A linguagem da performance tornou-se visível ao público comum, saindo dos guetos dos iniciados, quando eventos dessa linguagem artística começaram a aparecer frequentemente nos cadernos culturais dos influentes jornais The New York Times e The
Village Voice. Nas páginas desses jornais, os eventos denominados de performance art ou,
simplesmente, como ficaram popularmente conhecidos, por performance, eram classificados em uma categoria artística autônoma e desvinculados do teatro, da dança, da música e do cinema. No campo artístico, a especificidade se transformou numa nomenclatura genérica classificando qualquer tipo de atuação na área do teatro e da dança. No Brasil, essa generalização causou alguns efeitos colaterais ao associar a performance nas artes cênicas como sinônimo de improvisação, pouca elaboração, precariedade de recursos ou um simples esboço para um futuro trabalho pretensioso (em processo) que exigia um grau de acabamento mais requintado.
No plano conceitual, para removermos os pré-conceitos e as interpretações equivocadas sobre a performance, mesmo antes de sua configuração como linguagem autônoma, é importante retroagirmos historicamente e adotarmos um olhar sobre os mecanismos estruturantes de uma performance. Dessa forma, podemos notar a existência de elementos comuns na configuração das linguagens tradicionais como o teatro, a dança e a música, rotuladas de performing arts e performance art.
Existem quatro fatores comuns na configuração de qualquer padrão de performance nas linguagens tradicionais (performing arts) e também na performance art, quais sejam: o material (som na música, texto no teatro, movimento na dança), os agentes (os músicos, os dançarinos, os atores), as obras e o público. Contudo, para que esse processo ocorra está implícita a necessidade da presença física de seres humanos para desempenharem certas habilidades por meio de treinamento ou especialização, atendendo ao requisito da especificidade de cada linguagem.
Com as expansões das linguagens tradicionais em direção à performance art, muitos artistas começaram a ocupar as zonas limítrofes e marginais, contrariando muitos dos cânones ditados pelas disciplinas e campos de estudos tradicionais, sempre preocupados com um centro (padrões, definições, regras) para as suas atividades.
1.0.1 Alguns trajetos além da arte
A linguagem da performance como modalidade artística não é tão recente, porém suas nomenclaturas recorrentes aparecem em outros contextos distantes além do mundo das artes. O seu conceito semântico tem se instrumentalizado e, cada vez mais, em virtude de uma sociedade hipermoderna, marcada pelo alto consumo que invade e tem dominado cada vez mais o cotidiano na cultura globalizada, se inserindo em todos os campos da atividade humana.
Simon Frith (1996:206) parte de uma perspectiva sócio-histórica para detectar a importância crescente da performance na vida cotidiana como
um efeito da urbanização e dos seus efeitos colaterais; o declínio da intimidade e as relações marcadas pelo anonimato; o efeito do capitalismo industrial que não mais relaciona a nossa identidade com o trabalho produtivo que gera o efeito fetichista da mercadoria, onde a nossa necessidade de consumo é uma questão de imaginação e não de necessidade.
Essa conjuntura hipermoderna, observada pelo filósofo Giles Lipovetsky (2004:53), é constituída “de mercantilização proliferativa, de desregulamentação econômica e de ímpeto técnico-científico”. Nesse quadro, a performance tornou-se sinônimo de competitividade e de desempenho, estando presente nos mais variados espectros da atividade humana contemporânea. Podemos também notar a designação do termo performance no campo esportivo para indicar o desempenho de um atleta individualmente, ou de um time de futebol ou basquete; no campo da indústria automobilística, ao ressaltar o excepcional rendimento de um carro esportivo ou de algum dispositivo ou acessório que permita um adicional em relação à concorrência (Fig. 1); no mundo corporativo encontramos a gestão de resultados & lucros de departamentos que constituem uma empresa ou um banco; na política, como forma de aprovação ou reprovação nas eleições dada a uma administração vinculada a um partido político pelos formadores de opinião e pela população2.
Nesse caldo social polissêmico em que o termo performance está mergulhado, a editora e publisher Bonnie Marranca (1981:60) diz que os comentários midiáticos sobre as ações humanas individuais, corporativas e públicas são concebidas como um gesto teatral, mergulhadas no caldeirão da cultura do espetáculo.
[...] como se toda a ação humana era incapaz de ser outra coisa que não artificial. [...] A linguagem está perdendo sua capacidade de expressar a crença coletiva, a performance é uma linguagem privada, que quando desempenhada publicamente evolui como imagens. [...]
Fig. 1 Performance para afastar a rotina. 1.0.2 Performance Sociocultural
Mesmo alterando um pouco a rota desta pesquisa, há que se considerar de grande importância as questões que envolvem o que podemos denominar de “performances originárias”, ou aquelas com enfoque antropológico e que, para o autor da presente pesquisa, merecem ser mencionadas. Apesar de diferir da performance art, uma linguagem que foi construída a partir de transformações sociais dos movimentos contraculturais, a performance antropológica atua sobre os modelos sociais existentes em diversas sociedades.
Ao adentrarmos no campo da sociologia, temos que observar o trabalho do sociólogo Erving Goffman, cujos exames microssociológicos do comportamento cotidiano têm influenciado muito os estudos da performance. Goffman (1959:22) define a performance como "toda a atividade de um indivíduo que ocorre durante um período marcado por sua presença contínua diante de um grupo particular de observadores e que, de alguma forma, tem alguma influência sobre esses observadores". Goffman desenvolve sua teoria através de condições situacionais facilmente relacionadas com as estruturas convencionais e do provável surgimento de relações sociais que envolvem a ação de um indivíduo (ou performer) que desempenha um mesmo papel para o mesmo público em diferentes ocasiões.
O olhar de Goffman, movido pelo gerenciamento de impressões, baseia-se na interação dentro de uma realidade operativa entre o performer e uma audiência. Nessa arena,
cabe ao performer procurar impressionar a audiência e, que esse público aceite essa impressão. Essa teoria neutra e genérica advogada por Goffman apresenta alguns restrições, dentre elas a relação não consciente de um indivíduo ao engajar-se em uma performance. Entretanto, essa teoria pode ser aplicada a uma série de ações, eventos ou impulsos que hoje consideramos ser performance.
A teoria de Goffman, inserida no contexto social e cultural, relaciona a performance com audiência e como ela é reconhecida e opera dentro da sociedade. Apesar de sintetizar a performance como uma relação entre um performer e uma audiência, Goffman particularmente desenvolveu um posicionamento de performance mais próxima ao contexto e à dinâmica de recepção da audiência ou da comunidade na qual a performance se realiza, em detrimento das atividades específicas do performer.
Na performance sociocultural, os teóricos direcionam suas pesquisas sobre a relação com a audiência ou sobre a comunidade na qual ocorre a performance. Marvin Carlson (2009:50) diz que “os teóricos da performance social, se são sociólogos, naturalmente caminham nessa direção, enquanto filósofos da ética e psicólogos […] tendem a enfatizar as atividades e operações da performance […] como a performance social é reconhecida pela sociedade e como ela funciona dentro da mesma sociedade”.
1.0.3 Performance e Antropologia
Na antropologia o conceito de cultura está intimamente ligado ao conceito de performance, pois esse conceito emerge das preocupações com o papel do simbólico na vida humana e como a cultura é o agente na visão simbólica. A visão tradicional de cultura na antropologia foi vista como um modelo normativo e homogêneo, determinando padrões de hábitos, valores e normas fixas.
Um visão mais recente contesta o padrão tradicionalmente adotado pela antropologia, colocando a cultura como algo emergente que enfoca o ator social como agente consciente, interpretativo e subjetivo. Segundo a filósofa Suzana Langer (1971), “o homem simbólico é um ator cuja ação não é motivada só pela razão, mas também por experiências passadas, pelos desejos, pelas necessidades de expressar e criar e pela vontade”. Com esse novo enfoque nos estudos culturais, a criatividade via expressão estética do indivíduo conduz a um processo de transformação até então não visto.
Na antropologia, a performance é tratada como uma categoria universal que acontece em todas as culturas, dessa forma, todas as sociedades humanas apresentam seus gêneros variados e diversificados de atos performáticos. Ao lançar uma perspectiva performática
surgida da preocupação com a forma com que as culturas constroem e produzem seus gêneros particulares de performance, Jean Langdon (1998:26) afirma que “a teoria central da performance na antropologia trata num nível analítico da relação cultura-sociedade-performance”.
Além do conceito de performance relacionada à exibição de habilidades de desempenho e de suas relações com o contexto social e cultural, podemos adicionar uma outra vertente conceitual que se diferencia das duas concepções prévias, e que conduz à visão da performance como linguagem autônoma. Seguindo os traços deixados pela antropologia que habita as condutas culturais, vinculando esses atos referentes aos estudos culturais e antropológicos aos procedimentos estruturantes que singularizam uma linguagem artística, Regina Müller (1996:46) entende a performance como uma:
[...] forma de arte que surge historicamente, enquanto conduta, e alcança o estatuto de manifestação artística como linguagem autônoma, e, ao mesmo tempo, plural, isto é, específica de cada meio ao qual está vinculada – teatro, dança, artes plásticas, música, vídeo. O aspecto comum às manifestações performáticas e, portanto, o que as define enquanto linguagem autônoma é o caráter experiencial e processual na situação de dialogia e a partir dos sentidos [...].
1.0.4 Rumo à Performance Art
Partindo das trilhas abertas pelos estudos culturais e adicionando elementos das artes cênicas e visuais que os estudos tradicionais da performance condicionam com manifestações seminais da performance art, tem-se segundo o crítico de arte Thomas McEvilley (1:13) a sugestão de três fontes para o desenvolvimento da prática Performance Art:
1. A performance representa um retorno às investigações do corpo mais amplamente exploradas por xamãs, iogues e praticantes das artes de cura alternativas;
2. A performance emerge da história da pintura e ganha sua força e foco depois da action painting de Jackson Pollock3;
3. A performance emerge da história do teatro e começa como um contraponto ao realismo.
Ao colocar a linguagem híbrida da performance no limite das artes plásticas, o pesquisador e diretor teatral Renato Cohen (1989:56) a caracterizou como origem e artes cênicas caracterizada como finalidade. Por sua inclinação teatral, para Cohen, “a performance está muito mais próxima do teatro do que das artes plásticas, que é uma arte estática — é claro que é muito diferente observar uma figura humana interagindo com um coiote do que
observar um quadro ou uma escultura”. Numa mesma linhagem conceitual, Carl Loeffer (1989:viii) traça uma abordagem metanarrativa sobre a performance, porém dentro das artes cênicas e visuais:
A performance é executada tanto de forma privada ou diante de uma plateia ao vivo, e é variadamente chamada de ações, eventos, performances, peças, coisas, ou mesmo happenings. Algumas das obras são sobre o corpo do artista, correspondentemente denominado de body art. Alguns a consideraram como a “escultura como ação", em que a obra só existe durante o tempo de sua manifestação, muitas vezes através de um uso direto não-teatral dos materiais. Outro trabalho é a performance teatral utilizando a ilusão, e pode transmitir uma ficção ou narrativa autobiográfica, como elementos de destaque da encenação.
Outros autores, que serão visitados adiante, também defenderam posições próximas ao teatro e às artes visuais. Além disso, podemos encontrar outras vertentes da performance nas linguagens da música, da dança e do cinema, pois essas artes tradicionais como o teatro e as artes visuais estão baseadas na estrutura triádica arte – corpo – comunicação. Contudo, na
performance art houve a desarticulação dos seus elementos hierarquizantes tornando-as uma
linguagem singular, autônoma e híbrida que não é teatro, nem dança, nem música, nem artes plásticas, mas performance art.