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DELINEAMENTO DA PESQUISA

6. Recurso áudio-visual

Todas as observações em sala de aula foram filmadas por uma auxiliar de pesquisa e as sessões individuais foram gravadas pela pesquisadora para posterior análise.

6.3 – Procedimento

6.3.1 – Procedimento de coleta de dados

Após a elaboração, este projeto de pesquisa foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp com aprovação baseada nos dispositivos das Resoluções 196/96 e complementares. O PARECER DO PROJETO recebeu o nº 284/2006 e CAAE nº 0215.0.146.000-06.

Antes da coleta de dados propriamente dita, foi solicitada a autorização da Secretaria Municipal de Educação da cidade onde foi realizada a pesquisa, por meio de ofício explicando os objetivos da pesquisa (Anexo 3). Após a autorização, a pesquisadora solicitou a permissão da direção da escola, apresentando os objetivos da pesquisa e os procedimentos a serem adotados. A pedido da pesquisadora, a Direção da Escola indicou, para a realização da pesquisa, a classe de 3ª série do ensino fundamental que apresentava mais alunos com dificuldades de aprendizagem.

Inicialmente, a pesquisadora solicitou à professora que apontasse todos os alunos de sua sala que apresentavam dificuldades de aprendizagem. Em seguida solicitou que indicasse todos os alunos que tinham bom desempenho ou sem queixa de dificuldades de aprendizagem. É importante salientar que não foi estipulado o número exato de alunos a serem indicados e a quantidade ficou a critério da professora. A amostra do estudo ficou composta por 12 participantes: 6 alunos com queixa de dificuldades de aprendizagem e 6 alunos sem queixa de dificuldades de aprendizagem.

Em seguida, os objetivos e os procedimentos da pesquisa foram apresentados às mães e/ou responsáveis pelos alunos que autorizaram a participação dos estudantes assinando o termo de consentimento livre e esclarecido. O termo também foi assinado pela professora (Anexos 4 e 5).

O procedimento de coleta de dados consistiu em quatro etapas: entrevista com a professora, entrevista com a mãe e/ou responsável, observação dos participantes (N=12) em sala de aula e durante o jogo (Descubra o Animal) e aplicação das provas operatórias.

Todas as etapas foram realizadas na própria escola. A observação das crianças que fizeram parte da pesquisa, foi feita em sala de aula com a turma toda. Para facilitar a identificação dos participantes do estudo pela pesquisadora solicitou-se o uso de crachá. A observação nas tarefas propostas pela professora e nas atividades lúdicas (foram incluídas, com o consentimento da professora e da direção da escola) teve duração média de 2 horas por semana, sendo 1 hora destinada à observação das tarefas escolares e 1 hora destinada à observação das atividades lúdicas, num total de 12 horas em 6 semanas. A aplicação das provas operatórias foi realizada individualmente numa sala indicada pela direção, durante o período de aula.

1. Entrevista com a professora

Para caracterizar as crianças do estudo, a pesquisadora se baseou nos dados oferecidos pela professora sobre aspectos do relacionamento social das crianças, compreensão geral das atividades escolares com ênfase maior nas aprendizagens específicas (leitura, escrita e matemática) e da atenção e do envolvimento dos alunos nas situações que ocorrem no ambiente escolar. Essas informações auxiliaram na elaboração de categorias dos aspectos afetivos e cognitivos da conduta.

A entrevista foi gravada e transcrita na íntegra para posterior análise.

2. Entrevista com a mãe e/ou responsável

Após o consentimento das mães e/ou responsável foi realizada uma entrevista, em local indicado pela diretora, com o intuito de coletar informações da criança em seu ambiente familiar.

Para que as mães comparecessem à entrevista, a pesquisadora utilizou o mesmo procedimento adotado pela professora quando necessita convocar os pais que é escrever no caderno de recado das crianças. Foi elaborado um pequeno texto explicando em linhas gerais o objetivo da convocação. Todos os pais compareceram no dia e horário marcados e todos permitiram a participação dos filhos na pesquisa.

3. Observação dos participantes em sala de aula e análise dos procedimentos utilizados em um jogo (Descubra o Animal)

Essa etapa foi realizada com todos os alunos da sala de aula, mas foram observados apenas os alunos apontados pela professora (N = 12). Esse procedimento é pertinente pois acreditamos que os aspectos afetivos possam aparecer em situações espontâneas da criança.

Foi combinado previamente com a professora que a pesquisadora iria assistir às suas aulas, observando as condutas dos participantes na realização das tarefas escolares. A professora não fez nenhuma mudança no planejamento das atividades escolares. As atividades lúdicas foram desenvolvidas pela professora da turma, geralmente após as tarefas

escolares. Para a realização destas atividades, a professora recebeu orientação da pesquisadora sobre as regras dos jogos e os procedimentos que deveriam ser adotados.

Marcada a data do início da pesquisa em sala de aula, a pesquisadora explicou aos alunos todos os procedimentos que seriam realizados e após o consentimento deles deu-se início à etapa da coleta de dados. Foi dada a oportunidade aos alunos de perguntarem qualquer coisa, a fim de esclarecerem suas dúvidas.

Num primeiro momento, a professora apresentou os jogos e suas regras e deixou que os alunos jogassem, a fim de conhecerem e aprenderem como jogar. Foi pontuada a necessidade do cuidado que deveriam ter com o material, já que iriam ter várias sessões de jogos.

É importante salientar que os jogos não foram selecionados aleatoriamente pela pesquisadora. Houve a preocupação de escolher jogos de estratégia como o Kalah, Descubra o Animal e o jogo da Pirâmide; um jogo em que o acaso (sorte) estivesse presente como o Sobe e Desce; um jogo que envolvesse a aritmética como o Matix; um jogo envolvendo a leitura e escrita como o Pingo no I; um jogo de criatividade como o Imagem e Ação e um jogo em que a criança pudesse jogar sozinha, como o Cilada. A escolha dos jogos também foi baseada na experiência clínica da pesquisadora que observava a preferência das crianças por esses jogos.

Para que todas as crianças jogassem, foram usados vários exemplares de cada jogo, exceto o jogo da Pirâmide pela dificuldade de encontrá-lo em lojas de brinquedos não especializadas. Foram usados 3 (três) Imagem e Ação, 2 (dois) Cilada e 3 (três) Sobe e Desce; 2 (dois) Kalah , 2 (dois) Descubra o Animal, 2 (dois) Pingo no I, 2 (dois) Matix e 1 (um) Pirâmide, totalizando 17 jogos. Alguns jogos como o Pingo no I e Sobe e Desce podem ser jogados por, no máximo, 4 jogadores e no mínimo dois. O Imagem e Ação pode ser jogado por equipes. Os outros jogos, exceto o Cilada, devem ser jogados por dois jogadores. A quantidade de jogos foi suficiente para que todas as crianças jogassem, mas foi necessário que elas fizessem suas escolhas porque a classe era composta por 30 alunos.

As regras dos jogos foram apresentadas oralmente no primeiro dia e escritas em cada caixa do jogo, caso a criança precisasse consultá-las. As regras apresentadas estão no Anexo 6.

As escolhas dos parceiros e dos jogos foram feitas pelas próprias crianças. Esse procedimento teve como objetivo analisar o interesse delas e verificar como efetuam suas escolhas. A forma como os alunos reagem às escolhas efetuadas oferece indícios valiosos dos aspectos afetivos a serem analisados. As crianças após escolherem seus parceiros e os jogos, solicitaram à professora o jogo escolhido pela dupla ou equipe.

Durante as atividades lúdicas, a pesquisadora analisou os procedimentos dos participantes do estudo apenas no Descubra o Animal, com o objetivo de avaliar aspectos cognitivos no jogo. Este jogo foi escolhido pelo fato de ter sido já analisado pela pesquisadora em seu trabalho de mestrado (Dell’ Agli, 2002). Segundo Piaget (1980/1996), esta atividade lúdica permite caracterizar diferentes níveis do raciocínio classificatório implícito, revelado pela qualidade das perguntas elaboradas pelos jogadores (objetos conceituais ou conceitos genéricos). A análise dos procedimentos foi realizada após a aprendizagem das regras desse jogo. Foram analisadas quatro partidas com cada participante.

4. Aplicação das provas operatórias

Essa etapa teve como objetivo avaliar o índice de operatoriedade dos participantes por meio das provas operatórias.

A pesquisadora seguiu os procedimentos dessas provas organizados por Mantovani de Assis (1981) e podem ser encontrados no Anexo 7.

As crianças foram avaliadas individualmente em uma sala destinada para a realização da pesquisa.

6.3.2 – Procedimento de análise dos dados

Análise qualitativa dos resultados

A análise qualitativa dos resultados recaiu sobre os aspectos afetivos e cognitivos da conduta. Os aspectos afetivos foram analisados a partir das observações nas atividades lúdicas e escolares e na percepção da professora e da família. Para a análise dos aspectos

cognitivos foram considerados: índice de operatoriedade dos alunos, percepção da professora sobre a compreensão geral e desempenho nas atividades escolares e análise do desempenho cognitivo no jogo Descubra o Animal.

Aspectos afetivos da conduta

A partir dos dados coletados nas observações feitas em sala de aula, quer das tarefas escolares quer das situações lúdicas, foram criadas categorias de análise inspiradas em Ribeiro (2001) com o objetivo de analisar os aspectos afetivos da conduta. Ribeiro (2001) em seu estudo propôs categorias a serem analisadas nas situações lúdicas (Anexo 8). Como o presente trabalho pretende analisar os aspectos afetivos da conduta nas atividades lúdicas e escolares, as mesmas categorias foram ampliadas e adaptadas para essas últimas. Além disso, a autora propôs categorias dicotômicas e em nosso estudo verificamos a importância de criar categorias intermediárias por apresentarem características que inter-relacionavam as dicotomias destacadas. As condutas afetivas, embora pré-estabelecidas inicialmente como referenciais antes da coleta de dados, só puderam ser totalmente definidas após a análise dos mesmos, como é previsto na pesquisa qualitativa.

As categorias destacadas dos aspectos afetivos da conduta definidos para análise do presente estudo encontram-se organizadas no Quadro 3.

Quadro 3 – Aspectos afetivos da conduta observadas nas atividades escolares e lúdicas

ATIVIDADES CONDUTAS Escolares Lúdicas Envolvimento Concentração Flexibilidade Tolerância à frustração Cooperação Tranqüilidade Envolvimento parcial Concentração parcial Flexibilidade parcial Pouca tolerância à frustração Cooperação parcial

Pouca tranqüilidade

Não envolvimento

Dispersão (não concentração) Rigidez (inflexibilidade) Não tolerância à frustração Individualismo (não cooperação)

Agitação (intranqüilidade)

A fim de complementar os dados sobre os aspectos afetivos da conduta das crianças, apresentamos nos Quadros 4 e 5 as categorias criadas a partir das entrevistas realizadas com a professora e com a família. Quanto à percepção da professora, destaca-se a atenção e o

envolvimento dos participantes nas tarefas escolares bem como os aspectos afetivos envolvidos na relação aluno-professor e aluno-aluno.

Quadro 4 – Aspectos afetivos da conduta segundo a percepção da professora

PERCEPÇÃO DO PROFESSOR CATEGORIAS

Aspectos relacionais professor-aluno e aluno-aluno Proximidade Proximidade parcial Distância Formas de expressão Atenção Atenção Atenção parcial Dispersão Envolvimento Envolvimento Envolvimento parcial Não envolvimento

Os dados obtidos na entrevista com a família permitiram organizar categorias relativas ao relacionamento da criança com a escola, com a família e com os amigos. O Quadro 5 resume os aspectos afetivos das condutas dos participantes abstraídos destas informações.

Quadro 5 – Aspectos afetivos da conduta segundo a percepção da família.

PERCEPÇÃO DA FAMÍLIA CATEGORIAS

Aspectos relacionais: Escola Família Amigos Proximidade Proximidade parcial Distância Independência Independência parcial Dependência Formas de expressão

Os aspectos afetivos da conduta apresentados pelos participantes foram categorizados e posteriormente pontuados a fim de encontrar um perfil das crianças estudadas. A etapa de categorização foi realizada por dois juízes e no caso de discordância

solicitou-se o julgamento de um terceiro juiz. Foi atribuída pontuação positiva (+) quando as condutas observadas nas atividades lúdicas e escolares denotavam aspectos afetivos positivos presentes (P*). Pontuação intermediária (+/-) quando as características afetivas

positivas se apresentavam de maneira parcial (PP†) e pontuação negativa (-) quando

denotavam ausência de afetos positivos (A‡). Os participantes que obtiveram pontuação

positiva predominante foram classificados com Perfil A; os que obtiveram predominantemente pontuação intermediária foram classificadas com Perfil B e Perfil C, os que apresentavam predomínio de pontuação negativa, ou seja, ausência de condutas positivas. O Perfil A, denominado perfil de afeto positivo, consiste em apresentar aspectos afetivos predominantemente positivos. O Perfil B, denominado perfil intermediário, consiste em apresentar aspectos ora positivos, ora ausência de afetos positivos e o Perfil C, denominado afeto negativo, consiste em apresentar predominantemente ausência de afetos positivos.

Aspectos cognitivos da conduta

Os aspectos cognitivos da conduta foram analisados por meio das provas operatórias cujo resultado foi dado em índices de operatoriedade, obtidos pelos valores atribuídos a cada uma das provas.

Para cada prova de conservação (N=3) foi atribuído 1 ponto para respostas não- conservativas (NC), 2 pontos para as respostas intermediárias ou transição (T) e 3 pontos para respostas conservativas (C).

Para cada prova de quantificação da inclusão (N = 2) foi atribuído 1 ponto para respostas de não-classificação operatória (NCO), 2 pontos para respostas intermediárias ou transição (T) e 3 pontos para classificação operatória (CO).

Para a prova de seriação (N = 1) foi atribuído 1 ponto para não-seriação operatória (NOS), 2 pontos para respostas intermediárias ou transição (T) e 3 pontos para seriação operatória (SO).

* Designamos P – presença da conduta afetiva positiva.

Designamos PP – presença parcial da conduta afetiva positiva.

No total foram aplicadas seis provas. A pontuação máxima é de 18 pontos e caracteriza o período das operações concretas, segundo a teoria piagetiana. Entre 7 a 17 pontos temos um nível de transição entre os períodos operatório concreto e pré-operatório. O nível de transição é caracterizado tanto pela presença, ausência ou transição nas respostas dadas nas diferentes provas. A pontuação 6 ou inferior é indicativa de um nível pré- operatório de desenvolvimento do pensamento lógico, ou seja, ausência de respostas operatórias ou de transição em todas as provas. O índice de operatoriedade foi organizado no Quadro 6 a seguir:

Quadro 6 – Índice de operatoriedade

Provas Operatórias Ausência de

operatoriedade Transição Operatoriedade

Conservação das quantidades discretas – fichas 1 2 3

Conservação das quantidades contínuas – líquido 1 2 3

Conservação das quantidades contínuas – massa 1 2 3

Quantificação da inclusão – flores 1 2 3

Quantificação da inclusão – frutas 1 2 3

Seriação 1 2 3

Os aspectos cognitivos também foram analisados por meio da entrevista com a professora quanto aos aspectos de compreensão geral que envolve regras de funcionamento e instruções e às aprendizagens específicas que envolvem a leitura, a escrita e a matemática. Para esses aspectos foram atribuídos: desempenho satisfatório, pouco satisfatório e insatisfatório, conforme o Quadro 7 a seguir:

Quadro 7 – Aspectos cognitivos relativos à compreensão geral e aprendizagens específicas

ASPECTOS COGNITIVOS CONDUTAS

Compreensão geral Regras de Funcionamento Instrução Aprendizagens específicas Leitura Escrita Matemática Desempenho satisfatório Desempenho pouco satisfatório

Desempenho insatisfatório

O desempenho cognitivo no jogo foi analisado segundo as características relacionadas ao raciocínio classificatório revelado pela qualidade das perguntas feitas. Embora os procedimentos utilizados pelos participantes no jogo tenham sido analisados em todos os seus aspectos (arranjo das figuras, qualidade das respostas, descartes efetuados e justificativa da escolha do animal oculto) apenas a qualidade das perguntas foi analisada no presente estudo por acreditarmos que é a categoria que mais expressa o raciocínio classificatório*. O Quadro 8 apresenta as categorias elaboradas a partir das jogadas dos participantes nas quais centraremos nossa análise.

Quadro 8 – Desempenho cognitivo no jogo.

Qualidade das perguntas Raciocínio classificatório

Apenas objetos conceituais Pré-operatório Predomínio de objetos conceituais Transição Predomínio de conceitos genéricos Operatório concreto

*