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Perdidos e Achados

No documento Lins, Osman - Nove, Novena (páginas 105-123)

JUvaro de Soaza Melo P,°s Antônio A. Macedo Lima, Ernâní Bezerra,

Lauro de Oliveira e Eoderieo Queiroz.

PRAIA é uma terra de ninguém que as águas perdem e reconquistam. Regidos pelo ciclo das marés, os bichos que povoam esta fronteira e que na origem foram habitantes do mar, desde muito aceitaram a ingrata condição de seres dispu­ tados pelos mundos talássico e terreno, Se alguns perfuram galerias para esquivar a invasão da mon­ tante, outros aderem aos seixos, imobilizam-se entre as pedras úmidas, asilam-se nas poças, Há os que absorvem uma reserva dágua e que morrerão ressecos se ficarem ao sol por demasiado tempo. Bichos que vivem em conchas, fecham-nas; muitos penetram na areia úmida. Solje a maré, invade ga­ lerias, tritura seus habitantes, traz os peixes gran­ des, ágeis, ceifadoreSj de olho vigilante e dente sôfrego. Tudo revolvido, sobrevêm a vazante, afas­ ta-se 0 fragor da ressaca, vão-se os peixes. Descem então sobre as anémonas ocultas entre as rochas, sobre os moluscos e crustáceos miúdos abrigados nas águas mortas da praia, sobre os fugitivos das inumeráveis galerias que reaparecem medrosos en­ tre conchas ocas e fragmentos cuspidos pelo mar, descem, mais vorazes que os peixes, as sombras das aves costeiras — agudos bicos, os olhos terrestres.

— Não sei.

— Quantos anos?

— Sete e poucò, louro, calção verde. •— Não vi.

— Há dez minutos éle estava aqui, jogando bola.

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Ali, sentado na areia, em roupa de banho,

junto à grande barraca de lona azul que nós pró­ prios, do clube, armamos bá duas horas e meia, vejo quando Renato, a três metros de mim, diz- a última írase. Está de pés descalços, calção negro, camisa vermelha e tem a mão direita estendida, in­ dicando 0 tamanho do menino. Será por ter perdido muitos bens, e não ter forças para viver o que em troca me foi dado, que então me enche a boca uma alegria raivosa, uma esponj^ de mel e amoníaco? Tendo presente a noite em que fui sendo despoja­ do, um por um, dos objetos que trazia comigo, para em seguida perder bens ainda maiores, observo quando seu rosto se fende com um ruído seco, tal nos dias de calor intenso os vidros emoldurados.

V Estendida na areia, também eu cor de areia,

sob o guarda-sol de gomos amarelos, observo o ho­ mem à sombra da barraca. Enquanto o outro fa­ lava, pedindo informações sobre a criança, um dispositivo qualquer foi posto a trabalhar nos seus olhos, transformados de súbito em órgãos penetran­ tes, sem piedade alguma, como os dos animais ca­ çadores. Quase não me lembro de meu pai, vi-o poucas vezes, seu verdadeiro lar talvez fõssem os navios de pequena e média cabotagem, suas visitas não eram muito freqüentes, nem demoradas, mas assim olhava para todas as coisas: como se estivesse a ponto de saltar sobre elas. XJm rosto raro. Valia a pena vê-lo ao menos uma vez na vida.

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Mantê-lo sob vigilância. Dentro do possível,

seguir com todo rigox seus passos e palavras, regis­ trar a evolução daquele desespero. Observar, como um resumo, em poucos minutos, o que cedo ou tar­ de sobrevêm a todos, mas se processando em anos: reconhecer que um bem essencial nos foi arreba­ tado. Ele ainda está bem longe disto. Hesitante, um rosto perscrutando o mar, outro batendo a ave­ nida, dois ainda procurando ver o mais longe pos­ sível na praia ensolarada, cheia de toldos, de ba­ nhistas e de vendedores ambulantes, seu espírito, tomado pela idéia de que o filho está morto, e confortado pela não perdurável esperança de que dentro em pouco irá reencontrá-lo, assemelha-se à praia, que as ondas cobrem e abandonam, tornam a invadir. Envergonhado de sua própria pergunta, pois fazê-la é propagar seu temor e dar-lhe consis­ tência, dirige-se a algumas pessoas, sorrindo e pondo a mão na altura que seria a dos cabelos do filho, e as respostas são sempre discordantes, um apontou para o norte, outro para o sul, houve ges­ tos vagos, negativas, alguém alonga a braço para 0 mar.

Q j Assim como um zumbido, gerado no âmago de muitos outros rumores, atravessa-os, sem his­ tória nem destino, surgirei em minha bicicleta, lentamente cruzarei a praia, tendo à minha es­ querda as ondas altas, à direita os carros na aveni­ da, os edifícios, os consulados com grandes bandei­ ras hasteadas. Violarei, entre pragas, a área onde rapazes jogam futebol, verei Jangadas no mar e em repouso na areia, navios ancorados, barcos a motor, a mulher deslizando sobre as águas, crianças flu­ tuando em animais de plástico, velhos boiando em câmaras-de-ar, a esquadrilha de jatos fazendo

acrobacias; passarei por vendedores de mangabas era cestos, de cajus em tranças, de cocos em bar­ racas, de tanjerinas em cachos, carroças de sorve­ tes, de refrigerantes, guarda-sóis, esteiras, toalhas, bolsas de vime, duplas com tênis de praia, grupos

com petecas de plumas, times jogando volley, ba­

nhistas deitados, furando as ondas, outras bicicle­ tas, chapéus em forma de dalias, de cones, de pássaros, de caixas, noivos escrevendo no chão, mães batendo nos filhos, crianças procurando con­ chas, fazendo casas de areia. Tudo cruzarei, regis­ trarei, sem que ninguém me lance o mínimo olhar, desaparecerei como termina um zumbido, para nunca mais ser recordado.

— Tudo bem, Renato? — Mais ou menos. — Que tal os aviões?

— Não prestei atenção. Estou apreensivo

com. . .

— Você chegou a ver o Zeppelin?

— A fotografia. Saiu nos jornais.

— Eu era bem pequeno, mas me lembro. Aquilo, sim. Não sei por que não continuam fazen­ do zepelins.

— Também não. Meu garoto. . .

— É isso... Tudo muda. Imagine o que hão de ver os nossos filhos.

— Onde estão os seus? — Ali, tomando banho.

— Nenhum quis ver a parada de

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de se­

tembro? Não.

O meu, queria. Gosta de passeatas. Você

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viu há pouco?

— Não. Puxaram a mim, os meus. Gostam de mecânica e de praia. Vamos mergulhar?

— Depois.

— Por que depois? São onze e quarenta. Da­ qui a meia hora chega nosso ônibus. Não temos muito tempo. Vamos. Dizem que a vida começou no mar. Voltemos à origem.

A Começou no mar? Exatamente onde, se antigas montanhas Jazem sob os oceanos e se es­ queletos marinhos aparecem por vezes em grandes altitudes? Ignoro como pude haver cedido à Insis­ tência, que sequer foi muita, e estar banhando-me, se não vejo meu filho, se ninguém me dá informa­ ções sobre êle, se é provável que esteja há poucos

metros de mim, o rosto na areia. Pot todo o longo

período cambriano a terra era deserta: a vida con­ finada às águas sem peixes. Nenhum vertebrado. Moluscos, esponjas, medusas, longos trilobitas va­ rejavam as espessuras marinhas, à deriva. Não hatiam surgido os bichos nadadores. Calva, estéril e morta, como nos tempos de que nem os fósseis têm memória, assim revejo agora a terra sem meu filho. Urge sair, gritar, mover-me na praia, assumir de uma vez a condição de homem sdbre quem des­ cem 0 bico e as garras do infortúnio, para que todos saibam e ajudem-me. Ainda que a procura não me sirva de nada.

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Os infortúnios desabam soore a cabeça dos

homens? Antes, em nossa cegueira, neles nos pre­ cipitamos, como quem se joga num porão. Jamais somos alheios ao que nos sobrevêm. Poderia eu, quando levava minhas filhas a passeio nas tardes de domingo, oferecendo-lhes papoulas arrancadas de sobre os muros de tijolos ou sentando-me à relva com um volume de Horácio, enquanto elas brinca­

vam ao sol, poderia então imaginar que já estava em marcha para o momento ainda longínquo em que de repente viria a perdê-las? E como adivinhar, ao sair de casa naquele entardecer, para festejar em segredo o aniversaria de Z. I , que perderia uma porção de coisas, salvando pouco mais que a vida e recebendo algo que a minha tibieza não me per­ mite acolher? Ignorante de tudo, favoreci e engen­ drei meus próprios movimentos, preparando com cuidado, ponto por ponto, aquele desastre, nem se­ quer reconhecendo estar no âmago da desventura,

quando esta fora consumada. Zelosamente, o

destino oculta suas obras, sendo quase sempre ne­ cessário, para descobri-las, varar muitas camadas de insciência. Diante de Renato rasguei-as mais veloz que os demais: precedo-o no conhecimento de sua penúria. Acompanharei — experiente, sábio e ainda sem misericórdia — sua luta contra a acei­ tação do que está cumprido. Tal um invasor no pátio do futuro, esperá-lo-ei vigilante, não perde­ rei nenhum de seus passos. Esquecerá quase tudo que Já fez ou irá fazer nos próximos momentos: o diálogo sobre dirigíveis, seu banho extemporâneo, a indiferença de todos, esta corrida que iniciou para a esquerda, retrocedendo em seguida, abalando para a direita, detendo-se, levando as mãos ao rosto (primeiro gesto aflito), galgando o monte de areia e devassando do alto a praia em festa, para avan­ çar em direção a um menino que brincava à dis­ tância, logo reconhecendo não tratar-se do seu, o que provocou uma exacerbação de movimentos, seguindo-se uma fase de estupor e um repentino avanço rumo à evidência. Registrarei com minú­ cias suas idas nas trevas, suas vindas. Quem sabe

se isto não me ajudará? .Dirige-se para as Jangadas em repouso.

V Nosso pai, também desaparecido no mar,

não chegou a ver o último filho, nascido três se­ manas após a sua morte. O capitão do cargueiro

nos visita: “Ele nadava bem, apesar da idade.

Deve ter sofrido uma tontura, tropeçado. Aciden­ tes sucedem a todos. Demos busca, o dia era esplên­ dido. Dez minutos antes éle fora visto cortando as unhas com a faca, entre a ponte e os barcos de

salvamento, Na 'verdade, procuramos bastante.

Decidi vir em pessoa, dar-lhe os pêsames. Se puder fazer alguma coisa. . . ” Por isto, sei o que é a procura désse homem. Não decidiu ainda transmi­ tir sua inquietação'. Em torno do local onde notou a ausência do menino e que assumiu, em seu espí­ rito, a função de centro imaginário da aflição, vai traçando elipses concêntricas, ampliando calado — ou falando sozinho — sua busca. Assim vejo o car­ gueiro, abrindo uma espiral com a proa, por causa de meu pai morto no Atlântico. Todos os seus do­ cumentos haviam ido com ele; as repartições não conservaram seus retratos; também não possuía­ mos nenhum em casa. Vinte anos depois, meu irmão, compelido a fixar num rosto seu repentino amor pelo pai nunca visto, iniciaria outra procura, atrás de uma fotografia que soubera existir em Se- rinhaém, Goiana e Flores do Indaiá, terras natais de meu pai, onde meio sécula antes ele fizera a Primeira Comunhão, ao mesmo tempo que vários outros meninos. Desse acontecimento, havia uma pose em sépia, vinte e cinco rapazinhos de branco, hoje quase todos desaparecidos,

A Em paz, estas jangadas voltaram, todas, do mar alto. E meu filho sugado' pela orla? Depois

do cambriano, grandes como homens, e até maio­ res, surgiram os escorpiões marinhos. Multiplica­ ram-se, instauraram nas espessuras salgadas seu reinado. Nadavam lentos, com as patas abertas, semelhantes a grandes serafins agressivos. Milhões de anos mais tarde, consumado o ciclo de sua pas­ sagem flageladora, transportaram-se para as águas doces ou salobras, abrigaram-se já sem grande po­ der nos estuários, rios, lagoas e lagunas, No per- miano haviam desaparecido. Mas ainda no ciclo anterior, quando a fauna marinha diversificara e peixes anfíbios se arrastavam nos pântanos, eies do­ minavam. Este mar que talvez haja levado meu filho é para mim como as águas de apôs o cambria­ no, cheia de escorpiões com palmos de tamanho e aguilhão irado, parecendo anjos de asas secas.

Começando a enervar-me. Não acho meu

menino.

— Deve estar por a i

— Vou procurar com você. Vamos também? — Pra onde?

— O filho de Renato desapareceu. — Quando?

— Mais de meia hora. Que é que eu faço? — Siga nesse rumo; eu caço do outro lado. Mas não vá sozinho.

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Será importante o que vai ocorrer: a decla­

rada ampliação da busca, a precipitação do terror. Devo testemunhar estas coisas. Atravesso com Re­ nato a praia, o negro mar de um lado, de outro os prédios com seus vidros lilases, a avenida com ru­ tilantes veículos. Ali estamos, lado a lado, na areia cor de sal, entre pessoas que também perderam filhos ou relógios, a juventude ou oportunidades, a coragem ou os dentes, os pais ou o dinheiro, a con­

fiança ou o braço, ou o ardor, ou os bens de raiz, ou a identidade, ou o emprego, ou o juízo, ou o rumo, ou a força, ou a vida, ali estamos farejando um morto. Alguém olha o relógio, onze e quarenta e oito, nesta mesma praia marcamos um encontro

eu e Z. I., para assistir ao despontar da lua. Levo-

lhe rosas, faz quatro anos que nos vemos em lu­ gares desertos e sombrios, numa espécie de lirismo estéril. Nem sequer nos tornamos amantes, apenas discutimos sobre tal problema. Nossas entrevistas

são ternas e aflitivas, os beijos exaltados, terríveis

os adeuses. E que fazemos para alterar o que exis­ te? Não nos decidimos a romper, nem a nos ligar­ mos de uma vez. Culpamos nossa delicadeza, repe­ timos que jamais seriamos felizes ao preço de sofrimentos alheios: nossa paixão se nutre da indulgência com que nos contemplamos. Jogo do­ loroso, no qual vou-me enredando, ignorando — cada vez mais — o que há de imaginária nele. Z. I. não veio à praia. Faltar algumas vezes, por remorso ou pudor, a encontros longamente esperados, faz parte do ameno ritual que criamos. Chegar com grande atraso, testificando assim a hesitação, é outra cerimônia. Tenho esperado duas horas se­ guidas por Z. I., para afinal ir embora ou vê-la aproximar-se, num caso como no outro imerso em êxtase. Respiramos prazeres cultivados e sofrimen­ tos que não golpeiam fundo. Preciso de Z. I, para sentir-me vivo, sendo indispensável, à economia do meu ser, que os encontros secretos e os telefonemas em voz baixa, entre os quais, não raro, passam-se muitas semanas e até meses, ocorram sobre a plá­ cida e segura courente dos meus dias, e que eu os recorde entre a família — minhas três filhas, mi­ nha esposa prosaica e afetuosa — os cinco sob a

lâmpada, ante as porcelanas, talheres e cristais da mesa de jantar. Sozinlioj vejo a lúa nascer, jogo as rosas ao' mar. Não em vão: revelarei a Z. I. éste meu ato. Tocada, marcará um encontro à margem do canal, para comemorarmos seu aniversário, e então será o fim de minha vida cômoda e bifronte. Começaram a falhar os nervos de Renato. Perce- bo-o pelo modo seguro como age, á maneira dos que são mais compostos bêbados que sóbrios. Seu desesptíro ^avultou, multiplicou-se, andar lhe pa­ receu de súbito* um recurso precário. Apossou-se de uma bicicleta cujo dono está sem dúvida no mar, caiu por duas vezes, equilibrou-se por fim, pedala sinuosamente. Fico no local, porei o dono, caso surja antes dele, a par do que sucede. Pedirei desculpas.

A Escorpiões verdadeiros, ancestrais dos que existem hoje e precursores da vida nos continentes desertos, apareceram no siluriano. Então, de ma- lacacheta, lama, luz refratada, escuridão e sal, formam-se os peixes, vorazes desde o começo. En- tredevoram-se e a cada milênio são mais numero­ sos. Grandes convulsões modificam a terra, pro­ montórios submergem, lagos ficam secos. Mares esvaziam-se.

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O canal atravessa o Recife, do Derby a San­

to Amaro, como um bicho cego e poderoso. Lento e pertinaz, avança, contorna a Boa Vista, quase não faz voltas, vai cortando ruas, praças, avenidas, com suas águas podres, fosso interminável e mais devas­ tador que 0 tempo. De um lado e outro cresce o mato, medram arbustos selvagens, proliferam ca­ sebres. Nenhuma lâmpada, salvo nas dez pontes;

Paiçandu, Ponte das Fronteiras, Pequena do Derhy,

três do Parque Amorim, Ponte do Espinheiro, de

João de Barros, Ponte do Maduro, da Tacaruna. Muitas vezes eu e Z. I. lá nos encontramos, nos

espaços de sombra entre essas pontes, como tantos

amorosos cujos vultos perpassam, esquivos, rostos baixos, entre batráquios, répteis, cavalos soltos e nuvens de mosquitos. Renato está de volta. Com extremo cuidado, repõe a bicicleta, nada me fala a respeito da busca. Sua cara partiu-se em dez pe­

daços. Tem os olhos vidrados, a camisa na mão, o

calção úmido. Meninos brincam. A bola, atirada alto, bate no seu ombro. Volta-se, chuta-a em di­

reçã o ao mar com violência, insulta as crianças.

Põe-se a gritar pelo nome do filho. Os meninos correm amedrontados, ele continua a lançar o no­ me ao vento, pede-me que o imite, grito sem con­ vicção. Assim estou chamando por Z. I., aquela noite, vendo-a afastar-se e certo de que não me olhará de frente. Nunca mais. Uma sii’ena vibra não sei onde, é meio-dia, a esquadrilha de jatos surge novamente, cruzam atroadores a praia em vôo raso, no mesmo instante os navios de guerra disparam seus canhões, o horizonte -se enche de

fumaça, os estampidos das salvas abalam chão e

casas, Renato continua a gritar, ninguém ouve o chamado, eu silencio.

V Duas antigas beatas da cidade, Anita e Al­

bertina, uma das quais toca rabeca e órgão, têm a fotografia: nosso pai e seus companheiros, todos de branco, os círios apagados. Isto meu irmão ou- viii dizer. Na sala de visitas, Junto à igreja ma­ triz, entre velhos móveis e um candeeiro aceso, de

vidro azul, ele interroga-as. V Mães indo buscar as

crianças dentro da água ou na areia, trazendo-as de arrasto pelo braço, algumas pela orelha. Vê-se o orgulho estampado em seus rostos: arrancaram os

filhas à morte. Diálogos de susto, ressentidos, esta­ lara entre elas. V As duas virgens de branco quase

nada sabem, confundem nosso pai com outros me­ ninos. Os cabelos de uma fizeram-se grisalhos; os da musicista, apesar dos cinqüenta, continuam amarelos, cor de papel velho. Esta, sem nenhum motivo, emite a curtos intervalos uma risadinha crocitada e rouca, de papagaio ou de rasga-morta- Iha. V Uma das zelosas mães não encontrou a filha, correu em lágrimas para a barraca,, todos se precipitam, falam rápido. Um componente do clu­ be embriagou-se, faz um passo de dança em frente

ao grupo conturbado, oferecendo cajus que só as crianças aceitarão. V As paredes das beatas, cheias de estampas sagradas, o estojo da rabeca em cima de um consolo. Ambas trazem no pulso um rosário de contas brancas. Négam ter visto a fotografia. Limitam-se a fazer, para meu irmão, o retrato de nosso pai aos treze ou quinze anos, semelhante ao de qualquer adolescente. O sino da igreja bate nove horas, elas persignam-se, a do cabelo amarelo volta a rir. V Propagou-se a noticia de que um menino se perdeu e de que talvez seu cadáver apareça de súbito na praia, jogado pelas ondas. Esta parte do mar, feita câmara ardente, começa a esvaziar-se. As pessoas conversam, olham em direção à barraca azul do clube, algumas vieram sondar o que se pas­ sa, outras se afastaram. V A dos cabelos grisalhos

diz a meu irmão que Jovina Veras é quem deve pos­ suir o retrato onde se vê nosso pai. Mas Jovina mudou-se, está morando com o irmão, num sítio. Onde? Não sabem exatamente; fora da cidade. Vão rezar para que meu. irmão ache o que pro­ cura. V A claridade ergueu-se do oceano como um

grande anfíbio, egresso dos abismos. Punhais chis-

pam entre as ondas. Com suas quilhas de prata, remas de fogo e enormes velas esplendentes, cen­ tenas de galeras atravessam devagar o espaço, refletem-se no mar. O anfíbio cresceu, avança, in­ vade-nos, ilumina-me por dentro, fecho os olhos e me vejo como se vê um ovo contra o sol. Até as casas fechadas acenderam-se, mesmo os porões estão claros. Breves diálogos, dentro desta luz tão densa

No documento Lins, Osman - Nove, Novena (páginas 105-123)