Uma vez mencionados os pontos relevantes no tocante às condições da estabilidade provisória, faz-se oportuno destacar ainda a sua conservação ou não quando ocorrer a extinção do estabelecimento de trabalho.
A jurisprudência vem considerando que, no caso de extinção da empresa na base territorial do sindicato, não permanece a estabilidade provisória do dirigente sindical. A Súmula 369, IV, do TST76, consolida este entendimento.
Delgado apresenta três teorias no que se refere ao pagamento de indenização pelo empregador pela não permanência da estabilidade provisória do dirigente sindical em virtude da extinção do estabelecimento de trabalho:
Uma, apontando o pagamento, a titulo indenizatório, das verbas contratuais devidas até final de garantia de emprego, isto é, um ano após o término previsto para o mandato. [...] Tais valores seriam pagos sem a dobra prevista nos dispositivos da CLT, uma vez que regra punitiva (dobra) não se
73 BARROS, 2008, p. 996. 74 Ibid., p. 995. 75 Ibid., p. 996. 76
IV - Havendo extinção da atividade empresarial no âmbito da base territorial do sindicato, não há razão para subsistir a estabilidade. Cf. BRASIL. Súmula 369. Loc. cit.
estende no direito, nem é passível de aplicação analógica. Trata-se, pois, da indenização simples pelo restante do período de garantia de emprego. Uma segunda interpretação reduz a verba indenizatória somente ao período remanescente do mandato obreiro. Para ela, a frustração do papel social e profissional do dirigente (seu papel representativo, pois) abrangeria, na prática, apenas o período real de seu mandato, descabendo estender-se a indenização até o ano seguinte da garantia.
A terceira linha de interpretação elimina qualquer repercussão indenizatória quanto à situação em exame, vislumbrando a incidência apenas das verbas da dispensa injusta (aviso prévio, etc.). Esta vertente, entretanto, não parece consistente com o conjunto da ordem jurídica: ora, se a extinção da atividade resulta do exercício do poder diretivo empresarial (e isto é reconhecido pela jurisprudência: ver, a propósito, o Enunciado 44 do TST), o ato potestativo do empregador deveria responder pela frustração de garantias trabalhistas em curso, [...] Ou seja, deveria provocar, pelo menos, a indenização simples pelo período remanescente do mandato obreiro, isto é, o período em que, por decorrência do ato unilateral do empregador, frustrou-se o papel social e representativo do dirigente.77 (grifos do autor).
Martins diverge de Delgado no aspecto referente ao pagamento de indenização quando da extinção do estabelecimento de trabalho:
Não há garantia de emprego do dirigente sindical após a falência da empresa. Não existem empregados a serem representados no local de trabalho. O empregado não faz jus à indenização da garantia de emprego do tempo restante após a falência.78
Existe a possibilidade ao ocorrer a extinção do estabelecimento de trabalho, de transferência de dirigente sindical para outro estabelecimento da mesma empresa, desde que este seja na base territorial do correspondente sindicato. Caso exista esta possibilidade e não seja realizada, devem ser pagos os salários do período restante do mandato de dirigente sindical, acrescido este de doze meses.79 77 DELGADO, 2003, p. 95. 78 MARTINS, 2008, p. 404. 79 SÜSSEKIND et al., 2005, p. 725.
5 CONCLUSÃO
No decorrer deste trabalho, restou evidente o fato de os dirigentes sindicais possuírem, em virtude de suas atribuições sindicais, garantias que visam a facilitar suas atuações em prol da categoria que representam. Pelo fato de representarem interesses que tendem a conflitar com os da outra parte numa relação trabalhista, necessitam de certas proteções para não serem alvo de perseguições e implicações no seu campo de atuação.
Após a promulgação da Constituição Federal de 1988, as organizações sindicais obtiveram a prerrogativa de se organizarem de acordo com as suas necessidades, sendo estas estipuladas em seus estatutos. Em face disso, originaram-se entendimentos doutrinários diversos, principalmente no tocante às garantias pertencentes aos dirigentes sindicais, destacando-se a estabilidade provisória.
A estabilidade provisória do dirigente sindical, já assegurada na Consolidação das Leis do Trabalho, ganhou status constitucional com sua disposição no artigo 8º, inciso VIII1, da Constituição Federal de 1988. A garantia aludida protege os empregados dirigentes sindicais durante o curso de seu mandato e até um ano após este da possibilidade de sofrerem dispensas arbitrárias, devendo ser instaurado previamente inquérito judicial para a necessária apuração de violação dos deveres laborais do empregado dirigente. Os dirigentes sindicais são escolhidos mediante eleição ocorrida na entidade da qual fazem parte, devendo para tanto o empregador ter conhecimento da sua candidatura, bem como de sua eleição e posse para que a estabilidade provisória comece a produzir efeito. Sendo assim, não parece constituir interferência indevida a exigibilidade de tal comunicação, pois é plausível que o empregador tenha ciência da candidatura e da possível eleição de seus empregados para tal fim.
Frente à análise de tais condições, verificam-se entendimentos doutrinários pátrios divergentes no que remonta ao alcance da referida estabilidade.
1 VIII - é vedada a dispensa do empregado sindicalizado a partir do registro da candidatura a cargo de
direção ou representação sindical e, se eleito, ainda que suplente, até um ano após o final do mandato, salvo se cometer falta grave nos termos da lei. Cf. BRASIL. Constituição da república federativa do Brasil de 1988. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/_ConstituiçaoCompilado.htm>. Acesso em: 23 out. 2010.
Para alguns doutrinadores, entre eles Mauricio Godinho Delgado, o artigo 522 da CLT2 não foi recepcionado pela CF/1988. Portanto, não haveria de existir limitação quanto à quantidade de dirigentes amparados pelos efeitos da estabilidade provisória. Os defensores desse entendimento sustentam-se na condição de que não seria correto colocar todas as entidades sindicais num mesmo patamar, tendo em vista as diferenças de tamanho dessas, bem como as diferentes regiões de atuação. Sustentam, ainda, que, em virtude da autonomia que dispõe as entidades sindicais para se estruturarem, cabe aos seus estatutos a prerrogativa de estabelecer o número de dirigentes a ser abrangido pelos efeitos dessa estabilidade. Há também posicionamentos no sentido de estender a estabilidade provisória para os membros do conselho fiscal, apesar de o entendimento jurisprudencial assim não considerar, pois estes não atuam na função de direção, condição imprescindível para adquirir tal proteção.
O supracitado artigo foi recepcionado pelo atual texto constitucional, a estabilidade provisória alcança até sete membros e seus suplentes na diretoria de uma entidade sindical, sendo esse o entendimento que a jurisprudência vem adotando. É comum, porém, entidades sindicais disporem de um número maior de dirigentes, contudo, somente será abrangida com essa estabilidade a quantidade disposta na CLT.
Diante disso, é cabível destacar que com as constantes e naturais mudanças em várias áreas da sociedade atual, entre elas as relações trabalhistas, urge uma maior padronização das normas aplicadas, evitando, com isso, divergências de posicionamentos quando da aplicação destas. Não é consistente a equiparação, por exemplo, de todas as entidades sindicais na condição de que somente um número restrito de seus dirigentes possua proteção frente aos possíveis atos abusivos às suas funções sindicais. Cada entidade, como já frisado, comporta uma quantidade distinta de filiados, bem como base territorial de atuação diferenciada, de acordo com o tamanho da categoria representada.
Diante de todo o exposto, conclui-se que não é coerente que se adote um limitador que está incluso numa disposição antiga, que não se adapta a realidade.
2
Artigo 522 - A administração do sindicato será exercida por uma diretoria constituída no máximo de sete e no mínimo de três membros e de um Conselho Fiscal composto de três membros, eleitos esses órgãos pela Assembléia Geral. Cf. BRASIL. Decreto-lei n° 5.452, de maio de 1943: aprova a Consolidação das Leis do Trabalho. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil/decreto- lei/Del5452compilado.htm>. Acesso em: 23 out. 2010.
Desse modo, vê-se como razoável a estipulação de alcance maior do que o atualmente considerado em relação aos efeitos da estabilidade provisória quanto ao número de dirigentes sindicais abrangidos por ela. Contudo, essa prerrogativa não deve constituir-se numa ferramenta para que se conceda estabilidade a quantidade desproporcional de dirigentes, por que, dessa maneira, caracterizaria um verdadeiro abuso de direito por parte das entidades sindicais. Trata-se de tema que deve ser alvo de uma análise mais criteriosa por parte dos diretamente envolvidos, a fim de se equilibrar a aplicabilidade desta prerrogativa, evitando com isso, distinções equivocadas no campo de formação e atuação das entidades sindicais e de seus dirigentes.
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ANEXO A - Lei nº 11.648 de 31 de março de 2008
Presidência da República
Casa Civil
Subchefia para Assuntos Jurídicos LEI Nº 11.648, DE 31 MARÇO DE 2008.
Mensagem de veto
Dispõe sobre o reconhecimento formal das centrais sindicais para os fins que especifica, altera a Consolidação das Leis do Trabalho - CLT, aprovada pelo Decreto-Lei no 5.452, de 1o de maio de 1943, e dá outras providências.
O PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:
Art. 1o A central sindical, entidade de representação geral dos trabalhadores, constituída em âmbito nacional, terá as seguintes atribuições e prerrogativas:
I - coordenar a representação dos trabalhadores por meio das organizações sindicais a ela filiadas; e
II - participar de negociações em fóruns, colegiados de órgãos públicos e demais espaços de diálogo social que possuam composição tripartite, nos quais estejam em discussão assuntos de interesse geral dos trabalhadores.
Parágrafo único. Considera-se central sindical, para os efeitos do disposto nesta Lei, a entidade associativa de direito privado composta por organizações sindicais de trabalhadores.
Art. 2o Para o exercício das atribuições e prerrogativas a que se refere o inciso II do caput do art. 1o desta Lei, a central sindical deverá cumprir os seguintes requisitos:
I - filiação de, no mínimo, 100 (cem) sindicatos distribuídos nas 5 (cinco) regiões do País;
II - filiação em pelo menos 3 (três) regiões do País de, no mínimo, 20 (vinte) sindicatos em cada uma;
III - filiação de sindicatos em, no mínimo, 5 (cinco) setores de atividade econômica; e
IV - filiação de sindicatos que representem, no mínimo, 7% (sete por cento) do total de empregados sindicalizados em âmbito nacional.
Parágrafo único. O índice previsto no inciso IV do caput deste artigo será de 5% (cinco por cento) do total de empregados sindicalizados em âmbito nacional no período de 24 (vinte e quatro) meses a contar da publicação desta Lei.
Art. 3o A indicação pela central sindical de representantes nos fóruns tripartites, conselhos e colegiados de órgãos públicos a que se refere o inciso II do
caput do art. 1o desta Lei será em número proporcional ao índice de representatividade previsto no inciso IV do caput do art. 2o desta Lei, salvo acordo entre centrais sindicais.
§ 1o O critério de proporcionalidade, bem como a possibilidade de acordo entre as centrais, previsto no caput deste artigo não poderá prejudicar a participação de outras centrais sindicais que atenderem aos requisitos estabelecidos no art. 2o desta Lei.
§ 2o A aplicação do disposto no caput deste artigo deverá preservar a paridade de representação de trabalhadores e empregadores em qualquer organismo mediante o qual sejam levadas a cabo as consultas.
Art. 4o A aferição dos requisitos de representatividade de que trata o art. 2o desta Lei será realizada pelo Ministério do Trabalho e Emprego.
§ 1o O Ministro de Estado do Trabalho e Emprego, mediante consulta às centrais sindicais, poderá baixar instruções para disciplinar os procedimentos necessários à aferição dos requisitos de representatividade, bem como para alterá- los com base na análise dos índices de sindicalização dos sindicatos filiados às centrais sindicais.
§ 2o Ato do Ministro de Estado do Trabalho e Emprego divulgará, anualmente, relação das centrais sindicais que atendem aos requisitos de que trata o art. 2o desta Lei, indicando seus índices de representatividade.
Art. 5o Os arts. 589, 590, 591 e 593 da Consolidação das Leis do Trabalho - CLT, aprovada pelo Decreto-Lei no 5.452, de 1o de maio de 1943, passam a vigorar com a seguinte redação:
“Art. 589. ... I - para os empregadores:
a) 5% (cinco por cento) para a confederação correspondente; b) 15% (quinze por cento) para a federação;
c) 60% (sessenta por cento) para o sindicato respectivo; e
d) 20% (vinte por cento) para a ‘Conta Especial Emprego e Salário’; II - para os trabalhadores:
a) 5% (cinco por cento) para a confederação correspondente; b) 10% (dez por cento) para a central sindical;
c) 15% (quinze por cento) para a federação;
d) 60% (sessenta por cento) para o sindicato respectivo; e
e) 10% (dez por cento) para a ‘Conta Especial Emprego e Salário’; III - (revogado);
IV - (revogado).
§ 1o O sindicato de trabalhadores indicará ao Ministério do Trabalho e Emprego a central sindical a que estiver filiado como beneficiária da respectiva contribuição sindical, para fins de destinação dos créditos previstos neste artigo.
§ 2o A central sindical a que se refere a alínea b do inciso II do caput deste artigo deverá atender aos requisitos de representatividade previstos na legislação específica sobre a matéria.” (NR).
“Art. 590. Inexistindo confederação, o percentual previsto no art. 589 desta Consolidação caberá à federação representativa do grupo.
§ 1o (Revogado). § 2o (Revogado).
§ 3o Não havendo sindicato, nem entidade sindical de grau superior ou central sindical, a contribuição sindical será creditada, integralmente, à ‘Conta Especial Emprego e Salário’.
§ 4o Não havendo indicação de central sindical, na forma do § 1o do art. 589 desta Consolidação, os percentuais que lhe caberiam serão destinados à ‘Conta Especial Emprego e Salário’.”(NR)
“Art. 591. Inexistindo sindicato, os percentuais previstos na alínea c do inciso I e na alínea d do inciso II do caput do art. 589 desta Consolidação serão creditados à federação correspondente à mesma categoria econômica ou profissional.
Parágrafo único. Na hipótese do caput deste artigo, os percentuais previstos nas alíneas a e b do inciso I e nas alíneas a e c do inciso II do caput do art. 589 desta Consolidação caberão à confederação.”(NR)
“Art. 593. As percentagens atribuídas às entidades sindicais de grau superior e às centrais sindicais serão aplicadas de conformidade com o que dispuserem os respectivos conselhos de representantes ou estatutos.
Parágrafo único. Os recursos destinados às centrais sindicais deverão ser utilizados no custeio das atividades de representação geral dos trabalhadores decorrentes de suas atribuições legais.” (NR)
Art. 6o (VETADO)
Art. 7o Os arts. 578 a 610 da Consolidação das Leis do Trabalho - CLT, aprovada pelo Decreto-Lei no 5.452, de 1o de maio de 1943, vigorarão até que a lei venha a disciplinar a contribuição negocial, vinculada ao exercício efetivo da negociação coletiva e à aprovação em assembléia geral da categoria.
Art. 8o Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.