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Performances e o modelo de corporalidade no culto

No documento ANDERSON SEVERINO DE OLIVEIRA TAVARES (páginas 116-131)

CAPÍTULO 3 – PEDAGOGIAS DA CORPORALIDADE EXERCITADAS NA IVV

3.1.1 Performances e o modelo de corporalidade no culto

Na IVV, o ritual do culto inicia-se com o momento de louvor, que antecede a entrada do pastor no espaço onde está o púlpito. Nessa parte do culto, a música e a gestualidade que a acompanham são os elementos privilegiados para produzir a conexão dos fiéis com Deus: com os braços erguidos, os olhos fechados, a aposição da mão no coração, o franzir dos rostos e o movimento corporal no ritmo da música os fiéis acessam o “tempo extraordinário” do ritual.

Quando o pastor sobe ao espaço onde está o púlpito, utilizando microfone sem fio, de modo a deixar-lhe com as mãos e o corpo livres do empecilho dos fios, para gesticulações e imposições em direção à plateia, ele realiza uma oração inicial, que pode ser feita na língua vernácula – acompanhada pelos fiéis, que começam a agradecer a Deus, em português, em voz alta ou em silêncio. Quando a oração é feita em “línguas estranhas”, os fiéis também adotam a expressão linguística, cada um à sua maneira, acompanhando o ritmo da voz e a gestualidade do pastor – a exemplo dos braços erguidos e da palma da mão aberta. O modelo frequentemente observado é apresentado nas imagens abaixo (o pastor à esquerda e um membro da IVV Sede à direita):

IMAGEM XVI – Pastor e membro erguendo os braços e louvando

Fonte: Facebook da Igreja Verbo da Vida/Sede92

Logo em seguida, o pastor continua a dirigir o culto, lendo trechos da bíblia e testemunhando e pregando conforme a temática escolhida. Em meio às pregações, são enunciadas frases positivas, de efeito e de autoafirmação. A depender da atmosfera do momento, no tocante às bênçãos declaradas pelo pastor, os fiéis, sentados, podem apenas fazer o gesto de imposição das mãos ou então levantar do assento e realizar o mesmo gesto para recepção das bênçãos.

A colocação das mãos na forma de imposição/recepção integra as técnicas corporais usadas para abençoar, curar, consagrar ofertas ou transmitir o batismo do Espírito Santo (imposição) e também para que o fiel seja abençoado, curado ou consagrado, receba o Batismo no Espírito Santo e os dons Ministeriais (recepção)93. Conforme ocorrem as declarações por parte do pastor – atos ilocucionais –, também se escutam entre os participantes interjeições: gritos de “glória a Deeeeeus!”, “Amém!”, “Aleluia!”, “É fooorte!”, “Uaaaau!” e “Uh-uh!”.

Em momentos específicos da pregação, a linguagem do pastor se manifesta como uma forma de realizar atos e não apenas de descrever algo. Há expressões de gestos e palavras-chave alinhadas à “Confissão Positiva”, com força performativa, e que fazem decorrer efeitos perlocucionais em termos de atitudes dos fiéis, em termos verbais ou na forma da corporalidade94. Elaboramos o Quadro 3, abaixo apresentado, com alguns exemplos de enunciados declarados em cultos aos quais assistimos que fazem referência à afirmação de crenças fundamentais95 da IVV, provocando nos fiéis uma determinada ação. A partir do quadro abaixo, analisamos as performances desencadeadas nos momentos de maior efervescência

92 Disponível em: <https://www.facebook.com/pg/sedeverbodavida/photos/?ref=page_internal>. Acesso em: 29 de mai. 2019.

93 Podendo ocorrer o toque corporal ou não.

94 Concordamos com Herbertz Ferreira (2013), para quem é inviável a produção de um efeito-perlocucional sem que antes houvesse ocorrido uma força-ilocucional.

religiosa. Optamos por apresentar os enunciados separadamente por coluna, sendo as atitudes dos fiéis analisadas em relação a esses enunciados, mas apenas como ilustração didática para uma melhor compreensão das performances colocadas em exercício pelos pastores da IVV, pois as temáticas destacadas podem estar mescladas em uma mesma pregação.

QUADRO 3 – Declarações nos cultos da IVV Sede.

1. Expectativa 2. Prosperidade 3. Cura 4. Batalha

espiritual 5. Presença do Espírito

a

Coisas tremendas vão

acontecer!

Declare: as minhas contas estão pagas

este mês.

Aquela vida com enfermidade já passou. Vamos derrotar o diabo! Eu declaro a presença de Deus na sua vida. b Vai acontecer! Declare: a falta não me pertence. Você é uma nova criatura curado e

próspero. Para a glória de Deus e vergonha do inferno. Diga: eu estou avivado.

c Crie expectativa para o que vai acontecer.

Eu creio que aquele derrotado não existe

mais.

Você está curado, em

nome de Jesus. diabo passando Eu ordeno o vergonha.

Tenha ousadia e receba o Espírito Santo. d Se prepare, fique pronto! Todos os recursos vão vir quando você está

determinado.

Tome posse da sua

cura. humilhado com O diabo vai ser sua vitória.

Levante sua voz e fale em

línguas. e progredir como Você vai

nunca antes.

Vai chegar dinheiro para você alcançar

vidas.

Pegue e receba, você

está curado. Pise, pise no diabo! Libere o rio, libere o rio.

f Você não vai sair da mesma forma que entrou.

O que Deus preparou para você é maior do

que pensa.

Seu dia, seu mês, seu ano vai ser abençoado, você estará sarado. Exerça sua autoridade contra o inimigo, Mergulhe em Deus de forma intensa. Fonte: observação direta de cultos da IVV/Sede feita pelo pesquisador

Destacamos a força performativa dos enunciados apresentados acima. Alguns deles usam verbos96 com força ilocucionária e são ditos no modo verbal imperativo, para assinalar o caráter de ordem, como, por exemplo: “Declare...”, “Tome posse...” e “Tenha ousadia...”. Outros são performativos implícitos, pois, ao enunciarem “Vai acontecer!” (1.a) ou “Coisas tremendas vão acontecer!” (1.c), exprimem um compromisso com o mesmo sentido de: “Eu

prometo que vai acontecer”, “seu milagre vai chegar”. Há também enunciados performativos explícitos, tais como “Eu ordeno” e “Eu declaro”. De modo geral, a forma pragmática da fala dos pastores expressa uma ordem ou um compromisso, referindo-se ao presente ou ao futuro.

Os enunciados destacados podem ocorrer em momentos argumentativos, nos quais o pastor demonstra a manifestação de seu poder, quando utiliza o seguinte formato: “Tenho algo

poderoso da parte de Deus”; “Estou na condição de pai/pastor”; “Quando estava preparando

96 Conforme Austin (1990), muitos enunciados performativos podem ser descritos por verbos que, quando proferidos, ao mesmo tempo em que descrevem uma ação também a executam.

a pregação o Espírito me falou”; e “Existe algo dentro de mim maior que o mundo”. Esses

modos de descrição do estado a partir do qual algo será dito procuram conferir legitimidade à pregação, em busca de contribuir para sua eficácia, na medida em que o discurso está imbuído do caráter de “verdades de Deus”. Sendo o pastor seu porta-voz na Terra, é como se Deus se fizesse presente e falasse para todos no momento da pregação.

Conforme Bourdieu (2008, p. 60), para a linguagem ser recebida com a importância almejada pelo porta-voz, precisam ser asseguradas “as condições sociais que fazem com que ele possa obter que se lhe conceda a importância que ele atribui a si mesmo”. Para construir as condições de aceitabilidade e eficácia em seu discurso, o pastor se constitui como um porta-voz autorizado por Deus. O poder de sua palavra decorre da aceitação desse lugar que o líder religioso constrói para si e seu discurso. As condições sociais de aceitabilidade dos discursos afirmadas por Bourdieu (2008) correspondem às condições de “eficácia” dos enunciados performativos destacadas por Austin (1990). Conforme este, a “ineficácia” de um enunciado ocorre quando ele é feito por alguém desautorizado ou em condições inapropriadas. “A eficácia simbólica da linguagem religiosa fica ameaçada quando deixa de funcionar o conjunto dos mecanismos capazes de assegurar a reprodução da relação de reconhecimento que funda sua autoridade” (BOURDIEU, 2008, p. 60).

A visão de Bourdieu acima descrita segue a de Tambiah (1985), que afirma poderem os atos performativos dos rituais apresentar consequências perlocucionárias incertas, pois sua efetividade depende da legitimidade dada a quem os executa pelos sujeitos sociais aos quais se dirigem97. Nessa direção argumentativa, Richard Bauman e Charles Briggs (2006, p. 195) também afirmam que a padronização poética (o modo de expressar a mensagem) e outras dimensões da performance “chamam atenção para o estatuto da fala como ação social”. Estes autores abordam a performance como um ato de metacomunicação caracterizado pela função poética, que envolve o talento e a técnica (um modo habilidoso) de falar e agir de maneiras apropriadas (BAUMAN; BRIGGS, 2006). Entendendo o pastor como performer, levamos em conta não apenas sua autoridade em enunciar os atos performativos, mas a forma pela qual o enunciado é feito, o que coloca a performance em destaque. A forma (performance) e o conteúdo (crenças mobilizadas) são essenciais para o caráter performativo e a eficácia da ação ritual (TAMBIAH, 1985).

97 Por exemplo, nos rituais de “batismo no Espírito Santo”, nos quais o “falar em línguas estranhas” é uma evidência que aponta para o sucesso do ritual, nem sempre o pastor atua como indutor ou elicitador performático. Às vezes, mobiliza-se um grupo de conselheiros, mais legitimado em termos de condução dos fiéis.

Prosseguindo a análise do Quadro 3, observa-se na primeira coluna o que denominamos de expectativas, descritas através de frases pronunciadas no início ou durante a pregação, bem como na divulgação de um evento. Esses momentos podem acontecer em contexto de estática corporal (quando ocorrem no início da pregação) ou de dinâmica corporal (quando ocorrem durante a pregação). De toda forma, esses enunciados são eficazes ao produzirem expectativas, na medida em que chamam a atenção dos fiéis para o que vai acontecer no culto e no desenrolar de suas vidas. Os pastores dizem: “Fique pronto!” (1.d) ou “Coisas tremendas vão acontecer!” (1.c). Aqui, são ativados desejos e vontades que ficam tão mais significativos conforme a mensagem religiosa vai sendo vinculada às necessidades de cada fiel. Assim, o culto ou o evento tornam-se um acontecimento único: “Você não vai sair da

mesma forma que entrou!” (1.d). Na perspectiva de Bauman, esses enunciados (quando

aparecem no início da pregação) são sinalizações (Keying) que chamam a atenção dos participantes à performance, rompendo com o fluxo comum de comunicação (BAUMAN apud LANGDON, 2007). 98

Como estratégia de divulgação dos eventos organizados pela IVV Sede é utilizado o

marketing de expectativas. Esta estratégia é colocada em exercício por pastores e ministros e por um conjunto de profissionais especializados em comunicação e marketing que editam os vídeos de divulgação dos eventos. Os vídeos são exibidos em telões durante o culto e, posteriormente, nas mídias da instituição, com o objetivo não só de ampliar o público participante como também envolver os presentes com as atividades da Igreja. São vídeos curtos que, utilizando um fundo musical envolvente, exibem momentos dos palestrantes que são considerados pelos editores como “fortes” e “impactantes” – em algumas partes, a música e a voz do apresentador são suspensas por segundos, dando maior ênfase à fala do preletor, que geralmente usa tons autoritários e provocativos, com sua gestualidade alinhada à voz – e da decorrente reação da plateia, o que oferece pistas sobre a ortocorporalidade que é exercitada no evento.

Nos vídeos de divulgação aos quais assistimos é apresentada a programação de determinado evento e como o mesmo foi nas edições anteriores, demonstrando o quanto de emoção foi proporcionado em seu desenvolvimento. Isso desperta sensações, expectativas e ansiedades em torno do que pode acontecer no “grande dia”. O impacto causado pelos vídeos é contagiante, segundo fiéis entrevistados sobre a recepção dos mesmos, que dizem se arrepiar, gritar e pular. A igreja toda vibra, principalmente se o evento em questão for direcionado a

jovens e adolescentes. Também observamos vídeos de palestrantes convidando o público para marcar presença nas ações da IVV e cartazes virtuais circulando pelas redes sociais com contagem regressiva ou programação – que algumas vezes anuncia um preletor surpresa.

Segundo narrativas de fiéis da IVV, não participar das atividades da igreja pode causar frustração, principalmente ao se visualizar as postagens das fotos e dos lives nas redes sociais, práticas de divulgação incentivadas pelos líderes da comunidade. Pede-se que os jovens usem o celular para se fotografarem na atividade da IVV da qual participam e, em seguida, postem nos aplicativos Facebook e Instagram utilizando a hashtag99 do evento. Como exemplo,

durante o evento Jovens Para as Nações – JPN, utilizou-se “#JPN”. O objetivo enunciado é o de mostrar aos ausentes o que estes perderam, convidando-os a estarem presentes nos eventos seguintes.

Na segunda fileira do Quadro 3, denominada Prosperidade, estão presentes frases enunciadas no decorrer de alguns cultos, especificamente com tema relacionado à área financeira. Ensinam aos fiéis sobre “reinar em vida”, e lhes dizem que “são filhos do dono do

ouro e da prata” e que “as circunstâncias da vida não podem os afetar”. Após uma pregação

bastante emotiva, o pastor, que se movimenta de um lado ao outro do púlpito e no espaço que fica à frente, bate as mãos e aponta para a plateia, ordenando que os fiéis declarem para si mesmos: “As minhas contas estão pagas este mês!” (2.a) e “A falta não me pertence!” (2.b). Nesses momentos, o pastor combina o volume alto da voz, algumas vezes com uma atitude chorosa, aliada às expressões faciais de contração100. Os dedos apontam para a plateia com firmeza; a postura, geralmente, é de alguém que está na ofensiva, ordenando. A combinação de voz, gestos e postura revela o sentimento do momento (indignação e revolta, ou otimismo e confiança, ou provocação), que é transmitido para os fiéis, induzindo-os a saírem de uma posição de passividade diante das circunstancias da vida e das “amarras” do diabo. Quando os pastores ordenam, declaram e determinam, a postura que adotam é semelhante à da imagem XVII, apresentada abaixo:

99 A Hashtag, palavra-chave antecedida de cerquilha (#), é utilizada para identificar o tema do conteúdo compartilhado na internet, transformando-se num hiperlink (ligação de um texto a outro), que, através do mecanismo de busca, filtra todos os conteúdos que também utilizam a mesma hashtag.

IMAGEM XVII – Expressão corporal do pastor no púlpito

Fonte: Facebook da Igreja Verbo da Vida/Sede101

Quando o tema do culto está relacionado à prosperidade financeira, há sempre uma reação maior advinda da plateia do que as observadas em cultos com outras temáticas. Naquele, os fiéis, que assistem a tudo atentamente, conduzidos pela performance do pastor, respondem das seguintes formas: (1) gritando, no formato supracitado; (2) pulando – com movimentos realizados com os braços esticados para baixo, ou com cotovelos para trás e braços flexionados, ou como um jogador que comemora um gol (saltando e levantando um braço para o alto com a mão fechada ou aberta); (3) dançando – os fiéis sapateiam com os braços para baixo, cruzando- os e abrindo-os; e (4) ofertando – os fiéis fazem doações diretamente aos ministros durante suas pregações. Estas são “ofertas para a vida” do ministrante e são realizadas quando o pregador ministra algo que deixa o fiel “tocado”. Os fiéis, que depositam suas ofertas em recipientes que ficam nas laterais do púlpito, em alguns momentos se dirigem a estes com expressões semelhantes à do pastor na imagem acima apresentada. Essas expressões e ofertas, juntamente às gargalhadas e aos choros, simbolizam a externalização corporal da aceitação e da aprovação do discurso do pastor.

Na terceira coluna, apresentamos frases emitidas sobre a cura divina na IVV/Sede. Nessa instituição, observamos que a cura divina pode ser realizada “no varejo ou no atacado”. O primeiro modelo ocorre geralmente no final do culto, quando o pastor desce do púlpito e se dirige a pessoas que tenham expressado estar com alguma enfermidade, impondo suas mãos e orando para que o fiel seja libertado da doença. A forma “atacado” ocorre quando há um número

101 Disponível em: <https://www.facebook.com/pg/sedeverbodavida/photos/?ref=page_internal>. Acesso em: 29 de mai. 2019.

grande de pessoas com algum tipo de doença, ficando cada sujeito responsável por tocar em si, impondo as mãos no local da enfermidade, enquanto o ministro faz uma oração com enunciados vistos como tendo “força performativa”. Um exemplo desse segundo modelo foi observado por nós no Acampamento dos JVV, quando, no segundo dia do encontro, houve uma diarreia generalizada102. No culto da noite deste evento a ministra expôs que “o diabo quer bagunçar o

momento, o que não vai acontecer”, passando a “repreender” o “inimigo” e a afirmar: “agora é ele que está com problemas”. Cada pessoa presente foi orientada a impor a mão em sua

barriga, e a ministra realizou uma oração para a cura de todos103.

Outra alternativa para atender a um grupo grande de fiéis na área da cura divina é chamar os pastores e líderes que estão localizados na primeira fileira de cadeiras da igreja para ajudar impondo as mãos nos fiéis. Para isso, uma grande quantidade de diáconos e diaconisas é mobilizada para segurar os fiéis que perdem o equilíbrio ou que caem, como também para cobrir com um pano as partes íntimas das pessoas caídas no chão. O domínio dessas técnicas de atender no “atacado” é importante para o pastor não ser “engolido” pela multidão de fiéis que procura curas, milagres, prosperidade e bênçãos em geral.

Um caso em que o pastor que dirigia a reunião foi sobrecarregado pelas demandas do momento foi por nós observado no JPN. O pastor resolveu sair pela plateia “enchendo os fiéis do Espírito”. Durante o momento de louvor, profetizou que alguém naquele ambiente “que não poderia engravidar por questões biológicas, estaria curada”. Disse que seu bebê nasceria no ano seguinte. Logo após, afirmou que “os jovens presentes poderiam fazer obras e milagres maiores do que aqueles que Jesus realizou”, inclusive em outras nações104. Pelos seus atos performativos, o pastor ganhou admiração dos jovens, que comentavam sobre sua “unção” e seus “milagres” – o que pode ser descrito como uma “avaliação da audiência” (BAUMAN; BRIGGS, 2006). Ele saiu correndo pela plateia impondo as mãos nos fiéis, tocando-os e dizendo-lhes: “cheio, cheio, fique cheio de Deus!”. Logo após, um aglomerado de jovens o cercava para tocá-lo e receber, através de sua unção, as bênçãos, as curas e os milagres – assim como aconteceu com Jesus, como foi ressaltado no culto –, o que fez com que alguns saíssem cambaleando e outros “repousassem no Espírito”. Depois de alguns momentos, enquanto o

102 A suspeita da causa da diarreia foi a de comida estragada servida na noite anterior.

103 Assim como fizeram orações e repreenderam o Diabo para a realização da cura (instância simbólico-mítico- mágica), nos serviram remédios durante todo o dia (instância racional-lógico-técnica), sem que os fiéis e lideranças encontrassem contradições nisso. O estudo de Jonatas Menezes (2008) apontou entre os pentecostais a busca pelo tratamento religioso no mesmo tempo do tratamento médico, os quais também não viam nenhuma contradição nisso.

104 Na ocasião, o pastor estava citando João 14:12: “Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim também fará as obras que eu faço, e as fará maiores do que estas, porque eu vou para meu Pai.”.

pastor tocava nas lideranças da igreja, o próprio “caiu no Espírito”, com ataques convulsivos, como se a unção da liderança o tivesse atingido. Como muitos jovens passaram a se aglomerar ao seu redor (Imagem XVIII), afetando o controle da ação coletiva dos fiéis, outro pastor, que também foi convidado para o evento, subiu no altar e, não intervindo diretamente no ritual, procurou ganhar visibilidade ao cantar com os ministros de louvor, fazendo dispersar os fiéis, inclusive alguns que se encontravam caídos.

IMAGEM XVIII – Aglomerado de jovens em volta do pastor

Fonte: Facebook da Igreja Verbo da Vida/Sede105

Na quarta coluna, apresentamos frases ouvidas em celebrações na IVV/Sede que remetem à “guerra espiritual contra o Diabo”, do “bem contra o mal”. O Diabo veio para

“matar, roubar e destruir”; “ele é o principal responsável pela crise financeira, pela doença e pelo pecado”; ele procura atingir os fiéis, inclusive, “trazendo imagens do passado, quando ainda não eram criaturas nascidas de novo”. Com uma argumentação feita com base nessas

frases, frequentemente nos cultos da IVV/Sede os ministros procuram humilhar o Diabo, exercendo sua autoridade e enfrentando o “inimigo” – “as vitórias e conquistas dos fiéis já são

uma humilhação para o Diabo”, dizem os pregadores. Ensinam aos fiéis que é preciso mudar

a posição de passividade diante de Satanás. Para isso, precisam ser “comandados pelo Espírito” e ter a “mente renovada”. O argumento recorrente sobre esse tema é o de que “já há vencedores, Jesus Cristo e seus seguidores, e perdedores, o Diabo e sua legião de demônios”.

105 Disponível em: <https://www.facebook.com/pg/sedeverbodavida/photos/?ref=page_internal>. Acesso em: 29

No documento ANDERSON SEVERINO DE OLIVEIRA TAVARES (páginas 116-131)