II. 4.7 1 ªs Jornadas do Centro de Estudos do Bebé e da Criança: Olhar a primeira infância
III.1 Estudo de caso D.A
III.1.2 Perfil intraindividual
Perante toda a informação recolhida e analisada, tanto das avaliações descritas, como das observações em sessão, verifica-se nesta criança a presença de alguns elementos cruciais que devem ser considerados no planeamento da intervenção.
Como fatores de risco para o desenvolvimento da criança, considera-se desde já a condição económica familiar média-baixa, o pouco tempo disponível para realizar atividades em família, o reduzido contacto com família alargada, o estado de saúde do pai e o facto de a mãe não conseguir estar com o filho tanto quanto gostaria. Denota-se que no pouco tempo que está com ele, lhe dá alguma liberdade para fazer o que quer, o que culmina em algumas birras, segundo o pai e observadas em sessão, sustentadas por isso mesmo. Ainda, destacam-se como fatores de risco a agitação motora do D.A. que, aliada às birras, dificulta o trabalho com ele e consequente a aquisição de aprendizagens.
Por outro lado, como fatores de proteção encontram-se o investimento afetivo que existe entre toda a família e, principalmente, na relação do D.A. com os irmãos, a boa relação com a avó materna, o interesse dos pais em obter mais estratégias para lidar com o filho e a preocupação em reproduzir em casa as atividades ocorridas em sessão.
Desta forma, torna-se possível identificar as áreas fortes e áreas a promover com o D.A., no sentido de percecionar melhor as suas capacidades e necessidades, trabalhando a partir das primeiras, as áreas menos fortes. A tabela abaixo sintetiza esta informação.
Tabela 7 - Identificação das áreas fortes e áreas a promover com o D.A.
Áreas Fortes Áreas a promover
Interação Grafomotricidade Jogo funcional
Relacionamento com outros Comunicação
Atenção (individualizada e conjunta) Noções de tamanho
Associações/Emparelhamentos Imitação
Linguagem (expressiva e compreensiva) Equilíbrio (estático e dinâmico) Coordenação Motora Destreza Manual
Com o estabelecimento do perfil intraindividual psicomotor, foi possível elaborar o plano de intervenção (anexo K.1), para potenciar habilidades necessárias a um desenvolvimento saudável e com competências expetáveis para a sua faixa etária.
III.1.3 Intervenção Psicomotora
O D.A. iniciou acompanhamento em novembro de 2017, após ter sido avaliado formalmente e visto em consulta médica (outubro de 2017). Relativamente ao número de sessões, estavam previstas 26, embora tenham ocorrido 22, dado que a criança ficou doente algumas vezes. A intervenção no centro terminou no dia 20 de junho de 2018.
As sessões ocorriam na presença de pelo menos um dos pais e eram pensadas conforme o estipulado no plano de intervenção, atendendo aos interesses e motivações da criança e as preocupações e expetativas dos pais. Contudo, algumas contaram também com a presença dos irmãos, pois a mãe considerou uma mais valia que eles assistissem para poderem fazer igual em casa, já que o D.A. brinca muito com eles.
As primeiras sessões tiveram caráter livre, para conhecer melhor o D.A. e os pais e para que a criança se ambientasse ao espaço e à estagiária. Desde o início que a criança chegava às sessões com entusiasmo e muita energia, não conseguindo regular e canalizar esta energia para toda a sessão. Explorava muito a sala e ia alternando entre os diferentes brinquedos sem fazer nada em concreto com nenhum. Fazia muitos sons, mas não dizia palavras. Manifestou reduzido contacto ocular, ignorava o nome e tinha acentuada agitação motora e falta de concentração, com períodos muito curtos de atenção, permanência e colaboração nas tarefas. Em algumas atividades, e.g. bolas de sabão, ficava muito excitado e verificavam-se estereotipias.
Relativamente ao seu envolvimento nas tarefas, tinha alguns comportamentos de imitação, que eram aproveitados para tentar redirecionar a atenção para atividades mais
específicas. Contudo, inicialmente era muito difícil fazê-lo colaborar em tarefas estruturadas. Apresentava grande resistência em realizar atividades no chão, não sendo capaz de se sentar, passando o tempo todo a movimentar-se. Com o passar das sessões, manteve-se mais participativo em tarefas de mesa, principalmente nos grafismos e jogos de destreza manual. Em tarefas estruturadas que envolvessem maior investimento motor, o D.A. apresentava alguma recusa (e.g. circuitos).
Ao longo das sessões, o seu tempo de permanência nas tarefas aumentou consideravelmente quando estas eram do seu interesse. Geralmente, para que isso acontecesse, a atividade tinha de conter alguma novidade ou funcionalidade desconhecida. Inicialmente, quando era contrariado em alguma atividade, simplesmente ignorava e direcionava-se para outra tarefa. Contudo, com o decorrer das sessões, deixou de ter estes comportamentos de forma acentuada e passou a manifestar-se com birra, choro, beicinho ou, mais tarde, com verbalizações.
As sessões apresentaram uma abordagem instrumental e relacional, de caráter semidiretivo, com atividades estruturadas e outras livres, de forma a permitir que a criança se expressasse e assumisse o controlo na escolha e realização de tarefas. Contudo, todas as sessões disponham de uma organização. Inicialmente, quando chegavam ao gabinete, estimulava-se sempre o “olá” e havia um curto momento de conversa (e.g. estás bom?), com diversos materiais ou simplesmente de um para um. Sem este momento, o D.A. não poderia ir brincar. Inicialmente a criança tentava fugir de imediato, mas com o passar do tempo, dava um beijinho e permanecia uns segundos com a estagiária antes de irem brincar. Geralmente, após este ritual de início, as atividades que se seguiam eram realizadas na mesa, variando entre grafismos, tarefas de destreza e coordenação manual, precisão motora fina, tarefas de encaixe e de controlo motor fino. Para além disso, nestas atividades também eram incutidas aprendizagens cognitivas verbais e não verbais e de linguagem (e.g. identificar partes do corpo, pequenas contagens, entre outras). Seguidamente, ocorriam atividades que envolviam o corpo de forma mais global, para potenciar diversas competências ao nível da motricidade global, como a coordenação global, o equilíbrio e a agilidade. Neste momento da sessão, normalmente o D.A. já se encontrava agitado e como era mais difícil fazêlo colaborar, as tarefas eram mais motoras ou de caráter mais simbólico. As atividades eram variadas, podendo ser jogos de um para um, tarefas com música, pequenos circuitos, atividades sensoriais, entre outras. No final da sessão, existia um momento de retorno à calma. Nas primeiras sessões era impensável este momento conter bolas de sabão, dado que o D.A. ficava muito excitado. Com o passar
do tempo de intervenção já conseguia conter-se e até soprar. À saída, dizia e/ou acenava adeus, a partir de meados do processo terapêutico.
As sessões estiveram orientadas essencialmente para a estimulação e promoção de competências especificas, gestão do comportamento e desenvolvimento de comunicação funcional. Nestas estiveram constantemente presentes reforços positivos por parte da estagiária e dos pais, ajudas físicas e verbais, demonstração, feedbacks e manipulação do envolvimento e das tarefas para uma melhor aderência às atividades. Realça-se que na elaboração das atividades eram tidos em conta as preferências da criança, utilizando-as como uma estratégia motivacional.
Em março de 2018, o D.A. teve consulta de neurodesenvolvimento, para verificar como estava a correr a intervenção e, consequentemente, o seu desenvolvimento. A pediatra do CND destacou evoluções evidentes ao nível da linguagem e tratou do pedido de apoio à IP, para acompanhamento à posteriori à intervenção no estágio.
Ao longo do processo de intervenção, o pai passou a estar mais participativo nas sessões, facilitando a colaboração da criança na realização das tarefas. O D.A. começou a dizer algumas palavras simples e no contexto adequado (e.g. não, ok, olá, adeus), repetia muitos sons e demonstrou uma comunicação mais funcional. Desenvolveu competências do jogo de faz de conta com objetos do dia-a-dia, bem como adquiriu bons comportamentos de imitação. Também adquiriu maior noção do perigo em consequência da diminuição da agitação psicomotora. Ainda, começou a efetuar mais contacto ocular, embora pouco espontâneo, mas com qualidade quando estimulado a fazê-lo e começou a responder ao nome, direcionando o olhar. Irá para a creche a partir de agosto.