ANÁLISE DOS RESULTADOS
PERFIL DOS PARTICIPANTES NAS ATIVIDADES LÚDICAS
CRIANÇAS COM QUEIXA CRIANÇAS SEM QUEIXA
Perfil B Perfil A
Figura 9 – Perfil dos participantes nas atividades lúdicas
O quadro síntese e o gráfico nos revelam que não houve diferenças expressivas entre os perfis dos participantes de ambos os grupos nas atividades lúdicas. Os aspectos
afetivos da conduta em tais atividades foram predominantemente positivos, levando-nos a inferir que nessas atividades, as crianças se comportam afetivamente de forma semelhante.
No entanto, analisando comparativamente os dois grupos nos dois tipos de atividades, verificamos diferenças nos aspectos afetivos da conduta nas tarefas escolares e nas situações lúdicas. As diferenças entre os participantes com queixa foram mais significativas. Nas tarefas escolares, os participantes desse grupo apresentaram, com maior freqüência, aspectos que denotavam ausência de condutas afetivas positivas, sendo que essas características não foram observadas nas atividades que envolviam jogo. Nas atividades escolares pôde ser delineado predominantemente o Perfil C, ao passo que nas atividades lúdicas predominou o Perfil A.
No grupo sem queixa de dificuldade houve predominância do Perfil A em ambas as situações (escolares e lúdicas). No entanto, verificamos, ainda que de forma escassa, algumas condutas não positivas nas atividades lúdicas, o que não foi evidenciado nas tarefas escolares. Esse dado nos coloca uma questão: será que se as atividades escolares permitissem uma maior interação social entre as crianças essas condutas também estariam presentes? Vale destacar que as atividades escolares eram realizadas individualmente e sendo assim, não propiciava interações sociais efetivas, enquanto que a atividade lúdica pressupõe esse tipo de interação.
Apresentaremos a seguir os aspectos afetivos da conduta obtidos nas entrevistas.
B – Análise das entrevistas com a professora e com a família referente aos aspectos afetivos.
As entrevistas com a professora e com a família tiveram como objetivo coletar informações da criança em seu ambiente escolar e familiar, respectivamente. Essas informações são importantes para melhor caracterizar as crianças do estudo.
A partir do material coletado, foram criadas categorias de análise. Para avaliar os dados fornecidos pela entrevista com a professora, foram criadas categorias referentes aos aspectos afetivos e cognitivos da conduta. Os dados fornecidos pelas entrevistas com a família foram avaliados apenas as categorias referentes aos aspectos afetivos, pois o roteiro da entrevista não contemplava os aspectos cognitivos das crianças.
Na entrevista com a professora, foi possível analisar os seguintes aspectos afetivos das condutas dos participantes: como as crianças se comportavam com ela mesma, com os colegas e com as tarefas e como elas se expressavam – aspectos relacionais. Foram criadas 4 categorias para sistematizar estes dados: proximidade, proximidade parcial, distância e formas de expressão.
Os trechos das entrevistas que ilustram cada categoria encontram-se no Anexo 9.
I – Aspectos afetivos da conduta segundo a percepção da professora
1 – Aspectos relacionais professor-aluno e aluno-aluno
1.1 – Proximidade
a) Professor-aluno: a criança demonstra carinho, é solícita, conversa, conta sobre sua vida
familiar e coisas do cotidiano.
b) Aluno-aluno: a criança brinca com todos os colegas, é solidária e solícita.
1.2 – Proximidade parcial
a) Professor-aluno: a criança demonstra pouco carinho, e/ou pouco conversa, e/ou conta
pouco sobre sua vida familiar e/ou coisas do cotidiano, é pouco solícita.
b) Aluno-aluno: a criança brinca apenas com alguns colegas, e/ou é pouco solidária e
pouco solícita.
1.3 – Distância
a) Professor-aluno: a criança não demonstra carinho, não conversa, não conta sobre sua
b) Aluno-aluno: a criança prefere ficar sozinha ou tem apenas um colega, não demonstra
solidariedade e não é solícita.
Os Quadros 15 e 16 a seguir, reúnem as características afetivas segundo o olhar da professora.
Quadro 15 – Aspectos afetivos da conduta das crianças com queixa de dificuldade de aprendizagem segundo a percepção da professora
Professor-aluno Aluno-aluno
Participantes
Proximidade Proximidade
Parcial Distância Proximidade
Proximidade Parcial Distância Bru (10;10) X X Cla (10;3) X X Eli (10;2) X X Gui (10;8) X X Jul (9;4) X X Raf (9;3) X X
Quadro 16 – Aspectos afetivos da conduta das crianças sem queixa de dificuldade de aprendizagem segundo a percepção da professora
Professor-aluno Aluno-aluno
Participantes
Proximidade Proximidade
Parcial Distância Proximidade
Proximidade Parcial Distância Ala (9;11) X X Ali (9;1) X X Bla (9;6) X X Cai (10;1) X X Gab (9;6) X X Mat (9;7) X X
Comparando os aspectos relacionais da conduta dos dois grupos, com e sem queixa de dificuldade de aprendizagem, segundo a percepção da professora, verificamos que nas crianças do primeiro grupo há predominância de uma proximidade parcial, enquanto que as
crianças do segundo grupo são bem mais próximas. O mesmo pode ser observado com relação aos colegas. É importante destacar que a questão de proximidade está relacionada também às diferenças individuais de cada criança e não pode, isoladamente, ser reveladora de um problema de ordem afetiva. No entanto, podemos inferir que as crianças sem queixa de dificuldade manifestam de forma mais positiva seus estados afetivos, demonstrando melhor adaptação ao entorno escolar.
1.4 – Formas de expressão
a) Professor-aluno: a criança é extrovertida, introvertida, tímida, segura, insegura (medo
de errar quando a professora questiona), nervosa, agressiva, preocupada, fantasiosa, amorosa, divertida/engraçada, solidária.
b) Aluno-aluno: a criança é calma/tranqüila, educada, extrovertida (conta piadas, fala
coisas engraçadas), introvertido (tímido), agressivo (briga com freqüência), nervosa, ressentida e preocupada, solidária.
As formas de expressão que caracterizam as crianças dos dois grupos foram organizadas nos Quadros 17 e 18 a seguir.
Quadro 17 – Formas de expressão das crianças com queixa de dificuldade de aprendizagem segundo a percepção da professora
Formas de expressão Participantes
Professor-aluno Aluno-aluno
Bru (10;10) Introvertido (quieto), fantasiosa. Introvertido (quieto), solitário.
Cla (10;3) Agressivo (magoa), nega o que fez. Agressivo (magoa e bate), dificuldade em
perceber o sentimento do outro.
Eli (10;2) Introvertido (“fechado”). Introvertido (“fechado”)
Gui (10;8) Extrovertido (fala, conversa, brinca) e
amoroso.
Extrovertido (conversa, fácil de fazer amizades).
Jul (9;4) Divertida (conta piadas), insegura (medo
de ler, medo de falar sobre o conteúdo). Divertida, protetora (com uma amiga).
Raf (9;3) Tímida, insegura (medo de errar),
ressentida quando erra.
Tímida, ressentida quando sua melhor amiga não lhe dá atenção.
Quadro 18 – Formas de expressão das crianças sem queixa de dificuldade de aprendizagem segundo a percepção da professora
Formas de expressão Participantes
Professor-aluno Aluno-aluno
Ala (9;11) Introvertida (“fechada”), participativa,
interessada. Solidária, delicada.
Ali (9;1) Amorosa, participativa, interessada,
preocupada com seu desempenho escolar. Amorosa, agressiva quando contrariada.
Bla (9;6) Tímido, vergonhoso, encabulado, pouco
participativo. Tímido.
Cai (10;1)
Extrovertido (“tagarela”), participativo, interessado, ansioso e nervoso antes das
provas.
Extrovertido, “amigo de todos”.
Gab (9;6) Amorosa, participativa, preocupada com
seu desempenho.
Solidária, amorosa, preocupada com o outro.
Mat (9;7) Amoroso, participativo, interessado,
solícito. Extrovertido, alegre, “amigão”.
De acordo com as informações da professora, as crianças de ambos os grupos apresentam formas particulares de se comunicarem com ela e com os colegas. Verificamos no primeiro grupo que existem crianças que são mais introvertidas, agressivas e tímidas com a professora, mas existe criança que é extrovertida, divertida e amorosa. Nesse grupo aparecem em duas crianças a expressão “insegura” que é relativa ao desempenho escolar, como medo de errar, medo de falar sobre o conteúdo. Podemos dizer que as dificuldades que essas crianças apresentam interferem na forma como elas se expressam em determinadas situações. As formas de expressão se mantêm com a professora e com os colegas, não havendo diferenças significativa entre elas.
No segundo grupo, as formas de expressão são também variadas, mas é importante registrar que a professora caracteriza estas crianças como sendo mais participativas, interessadas e preocupadas com o desempenho escolar. Em alguns alunos, a preocupação com o desempenho chega a causar ansiedade e nervosismo. Esse dado deve ser analisado como um aspecto positivo. Analisando o interesse e a concentração dessas crianças nas atividades escolares, percebemos que elas valorizam a aprendizagem e desejam obter o sucesso como resultado de seus esforços.
No relacionamento com os colegas, algumas expressões se mantêm, mas verificamos também agressividade e timidez. Uma expressão que parece caracterizar esse grupo é “ser amigo” do outro e podemos dizer que essas crianças valorizam suas relações de amizade, que implicam numa maior reciprocidade.
A percepção da professora nos ajuda e ter uma visão mais completa dessas crianças, uma vez que estas características, muitas vezes, não foram evidenciadas durante as atividades pesquisadas e conseqüentemente, poderemos fazer uma análise mais detalhada dos participantes.
A seguir analisaremos os aspectos afetivos relativos à atenção e envolvimento nas tarefas escolares, ainda sob o ponto de vista da professora da turma.
2 – Atenção durante as tarefas
2.1 - Atenção: a criança mantém suas ações dirigidas para a tarefa escolar.
2.2 - Atenção parcial: a criança às vezes mantém suas ações dirigidas para a tarefa escolar,
erra por descuido, mas logo percebe seu erro.
2.3 - Dispersão: a criança não mantém suas ações dirigidas para a tarefa escolar.
3 – Envolvimento com as tarefas
3.1 - Envolvimento: a criança responde esforçando-se em atender às solicitações da tarefa
da melhor forma possível, parece pensar antes de responder, solicita ajuda quando não sabe o que fazer, mostra alegria quando consegue realizar a tarefa escolar e contrariedade quando não consegue realizá-las.
3.2 - Envolvimento parcial: a criança se esforça, às vezes, para atender às solicitações da
tarefa. Às vezes parece pensar antes de responder, solicita ajuda quando não sabe e mostra alegria quando consegue realizar a tarefa escolar e contrariedade quando não consegue realizá-las.
3.3 – Não envolvimento: a criança dá respostas imediatas, aparentemente não reflete para
atender às solicitações, responde para livrar-se da situação. Apesar de realizar o que se pede, necessita de incentivos ou novas solicitações para realizar as tarefas propostas; parece não se importar com o resultado da tarefa escolar.
Os Quadros 19 e 20 a seguir resumem as categorias relativas à atenção e envolvimento dos participantes segundo a análise da professora.
Quadro 19 – Atenção e envolvimento das crianças com queixa de dificuldade de aprendizagem segundo a percepção da professora
Atenção durante as tarefas escolares Envolvimento com as tarefas escolares
Participantes
Atenção Atenção
Parcial Dispersão Envolvimento
Envolvimento Parcial Não Envolvimento Bru (10;10) X X Cla (10;3) X X Eli (10;2) X X Gui (10;8) X X Jul (9;4) X X Raf (9;3) X X
Quadro 20 – Atenção e envolvimento das crianças sem queixa de dificuldade de aprendizagem segundo a percepção da professora
Atenção durante as tarefas escolares Envolvimento com as tarefas escolares
Participantes
Atenção Atenção
Parcial Dispersão Envolvimento
Envolvimento Parcial Não Envolvimento Ala (9;11) X X Ali (9;1) X X Bla (9;6) X X Cai (10;1) X X Gab (9;6) X X Mat (9;7) X X
Analisando comparativamente os dois grupos, verificamos que no grupo com queixa de dificuldade de aprendizagem as crianças são mais desatentas e demonstram menor envolvimento nas tarefas escolares do que o grupo de crianças sem queixa de dificuldade de
aprendizagem. Os aspectos relativos à atenção estão relacionados, dentre outras coisas, à motivação, ao estabelecimento de metas e de intenções da própria pessoa. Podemos inferir que em nossa amostra, as crianças com queixa de dificuldade de aprendizagem são menos motivadas e tem menos recursos afetivos para estabelecerem suas metas e monitorá-las, diferentemente das crianças sem queixa de dificuldade de aprendizagem. O mesmo pode ser dito com relação ao envolvimento, que de certa forma mantém relação com os aspectos atencionais.
II - Aspectos afetivos da conduta segundo a percepção da família
1 – Aspectos relacionais de proximidade
1.1 - Escola
a) Proximidade: a criança gosta da escola, da professora, se preocupa com seu
desempenho, faz suas tarefas de casa, está bem adaptado ao ambiente escolar.
b) Proximidade parcial: a criança gosta de algumas coisas relacionadas à escola,
demonstra alguma preocupação com seu desempenho.
c) Distância: a criança não gosta da escola nem da professora, não se preocupa com seu
desempenho, não está bem adaptada ao ambiente escolar.
1.2 - Família
a) Proximidade: a criança demonstra e deseja qualquer forma de carinho, se preocupa com
os problemas familiares.
b) Proximidade parcial: a criança pouco demonstra envolvimento com a família, ou
c) Distância: a criança não demonstra e não deseja qualquer forma de carinho, não se
preocupa com os problemas familiares.
1.3 - Amigos
a) Proximidade: a criança tem muitos amigos, participa de eventos sociais e participa de
brincadeiras.
b) Proximidade parcial: a criança tem poucos amigos, pouco participa de eventos sociais
e de brincadeiras.
c) Distância: a criança não tem amigos, não participa de eventos sociais e não participa de
brincadeiras.
Os Quadros 21 e 22 a seguir sintetizam as informações da família em relação aos aspectos relacionais dos participantes.
Quadro 21 – Aspectos do relacionamento de crianças com queixa de dificuldade de aprendizagem segundo as informações da família
Escola Família Amigos
Participantes P PP D P PP D P PP D Bru (10;10) X X X Cla (10;3) X X X Eli (10;2) X X X Gui (10;8) X X X Jul (9;4) X X X Raf (9;3) X X X
Quadro 22 – Aspectos do relacionamento de crianças sem queixa de dificuldade de aprendizagem segundo as informações da família
Escola Família Amigos
Participantes P PP D P PP D P PP D Ala (9;11) X X X Ali (9;1) X X X Bla (9;6) X X X Cai (10;1) X X X Gab (9;6) X X X Mat (9;7) X X X
Legenda: P – Proximidade; PP – Proximidade Parcial; D – Distância.
Os resultados revelaram que as crianças do grupo com queixa de dificuldade de aprendizagem mantêm, segundo a percepção da família, pouca ou nenhuma proximidade com a escola. Sobre os alunos inseridos na categoria proximidade parcial, a família informa que a criança gosta de ir à escola, gosta da professora, mas não percebe mudança de comportamento antes das provas, ou seja, não demonstra preocupação, sequer estuda. Geralmente não gosta de ajuda nas tarefas escolares. Na categoria distância, estão incluídas as crianças que não gostam de ir à escola, chegam a se queixar de dores ou contar pequenas mentiras para faltarem às aulas.
Uma informação que não se caracterizou como diferencial dos grupos foi gostar da professora. Segundo a família todas as crianças pesquisadas gostam e muito da professora. Diferentemente, a categoria “proximidade com a escola” foi indicadora de diferença entre os grupos. Algumas famílias das crianças sem queixa de dificuldade informaram que seus filhos não querem faltar, reclamam dos períodos de férias, não deixam de fazer as tarefas e percebem mudança no comportamento nas vésperas de prova como falar a todo o momento sobre o assunto seguidas de verbalizações do tipo: “será que vou acertar?”.
Com relação ao relacionamento com a família as crianças do grupo sem queixa de dificuldade parecem ser mais próximas, ou seja, mais envolvidas com os problemas familiares, embora algumas crianças do grupo com queixa de dificuldade de aprendizagem apresentem as mesmas características. A informação que mais diferenciou esses dois grupos nesse assunto foi o envolvimento com os problemas familiares. A família das
crianças com queixa de dificuldade de aprendizagem relatam que elas preferem brincar e não se mostram atentas a eles e as crianças do grupo sem queixa de dificuldade percebem os problemas, emitem opiniões e apresentam propostas de solução. Em ambos os grupos, algumas mães informaram que os filhos são afetivos e gostam de ser acariciados, mas que elas são pouco afetivas com eles.
O relacionamento com amigos também pareceu ser um fator não diferenciador dos grupos. Tanto crianças do grupo com e sem queixa de dificuldade são próximas de amigos, são convidadas para eventos sociais e brincadeiras. Há também em ambos os grupos crianças pouco próximas de amigos. A análise das entrevistas evidenciou que esse aspecto está relacionado mais ao temperamento da criança, principalmente à timidez e a uma preferência por ficar sozinho.
2 – Aspectos relacionados à independência
2.1 - Escola
a) Independência : a criança faz as tarefas de casa sozinha mesmo quando pede ajuda.
b) Independência parcial: a criança na maioria das vezes pede ajuda para fazer as lições
de casa.
c) Dependência: a criança não faz as tarefas de casa sozinha, precisa sempre da ajuda de
alguém da família ou deixa sem fazer.
2.2 - Família
a) Independência: a criança cuida-se sozinha, mesmo que em algumas ocasiões necessite
de ajuda.
b) Independência parcial: a criança, às vezes, faz o que a família lhe solicita e em alguns