia), 1) qualidade de ser português, de falar português; o que é próprio da língua e cultura portuguesa; 2) comunidade formada pelos países e povos que têm o português como língua materna ou oficial; 3) difusão da língua portuguesa no mundo» (AAVV, 2001, vol.2: 2310).

Podemos extrair alguns significados implícitos nesta elaboração da Academia das Ciências de Lisboa. Do ponto de vista dos seus autores, a lusofonia:

1. diz respeito aos que são portugueses;

2. abarca todos os que falam a língua portuguesa;

3. abarca, não só a língua, mas também a cultura que lhe está associada;

4. enforma uma comunidade linguística de países e povos que têm o português como língua materna ou oficial;

5. assenta na difusão da língua a nível internacional.

Verificamos que, com esta nova e mais alargada definição, a lusofonia passa a designar uma imensa totalidade de falantes de português, de expressões culturais que lhe estão associadas, de países, de povos, de formas de conceber a língua e de a difundir, espraiando-a, inclusivé, para fora do ‗espaço lusófono‘.

A polissemia em que termo passa a estar envolvido conduz ao que Ana Madeira designou de ―projeção [imagética] para fora de [determinado] texto‖ que o explica. De acordo com a investigadora, «a noção de lusofonia projecta-se para fora do texto em imagens que são conteúdos e continentes abertos à recriação do sujeito que a enuncia»

64 Recorde-se que a Academia das Ciências de Lisboa, tinha tentado anteriormente lançar um Dicionário de Língua Portuguesa, mas as duas tentativas empreendidas (em 1763 e em 1976) ficaram circunscritas à letra A.

85 (Madeira, 2003: 15). Baseando-se na noção de ―mitografia‖, trabalhada pelo antropólogo francês Leroi-Gourhan (1981)65, a autora avança ainda que «um vocábulo [como o de lusofonia] que é capaz de nos atirar para fora de um (con)texto, para além da narrativa, em busca de outros territórios, limites, fronteiras, povoado de outros actores, cores, cheiros e sabores, é um poderoso criador de imagens simbólicas pluridimensionais.» (ibidem). Proposição que vai ao encontro da proposta de Michel Pechêux sobre ―formações imaginárias‖ (1997) que referimos acima. Essas formações são possíveis a partir do momento em que a escrita permite, ou faz com que, os seus conteúdos pareçam similiares a realidades visíveis.

Este é, de resto, um argumento que nos parece combinar com a hipótese avançada na introdução desta dissertação, ao admitirmos que a lusofonia e a

comunidade lusófona se consubstanciam em realidades tangíveis através dos efeitos performativos que decorrem tanto da retórica como das práticas.66

Na perspectiva de Chartier, essa lógica poder-se-ia aplicar ao que o autor apelida de ―esquemas intelectuais‖, através dos quais é possível «cria[r] figuras [pelas] quais o presente pode adquirir sentido, o outro tornar-se intelegível e o espaço ser decifrado.» (Chartier, 2002: 17).

Para além da polissemia que os autores do Dicionário da Língua Portuguesa

Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa atribuem ao vocábulo, definem-

no ainda como possível sucessor da teoria lusotropicalista e da prática da miscigenação: Lusotropicalismo: «s.m. (de luso+tropicalismo) Teoria sustentada pelo sociólogo brasileiro Gilberto Freyre (1900-1987), segundo a qual o relacionamento dos portugueses com os povos e culturas dos trópicos assenta em processos de miscigenação e que alguns autores consideram como percursora do que é hoje a lusofonia» (idem: 2310-2311).

Em 2003 e em 2005 surgem em Portugal duas grandes obras: respectivamente, o aclamado Dicionário de Houaiss, anteriormente publicado no Brasil (em 2001) e visto

No documento MICRO-COMUNIDADES E PRÁTICAS DA LUSOFONIA (páginas 102-115)

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