Capítulo IV – O arranjo produtivo local de moda praia de Cabo Frio
5) Perfil dos principais agentes ocupados nas empresas do arranjo
O arranjo produtivo de moda praia em Cabo Frio congrega diversas confecções responsáveis tanto pela produção de biquínis quanto por outras peças do vestuário relacionadas à moda praia. Segundo a base de dados da RAIS (2001), haviam 48
confecções de artigos do vestuário em Cabo Frio no ano de 200172. No entanto, este
número não reflete a realidade das confecções de moda praia em Cabo Frio dada a existência de diversas confecções que operam na informalidade. Empresários do setor estimam que, em meados de 2004, existiam em torno de cem empresas voltadas à confecção de moda praia, enfatizando que este número pode dobrar na alta temporada, no verão.
Do total das empresas entrevistadas, apenas uma é de pequeno porte sendo as demais micro empresas, conforme a tabela IV.3 apresentada abaixo. Estas empregam, em média, 8 pessoas e a pequena empresa tem 30 pessoas ocupadas na atividade produtiva principal (biquíni).
Tabela IV.3 - Porte das Empresas da Amostra do Arranjo Produtivo de Confecções em Cabo Frio/RJ
Porte Nº de Empresas % Nº de Empregados %
Micro 17 94,4 145 82,9
Pequena 1 5,6 30 17,1
Média 0 0,0 0 0,0
Grande 0 0,0 0 0,0
Total 18 100 175 100
Fonte: Pesquisa de campo.
Entretanto, é importante ressaltar que a sazonaliadade do emprego é a característica principal da atividade no arranjo, com a maioria destas empresas contratando serviços temporários no verão, quando a produção e as vendas aumentam consideravelmente. Com o fim da alta temporada, esta mão-de-obra temporária é
72 Apesar de não haver uma classe de atividade econômica especifica de moda de praia na classificação da CNAE, esta se encontra agregada em artigos de vestuário (CNAE 18.12).
novamente dispensada, criando um sério problema de rotatividade. Quando há alguma costureira muito boa, o empresário a mantém na confecção. No entanto, a maioria das costureiras é demitida e quando são novamente admitidas na temporada seguinte, os empresários já não conseguem a mesma pessoa, tendo que admitir outras diferentes e, algumas vezes, até treiná-las novamente.
É sob esta perspectiva que devem ser entendidos os dados da tabela IV.4 abaixo que apresenta informações sobre os diferentes tipos de relação de trabalho nas Micro e Pequenas Empresas do arranjo produtivo de confecções em Cabo Frio, conforme informações obtidas na pesquisa de campo. De acordo com os dados desta tabela, 80% dos trabalhadores são empregados com contrato formal e apenas 1% da mão-de-obra se encontra em serviços temporários nas micros empresas do arranjo. Como no período da pesquisa, nos meses de julho e agosto, as empresas encontravam-se na baixa temporada produtiva, pode-se supor que tal relação deva ser significativamente diferente no período de verão quando se intensifica a atividade produtiva.
Tabela IV.4 - Tipo de Relação de Trabalho nas Micro e Pequenas Empresas do Arranjo Produtivo de Confecções em Cabo Frio/RJ
Micro Pequena Relação Nº Empregados % Empregados Nº % Sócio Proprietário 27 14,9 2 6,3 Contratos Formais 145 80,1 30 93,8 Estagiário 0 0,0 0 0,0 Serviço Temporário 2 1,1 0 0,0 Terceirizados 0 0,0 0 0,0
Familiares sem contrato formal 7 3,9 0 0,0
Total de Postos de Trabalho 181 100 32 100 Fonte: Pesquisa de campo.
A tabela IV.5 aponta o perfil dos sócios fundadores das micro e pequenas empresas do arranjo produtivo de confecções de moda praia em Cabo Frio. Ela aponta que 23,5% dos proprietários possuíam menos de 30 anos de idade, e quase metade (47,1%) entre 31 e 40 anos de idade nos anos das respectivas fundações no caso das micro empresas, e 100% entre 31 e 40 anos de idade no caso da pequena. Ademais, pouco mais de 70% desses empresários não tiveram os pais como referência na gerência dos seus próprios negócios.
Tabela IV.5 - Perfil dos Sócios Fundadores das Micro e Pequenas Empresas do Arranjo Produtivo de Confecções em Cabo Frio/RJ
%
Perfil dos Sócios Fundadores Micro Pequena
Idade no ano da fundação
Até 20 anos 5,9 0,0 Entre 21 e 30 anos 17,6 0,0 Entre 31 e 40 anos 47,1 100,0 Entre 41 e 50 anos 29,4 0,0 Acima de 50 anos 0,0 0,0 Total 100 100 Sexo Masculino 58,8 100,0 Feminino 41,2 0,0 Total 100 100 Filho de Empresário Sim 29,4 100,0 Não 70,6 0,0 Total 100 100 Amostra (Nº de Empresas) 17 1
Fonte: Pesquisa de campo.
Além disso, a maior participação masculina (58,8% no caso das micro empresas e 100% no caso da pequena) dos sócios fundadores das confecções também merece destaque. No entanto, é importante ressaltar que a maioria dos empresários do sexo masculino não estava só no ato da fundação das confecções. Seus respectivos cônjuges, em geral, eram (ainda são) suas sócias ou trabalham nas confecções. A tabela a seguir reflete um pouco esta situação.
A tabela IV.6 abaixo aponta o número de sócios fundadores das micro e pequenas empresas do arranjo produtivo. Observa-se que 35,3% (6 empresas) das micro empresas só tiveram um sócio fundador. Apesar de não ser possível observar pelas tabelas IV.5 e IV.6, quatro destes micro empresários são do sexo masculino, e todos eles trabalham com suas respectivas esposas nas confecções.
Tabela IV.6 - Número de Sócios Fundadores das Micro e Pequenas Empresas do Arranjo Produtivo de Confecções em Cabo Frio/RJ
Micro Pequena
Número de Sócios
Fundadores Nº Empresas % Nº Empresas %
Um 6 35,3 0 0,0
Dois 11 64,7 1 100,0
Três 0 0,0 0 0,0
Quatro 0 0,0 0 0,0
Total 17 100 1 100
Em relação à escolaridade dos proprietários das micro empresas, observa-se, pela tabela IV.7, que a maioria dos empresários (35,3%) possui o ensino médio completo, seguido do superior, tanto incompleto quanto completo, representando 23,5% dos empresários. Apenas um dos empresários possuía pós-graduação na área de finanças, pela FGV-SP, e trabalhava em empresa privada em São Paulo (tabela IV.8). Chama a atenção nesta tabela o alto grau de escolaridade dos empresários, uma vez que 88,2% deles possuem, pelo menos, o ensino médio completo. Este fato não passa despercebido, principalmente quando se trata da percepção por parte dos empresários da necessidade e formas de organização, conhecimento do mercado em que atuam, e da capacidade de formular uma análise conjuntural bastante aguçada. Eles conhecem muito bem o mercado em que atuam, sabem onde buscar a informação necessária para fazer melhorias e conquistar maior espaço no mercado, além de estarem dispostos à realização das mudanças necessárias. No entanto, esbarram com o principal fator restritivo: (falta de) recursos financeiros.
Tabela IV.7 - Escolaridade dos Proprietários das Micro e Pequenas Empresas do Arranjo Produtivo de Confecções
em Cabo Frio/RJ
%
Grau de Ensino Micro Pequena
Analfabeto 0,0 0,0 Fundamental Incompleto 5,9 0,0 Fundamental Completo 5,9 100,0 Médio Incompleto 0,0 0,0 Médio Completo 35,3 0,0 Superior Incompleto 23,5 0,0 Superior Completo 23,5 0,0 Pós-Graduação 5,9 0,0 Total 100 100 Amostra (Nº de Empresas) 17 1
Fonte: Pesquisa de campo.
Somente 17,6% dos proprietários das micro empresas de confecções já possuíam experiência como empresários anteriormente (tabela IV.8). O mesmo percentual é observado em relação àqueles que eram estudantes universitários. O percentual é menor (11,8%) quando se trata de antigos funcionários de instituições públicas (Álcalis e CERJ). Além disso, 23,5% dos empresários trabalhavam como empregados de empresas fora do arranjo (Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais). A maioria dos empresários (29,4%), no entanto, exerciam outras atividades, sendo algumas diretamente
relacionadas com confecções. Um dos empresários, junto com a esposa, herdou a confecção de sua sogra. Outras já possuíam suas confecções em casa e costuravam "para fora". Além desses que já se ocupavam em confecções, há vendedores autônomos e donas-de-casa.
Alguns empresários, que trabalhavam em empresas privadas fora do arranjo e um dos que eram funcionários de instituição pública, utilizaram suas respectivas indenizações para abrirem suas empresas. Outros, que trabalhavam em empresas privadas fora do arranjo, decidiram morar em Cabo Frio por diversas razões, entre elas questões relacionadas ao desemprego e violência, principalmente na cidade do Rio de Janeiro. Entre os empresários encontram-se bancário, engenheiro, biólogo, administrador de empresas e zootecnista, sendo que alguns nem chegaram a exercer atividades relacionadas às suas formações.
Tabela IV.8 - Atividade Anterior dos Proprietários das Micro e Pequenas Empresas do Arranjo Produtivo de Confecções em Cabo Frio/RJ
%
Atividade Micro Pequena
Estudante Universitário 17,6 0,0
Estudante de Escola Técnica 0,0 0,0
Empregado de micro ou pequena empresa local 0,0 0,0
Empregado de média ou grande empresa local 0,0 0,0
Empregado de empresa de fora do arranjo 23,5 0,0
Funcionário de instituição pública 11,8 0,0
Empresário 17,6 100,0
Outra 29,4 0,0
Total 100 100
Número de empresas 17 1
Fonte: Pesquisa de campo.
Em relação à escolaridade do pessoal ocupado nas empresas do arranjo, mais da metade (56,2%) possui apenas o ensino fundamental completo contra 32,8% que possui o ensino médio completo, sendo este o maior grau de escolaridade do pessoal ocupado nas micro empresas do arranjo produtivo, e também onde pode se concentrar o potencial de expansão para uma qualificação mais formalizada e especializada. Ademais, todos os 30 empregados da pequena empresa possuem o ensino médio incompleto, segundo a entrevista realizada nesta empresa.
Tabela IV.9 - Escolaridade do Pessoal Ocupado nas Empresas do Arranjo Produtivo de Confecções em Cabo
Frio/RJ
%
Grau de Ensino Micro Pequena
Analfabeto 0,0 0,0 Fundamental Incompleto 3,6 0,0 Fundamental Completo 56,2 0,0 Médio Incompleto 7,3 100,0 Médio Completo 32,8 0,0 Superior Incompleto 0,0 0,0 Superior Completo 0,0 0,0 Pós-Graduação 0,0 0,0 Total 100 100
Total de Pessoal Ocupado 145 30
Fonte: Pesquisa de campo.
O baixo grau de escolaridade reflete o fato de que esta atividade, intensiva em mão-de-obra, requer um tipo de conhecimento diferente daquele encontrado nas empresas mais intensivas em capital. O aprendizado no arranjo ocorre através de processos informais de transmissão de conhecimentos tácitos e práticas no processo de produção (learning by doing). A experiência de cada firma e indivíduo é disseminada pelo arranjo, formal ou informalmente, seja através da troca de informações, seja através da transmissão de conhecimentos por parte dos trabalhadores que transitam por diferentes empresas e dentro das próprias empresas através da interação e capacitação de familiares (learning by interacting). Apesar disso, como já dito, existe espaço para maior capacitação desta mão-de-obra.