3 PROCESSOS HISTÓRICOS REIVINDICATÓRIOS
3.1.4 Secundaristas: a renovação que vem de São Paulo
O movimento de ocupações dos secundaristas paulistas foi motivado por uma pauta muito específica: a luta contra o projeto de reorganização escolar do governo estadual de São Paulo. O governo dizia que havia salas de aula ociosas e que a rede estadual de ensino teria perdido dois milhões de alunos desde o ano 2000. A ideia era transformar escolas em escolas especialistas em um ciclo: Fundamental I, Fundamental II ou Médio, o que acarretaria uma série de consequências, como o deslocamento de estudantes para estudar em uma escola distante. Irmãos seriam separados, uma vez que cada escola só disponibilizaria um ciclo. Alunos do mesmo ciclo, mas de regiões diferentes da cidade, seriam concentrados na mesma instituição e várias outras escolas seriam fechadas (94 ao todo).
Logo que o projeto foi anunciado, cinco alunos de uma escola de São Paulo criaram um evento no facebook chamado “Luta pela Educação”. Nasce assim o primeiro fórum de discussão sobre o projeto de governo e as suas possíveis consequências:
Desde o início a luta já era concebida como muito mais do que apenas um apelo para que não se mexesse em um escola específica – há uma noção clara da educação pública enquanto direito e de direito enquanto conquista que orientou a maneira como a “reorganização” foi interpretada pelos alunos (CAMPOS; MEDEIROS; RIBEIRO, 2016, p. 36).
O primeiro repertório utilizado pelos secundaristas para manifestar publicamente oposição ao projeto do governo paulista foi a passeata. Entre setembro e novembro de 2016
houve protestos de rua em mais de 60 cidades paulistas, algumas com a participação de pais e professores. O leque de repertórios neste primeiro momento de atuação incluiu abaixo- assinados; protestos em frente a unidades escolares, prefeituras, câmaras de vereadores, secretarias estaduais e assembleia legislativa; um ato fúnebre, no dia de Finados, simbolizando a morte de uma escola; trancamento de ruas, avenidas e rodovias; abraços coletivos nas escolas; panfletagem; e atos-debate criados em espaços públicos abertos. Em muitas destas ações, especialmente nas marchas, era acionada uma série de mídias radicais tradicionais, como cartazes, faixas, pinturas nos rostos e nos corpos, apitaços, carros de som, etc. Campos, Medeiros e Riberio (2016) chamam a atenção para o protagonismo das escolas do interior do estado nesta primeira etapa de protestos: 80% das manifestações de rua aconteceram fora da capital.
Outro repertório utilizado foram as intervenções artísticas. Uma performance realizada por alunos de uma escola e postada no youtube viralizou na internet – mais de 156 mil visualizações. Alunos sentados em uma sala de aula, com os olhos vendados por um pano preto, cantam uma versão de Cálice, de Chico Buarque e Gilberto Gil. De repente eles tiram as vendas e passam a declamar a letra de “Pra não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré, terminando com as palavras “Aqui eu tô, aqui em vou ficar, da minha escola ninguém vai me tirar”18.
Uma comissão de estudantes chegou a ser recebida pelo secretário da Educação. Nessa ocasião houve um stress relativo a tentativas de lideranças, por parte da UMES. O chamado Grupo Autônomo Secundaristas não aprovou, não concordava com aquela representação. Eles chegaram com carro de som pra tentar exercer um processo de liderança, mas uma assembleia realizada no local definiu que eles não tinham essa legitimidade pra falar pelos alunos. Segundo Campos, Medeiros e Ribeiro (2016), outras faíscas sairiam, durante as ocupações, entre estudantes autônomos e entidades como a Umes, a União Paulista de Estudantes Secundaristas (UPES) e a União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES).
A pouca vontade do governo em dialogar, apensar de tantas manifestações, foi desgastando os estudantes: “Enquanto a ineficácia destas táticas ficava cada vez mais evidente, a ocupação das escolas já estava espreitando a mente dos estudantes [...]” (CAMPOS; MEDEIROS; RIBEIRO, 2016, p. 53-54).
Outro elemento importante para a deflagração das ocupações foi a atuação do coletivo
O Mal Educado19. Já em meio à onda de protestos contra o projeto da secretaria de Educação,
o blog do grupo publicou o manual “Como ocupar um colégio”, criado pelo coletivo argentino “Frente de Estudiantes Libertários” e traduzido para o português pelo coletivo. O manual trazia sugestões sobre a formação de comissões, o funcionamento das assembleias e outras dicas a partir das experiências dos estudantes argentinos, que por sua vez tinham se inspirado na revolta dos secundaristas chilenos, em 2006, episódio histórico que ficou conhecido como a Rebelião dos Pinguins20. O manual foi amplamente compartilhado via whatsapp e facebook. Uma versão impressa era distribuída durante atos pelo pessoal do coletivo, tornando-se rapidamente conhecido dos alunos mobilizados contra o projeto do governo. O filme A Rebelião dos Pinguins, sobre o levante de 2006 no Chile, também era compartilhado entre os estudantes. Algumas escolas realizaram exibição do documentário seguida de debates.
Defendendo a ocupação de escolas já desde a fase das manifestações de rua, O Mal Educado já surge com uma preocupação de memória política: “como impedir que o ciclo do ensino médio, estruturalmente restritivo para a luta dos estudantes, apague a sua história, suas experiências e vivências” (CAMPOS; MEDEIROS; RIBEIRO, 2016, p. 53-54). A centralidade do coletivo nas manifestações pode ser medida pelo ataque cibernético sofrido ainda em outubro. Tanto o blog quanto a página do facebook foram atacadas. Todos os registros de textos e fotografias entre abril e aquela data foram perdidos (CAMPOS, MEDEIROS, RIBEIRO, 2012).
Neste caso dos secundaristas fica muito clara a influência de um movimento sobre outros. Uma rede vai se formando e possibilita que uma ação reverbere além daquelas fronteiras. No final de outubro, em meio a então já grande mobilização de estudantes contra o projeto de reorganização, o governo de São Paulo publicou uma lista com as 94 escolas estaduais que seriam fechadas, afetando diretamente 300 mil alunos. Neste momento uma nova hashtag começa a aparecer nas timelines dos estudantes: #sefecharvamosocupar.
O Mal Educado, junto com outros seis coletivos, formou a Frente d’O Mal Educado. Uma de suas primeiras ações foi a organização de assembleias regionais, juntando estudantes de várias escolas. Nestes encontros o grupo já divulgava a ideia das ocupações através da
19 A origem d’O Mal Educado está ligada a contatos e convivência com o MPL – Movimento Passe Livre São
Paulo. No blog do coletivo, assim é definido o objetivo do grupo: “Queremos registrar e divulgar algumas experiências de luta e organização vividas por alunos de diferentes escolas. Acreditamos que essa troca pode inspirar mais estudantes, que poderão aprender com os erros e acertos dos outros e pensar em formas de agir para enfrentar seus problemas”. Disponível em: <https://gremiolivre.wordpress.com/quem-somos/>.
cartilha e do documentário. Há assim a construção de uma consciência de ocupar. Campos, Medeiros e Ribeiro (2016, p. 79) definem a participação do coletivo na deflagração das ocupações:
O Mal Educado não atuou como dirigente do processo político, mas meramente como um catalisador que detonou uma virada tática – das manifestações de rua às ocupações –, apresentando uma nova forma de ação coletiva, desconhecida ou impensável para os alunos”.
As ocupações dos secundaristas paulistas, que tanto influenciariam jovens de outros estados e, um ano depois, os universitários, iniciaram no dia 9 de novembro de 2015 com a ocupação de uma escola de Diadema, na grande São Paulo. Uma guerra jurídica teve início imediatamente, com pedidos de reintegração de posse, de reconsideração da integração de posse, liminares deferidas, liminares cassadas e algumas tentativas de audiências de conciliação intermediadas por autoridades como o Ministério Público, defensores públicos, conselheiros tutelares e procuradores do Estado.
Em poucos dias já eram 90 escolas ocupadas em todo o estado. Mesmo algumas que não iriam fechar, mas que certamente sofreriam consequências destes fechamentos, foram ocupadas. As fanpages iam sendo criadas e servindo como local de compartilhamento das ações realizadas dentro das escolas. Muitas sofrem com a oposição dos diretores, que fecham salas e dificultam o acesso a setores dos prédios. De acordo com Campos, Medeiros e Ribeiro (2016, p. 126), “raríssimos foram os casos em que a diretoria apoiou a ocupação ou não procurou criar dificuldades para os estudantes”.
A música Escola de luta, versão mais politizada de um funk conhecido, viralizou e passou a ser cantada nos atos. Cada um destes é um componente para um sentimento de pertencimento, de um movimento maior. Outro canto comum nos protestos: Sou estudante, não sou ladrão, não vim pra escola pra voltar de camburão.
Entre as hashtags que davam uma certa unificação a estes atos esparsos, as principais eram: #EuEscolhoMeuFuturo; #AEscolhaENossa, #nãofecheminhaescola. As coberturas mais completas eram realizadas pelo blog O Mal Educado e pelo site Jornalistas Livres. Nas fanpages das escolas, destaque para os pedido de doações e agenda de atividades.
Além de grandes mutirões de limpeza, os alunos realizaram consertos em portas, telhados, cortaram grama, descobriram alimentos vencidos ou prestes a vencer e estoques de material escolar que nem sabiam que existiam. Algumas escolas ocupadas denunciaram em suas fanpages focos de larvas, mosquitos e ninhos de ratos. (CAMPOS, MEDEIROS, RIBEIRO, 2016). Mostrando um padrão que se repetiria com os universitários no ano
seguinte, ocupantes aproveitaram o momento de mobilização para reivindicar questões locais referentes às escolas, como mudanças nas eleições para os grêmios estudantis, melhorias de infraestrutura e relações mais democráticas entre professores e alunos (CAMPOS, MEDEIROS, RIBEIRO, 2016).
Em muitas escolas ocupadas a comunidade apoiou a luta dos estudantes. No caso dos secundaristas houve, antes das ocupações, uma tentativa de diálogo com a Secretaria de Educação, coisa que não aconteceu no caso das ocupações de universidades.
As regras internas das ocupações variavam, elas tinham autonomia para decisões. Umas não deixavam entrar nenhuma pessoa que não estivesse ocupando, outras permitiam a entrada de pais, por exemplo. Com relação as assembleias, mesmo nestas que permitiam visitas, as votações eram exclusivas para ocupantes. Qualquer atitude de liderança sobre os demais era mal vista. Automaticamente esta pessoa perdia legitimidade ante os companheiros.
A estratégia do governo para enfrentar os estudantes, quando as ocupações no estado de São Paulo já superava uma centena, foi trabalhar com a desinformação e difamação. Esta campanha:
consistia em realizar ameaças ou mentir aos alunos e seus pais sobre as consequências que a ocupação poderia ter. Por exemplo, houve ameaças de punições em nota, reprovação dos envolvidos ou mesmo dos que apenas expressassem apoio ao movimento; ameaças de que os alunos do terceiro ano do Ensino Médio teriam sua formatura impedida pela suspensão das aulas; de que teriam seus diplomas e históricos escolares segurados pelas Secretarias; e até de que aqueles que se beneficiassem do programa Bolsa Família e estivessem matriculados em uma escola ocupada teriam seus benefícios cortados (CAMPOS, MEDEIROS, RIBEIRO, 2016, p. 186).
Os alunos responderam por meio de postagens no facebook, reuniões com as comunidades das escolas. A fanpage do Mal Educado também atuou no sentido de desmentir o que o governo estava dizendo. Mesmo depois de ocuparem as escolas os estudantes continuaram recorrendo a outros repertórios, como panfletagens, cartazes colados nos bairros das escolas, reuniões com pais e alunos, refeições comunitárias nas ocupações. Como resultado de tamanha mobilização, o projeto de reformulação do ensino médio foi retirado pelo governador Geraldo Alckmin, pouco antes do final do ano, e o secretário da Educação foi destituído. Não demoraria para o exemplo dos secundaristas paulistas ser seguido em todo o Brasil.
3.2 OCUPAÇÕES: UM REPERTÓRIO PARA UM TEMPO HISTÓRICO
Concordando com Hegel (1996), para quem os seres humanos são obra da História e toda a ação pressupõe uma matéria pré-existente sobre a qual se age, procurei situar as ocupações universitárias no contexto de outras ações semelhantes que têm ocorrido em outros países ao longo da última década. Islândia, Espanha, Grécia, Chile, Argentina, Canadá, Estados Unidos, entre outros, assistiram nos últimos anos a ascensão de grupos que empregam táticas de ação direta e possuem estruturas organizacionais horizontalizadas, praticando nos espaços criados pela ação coletiva uma espécie de democracia direta baseada na deliberação, radicalizando os processos de tomada de decisões e evitando hierarquias de comando.
Puerta del Sol: Madri. Praça Tahir: Cairo. Zuccoloto Park: Nova York. Praça Syntagma: Atenas. Praça Taksim: Istambul. Locais de grande importância simbólica tomados por dezenas, centenas de milhares de desafiantes dos poderes constituídos. Laboratórios de experiências sociais baseadas no compartilhamento e na colaboração. Uma multiplicidade de bandeiras e de perfis subjetivos-ideológicos, a pessoalização da vida coletiva, ou politização do pessoal (ESTEVES, 2008): pautas do âmbito do privado que, ao ganharem as ruas, juntam-se a outras demandas individuais e se tornam públicas e coletivas, alimentando e fortalecendo o movimento. O espaço público entendido como ponto de encontro e ação, apoteose do coletivo, redescoberta ou reinvenção de “um comum político dos sentidos” (CEDILLO, 2015, p. 129). Como escreveu Pinto (2012, p. 139), os ativistas “se apropriam da geografia das cidades, transformando praças e calçadas em lugares de discussão e do próprio movimento”.
A ocupação, “uma tática popular usada pelos movimentos sociais para tomar e defender espaços” (BOYD; MITCHELL, 2013, p. 41), é um repertório de confronto disruptivo (TARROW, 2009), que tem sua força justamente na quebra das atividades do cotidiano. Nos últimos anos este tem sido um dos repertórios de ação coletiva mais empregadas por grupos de ativistas em vários países do mundo. Diferentemente das marchas, onde o número de participantes é fundamental para o objetivo que se busca, na ocupação ele não é tão determinante para o sucesso ou não da ação. É claro que o objetivo, seja qual for, pode ser mais facilmente alcançado se houver um grande número de pessoas – além da importância simbólica de uma ampla adesão ao movimento. Mas uma quantidade relativamente pequena de ativistas pode realizar a ocupação de prédios importantes e áreas bem significativas, principalmente se não enfrentarem resistência física no momento da ação.
Existem vários tipos de ocupações. Elas diferem quanto ao objetivo e à natureza dos locais onde ocorrem:
I. Ocupações de territórios, realizadas por exércitos nacionais, grupos revolucionários ou forças paramilitares;
II. Ocupações de fábricas;
III. Ocupações de escolas e universidades;
IV. Ocupações de locais públicos abertos, como praças e trechos de ruas; V. Ocupações de locais públicos destinados a virarem propriedade privada;
VI. Ocupações de prédios públicos ou privados para transformá-los em centros culturais;
VII. Ocupações de prédios públicos ou privados para fins de moradia; VIII. Ocupações de áreas rurais para fins de moradia e reforma agrária;
XIX. Ocupações de centros de poder do Estado, como assembleias legislativas, câmaras de vereadores, prefeituras, tribunais, secretarias, etc.
Ocupações de prédios de universidades brasileiras têm ocorrido com uma certa frequência nos últimos anos. Inclusive em episódios com ações concomitantes em diversas cidades diferentes em várias regiões do país – ainda que sem qualquer comando central. Em 2007 ocorreu uma série de ocupações de reitorias – inclusive da UFRGS –, em protesto contra políticas para a educação superior21. Na Universidade de São Paulo (USP), alunos têm ocupado a reitoria e outros prédios nos últimos anos, como em 201122, 201323 e 201624, com demandas como a implantação do sistema de cotas, eleição direta para o reitor e contra ações que consideram prejudiciais ao ensino superior. Em maio de 2016, portanto poucos meses antes da série de ocupações em universidades federais, alunos da Universidade Federal do Pampa (Unipampa) ocuparam quatro prédios, nas regiões Fronteira Oeste e Campanha do Rio Grande do Sul, protestando contra más condições de infraestrutura e ensino25.
21Estudantes adotam invasão de reitorias como tática de protesto em 2007. Disponível em:
https://noticias.uol.com.br/ultnot/retrospectiva/2007/materias/educacao.jhtm. Acesso em: 12 set. 2017.
22Entenda a ocupação feita por alunos em prédios da USP. Disponível em:
http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2011/11/entenda-ocupacao-feita-por-alunos-em-predios-da-sp.html. Acesso em: 12 set. 2017.
23Alunos da USP aprovam greve geral e ocupação da reitoria por tempo indeterminado. Disponível em:
http://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,alunos-da-usp-aprovam-greve-geral-e-ocupacao-da-reitoria-por- tempo-indeterminado,1080953. Acesso em: 12 set. 2017.
24Estudantes da USP ocupam prédios da ECA, História e Geografia. Disponível em: http://g1.globo.com/sao-
paulo/noticia/2016/05/estudantes-da-usp-ocupam-predios-da-eca-historia-e-geografia.html. Acesso em: 12 set. 2017.
25 Estudantes ocupam quatro unidades de universidade federal no RS. Disponível em:
<http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2016/05/estudantes-ocupam-quatro-unidades-de- universidade-federal-no-rs.html>. Acesso em: 22 jun. 2018.
A própria Universidade Federal do Rio Grande do Sul tem sido palco para a aplicação deste repertório, como no já citado caso de 2007. Em 2014 houve ocupações na UFRGS em dois momentos – e por razões diferentes: primeiro a Faculdade de Direito26, depois a reitoria27. Em 2016, antes mesmo da série de ocupações deflagrada em outubro e novembro28, a reitoria já havia sido ocupada por estudantes do movimento negro. Por todos estes fatos, tem sido criada uma tradição recente deste repertório nas universidades brasileiras.