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3 PROCESSOS HISTÓRICOS REIVINDICATÓRIOS

4.6 PERFIL DOS ENTREVISTADOS

As quinze entrevistas foram realizadas entre março e junho de 2018, portanto, entre quinze e dezoito meses após o término da Ocupa Fabico. Este distanciamento temporal favorece a reflexão sobre o que passou, mas pode trazer problemas relacionados à memória dos entrevistados, como alguma imprecisão cronológica e confusão sobre acontecimentos que teriam ocorrido neste ou naquele momento da ocupação; questões que eu procurei minimizar

ou equacionar baseado na minha memória, na consulta das fanpages, e também confrontando os depoimentos para chegar o mais próximo possível da realidade dos fatos.

A duração das entrevistas variou entre 45 e 70 minutos, dependendo da disponibilidade dos entrevistados e da fluidez verbal e capacidade de reflexão de cada um – ainda que todas as conversas tenham sido conduzidas da mesma maneira e tendo como norte os mesmos temas. Nenhum assunto perguntado foi considerado tabu. Além disso, questões polêmicas que não estavam na pauta inicial foram levantados por eles mesmos e acabaram virando tema de todas as conversas, como o racismo e a questão de classe.

Sobre a escolha dos entrevistados, não houve uma preocupação rígida de espelhar a representatividade da Ocupa Fabico – como aconteceria na formação de grupos focais, por exemplo. Uma parte deles foi escolhida por serem alunos com quem eu tive bastante contato durante a ocupação. Portanto, já havia uma empatia entre nós e, de minha parte, a certeza de que eram pessoas com uma boa capacidade de reflexão e que contribuíram muito com a pesquisa. Mas dois ajustes foram feitos na minha intenção inicial de selecionar aquele com quem eu iria conversar: um recorte de raça e outro relacionado ao semestre que estavam à época da ocupação.

Com relação aos estudantes negros foi diferente. Já nas duas primeiras entrevistas, feitas com alunos brancos, fiquei sabendo que houve tensões raciais importantes e que me passaram desapercebidas no contato presencial com a ocupação. A partir de então, passei a fazer algumas entrevistas com estudantes negros, chegando ao número de quatro entrevistados com este perfil. O Quadro 1 apresenta características gerais dos selecionados (idade, raça, curso, semestre, comissão que integrou na ocupação, modalidade de acesso à Universidade e vinculação a partido, coletivo ou movimento estudantil). Os nomes verdadeiros dos entrevistados foram devidamente alterados.

Os temas das entrevistas foram definidos a partir da minha experiência na Ocupa Fabico e de análises sobre as fanpages das ocupas da UFRGS. Foram eles: experiência política anterior às ocupações; contato com as ocupações de secundaristas e influência destas ações sobre os universitários; existência ou não de lideranças; presença de partidos e coletivos; as assembleias deliberativas; relacionamento com os professores, direção da Fabico e reitoria; reuniões entre as ocupas da UFRGS; participação majoritária de mulheres; questões de gênero; o funcionamento da Comissão de Comunicação; o legado pessoal; e o legado para a Fabico.

Mas já na primeira entrevista surgiu um outro tema que não estava entre as minhas preocupações, pois não havia sido percebido por mim durante a Ocupa, e que também não

está presente nas páginas do facebook: o racismo. Então, já a partir da segunda conversa,

Convenções: B (branco/a); N (negro/a); BIB (Biblioteconomia); JOR (Jornalismo); PP (Propaganda/publicidade) e RP (Relações Públicas) FONTE: O autor (2018).

NOME IDADE RAÇA CURSO SEMESTRE ACESSO A UFRGS

VINCULAÇÃO POLÍTICA COMISSÃO da Ocupa Fabico COLETIVO/ PARTIDO MOVIMENTO ESTUDANTIL

1. LARA 18 B JOR 4 Universal - Dacom Comunicação

2. DANIEL 21 B RP 6 Universal - Dacom Comunicação

3. PAULO 22 B PP 9 Cotas - Comunicação

4. LUIS 23 B PP 7 Cotas Juntos/ PSOL DCE/ Enecos Comunicação

5. TANIA 22 B RP 9 Universal Fora da Ordem/

PT - Comunicação

6. NARA 19 B PP 1 Universal - -

Comunicação Alimentação

Segurança

7. INGRID 20 B JOR 4 Cotas PT

- Segurança

8. AMÉLIA 20 B BIB 4 Universal

- - Segurança

9. CRISTINE 22 B JOR 6 Cotas

- - Segurança

10. LUCIANA 18 B RP 2 Universal

- - Segurança

11. VERA 20 B PP 6 Universal - - Segurança

12. ANTONIA 21 N JOR 1 Cotas

- - Segurança, Limpeza, Organização, Comunicação 13. JÚLIO 23 N RP 2 Cotas - - Limpeza

14. BÁRBARA 20 N JOR 5 Cotas

- - Alimentação

15. EMANUEL 20 N JOR 3 Cotas Juntos / PSOL Dacom Relações Institucionais

Entre os quinze entrevistados, conforme apontado no Gráfico 1, dez são mulheres e cinco homens, onze brancas e brancos e quatro negras e negros. Do total, oito ingressaram na Fabico pelo acesso universal e sete via cotas (escola pública, raça e renda inferior).

O Gráfico 2 situa os entrevistados por Curso e semestre, sendo seis estudantes de Jornalismo, quatro de Publicidade e Propaganda, uma de Biblioteconomia e quatro de Relações Públicas. O Gráfico 3 apresenta os vínculos políticos, sendo quatro filiados a partidos políticos – dois do PSOL e dois do PT. Três, entre os quinze, pertenciam a algum coletivo. Apenas quatro tinham experiência com movimento estudantil.

Todos os entrevistados são unânimes em afirmar que pelo menos metade dos ocupantes estavam cursando o primeiro ou o segundo semestre. Esta porcentagem não está representada no quadro de entrevistas logo abaixo (entre os 15 entrevistados, apenas quatro estavam no primeiro ano). A razão destas escolhas não representarem numericamente o que ocorria na Ocupa é que boa parte das pessoas que conheci e com quem criei um relacionamento de confiança, estavam na Comissão de Comunicação, e esta Comissão, segundo os próprios ocupantes, era formada majoritariamente por pessoas mais experientes na faculdade. Também não tive a preocupação intencional de entrevistar mais mulheres do que homens. Isso aconteceu naturalmente, já que elas eram de fato maioria e foi natural que eu acabasse tendo mais contato com elas do que com ocupantes homens.

Gráfico 1 – Entrevistados divididos por gênero, raça, idade e modalidade de acesso

FONTE: O autor (2018). 0 2 4 6 8 10 12

Genero Raça Idade Acesso

Gráfico 2 – Entrevistados divididos por curso e semestre

FONTE: O autor (2018).

Gráfico 3 – Entrevistados divididos por filiação a partidos, coletivos ou movimento estudantil

FONTE: O autor (2018).

Cabe ressaltar que, além destas quinze entrevistas, também tive conversas informais, durante e pós-ocupação, com alunos da Fabico, com uma ocupante da Letras e outra da Ocupa IFCH, além de uma professora da Esefid. Destes diálogos também foram extraídas

informações que fazem parte desta pesquisa.

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Partido Político Coletivos Movimento estudantil