posteriormente, é marcado por uma trajetória histórica iniciada com as embrionárias ações das vanguardas históricas do início do século XX com o ápice nas manifestações dos movimentos experimentais pós contraculturais dos anos 60 e 70 envolvendo as artes cênicas, visuais e sonoras. O termo performance art como atividade artística e cultural surgiu durante os anos 70 nos EUA, na Europa Ocidental e no Japão. A partir de então, a performance art passa a ser reconhecida como meio de expressão artística independente e, por extensão, surgiram espaços dedicados a essa linguagem em alguns grandes centros artísticos internacionais, em revistas especializadas e também em escolas de arte, onde a performance art foi introduzida em sua grade curricular.
Fazendo uma genealogia da performance art, retroagindo a períodos anteriores ao século XX, podemos encontrar os primeiros indícios daquilo que viria a se consolidar como
performance art nas ações de poetas medievais, menestréis, trovadores, bardos e bobos da
corte e em espetáculos de mascarados renascentistas. Também se encontram esses indícios em artistas tradicionais ligados à cultura popular, como o palhaço, o malabarista, o monologuista e o comediante stand-up. Mesmo se essas expressões artísticas não se configurem legitimamente como performance art no seu stricto sensu, um olhar genealógico se faz fundamental para a compreensão do contexto no qual a performance art se insere contemporaneamente de maneira mais visível, isto é, desde o corpo solo em situações de estranhamento até o circuito de entretenimento dos grandes megaeventos para grandes multidões.
A relação histórica e conceitual da performance art, em grande parte, tem o suporte no trabalho de teóricos como RoseLee Goldberg, Jacob Glusberg e Renato Cohen. Esses autores associam o surgimento da performance art com as atividades de artistas dos movimentos vanguardistas do século XX, em particular aqueles vinculados aos movimentos futurista, cubo-futurista, agitprop, dadaísta, surrealista e Bauhaus.
A agitadora cultural e uma das curadoras mais atuantes e influentes historiadoras da linguagem4, RoseLee Goldberg aplica o termo performance a todas as manifestações artísticas precedentes à performance art, tratando as diversas manifestações anteriores a ela,
4 RoseLee Goldberg é curadora do badaladíssimo festival de performance art, o Performa, que acontece anualmente na cidade de Nova York.
principalmente as ações surgidas no seio das vanguardas artísticas europeias, como gêneros da performance.
Outro teórico fundamental para o pensamento da história da performance art contemporânea, Jorge Glusberg conceitualmente conduz as manifestações das vanguardas históricas como "uma pré-história da arte da performance". Para Glusberg, as vanguardas europeias, especialmente as do início do século 20, promoveram um background e uma linhagem mais remota para a performance art. Essas vanguardas, por intermédio dos artistas europeus, serviram de inspiração direta às preocupações dos artistas experimentais americanos durante as décadas de 30 e 40. Essas provocações, por extensão, tiveram uma forte influência conceitual nos trabalhos de performance art em Nova York e na Califórnia, nos anos 70.
Diferentemente das outras linguagens artísticas, a maioria das ações artísticas na
performance art tem sido marcada pela radicalidade e estranhamento dos performers; essa
postura visa desestabilizar o cotidiano por meio da transgressão e da ruptura dos padrões da normalidade. Dentro do universo performático, com um forte viés da arte conceitual, o interesse na experiência corporal e seus desdobramentos através de ações dos performers são considerados como o principal suporte material, midiático e conceitual.
O corpo do artista tem sido o ponto central em que são disparados todos os processos de realização de uma experiência artística. As (re)ações corporais são apresentadas ao vivo, geralmente de forma efêmera e pontual, colocadas em contato direto e/ou midiatizado com o público. A inter-relação entre o corpo do performer e o público já foi conceitualmente defendida anteriormente por Goofman, isto é, a realização e a recepção da performance art envolvem alguém ou um grupo de pessoas realizando uma ação ou ações dentro de um tempo determinado, em um espaço determinado e em um local (ou gravação) para uma audiência.
Do ponto de vista estrutural e estético da linguagem, a performance art não se restringe apenas a uma simples afirmação de “uma arte corporal feita ao vivo por artistas”; esta definição restrita pode ser aplicada com mais proximidade a um subgênero da performance conhecido por body art5.
5 A body art desenvolveu-se em um dos principais subgêneros de performance art. A preocupação desse gênero está na exploração do corpo do artista como um meio de arte física primordial, cujo ritual performático se apresenta individualizado e mistificado. Esse gênero de confronto físico acontece através de atividades corporais extremas e autodestrutivas que exigem, muitas vezes, uma intensa resistência física e visam testar os limites dos corpos dos performers, bem como as reações subjetivas da audiência de tais performances. Imagem adicional no DVD – Módulo1 – Imagens – I5 Kira o’Reilly.
Como linguagem artística, a performance art não apresenta uma definição fácil e precisa, pois tem uma agenda ampla e singular, permitindo aos performers realizarem os mais diversos processos de criação, execução e trânsito entre as linguagens. Além do uso do corpo em situações inauditas em apresentações ao vivo, Goldberg (2006: IX) afirma que os praticantes da performance utilizam também ao seu modo “quaisquer disciplinas e quaisquer meios como material – literatura, poesia, teatro, música, dança, arquitetura e pintura, assim como vídeo, cinema, slides e narrações, empregando-as nas mais diversas combinações”.
Essa grande possibilidade de recursos à disposição dos artistas torna porosas e nebulosas as fronteiras entre as linguagens artísticas, bem como inviabiliza uma descrição simplista do que seria a performance art em termos de uma estrutura ou uma metodologia de trabalho. Dessa forma, por suas demarcações fluídas, o território da performance art ocupa o espaço de outros domínios artísticos delimitados por fronteiras bem demarcadas, causando, segundo a pesquisadora teatral Silvia Fernandes (2011:11), “a crise de identidade e uma indefinição de estatuto epistemológico no teatro, na dança, nas artes plásticas e no cinema”.
Marvin Carlson, ao analisar amplamente a performance em seu contexto histórico, constatou a presença de alguns autores, como Roselee Goldberg, Carol Stern e Bruce Henderson, que defendem a ligação da performance art com as vanguardas históricas. Para Carlson (2010:93), apesar da ampla variação das obras desses autores, todos eles compartilham de um certo número de características comuns seguidas pela maioria dos praticantes de performance art, tais como:
(a) presença de um anti establishment, provocativo, não convencional, intervencionista ou postura de performance; (b) oposição ao acomodamento da arte na cultura; (c) textura multimídia buscando como seu material não apenas corpos vivos de performers, mas também imagens de mídia, monitores de televisão, imagens visuais, filme, poesia, material autobiográfico, narrativa, dança, arquitetura e música; (d) interesse pelos princípios de colagem, reunião e simultaneidade; (e) interesse em usar materiais “in natura” e também “manufaturados”; (f) dependência das justaposições incomuns de imagens incongruentes aparentemente não relacionadas; (g) interesse pelas teorias de jogo incluindo paródia, piada, quebra de regras e destruição de superfícies estridulantes e extravagantes; (h) indecisão sobre a forma.
A performance art realizada nos anos 70 teve uma grande proximidade com a arte conceitual voltada ao espaço físico e ao plano das ideias, e também com os discursos corporais e a ação solista dos artistas performáticos. De acordo com Carlson (2010:17):
A arte performática típica é arte solo, e o artista típico da performance pouco uso faz das adjacências cênicas elaboradas pelo palco tradicional, mas às vezes usa poucos elementos de prop e alguma mobília; uma vestimenta qualquer (às vezes até mesmo a nudez) é mais adequada à situação da performance […]
O pesquisador e diretor teatral Renato Cohen, cujo legado é uma das mais fortes influências para os estudiosos da performance dentro das artes cênicas brasileira, realizou uma pesquisa detalhada sobre as relações e diferenciações entre a performance art, o
happening e as artes cênicas, resultando no livro Performance como Linguagem (1989). Além
de suas preocupações teóricas, a prática artística de Cohen transitou por várias zonas fronteiriças entre o teatro, a dança, instalações, artes plásticas, arte telemática e espetáculos multimídia.
Por sua grande proximidade com o universo teatral, Cohen (1989:56) considera a
performance como uma “forma de teatro, pois esta se caracteriza como uma expressão cênica
e dramática”. Uma das justificativas apresentada pelo autor está na constituição triádica da
performance, também elucidada por Goffman, em que sempre algo estará sendo apresentado
(ao vivo) para um determinado público, com algo significando (no sentido de signos), mesmo que esse signo seja apenas um objeto ou um animal. Essa relação triádica, algo apresentado, atuante e público, adicionada ao texto com seus significados e alternâncias também seria a relação formuladora do teatro; entretanto, podemos aplicar essa fórmula a outras linguagens artísticas e não somente ao teatro.
Contudo, Cohen creditava a performance art à oxigenação da cena teatral da vanguarda americana. Os trabalhos de Bob Wilson, Squat Theatre e Richard Foreman foram permeados por processos e trabalhos dos performers Joseph Beuys, Vito Acconci e Laurie Anderson. Além das obras desses performers, os trabalhos referenciais de ampliação da consciência são encontrados em Gurdjieff, na arte antroposófica de Rudolf Steiner, na tarologia de Crowley, nas práticas do Tao e em outros procedimentos idiossincráticos próprios da criação na performance. Cohen (1989:56) adicionou também outros fatores de vital importância para esse percurso, como:
[…] pela body art (corpo como cena), pelas assemblages (esculturas cênicas), estando ao mesmo tempo desvinculado de amarrações intrínsecas à convenção teatral: questões de representação, repetição, impostação, poética própria (premissas aristotélicas) etc., trazendo por esse desinteresse grandes contribuições para uma nova cena (Beuys, quando enfrenta um coiote em uma performance, não está preocupado na construção de um personagem ou na visibilidade e impostação de sua fala).
Para Cohen, a performance art apresenta repertórios e procedimentos da cena moderna e contemporânea, pontuando-se como manifestação radical, cartografada como uma arte de fronteira que continuamente busca a ruptura com a arte do establishment. Ao tocar em
limites tênues que separam a arte da vida, a performance art acaba adentrado em situações e procedimentos até então não reconhecidos como arte.
A trajetória de Cohen, como artista utópico e referencial dentro da performance art, foi marcada pela forte influência da arte conceitual, dos ecos da contracultura e seus desdobramentos no underground. O encanto radical coheniano orbitava nos “espetáculos-limite e, ao mesmo tempo, transitórios: riscos, radicalidades, independência ao público e crítica são componentes dessa manifestação que teve seu apogeu na contracultura e permanece enquanto utopia no norteamento e de difícil reprodução.
Glusberg chama a atenção para o fato de que o termo "performance" apresenta duas conotações: a de uma presença física e a de um espetáculo. O caráter e a função desses elementos já não são os mesmos daqueles das tradicionais formas de teatro e da dança, nem as da pintura ou da música. Essa relação entre o corpo e o espaço está no questionamento e na busca renovada para uma oxigenação das próprias práticas artísticas tradicionais, pois eles rearticulam suas linguagens a partir de subsídios gerados pela performance art. Entretanto, todas essas rupturas propostas pelos visionários conceitualistas foram absorvidas e inseridas no universo multimidiático da indústria do entretenimento.
A frase de Cohen (1989:56) “a performance está muito mais próxima do teatro do que das artes plásticas, que é uma arte estática”, onde ele aponta a linguagem híbrida da
performance art no limite das artes plásticas sendo a sua origem, e artes cênicas sendo a sua
finalidade, impulsionou o desenvolvimento dos próximos dois tópicos desse módulo. Contudo, direcionamos a nossa investigação nas artes visuais para o lado sônico/performático oculto e nas artes cênicas para a multiplicidade de eventos que ocorrem simultaneamente, como nas óperas de Philip Glass e Robert Wilson.