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Lins, Osman - Nove, Novena

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Academic year: 2021

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O S M A N L I N S

LiT B iU fív W f

NOVE, NOVENA

N A R R A T I V A S

2.^ Edição

\^SéRl^

(2)

) Comp. Melhoramentos de São Paulo, Indiisirías de Papel Caixa Posta! 8120, São Pauio

N x X-197S

DO A U TO R

O Visilante, romance, Rio, 1955,

Prêm io Fâblo Prado;

Prêm io Coelho Neto (Academia Brasileim de Letras); Prêm io Especial da A.P.L,

Os Gestas, cornos. R io, 1957.

Prêm io M onteiro Lobato;

Prêm io da Prefeitura de São Paulo.

O Fiel e a Pedra, romance, R io, 195!,

Prêm io Mario Sete.

S2o Pauio, Edições Melhoramentos, 1974, 4.“ edição.

Marinheiro de Primeira Viúsem, Rio, 196S!. Lisbela e o Prisioneiro, teatro, Rio, 1984.

P rêm io Nacional de Comédia da Cia. Tônía-Celi-Autran.

Nove, Novena, narrativas, S5o Pauló, 1966. Um Afundo Sslasnado, ensaio, Recife, i s e s f

Capa-Verde e o Natal, teatro infantiS, S5o Paulo, 1967. Guerra do "Cmisa-Cavaio", leatro, Petrópoüs, 1967.

Prêm io José de Anchieta.

Guerra sem Testemunhas — o Escritor, sua Condição e a Realidade Social, ensaio, SSo Paulo, 19B9.

Avalovara, romance. Edições Meihoramenios, !973.

TRADUÇÃO

0 Urso Polar t outras novelas, de Henrik Ponioppidan, R io, 1953.

Nos pedidos telegráficos basta c ita r o eód, “-01-02-032

'‘À ágwcb, 0 vento, a claridade,

de wm lado o ria, no alto as nuvem situavam na naÈureza o edificio crescendo de suas forças simples."

JOÃO CABRAL D E MELO NETO ÍO Engenheiro)

"ü m a concepção geoTnétrica sintética

e clara fornece sempre um bom plano."

MATILA C. GHYKA {Esthéiique des Propor-

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N O V E , N O V E N A N O V ID A D E

JOÃO ALEXANDRE BARBOSA

Q u e r o c o m e ç a r e s t a introdução transcrevendo um tre­

cho do admirável ensaio que o formalista russo J. Tynia- nov escreveu sobre "a noção de construção*’ em literatura:

“O fato artístico, dizia ele, não existe fora da sen­ sação de submissão, de deformação de todos os fa­ tores pelo fator construtivo”.

Apesar da distância cronológica que nos separa da época de realização do referido ensaio (1923), a afirmação pa­ rece-me muito atual e ainda válida. Digo mais: somente agora é que se começa a dar importância devida à idéia da obra de arte literária enquanto forma construída a par­ tir de elementos heterogêneos que se resolvem através de um processo específico de elaboração. E esta perspectiva parece hoje extrapolar as considerações apenas "poéticas” para atingir os diferentes gêneros, derrubando fronteiras anteriormente rijas, esfumaçando características tradicio­ nais. Fazendo com que, em um de seus livros, Roland Barthes possa afirmar que “un même langage tend à cir- culer partout dans la littérature, et jusque derrière lui- même; le livre est ainsi pris à revers par celui que le fait; il n ’y a plus ni poetes ní romanciers: il n ’y a plus q’une écriture”

Por outro lado, é precisamente a relação que se pode estabelecer entre a “noção de construção” e esta idéia da literatura enquanto “écriture” que desejo adotar como ponto de referência teórico para as considerações a que me proponho acerca deste livro de Osman Lins. Isto por­ que, sem um ponto de vista dessa ordem, parece-me difícil

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uma análise crítica capaz de incorporar, do modo mais amplo possível, todas as significações da obra, isto é, “um sistema global de signos, ou uma estrutura de signos, que servem um objetivo estético específico” (René Wellek).

N o caso presente, tal objetivo é intentado sob o prisma ■ da construção narrativa, procurando o autor, através de nove peças de ficção em prosa, a~~êTãboração de uma lin­ guagem que seia capaz de fisgar, em diferentes planos. partículas significativas da existência humana. Isto, que talvez se possa dizer a respeito de qualquer produto do trabalho criador literário, afirma-se, no entanto, como uma característica fundamental na obra de Osman Lins e lhe confere, verdadeiramente, a novidade com que com­ pletei, no titulo da Introdução, o título do livro. Porque não se trata apenas de uma série de contos, mas de exercí­ cios de “écriture” orientados no sentido da formação de um universo ficcional que, como tal, inclui personagens, objetos, situações, tramas e significados que, entretanto, são percebidos pelo leitor enquanto intimamente depen­ dentes do próprio ato de reorganização lingüística que lhes deu origem. É que, entre a percepção do mundo, projetado pela linguagem, e a assimilação da leitura, o autor obriga-nos a um encontro decisivo com todos os elementos de execução que configuram a construção do texto. Ele não conta; escreve. Mas, por este ato, cria um espaço em que s e ^ tu a a fabulação. E faz surgir, então, ^ a narrativa con}o se fora^m a imposição inevitável decor­

rente do enlaçar-s^e~ir fti'ndir-se das palavras, respondendo a indagações da sensibilidade ao encontro com a reali­ dade. Daí, possivelmente, o caráter ornamental da lingua­ gem utilizada na obra e que parece responder, por outro lado, a um princípio estruturai de extração de significados a partir da própria organização literária.

Por outro lado, este procedimento caracteriza também toda a artificialidade de que se revestem as narrativas, não se escondendo por trás de uma “espontaneidade” que não

parece ser um dos objetivos do autor, antes confirmando aquilo que, na análise de Gogol, dizia B. Eikhenbaum, isto é, que “a obra de arte é um objeto acabado ao qual se deu forma, que se inventou, que é não somente artística mas artificial no melhor sentido da palavra.”

Deste modo, vários elementos tradicionais da técnica narrativa foram passados por sob o crivo da experiência pessoal de Osman Lins que procurou reconsiderá-los de acordo com suas próprias necessidades de expressão.

Assim ocorreu, por exemplo, com a adoção sistemática dos discursos direto e indireto livre,, deixando de ser o autor “um medianeiro entre o leitor e a figura” e pro- r;iirando r> e.nrnnfm *'a Hnís-’ — leitor e personagem —, exigindo, portanto, resoluções em outros níveis da com­ posição. E o autor não fugiu a tais exigências mas buscou, ousadamente, resolvê-las, como aconteceu com o emprego de uma técnica de simultaneidade que, na verdade, cor­ responde a uma perspectiva antes espacial do que tem­ poral da narrativa, alicerce da cinematografia, e baseada numa moderna noção do tempo, “cujo elemento funda­ mental, para dizer com Arnold Hauser, é a simultanei­ dade e cuja natureza consiste na espacialização do elemen­ to temporal”.

Sendo assim, aquilo que possa chamar a atenção pelo ineditismo nas diversas narrativas, isto é, a utilização de alguns sinais para a determinação do ponto de vista encon­ tra razões de ordem estrutural para a sua existência. Cír­ culos, quadrados, retângulos, triângulos, traços paralelos verticais e outras representações tipográficas já existentes 011 inventadas pelo autor, tudo vem responder a necessi­ dade de determinação, sem que ele se veja obrigado a adotar processos estereotipados. Ao contrário disso, força a abertura de inúmeras possibilidades de organização, arrastando a participação do leitor, obrigando-o. mais uma vez, a penetrar por sob o próprio trabalho de criação.

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complexidade, desde, por exemplo, “Um ponto no cir­ culo”, em que um personagem masculino e um outro feminino monologara em torno de uma experiência/ato comum, diversificados, contudo, na perspectiva assumida, até o enovelado mundo que ressalta de “Pentágono de Hahn" com suas numerosas presenças cruzando um fogo contínuo de experiências e frustrações, de recordações e anseios, desde a identificação inicial adulto/criança (era que os sinais tipográficos atuam como sistemas de apoio para a simultaneidade psicológica, onde o tempo é estra­ çalhado pela justaposição espacial) até o últim o monólogo do adulto:

“Enterra os mortos. Escreve, não importa como nem o quê. Do passado, senhor que hoje te absorve e trava as forças do viyer, posse conquistada com o sangue de teus dias, faz ura servo, não mais uma entidade soberana, um parasita. Sejam as recorda­ ções, não renegadas, campo sobre o qual exer- cerás tua escolha, que virá talvez a recair sobre tuas próprias mortes, sobre elefantes que nunca mais verás, para entregar tudo aos vivos e assim vivificar o que foi pelo Tem po devorado. Atra­ vessa o mundo e suas alegrias, procura o amor, aguça com astúcia a gana de criar”.

Outro exemplo de semelhante processo é “Retábulo de Santa Joana Carolina”, talvez a mais construída narrativa do livro, em que, através de doze mistérios, Osman Lins desenvolve uma análise, por assim dizer, convulsiva de todo um pequeno mundo de seres miseráveis que, por seus monólogos, diálogos e impressões, vão ajustando a ótica de suas vistas turvas e obstruídas pela existência estreita em torno de Joana — personagem ao mesmo tempo una e múltipla, na medida em que é a sua presença que origi­ na as demais personagens, tanto quanto existe, como

“flatus voeis”, a partir das outras. É realmente admirável

o trecho do “mistério final”, onde o autor realiza a fusão de lembranças, de nomes e da natureza por meio de um intenso virtuosismo verbal:

“Vamos carregando Joana para o cemitério, atra­ vessando a cidade e seu odor de estábulos, de cera virgem, de leite derramado, de suor, de frutas, de árvores cortadas, de muros úmidos, entre Floras e Ruis, Glórias e Sálvios, Hélios e Teresas, Isabéis e Ulisses, Josés e Veras, Luízas e Xerxes, Zebinas e Áureos. Viveú seus anos com mansidão e justiça, humildade e firmeza, amor e comiseração. Morreu com mínimos bens e reduzidos amigos. Nunca de nunca a rapinagem alheia liberou ambições em seu espírito. Nunca o mal sofrido gerou em sua alma outras maldades. Morreu no fim do inverno. Nas­

cerá outra na próxima estação? O branco, o verde, o gris. Alvos muros, cipreste, lousas sombrias. Sob a terra, sob o gesso, sob as lagartixas, sob o mato, perfilam-se os convivas sem palavras. Cedros e Car­ valhos, Nogueiras e Oliveiras, Jacarandás e Lou­ reiros” .

Por esses exemplos, o que parece sobremodo importar é o fato de que, em toda a narrativa, não se verifica, em nenhum momento, um esforço no seiitido de reproduzir dados da realidade: a intenção parece ser antes a de tornar sensível ura universo apreendido através da imaginaçao poética_

Não há dúvida; é, ao mesmo tempo, um jogo refinado e um jogo em estado bruto a que se entrega o autor. Uma tentativa de impor a ordem sem quebrar a linha dinâmica da percepção. Penetrar a aparência, deixando-a, no entan­ to, ressurgir íntegra.

Neste sentido, Osman Lins aproxima-se do desiderato de Paul Klee: a arte não como reprodutora mas como. possibilitadora ^õ^visível. Mas não somente de uma reali­

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dade pictórica, assim entendida, aproxima-se o autor: em outras narrativas, como "Noivado”, por exemplo, ecoam técnicas de composição musical que servem ao escritor como veículos de simultaneidade a visão de um perso­ nagem em três e capas temporais diversas, fundidas pela realidade medíocre de um vulgar funcionário. Como se a personagem feminina captasse os acordes desajustados de um terceto incapaz de qualquer harmonia.

Desta maneira, quer fazendo transparecer estruturas pictóricas, quer desenvolvendo linhas de um verdadeiro atonalismo musical, as narrativas não são dadas ao leitor mas, permitido o trocadilho, dados, conjuntos de sinais lingüísticos ou tipográficos, por onde o leitor se sente escoar durante a leitura, como que fisgado numa teia de construções superpostas. Novelos de significados. É, mais uma vez, a confirmação do que já se tem dito acerca da arte de escrever: são novos processos que exigem e, simul­ taneamente, dão origem a novas dimensões significativas.

Um amadurecimento técnico, como este de Osman Lins, haveria de necessariamente importar numa pleni­ tude de compreensão do homem e seu mundo. Nove, N o­ vena, Novidade, Novelo.

ÍNDICE 0 PÁ SSA R O T R A N S P A R E N T E ... 7 UM PD N TO NO CÍRCULO ... 21 PEN TÁ G O N O D E H A H N ... .. 35 * « 0 S C O N F U N D ID O S ... 73 R E T Á B U L O D E S A N T A JO A N A CAROLINA ... S5 CONTO BARROCO OU U N ID A D E T R IP A R T IT A . . . . 139 P A ST O R A L ... IBS NOIVADO ... ... 181 PE R D ID O S E ACH ADO S ... 203

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■s. p. I ™ rosto de oito anos. Cabelo fijio,

A claro, cobrindo a testa. Pensativo, debruça­

do à janela da cozinha, olha o gato de manchas pretas e brancas, sentado no mura. Haverá, talvez, uma tristeza escondida nos seus olhos e, nos lábios, traços de precoce resignação. Entrefítam-se os dois, gato e menino. Brilham, no rosto, revérberos de abafada e colérica altivez. Altivez sem firmeza, qualquer coisa de elástico e ao mesmo tempo de inseguro: mola solta.

Você me olha de cima, porque está no muro. Mas vou ser um homem, vou viver cem anos. Cres­ cer. E quando for mais alto que portas e telhados, onde estarás? Hein? Sentado onde? Olho para

você e já Tejo a ossada brilhando no monturo. An­

das mansinho, és uim süêncio andando. Eu, quando crescer, meu bater de calcanhar no chão será como trovões. Gritarei bem alto, voz de sinos. E você, orgulhoso?

Pulverizados o gato e seu perfil, é inútil buscar, - iia face desse homem, exausta, emoldurada pela

Janela do trem, os traços do menino. Seus cabélos escuros começam a embranquecer, a roupa de casi­ mira negra (luto do pai) é demasiado frouxa, de­ masiado cômoda, as meias brancas enrugaiS^se nos tornozelos, os sapatos não brilham. Na rede, acima dele, está a sua pasta negra, fosca, com papéis e

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dinheiro, seu guarda-chuva com cabo de metal e o chapéu cinzento, preso na fita o bilhete de ida e volta.

Há quantos anos, neste mesmo trem, rasguei aquelas cartas, uma a uma? E há quantos vejo — duas, três vezes por mês, ao amanhecer e à tarde — estas mesmas paisagens? Ao contrária de mim,

mudaram pouco. E a mudança, a minha, foi para melhor, pior? Como agiria, aquele rapaz, durante a cena preparada para hoje à noite: meus parentes e seu inútil pedido de clemência? Este Engenho, como os outros que vejo no caminho, parece eterno, com seu triste % e i ^ seus telhados velhos e o co­ piar sombrio. Tem-se a impressão de que os mes­ mos homens, os meninos de sempre, vêem o trem passar. E que os bois, nos pastos, são os mesmos. Só as árvores, por causa do verão e da estação das chuvas, transformam-se, para recuperar, a cada ano ^ue vem, sua juventude. A Juventude do ho­ mem, felizmente, não é como a .folhagem dessas árvores. Be fosse, se eu voltasse a ser jovem, co­ meteria decerto os mesmos erros, talvez outros maiores.

A luz da sala de jantar é amarela e pastosa,

Ainda que pusessem lâmpadas mais fortes, seria ' ’

quase o mesmo, o motor da cidade é ordinário, an­

tigo, tem a fôlego curto e trabalha devagar como

a cidade. Faz uma hora que a ceia términou, os três lugares das crianças estão desocupados, elas dormem. Sentado à cabeceira da comprida mesa, da qual a empregada não retirou ainda as xícaras com restos de café, a manteigueira vazia, os pratos e os talheres (só o fará, é ordem, quando todos se erguerem) o homem, sem gravata, as mangas da camisa arregaçadas, ouve impassível as razões de

uma velha de negro. Grande broche de prata, fora de uso, com o retrato do marido morto, prende-lhe a abertura do vestido. As duas moças oiham-na com esperança; vê-se, porém, que o rapaz tem ver­ gonha, que sacrificaria muitas coisas para não so­ frer a humilhação. O homem sente, do outro lado da mesa, os olhos inçontentáveis da esposa, nele fixados, como que a gntar : ^TNàb a ouças, faz como

das outras vezes. A compaixão custa dinheiro.” ^

^ d ó x ia , você perde seu tempo. Perde seu tem- p - po emlitaí^me desse modo, como se eu fosse uma roleta a ponto de parar em número no qual você nada arriscou. Então não me conhece ainda? Não se habituou ainda ao ar de pena com que ouço la­ mentos como este? Será preciso que estampe no meu rosto a decisão guardada em mim, decisão to­ mada antes que ela pensasse em vir, trazendo, para comover-me, seus três filhos e esse broche onde ve­ mos, de perfil, o irmão de minha mãe? Não terei complacência, embora seja certo que, por hoje, darei algumas esperanças. Mas não perdoarei, to­ dos os papéis estão legais e são a meu favor, dentro de poucos dias a casa onde eles vivem será minha, estaremos ainda mais ricos, temos filhos, três, pre­ cisamos deixar-lhes alguns bens. Esta mulher, o rapaz, as duas moças habitarão alguns meses, sem pagar, a casa que haverão possuído e que não Ihès pertencerá. Não mais. Assim, farei a eles um favor, que será invocado em nosso benefício, por uns me­ ses, enquanto o povo se lembrar do fato e for capaz, por isto, de nos acusar. Esses quatro, então, nie Jul­ garão perverso, mas não muito, e até um pouco ingênuo. Depois, eu os expulsarei.

Embora pense o contrário, eis uma criança. Nu da cintura para cima, trancado no seu quarto, no

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mesmo leito que deixou há dois anos e dez me­ ses — a si próprio jurando não voltar antes que os seus sonhos se cumprissem, antes que lhe fosse dado lançar, à face dos numerosos, mesquinhos paren­ tes, que jamais haviam acreditado nele, seus triun-' fos — e que será preciso substituir, por causa de seus ossos que cresceram. Está ajoelhado, as cos­ tas como um arco, a face no lençol, entre as mãos frias. Bastão retilíneo, de àço, dobrado pela sua cur­ vatura e que buscasse, tenso, a forma original, um soluço se distende no seu corpo.

Venceram, É duro aceitar, e é verdade, perdi. Faltou-me fibra. Novamente as ordens, execráveis, novamente esta cidade imóvel, estas ruas que só um abalo de terra modificaria, novamente a vida que destesto, fa,mdaye ,oca, esta condenação. De­ via levantar-m eTiíníaar^ roupa, apanhar o pri­ meiro caminhão na estrada, ir por aí, os dentes cerrados. Como naquele dia. Repetir o salta. Desta vez com decisão mais firme. Não irei. Por que não resisti à fome, por que não me deixei morrer? Res­ pirariam com alívio, contentes em dizer a si mes­ mos que não se deve ousar pois o castigo é a morte, mas no íntimo teriam de aceitar a verdade; '‘Ele foi homem. Falhou nos empregos, nos empreendi­

mentos tortos, não teve apoio, morreu despojado, mas aceitou os encargos de sua decisão. Nisto, ven­ ceu.” Não teriam o direito de sorrir, de olhar para mim com ironia, pena, complacência e uma espécie de saciedade, como se houvessem todos devorado, famintos, minha capitulação. Vou aceitar o destino que me deram, Mas hão de ver quem voltou. Dirão, .um dia, que melhor seria houvesse feito eu por lon­

ge minha vida. Vão desaparecer. Serei o rei, o dono deles todos.

Dois rostos, um derrisório e solene, de perfil no travesseiro alto, mandíbula presa num lenço, outro de frente, mordaz, fixando o morto, ambos imóveis. O perfil — em vida não era assim: nítido — dá uma impressão de juventude, não obstante o bigode cor de prata suja; o contemplador, pelo contrário, está envelhecido, e assim os dois parecem estudos quase superpostos ~ um em repouso, outro contraído — do mesmo rosto.

Pois é, meu pai. Há muitos anos queria ve-lo assim, as vontades cortadas, sem poder, sem voz autoritária, desde o dia em que, desamparado, senti sua inclemência e decidi voltar. Havia, dentro do senhor, um morto; este. Ele dirigiu a sua vida,_ es­ tabeleceu as leis em relação a mim, Bu era o filho homem, tinha obrigação de receber — herança — não somente as coisas que o senhor prezava e con­ quistava, mas também seu apego aos valores que, em sua régua, eram as representações do grandioso e do eterno: a armazém, as casas de aluguel, a fama de homem justo, a vida sem amor nem aventura, a cidade, o vezo de moldar vidas alheias. Pois bem, eu recebi a herança. Renunciei, para sempre, a qualquer expressão pessoal do ato de viver. Despo­ se! a mulher que o senhor decidiu ser a indicada para mim, estou impregnado de tudo que detesto, corrompi-me, gosto de ser respeitado, dono de ri­ quezas que haverão de crescer, trago o senhor em mim, nunca deixarei esta cidade. Sou o continua­

dor,

0

submisso, o filho. O pai.

A moça, cotovelo esquerdo sobre a mão direita, mão esquerda solta para os gestos — sua antiga atitude — sorri e acena para o mar.

Aí está. Depois de tantos anos de espera, vou atravessá-lo.

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— ■ Tenho visto seu nome nos jornais. Li que você obtivera uma bolsa na Espanha. Fiquei con­ tente, disse comigo: “Ora veja, quem podia imagi­ nar que ela ia se tornar uma artista famosa.” O Jornal reproduzia uns quadros seus, frutas, pássa­ ros voando. Um era transparente, via-se o pássaro e 0 coração do pássaro. Tinha um Jeito de ave de rapina.

— E olhar de gente.

— Isso mesmo. Era assustador. Existe, aque­ le pássaro?

— Não.

Ranger de tábuas, o suave embalo do navio, frases em língua estranha, a barlavento, gritadas pelos marinheiros.

— Você não desenhava, naqueles tempos. — Escrevia versos. Nunca lhe mostrei.

— Às vezes, quando me sobra tempo, venho até ao porto, fico olhando os paquetes. Mas não entro nunca. E você vai fazer uma viagem. Gos­ taria de ver outros desenhos.

— Quando fizer uma exposição, mando-lhe convite.

— Meu pai morreu há tempo, você soube? As­ sumi a direção dos negócios, estou morando na casa que era dele. O endereço.. .

— Eu sei. Você receberá o convite.

— Quero pedir-lhe um favor. Mande-me um cartão-postal da Espanha. Um cartão dos ciganos, em Granada.

— Como devo assinar?

— Quem você pensa que sou? Assine como quiser. Seu nome ou qualquer outro. Ou não as­ sine.

— Ponho um nome de homem.

— Vindo de Granada hei de saber quem man­ da. Ora veJa! Quem poderia imaginar? Sabe que num desses dias, abrindo uma gaveta, encontrei também uns versos meus? Incrível. Não me lem­ brava deles. Como a gente muda, hein?

— Acho que não mudei muito. Se mudei, foi para melhor. Sou a mesma adolescente de quem você, um dia, rasgou as cartas no trem. Um pouco mais velha. Mesmo assim, penso que hoje sou mais bonita do que naquele tempo. Ou será engano de minha parte?

— Não. Não é engano.

Tinha um dente de ouro. A pele é menos bri­ lhante; não os olhos. Mais bonito o cabelo, os seios menores, mais fina a cintura. Atraente, com qual­ quer coisa de intenso e de madura em seu vestido azul, contra a parede ocre e o negro telhado do ar­

mazém. E u d ó x ia é mais Jovem do que ela. E parece

mais velha, em seus vestidos frouxos, em seu Jeito ausente e sorrateiro, disfarçando a perene atitude de suspeita. A cada ano que passa, seu andar é mais lento, mais penetrantes seus olhos, sua boca mais ávida. Esta, ao contrário, quase nada mudou. Papel e lápis, tintas. Imaginações. Foi sempre as­ sim, uma fonte de sonhos. Agora, à força de so­ nhar, vai a Granada. Bem que me afirmava; “Um dia, havemos de fazer uma viagem.” Havemos. Olho os navios no cais, é tudo que restou, em mim, de nossas ansiadas aventuras. E dizer que a sua e minha vida, um tempo,, seguiram o mesmo curso! Seriamos infelizes, essa viagem à Espanha, nunca feita, tornaria amarga nossa convivência. A Espa­ nha existiria em seu espírito como outro destino, talvez melhor, porém interdito, por isto mais ambi­

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cionado. Ela nunca haveria de mencioná-lo, eis o mais grave, interporia entre nós o sonho e o segre­ do. Assim, não. Desde que é mulher de pensar fan­ tasias e cumpri-las, dedique sua vida a fazer gara-

tujas no papel — cajus, aves, palhaços. Mandará para mim o cartão colorido, com as bailarinas ci­ ganas-de Granada? Se o fizer, não porá meu nome: apesar de tudo, é sensata. Posso ficar tranqüilo.

Ela sorri, seu dente de ouro brilhando à luz

do poste, que desce por entre os ramos do ficus:

parecem, a moça e ele, presos naquela rede feita de cacos de sombra e manchas claras. A mão er­ guida abrange a rua desolada, as calçadas úmidas, 0 cheiro de terra molhada que os envoive, os latidos de cães, as portas e janelas fechadas, o céu negro. Ele de braços cruzados, sem gravata, colarinho le­ vantado, 0 corpo mal ajustado na roupa ainda nova, curta para os braços e pernas que se alongam; ela de franja, o vestido apertado na cintura, amplian­ do com numerosas saias os quadris ainda sem defi­ nição. Recende a pó-de-arroz, água-de-colônia e panos limpos. Envergonhado com o timbre de sua própria voz, cujas inflexões nem sempre reconhece e que, embora tente fazer harmoniosa, raro lhe obe­ dece (ainda menos quando, como há pouco, fala muito ou esalta-se), decide silenciar e ouvir a na­ morada.

Você está certo, eu também acho esta cidade

mesquinha. Quando leio os jornais do Recife e vejo tudo que acontece lá, entristeço. Chegam tran­ satlânticos, príncipes, artistas de cinema, tem aero­ porto, zoológico, biblioteca pública, muitos cinemas, paradas militares, bondes, rio atravessando a cida­ de, prédios de muitos andares. Ruas calçadas. E são bem diferentes destes, os postes de iluminação.

Aqui: trilhos de estradas de ferro, pintados de negro. Os de lá; roliços, bordados, cor de prata, com as armas da República. Existem jardins pú­ blicos, cheios de banquinhos. Imagine as cidades maiores, Paris, Singapura, Manchester. Se eu fos­ se homem, entrava na Marinha. Veja se não é uma prisão: temos de passar a vida inteira aqui, neste lugar. Mas quem sabe se não havemos de .fazer os dois, um dia, nossa viagem, atravessar o mar?

Havemos. Ela diz havemos. Eu, não tu, farei

essa viagem. Não sabes o que disse um poeta, desi­ ludindo a sua namorada, decerto parecida contigo e que imaginava continuar ligada para sempre a ele? “Eu sou Goethe!'’ Também sou alguém, serei um nome, sinto força em mim. Conforto, dinheiro do pai, família, cidade natal, tudo abandonarei. O que sou destinado a conquistar, desconheço ainda. Mas sei que um dia voltarei aqui, rodeado de gló­ ria. Teu marido será empregado no comércio, ou talvez escrevente no cartório, terás um lar e filhos; mas teu orgulho maior, a ninguém confessado, virá de seres o que és agora: a testemunha de minha adolescência. Eu sou Goethe.

Todos em torno da mesa, sob as lâmpadas de muitas velas, ouvindo a retórica do -padre, as frases tantas vezes proferidas, em ocasiões idênticas, so­ bre a fidelidade, o zelo e as bodas de Caná, No cen­ tro da toalha bordada, guarnecida com pratos ingleses e talheres cintilantes, no topo do enorme bolo confeitado, que lembra vagamente um templo babilónico, dois pequenos bonecos, representando 0 noivo e a noiva, sustentam o coração onde está escrita com polvüho de prata, em má caligrafia, a palavra AMOR. Os rostos das senhoras, adornados pelos chapéus de vária procedência, em geral

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apa-gados pelo tempo e ressuscitados pox um laço ou flores de veludo, assumem ares de embeveclmento; os das moças — algumas, pela primeira vez, calçam meias compridas e sapatos altos — fremem de an­ tecipação; os dos homens, forçam acuidade e cir­ cunspecção, e é possível descobrir (nos olhos, nos cantos dos lábios) linhas de ironia e aborrecimento. Sobre a indistinta nuvem de chapéus e faces, des­ taca-se 0 rosto do pai, ainda com sinais da exulta- ção, ]á amortecida, de ver realizar-se aliança por ele calculada e, com hábil pertinácia, coordenada; e Já irritado com o padre, que fala interminável- mente, encarecendo os mínimos conceitos, desen­ volvendo imagens triviais.

Todos, com esse ar atento, essas roupas novas,

domam o impulso de invadir o huffet, comer, beber,

em proporção ao valor dos presentes enviados: su­ pérfluos, de mau gosto, que atravancarão a casa

e dos quais terei de desfazer-me. aos poucos, contra ludóxia, que jamais aceita a idéia de renunciar a um bem, por mais insignificante. Só mesmo o pa­ dre ouve a sua prática, adequada, pela extensão, á importância de nossas duas famílias e à recompen­ sa em dinheiro. Essas palavras dele, sei por onde se escoam. Não fogem pelas portas, nem pelas ja­ nelas; desaparecem a meu lado, para sempre, su­ gadas por este poço ao qual liguei minha vida e de quem sinto o ossudo cotovelo. Sem entusiasmo por nada, sem amigas, indiferente a tudo que não acrescente seu grande cabedal, ela tudo sorve e nada a alimenta. A ninguém, coisa alguma, nunca, devolve ou doa. Irei, com o passar dos anos, habi­ tuar-me a seus modos sorrateiros, à sua descon­ fiança incansável; e à custa de vê-la sucumbir em ambições sem nenhum objetivo, acabarei por tor­

nar-me seu escravo, levado a isto por compaixão que deveria, antes, dirigir-se a mim e não a ela. Por que, então, essas frases piedosas, por que falar de eterno e de sacralidade? Unimos duas fortunas — e duas indigências. Só. Ê o ouro, são as bens

de raiz o que para nós ambos existe de sagrado. Se não nos une o amor — daqui ausente — como po­ deria ser eterno? E não perca seu tempo em busca de símbolos. Para nós, só um é válido, esses bonecos ocos, ostentando uma palavra grave (a palavra, a palavra!) num coração de papel. É possível que nem chegue a desembaraçar-me dos presentes hoje recebidos.

Deixou que os empregados se fossem, para abrir a gaveta, revolver as pastas descoradas, pro­ curar os papéis. Lembrar-se-ia deles se não fosse a notícia no jornal da tarde, as fotografias dos qua­ dros — frutas regionais, um pássaro extravagante — e 0 nome outrora familiar? No armazém deser­ to, com ânsia de quem busca, dentre vários, um documento revelador, acabou afinal por encontrá- los. Eis que as observam, não reconhecendo as vi­ sões ali expressas, os mesmos olhos que as teste­ munharam.

Poesias. Por que, tantos anos passados, ainda as conservo? São meus poemas; em todo caso, não insuportáveis e neles perpassam alguma gene­ rosidade, alguma febre. Eu não era, porém, um coração limpo; reconheço que viviam nele, desde esse tempo, muitos dos repulsivos bichos que a dili­ gência de meu pai nutriu e que fazem de mim, hoje, um viveiro sombrio. Posse de outro modo, não seria com desdém, condescendência e orgulho que

mostraria a ela esses trabalhas. Lembro-me de có­

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incompreensão, quando seu demorado olhar era sondagem. Ela rebuscava meus versos, alegrava-se com eles, acreditava em mdm. II não fui eu quem, afinal, quebrou a casca, descobrindo um modo cria­ dor e livre de existir. Ela amestrou as mãos da sua juventude, fez com que lhe pertencessem. Quanto a mim — estas, cautelosas, quase sempre fechadas, não sei que sutil e laborioso processo as engendrou — em que armário do tempo, em que espessa noite

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ULHER nenhuma, até ontem, desatara os .cabelos para mim. Lembro-me de quando ouvi, adolescente, um concerto de trompa, instru­ mento que acreditava destinado a papel secundário nas orquestras. Agora, tento imaginar os complexos toucados que estiveram em uso noutras épocas, há um século e meio, por exempla. Arrumavam, as mulheres de então, suas cabeleiras — para as visitas aos chalés cercados de jardins, com as ombreiras de-porta e caixilhos de janela em pedra de Lioz, os passeios em liteira levada por escravos que canta­ vam, a missa nas igrejas de cúpulas ornadas com telhas brancas e azuis, e mesmo para os dias ociosos em suas próprias casas — com inúmeros grampos, flores, marrafas, alfinetes, cobrindo-as com manti- Ihas rendadas ou de gaze. Soltavam-nas, em um gesto mole e sinuoso, quando a camarinha se fe­ chava e elas retiravam, dos braços, do pescoço; brin­ cos, fitas coloridas e correntes de ouro, descalçando a seguir os sapatos que Jamais eram pretos. Divi­ diam-se, assim, em duas entidades diversas; a^dos cabelos presos, visível para o mundo; a dos cabelos desatados, cujo ondear imitava o dos ombros e as pregas da folgada camisa de dormir. Suas cabelei­ ras eram segredos revelados apenas a um homem. Não houvesse a intrusa (ignoro seu nome e não pedi que voltasse) desprendido a massa dos

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cabe-los, torçais brilhantes que lhe roçavam a cintura, que outro gesto poderia ser tão sigi^ificativo, como expressão de intimidade e oíerecimento? Muitas coisas vi nesta pensão, antiga residência de algum comerciante abastado, onde floresciam no quintal — demarcado com uma sebe íeita de folhas de pal­ meira trançadas — clematites, rosas da China e pés de maracujá. Nada verei igual ao que me su­ cedeu.

V No décimo degrau, percebi que errara o en­

dereço. Subi 0 resto da escada, entrei no quarto e não fechei a porta. O hóspede, na cama de ma­ deira, espreita-me. Sem conceder atenção ao seu olhar desigual, inclino-me, braços nas costas, cin- gido ao pulso esquerdo o samburá de vime ornado com uma fita roxa, e analiso o quadro na .parede. O morador do quarto, sem dizer palavra, levantou- se. Lado a lado, parecemos na sala de uma expo» sição, quase a emitir Juízos sobre o penteado ou as vestes do modelo. Não o fazemos. Para obter do desenho uma visão melhor, mais unitária, para des­ vendá-lo, afasto-me. A verdadeira porta pela qual entrei foi esse quadro, a mulher cujo ramo florido gostaria de ter entre meus dedos. Enquadrada em sua fôsca moldura, de perfil, em trajes seiscentis- tas, lembrando Ana da Áustria no vestuário e nas linhas, sustenta — gesto delicado e régio — o ramo vertical com uma flor aberta ao nível de seus olhos. Desejaria ser, em parte, como essa adolescente, e sustentar com doçura, ano após ano, também emol­ durada, meu ramo sempre verde, sua corola imor­ tal. Examino ainda a figura e me convenço: nossas mãos têm a mesma natureza. As minhas não pe­ sam, quando em repouso; em ação, nunca tropeçam

nas coisas, tudo executando com destreza e simpli­ ficação de gestos.

Observou o quarto, à maneira dos que ten­

tam evocar, num local histórico, os acontecimentos que 0 distinguem. Subre a cadeira, num copo, eu pusera dois cravos que murchavam. Deixou o sam­ burá Junto do copo e descansou no espaldar a mão

direita; a outra pendia ao longo do quadril. Arran­ cara de um cravo, com os dentes eqüinos, a pétala que sustentava entre os lábios. Era o instante de fechar, com precaução, a porta. Quanto tempo fi­ camos, face a face, a visitante com as mãos para trás, talvez sua atitude preferida? Estaria eu in­ terposto entre ela e um ser imaginário, para quem, com movimentos precisos, desprendera os cabelos? Senti-me dentro do quadro, abrangido pelo mesmo impulso de admiração com que se curvara, antes, sobrè éle. Por isto, e também por me haver abis­ mado na sondagem de seus traças, parece-me tão demorado nosso olhar. Agora, como os arqueólogos que pensam reconstituir, graças ao pedaço de asa encontrado numa rocha, aves novas e as curvas de seu vôo, poderia compor, para a desconhecida, todo um mundo, a partir do fragmento deixado neste quarto.

V Simplificação não quer dizer ausência de

ornatos. Estou de saia pérola e de blusa verde, es­ tampada com rododendros negros. Brincas também pretos, imitando as flores do tecido; pulseira em espiral, de prata; sandálias com arabescos. A aná- gua é branca, rigorosamente engomada, de braman­ te, com uma fita larga, cor-de-rosa, entremeada no bordada inglês da barra. Adquire ainda função ornamental tudo onde está impressa, como nos ges­ tos de meus dedos e mesmo em seu repouso, a

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essen-cialidade daqueles touros finamente gravados, com pincéis de junco, nos papiros. Sou angulosa e alta; em mim se percebem, sustentando a carne, as li­ nhas longas, flexíveis e firmes, linhas de florete. Quanto à minha vida, tento convertê-la em círculo e encontrar o Ponto, situado no triângulo e no qua­ drilátero, ponto a que aludiam os talhadores góticos de pedra, para quem, se não alcançamos tal ciência, será em vão todo esforço no sentido da lógica e da harmonia. Por isto exulto ao perceber que o ho­ mem, a quem pela primeira vez encaro, tem um olho de vidro. Não se fazem olhos de vidro para ver, como os olhos autênticos, o transitório das coi­ sas. Eles imitam o orgânico e suprem vazios com sua neutra e específica existência. A perfeição de tão frágeis objetos está no rigor técnico, no ajus­ tamento ao tecido vivo, na ausência de asperezas, no brilho discreto e sobretudo em não ver. Equivo- cam-se, portanto, os que lamentam a cegueira de tais peças, esquecidos de que elas não foram conce­ bidas para ser videntes e corruptíveis. Os olhos de vidro são contempladores abstratos do eterno. As­ sim talvez não se perca, diante desse homem, meu lado geométrico.

Obrigado, para ganhar dinheiro, autocar sa­

xofone de nove e meia às quatro da manha, quando meu instrumento foi sempre o oboé, nunca estou à noite na pensão. Pela madrugada, saio do traba­ lho, lanço um olhar sobre o antigo bairro do Becife, onde ficavam outrora as fortificações, o arsenal da

Marinha e o comércio em grosso, evoco a porte e a

brancura das construções fazendárias, atravesso a Ponte Maurício de Nassau, refresco os beiços no ar que sobe do Capibaribe, cruzo a Rua Nova, a Ponte Boa Vista, a Rua da Imperatriz, pisando o calça­

mento que era feito com granito vermelho ou seixos azulados da praia, chego no meu quarto da Gerva­ sio Pires com o dia amanhecendo. Se chove, espero que passe; nunca vou de ônibus. Tomo café, dei­ to-me. Desço nas horas das refeições, converso um pouco na sala de jantar, onde o chão era forrado de tapetes e as paredes cobertas de estampas inglesas, representando cenas de caçada. Em que lugar fi­

caria a piano Broaãwooã? Volto a deitar-me e,

quando não durmo, assim permaneço, horas e ho­ ras, nem por sonho tocando a oboé, palmas das mãos para cima, aos lados do coxpo, observando as ara­ nhas que trabalham no teto. Entre um caibro e outro, estendem suas teias; de fio em fio', através de movimentos que não falham, estabelecem liga­ ções que 0 vento ou um besouro poderá romper, tecem, um após um, seus fios transparentes, tecem uma força entre os caibros,

Desde que cheguei, há quatro anos, a pen­

são já passou por três proprietários: o casal de den­ tistas, o subtenente, a viúva espanhola. Todos se opuseram a rasgar aqui uma janela, por menor que fosse. Os dois retângulos no teto, de vidro baço e glauco, separados por um intervalo de oito palmos, a cumeeira entre eles, é que tornam este meu quarto habitável. Se não refrescam a peça, a iluminam, mesmo em dias chuvosos. No começo do século pas­

sado, onde estão a mesa, o quadro, o oboé ao lado dos papéis de música, o urinol azul e o guarda-rou­ pa com a mala em cima, ficavam a lenha, os tachos, as panelas de cobre e os fogões. Era sempre no andar superior que situavam a cozinha. Impro­ vável que 0 refeitório ocupasse aquele mesmo lugar onde comemos: destinando-se o térreo, quase sem­ pre, aos alojamentos de negros e aos estábulos, o

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piano, as estampas inglesas e os tapetes enfeita­ riam algum lance do primeiro andar. As sinhás vagavam entre o rés-do~chao e a cozinha, de chi­ nelos, camisa frouxa, os seios quase à mostra, ra­ lbando com os escravos, comenda pratos de doce e bocejando. Raramente usavam as melhores roupas em família e decerto bem poucas se banhavam à noite. Só quando saíam punham adereços de ouro, capa em cores alegres, fitas nos cabelos. Também é pouco provável que houvesse rosas e clematites plantadas neste quintal, tão perto dos cavalos, Ma­ racujás, sim, é possível; e talvez barrigudas, pés de limão, alguma tamarineira. Hoje é um pátio cimen­ tado, com tinhorões em latas, cactos e avenças. O gato ressonava entre essas plantas. Cessados os ruídos metálicos do meio-dia — fechaduras, sinos, dobradiças, talheres e ferrolhos — viera o silêncio, a pausa de todas as tardes. Hóspedes faziam a ses- ta; a espanhola, com o leque de tartaruga, abana­ va-se trancada no seu quarto, o'vestido a meia al­ tura das coxas. Esta calma de verão, exaltando-me os sentidos, embota-me a noção do reai Por isto, embora nada houvesse escutado — nenhum passo, voz alguma — e estivesse convicto de que havia alguém no quarto, alguém descalço ou com sapatos leves, não fiquei surpreso.

V Ele fechou a porta, sem cuidada; desabo-

toei a blusa. Numerosos insetos, aves, peixes, plan­ tas e quadrúpedes, há cinco mil anos, povoavam o Nilo e suas margens. A escrita que os recolheu e os transmudou, prendendo-os em exigentes limites, contrários à sua índole mutável, não pretendia que voassem, ou nadassem, ou cantassem, ou dessem flores na pedra e nos papiros. Apenas, despojan­ do-os do que era acessório, reduziu-os a luminosas

sínteses. Este era seu objetivo. Se conheciam, os egípcios, 0 júbilo de escrever, é que haviam encon­ trado — ■ raro evento — o equilíbrio eiltre a vida e 0 rigor, entre a desordem e a geometria. De joelhos, mudos, perfil contra perfil, lembramos esses bone­ cos recortados sobre uma folhá dupla dê papel, si­ lhuetas que, parecendo opor-se, se completam, são a mesma unidade, desdobrada; ou as padroeiras do Alto Egito e do Delta, deusas que ornavam a fronte dos reis, uma de coroa branca, outra de co­ roa sangüínea, representando o Sul e o Norte do país, adquirindo unidas um nome que as fundia — estranho, aquele nome, a suas anteriores designa­ ções. Onde estarão, no múltiplo, vário e excessivo ser que em mim reconheço, aqueles perfis exatos — de abutre ou de serpente alada — descobertos pelos escribas do Nilo?

Rosto no travesseiro, imaginava-me esten­

dido na praia e recordava que ali haviam estado, poucos minutos antes, seus cabelos. Meu desejo, lento, retornava. Tinha impulsos de voltar-me, de­ ter a visitante, não ousava mover-me nem falar. Ouvia-a, distanciando-se outra vez e em definitivo de mim, interpondo entre nós os grampos nos ca­ belos, suas vestes e uma indefinível rigidez dos ges­ tos. Antes de virmos, juntos, para a cama, carre­ guei-a até o centro do quarto: queria ver sob as réstias o tecido e os tons de sua pele. Notei que o sol havia desaparecido e ouvi a chuva, macia, ba­ tendo nas telhas. Pelo modo profundo como respi­ rou, achei que também escutava, naquele mesmo instante, suspensa nos meus braços, o som que me houvera escapado. Depois que foi embora, batendo a porta, sem que me houvesse dito nenhuma pala­ vra, nem mesmo para despedir-se, voltei-me com

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preguiça. Passara a chuva, uma réstia subia pelo guarda-roupa. Quantas vezes ainda faria esse tra­ jeto, antes que eu morresse?

V Foi no Golfo do México, em

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, há pouco

menos de quarenta anos. Um furacão assolou 'o litoral da Flórida, do Alabama, do Misslssípi, atin­ giu Louisiana, arrancou árvores, telhados e fios te­ legráficos. Por mais que os animais terrestres des­ lizassem, corressem ou voassem, água e ventania eram mais rápidas. Não sobrou muito dos grandes rebanhos: em poucos segundos, foram mortos

250.000

bois e cavalos. Quase todos os répteis, anfí­ bios, pássaros aquáticos, quase todos os peixes que viviam nos lagos e lagunas tiveram sorte idêntica. Atirados à praia, os cadáveres foram sepultados num imenso lençol de aluviões e detritos, carreados pelas vagas. Continuarão ali por muitos anos; al­ guns serão redescobertos um dia, feitos pedra. Es­ tou descalça.

Q Seu corpo desnudo, a cabeleira espalhada. Cruzados os longos braços sobre a fronha, as ner­ vuras dos pulsos, meio escondidas entre os negros cabelos, latejavam. Contemplei o pêlo de suas axi­ las, fulvos, úmidos. Exalavam um cheiro resinoso, de castanhas cruas. Traçando-se, entre elas e a sombra do umbigo, duas linhas retas, ambas toca­ riam as rosetas dos peitos volumosos. Os caules invisíveis desses girassóis encontravam-se, ao pé do ventre, no pequeno jarro de seu púbis. A coxa es­ querda, tensa, comprimia a outra. A resistência da pele, sua temperatura, o vibrar dos músculos e a descorada penugem, a meia altura das coxas, atenuavam a dureza que me desapontava no dese­ nho das pernas, nos joelhos ósseos, não muito

cla-ros, e nos pés de veias salientes. Com a chuva, a luz nas clarabóias sujas — verniz escuro — polia nossas formas.

□ Houve um momento em que estava de pé à minha frente — e tão próxima que, se estendês­ semos os braços, nos alcançaríamos. Sem o saber, sem o querer, viera ao meu encontro e aqui estava, submissa à própria determinação como a um des­ tino. Sentado, a cabeça baixa, as duas mãos cris­ padas no lençol, vi que se desfizera das sandálias. Uma aranha invisível, urdidora, diligente, unia-nos. Não falaríamos, disso estava certo. Éramos, am­ bos, servos de leis que ignorávamos e tínhamos as línguas cortadas, para que tudo se cumprisse com justeza e em silêncio. Uma dança.

V Somos dois corpos, somos um corpo. O olho

verdadeiro colhe as minhas asperezas, minha im­ perfeição, 0 que sou. de inacabado e portanto de contíguo à sua natureza. Enquanto isto, perante a outra pupila, estranho como em frente ao uni­ verso da jovem que lembra Ana da Áustria, apa­ ga-se meu lado mortal. Transformo-me, assim, numa entidade que, dual, é visível a um olho hu­ mano e resgatada por um olho mecânico, em sua fria e lúcida dureza. Para este, sou a Grande Vaca Celeste, deusa do amor, da alegria, da música, da dança e do enlaçamento das guirlandas. Então, quando novamente separados, passarei minha per­ na direita sobre as dele e desenharei em sua espá- dua, com a ponta do seio, como se vertesse leite ou sangue, o sol, tranças espessas, triângulos perfeitos, chifres, o pentagrama, símbolo da vida.

□ Para despir a saia pregueada, para desabo­ toar a blusa de cambraia (sua mão direita, com

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displicência, descia pelos pequenos botões de ma­ drepérola), não afastou de mim o' olhar. Mesmo assim, parecia não ver-me. Os seios, soltos, eram maiores do que eu imaginava. Estático, os braços estendidos, soergui-osj numa atitude de oferta e de recebimento. Estranho pesa e estranha consistên­ cia: dóceis, fugidios, líquidos, quase impalpáveis. Dobrada para trás, as longas pernas flexionadas, arco abatido, apoiado em meu braço direito, firme na ondeante cintura, prendeu-me o lábio inferior entre os dentes; com a mão esquerda emaranhada entre seus cabelos, que pendiam para o chão quase feito a cauda de um cavala, sustentava-lhe a cabeça. Linha curva, opaca, superposta à outra, igualmente espessa, porém que adquiria, em meus sentidos, transparência de arco-íris, isto era eu. Nosso desejo, fazendo-nos mais leves e acrescentan­ do nossa força, nos equilibrava.

V Assim coma os cavalos, as vacas, os anfíbios,

os peixes e os pássaros aquáticos esperam sob a terra, no Golfo do México, a passagem do tempo e uma circunstância que nos revele suas efígies em­ pedradas, os outros animais ficaram nos papiros, cobertos pelas areias do deserto, protegidos pelo clima seco, enquanto sobre eles passavam e desa­ pareciam, sem nome nem rastro, soldados da Etió­ pia, assírios, persas, gregos, romanos, tantos outros. Deste modo agem a vida e a memória, sovertendo com igual indiferença o terso e o impuro, para nunca mais ou até que o trabalho do homem — ou 0 acaso — os devolvam à superfície. Dentro em pouco, descerei a escada, atravessarei o vestíbulo onde ninguém me verá, ganharei a rua. Levarei entre os dedos flores geométricas e meu vestido será

como 0 de Ana da Áustria. E depois? Que exér­ citos, areias e detritos cobrirão esta hora? Hoje, amanhã, sepultada ou não, ou evocada, ou esque­ cida, recuso-me a existir só em meu rigor; ou só em minha desordem. Seja este momento, e assim minha existência, os ângulos dos geómetras e os bichos do furacão.

Seu rosto, do qual fugira o sangue, cercado

pela cabeleira revolta e copiosa, tinha um brilho de opala. Era de cedro? Que beleza disfarçava? Hosto mongólico, não acabado, esculpido por quem quisesse impor à madeira um vinco de tristeza, sem ter mão para abafar a enérgica alegria latente no modelo e que, rebelde, se houvesse imposto ao ma­ terial. Lábios grossos, chatos, sem relevo, entrea­ bertos por causa do calor, da ânsia e do tamanho dos dentes, Não tentava disfarçar, pintando-os, seu contorno impreciso. Os olhos escuros, quase ne­ gros e naquele instante velados de prazer tinham 0 oblíquo desenho acentuado a lápis e fitavam-me, com fervor ou agradecimento, como se me esperas­ sem desde sempre. Imaginava-me sua terra e tam­ bém sua raiz. Em breve tombaria exausto, meu corpo tombaria, enquanto eu próprio continuaria — como, não sei — preso a ela. Estávamos unidos, enlaçados. Os chalés que guarneciam as margens dò Capibaribe, brancos, com seus caixilhos em pe­

dra de Lioz e seus pomares, Já não existiam; desa­ parecidos igualmente os alvos prédios fazendários e os pavimentos de granito vermelho; também não restavam cúpulas de templos adornadas com telhas brancas e azuis, de porcelana. Ergueu-se de nós, de nossa pele brilhante, um hino atormentado, atravessou-me o espírito a lembrança da trompa e

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de suas possibilidades, ambos j ’essoamos de prazer. Tantas coisas mudavam — arquitetura, sistemas de governo, vestuário, modo de viver, formas da miséria e da rapacidade — tantas coisas mudavam e 0 hino era o mesmo.

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M diferentes cidades, \ eu aqui em Goiana^ eu na Vitória, ^ assistimos o número de

Hahn, e essas duas vezes foram [ são idên­

ticas, tudo se cumprindo com uma regularidade

polida nos ensaios. *=} Tinha, sempre tive, predile­

ção por essa espécie de animais; embora já contasse quarenta e cinco anos, vibrava ainda ao vê-los. Fas­ cinava-me aqueie ser informe, gravado nas caver­ nas quando nosso destino de homens não se fixara, cunho de moedas, transporte de reis, montaria de deuses, ele próprio reverenciado e apontado como o bicho que suporta o mundo sobre o dorso. Além disto, sabê-los raça tendente a desaparecer, impres­ sionava-me, talvez por ser celibatárig. Senhorita Hahn entrava ao som da Marcha Triunfal, da Aída.

Tapete carmesim na testa, tapetes persas no

lombo, '¡I aparecia, \ surge, orelhas abanando,

as presas falseantes sob as lâmpadas; dançava,

\ dança, com seu domador, \ com o grande

general, uma valsa, trechos do Danúbio Azul;

Juntava, \ Junta ^ unia as patas sobre dois

tambores coloridos, erguendo a tromba e girando lentamente, com extremo cuidado, naquele

reduzi-onde

en-do pedestal, ^ onde bebia, \ onde bebe ^

tomava ^ um copo de cerveja; '¡l ofertava,

trega, oferecia, a alguém sentado na primeira

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ama-relas; partia, j. vai-se, sando o chão com brandura:

desaparecia, pi-

tinha-se í tenho a impressão de que, encontrando um ovo no cami­

nho, ficaria, \ ficará ficaria % no ar,

sus-pensa, para não quebrá-lo. \ Em meu pesadelo,

abro a Janela: todo o espaço entre as esquadrias é ocupado por uma barreira parda, rugosa e ondu­ lante. Muro levantado em segredo, dissolvendo-se, ameaçando invadir o peitoril, a saia, soterrar-me? Brado: “Hahn!” Adélia ouve meus gritos, toma-me nos braços.

I Ocupada com o velho nosso irmão, o padre,

que nesse tempo não passava bem, soube do número por intermédio de Nassi Latif. Nem sequer cheguei a ver a elefanta, embora a casa onde moramos fi­ que por assim dizer no mesmo pátio onde ela pas­ sava tardes e manhãs; era tão perto que eu e mi­ nha irmã, 0 dia inteiro, ouvíamos seus gritos. No princípio andei chamando Helônia para ir vê-la, depois de arrumarmos a casa. Desde muito não saía comigo, dizia ser ridículo duas ancias na rua, passeando juntas, no que é possível lhe coubesse razão, porém não muita. Éramos tão velhas? Ela não tinha setenta, eu mal passara dos sessenta e três. Há gente que se casa nessa idade e ela mesmo contava desposar Nassi. Nassi Latif ia aa Circo — não sei como obtinha dinheiro para isto — e no dia seguinte aparecia, doido como sempre, relatando as mesmas coisas em grandes pormenores, como se não as houvesse contado muitas outras vezes, à minha irmã e a mim. Helônia, embora negasse, tinha adoração por ele: ficava junto, escutando-o, fazendo perguntas, comendo-o nos olhos. Por com­ paixão, dizia. Eu saía de perto, ia ver o doente. Este sim era um velho. Surdo, quase cego, nem

sequer ouvia os gritos da elefanta (que Deus o te­ nha em Sua santa glória) e é difícil imaginar o que seria dele, não tivesse os cuidados de irmãs como nós duas, ainda moças e capazes de tudo para lhe ser úteis. Quando Latif ia embora (Helônia dava-lhe adeuses ao portão) começava o debate. Minha irmã, por mais que eu lhe abrisse os olhos, não queria entender que essas visitas diárias reco­ mendavam mal: Nassi Latif não era criança, e sim homem com trinta e tantos anos, irresponsável, vadio, meio louco, podendo muito bem comprome- ter-nos, a nós, pobres mulheres, cujos únicos bens eram nosso irmão padre, o nome de família, nossa reputação e nossa virgindade, estas valiosas em si mesmas e principalmente pelo zelo com que, ao longo de mais de meio século, as havíamos guar­ dado.

it' Erguendo quanto posso o busto e meu so­

brinho (tem seis anos, cinco anos mais novo que meus seios), eis-me em presença de Hahn, vestido marrom claro, olhando seus mamilos, pequenos co­ mo os olhos de pestanas claras, lacrimosos, borbo­ letas pardas, roídas — não mortas — de traças e formigas. Começou a noite no bojo da elefanta. Os que a rodeamos, oferecendo-lhe torrões de sal, confeitos, caramelos, cana-de-açúcar e pedaços de anil, breve deixaremos o pátio agora ensolarado, iremos para nossas casas. Fosse a tarde maior! Fi­ casse eu mais tempo entre os colegiais, vissem-me todos nesse meu vestido, Não por ser novo; mas porque, não sendo loura e bonita como Patrícia Lane, Marjorie Reynolds ou Carole Lombard, meus clarins são os peitos — grandes, firmes — e a blusa realça-os. É o início de acontecimentos graves em minha vida apagada. Ignoro vou sendo conduzida,

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e só, pela corrente (meu sobrinho não foi precipi­ tado nessas águas) e olho para Hahn. Sua alegria ultrapassa o festivo círculo composto de estudan­ tes, velhos, donas-de-casa, pequenos mercadores, espraia-se no pátio ensolarado, como se não fosse ela um bicho lerdo e pouco ruidoso, mas banda de música, ou exibição de fogos de artifício. As imen­ sas orelhas, semelhantes a velhos trapos sujos, ra­ jadas de amarelo ouro, branco encardido e rosa desmaiado — buquês de flores murchas, de podri­ dão e pó — agitam-se por sobre a multidão, fazem- me pensar em flámulas, penachos, fitas e bandei­ ras. Tem seu couro uma sombria cor de ferro velho; provocados não sei por que Jogos de luz, emite re­ flexos glaucos, como de mar. Só então vejo os olhoB de Bartolomeu, também lacrimej antes, mas azuis, e penso que são eles a fonte dos inexplicáveis tons marinhos que adoçam o lombo da elefanta, e eu própria me sinto, por um segundo, banhada de azul. Terá, no máximo, doze ou treze anos. Não me en­

ganam a perplexidade e o deslumbramento, e a dúvida, ante esse primeiro olhar. Em estatura, nos equiparamos.

0

Faz quase dois meses que não venho à ci­

dade. Levado pelo súbito desejo de rever — o que não sucede há anos — abertas as lojas e mercea­ rias, 0 salão de barbeiro que freqüentei em minha adolescência e os estudantes sobraçando livros, ru­ mo ao colégio onde estudei, coisas que desde muito não. vejo, pois só visito a cidade nos domingos (e também, é possível, receando passar — amanhã será feriado no Recife — o domingo e a segunda- feira em casa, sofrendo esta presença desagradável entre todas, alguém a quem deixamos de amar), parti depois do almoço, beijando rapidamente mi­

nha esposa na face, uma vez que, embora cientes da distância interposta, mais e sempre, entre nós, conservamos ainda esses pequenos ritos mortos, profundamente aflitivos. Se houvesse deixado para vir de trem, não veria a elefanta: o trajeto entre a estação e a casa de minha avó não abrange o Pátio da Matriz; de ônibus, porém, desço em frente ao circo. Vejo, portanto, Senhorita Hahn, a uma da tarde, abrigada sob o toldo, semelhante a esses potentados do Oriente que presenciamos no cine­ ma, rodeados de sol, parecendo, entre coxins, uns privilegiados, tão orgulhosos do seu quadrado de sombra, como de seus punhais e de suas frescas esmeraldas. Um velho contempla-a. Estão os dois sozinhos, sozinhos à sombra, cercados pelo escal­ dante silêncio e Hahn tem no ar uma das patas; executa interminável dança, num vaivém a que seu próprio peso, sua vastidão, imprimem graça, um ritmo solene. É um exemplar asiático: tem cinco unhas nas patas dianteiras, quatro nas outras. A extremidade da cauda, evoca a pena de um pavão. Perguntou-me o velho se não acho cruel prender o animal, isolá-lo de seus companheiros, amestrá-lo com banhos, cânticos, agrados enganosos, gritos, tudo por dinheiro. Sorri sem responder. Como po­ deria concordar, se acho que palavras não domadas, soltas no limbo, sós ou em bando, em estado sel­ vagem, são potestades inúteis? Num gesto ondu- loso, Hahn alongou a tromba; sopra-me entre os dedos.

No escritório, mais frígido e vazio que a mi­ nha existência de celibatário, não conseguia esque­ cer-me de Senhorita Hahn. Tenho dois irmãos bem diferentes e sou talvez a fusão, o meio-termo entre eles. O mais velho, Oséas, possuía uma boa loja de

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