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Perfil cognitivo e comportamental de crianças com TDAH

CAPÍTULO I. Transtorno de Déficit de Atenção Hiperatividade/ Impulsividade-

1.2 Perfil cognitivo e comportamental de crianças com TDAH

De acordo com Silva et al. (2016), cada criança tem características próprias de sua faixa

etária, resultantes do processo de maturação que ocorre de maneira global, visto que não se

amadurece apenas fisicamente e biologicamente, mas a partir de todos os condicionantes sociais

e psíquicos presentes. Para Siqueira e Gurgel-Giannetti (2011), a infância é um período crítico

do desenvolvimento de habilidades e conhecimento, pois envolve tempo de maturação. À

medida em que a criança amadurece, áreas e funções perceptivas e motoras se tornam mais

ativas, neste momento adquirem competências cada vez mais complexas. Contudo, cabe aos

profissionais de saúde e da educação estar capacitados para identificar as crianças de risco

quanto as dificuldades em aprender para orientar os familiares e, se necessário, encaminhar para

reabilitação multidisciplinar e buscar um diagnóstico etiológico.

Na história do TDAH, o modelo de déficit executivo de Barkley (1997) é o mais citado

em pesquisas, o autor postula que o déficit central do transtorno está na inibição da resposta, ou

seja, “inibição comportamental”, assim nomeado por ele. Barkley sugeriu que crianças com

TDAH exibem déficits precoces em três tipos de controle inibitório: a)interrupção de uma

resposta contínua”,que segundo o autorrefere-se àcapacidade que uma pessoa tem de retardar

uma resposta ou pausar uma resposta que já tenha sido iniciada; b) “controle de interferência”,

faz referência a uma capacidade de permanecer focado e de não se distrair com estímulos

competidores e c) “inibição de resposta prepotente”, indica a capacidade que uma pessoa tem

de inibir uma resposta automática ou reforço imediato. A interrupção desses três tipos de

controle inibitório, por sua vez, leva a problemas na execução de ações complexas e

comportamentos direcionados para o objetivo, especificamente a problemas relacionados ao

controle, fluência e sintaxe automática. Esses déficits seriam a base de outros quatro

componentes executivos, sendo considerados como os mais complexos, tais como: a memória

4

de trabalho, autorregulação

5

, internalização

6

da fala e reconstituição

7

(Pievsky, Robert &

McGrath, 2017). As crianças com TDAH apresentam prejuízo de autorregulação, ou seja,

4 Memória de trabalho: Capacidade de manter a informação e manipulá-la posteriormente.

5 Autorregulação: Capacidade de controlar as emoções, motivação e excitação para alcançar objetivos.

6 Internalização da fala: Conversa interna que permite raciocinar e refletir de maneira complexa.

7 Reconstituição: Capacidade de análise e síntese de informações verbais e comportamentais, permite a compreensão e produção de linguagem e comportamentos cada vez mais complexos (Pievsky et al., 2017).

dificuldade na integração entre a emoção (o que sente) e a cognição (o que sabe, pode e deve

fazer) comprometendo a capacidade de controlar o seu próprio comportamento (Florez, 2011).

Diversos outros estudos reforçam os achados de Barkley em que pessoas com TDAH

apresentam dificuldades em sustentar a atenção em tarefas complexas, falta de flexibilidade

cognitiva e ineficiência em processar rapidamente novas informações, desempenho prejudicado

na atenção e nas funções executivas, tais como: a memória de trabalho, percepção,

planejamento e organização, além de falhas para inibir comportamento motor (Sonuga-Barke,

Bitsakou & Thompson, 2010; Gonzalez et al., 2008; Capovilla, Assef, & Cozza, 2007;

Drecheler, Brandeis, Foldenyi, Imhof & Steinhausen, 2005; Klimkeit, Mattingley, Sheppard,

Lee & Bradshaw, 2005; Nigg, 2005).

O TDAH é, portanto, um transtorno complexo que envolve déficits nas FE

8

, na

regulação das emoções e habilidades sociais, o que requer um tratamento que sistematicamente

atinja a manutenção desses fatores (Hannesdottir, Ingvarsdottir & Bjornsson, 2017).

De acordo com o DSM-5, os principais comportamentos que frequentemente são

observados em crianças com TDAH estão relacionados a atividade motora excessiva,

dificuldade com planejamento, inquietude, desatenção e impulsividade, irritabilidade, baixa

tolerância à frustração e prejuízo escolar. O TDAH engloba um conjunto de sintomas referentes

a desatenção, hiperatividade/impulsividade que se manifestam por meio de um padrão

persistente e frequente ao longo da vida (APA-5, 2014).

Os déficits do TDAH característicos da “desatenção” não são constituídos pela falta de

compreensão, mas por comportamentos relacionados a desorganização, inabilidade de

permanecer em uma tarefa por muito tempo, não se concentrar, agir devagar em tarefas, perder

materiais, parecer não escutar, apresentar falta de persistência e dificuldade de manter o foco

por muito tempo (APA, 2014).

A “hiperatividade” implica em comportamentos relacionados a atividade motora

excessiva, tal como inquietação, conversar em excesso, incapacidade de permanecer sentado e

aguardar a sua vez (APA, 2014).

Quanto à “impulsividade”, refere-se a atos precipitados que ocorrem sem premeditação,

como por exemplo, atravessar uma rua sem olhar, incapacidade de postergar a gratificação,

interferir nas atividades de outros, tomada de decisões importantes sem considerar as

consequências futura ou imediata (APA, 2014).

8 Funções Executivas-FE: Conjunto de capacidade cognitivas que regulam o comportamento em resposta às demandas de tarefas complexas, como por exemplo, planejamento, inibição, sequenciamento e monitoramento (Diamond & Ling, 2015; Diamond, 2013; Cardoso et al., 2017).

A criança com TDAH frequentemente procrastina uma atividade, apresenta alternância

de tarefas, labilidade motivacional, dificuldade de focalizar e sustentar a atenção, dificuldade

em organizar-se e priorizar atividades, lentidão no processamento de informações, dificuldade

em tolerar frustrações e manejar sentimentos (Friaça, 2010). Para averiguar o perfil cognitivo

de pessoas com TDAH, Pievsky et al. (2017) realizaram um estudo de revisão sistemática, para

tal pesquisa, encontraram 253 estudos nos quais compararam o desempenho neurocognitivo de

pessoas com TDAH, com o desempenho de pessoas sem TDAH (grupo controle). A revisão

sistemática visou determinar até que ponto as pessoas com TDAH diferenciavam-se

cognitivamente do grupo controle. Das 253 medidas padronizadas foram extraídas 34

metanálises, sendo que 244 (96%) estudos foram conclusivos para melhor desempenho

neurocognitivo no grupo controle. As evidências sugeriram que as pessoas com TDAH

apresentaram mais déficits nos domínios neurocognitivos para a variabilidade do tempo de

reação, realização de tarefas, vigilância, memória de trabalho e inibição da resposta.

Kang et al. (2016) tiveram como propósito avaliar a correlação entre os déficits

cognitivo, mudança no movimento e atividade cerebral em 15 crianças com TDAH e 15

crianças sem TDAH (grupo controle), pareados por idade e sexo. Os resultados apontaram que

as crianças com TDAH apresentaram um aumento na distância percorrida, diminuição da

velocidade na tarefa, além de dificuldades na atenção e mudança de movimento (Kang, Han,

Kim, Bae & Renshaw, 2016).

Pereira, Santos e Feitosa (2013) investigaram sinais comportamentais do TDAH e do

Transtorno do Processamento Auditivo (TPA), fizeram parte desta investigação 42

profissionais das áreas da Medicina, Fonoaudiologia, Psicologia e Pedagogia, que realizaram

os diagnósticos e intervenções pertinentes aos transtornos TDAH e TPA na população

brasileira. Constatou-se que os comportamentos mais apontados pelos profissionais referentes

aos pacientes hiperativos/impulsivos, foram: apressado ou impulsivo, irrequieto, muda de um

trabalho incompleto para outro, pouco autocontrole, dificuldade em brincar silenciosamente,

falta de persistência, intrometido e interrompe o outro. Já para pacientes com desatenção

verificou-se distração, desorganização e com dificuldades acadêmicas. Com relação ao TPA,

constataram déficit na atenção auditiva dividida, seletiva e sustentada, assim como, dificuldade

de ouvir em ambiente ruidoso, seguir instruções orais, discriminar fala, associação auditiva

ruim e taxa reduzida em processar informação auditiva.

Pode-se concluir, com base nos estudos apresentados, que a criança com TDAH

frequentemente passa por dificuldades, seja no meio social, escolar ou familiar, que podem

gerar sentimento de baixa autoestima, frustração e insegurança, além de uma percepção errônea

de suas capacidades, baixo desempenho escolar e sentimento de desamparo. Saber o que se

passa com a criança pode ser um caminho para ajudá-la a enfrentar suas dificuldades.

1.3 Crianças com TDAH: Dificuldades emocionais e de interações sociais na escola e no