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2 CONSTITUIÇÃO E DESENVOLVIMENTO DO CONHECIMENTO EM

2.1 AS PERSPECTIVAS CONSTITUINTES DO CONHECIMENTO EM

2.1.1 A perspectiva histórica

Sob uma perspectiva histórica, o surgimento da Administração ocorreu em meio a uma grande transformação social associada à produção de bens e serviços e à instauração do capitalismo industrial. A institucionalização da administração, como ciência, remonta-se a acontecimentos históricos que conduziram ao desenvolvimento da Administração Pública na Europa e ao desenvolvimento dos Estudos Organizacionais nos Estados Unidos (MELLER, 2013; CHEVALIER, 1980).

Na Europa, o interesse pelos estudos organizacionais, ocorreu com o aumento do intervencionismo do Estado e a consequente necessidade da eficácia das ações administrativas, conduzindo maior interesse aos métodos de gestão e à tendência à racionalização na gestão pública. Contudo, o estudo sobre organizações tem um papel importante a partir dos trabalhos de Max Weber (WAHRLICH, 1986), por meio da construção do tipo ideal de burocracia, caracterizada pela profissionalização, a hierarquia das funções e a impessoalidade das regras. A partir daí, outros estudiosos passaram a olhar as organizações e estudá-las, tentando criar preceitos que fossem universais aplicados tanto ao setor público quanto ao setor privado, como ocorrido nos Estados Unidos, onde se priorizaram aspectos mais gerais sobre as organizações.

Nesse sentido, a Administração teve seus primeiros estudos científicos conduzidos por engenheiros cujos trabalhos originaram a Escola de Administração

Científica, capitulados por Frederick Winslow Taylor, Estados Unidos, e Jules Henri Fayol, França (WAHRLICH, 1986). Taylor recorre a estudos de tempos e movimentos para o aumento da produtividade e acreditava haver princípios científicos que pudessem levá-lo a esse objetivo. Já Fayol estabeleceu os princípios da Administração, ações processuais como planejar, dirigir e controlar, que norteiam o trabalho do gestor.

Posteriormente, estudos caracterizaram a Escola de Relações Humanas, apresentando-se uma nova etapa no desenvolvimento dos estudos das Organizações, abrindo espaço para abordagem comportamental e sociológica.

Outras escolas de pensamento surgiram para congregar e articular os estudos em administração em torno de saberes cientificamente aceitáveis, influenciadas muitas vezes pelas descobertas científicas de outras áreas como cibernética, matemática, biologia, sociologia, psicologia entre outras2. Esses conteúdos são reunidos para fins de ensino superior na disciplina Teoria Geral da Administração, e, em alguns casos como Teoria das Organizações que subsidiam os aspectos teóricos nos estudos organizacionais.

Atualmente, com a perspectiva ecológica e responsabilidade social, novos enfoques são assimilados pela Ciência da Administração a fim de obter novas lentes para análise das situações diversas inerentes às organizações. Motta e Vasconcelos (2008) destaca como tendências de pesquisa, estética organizacional, tempo, filosofia, poder, religiosidade e estudos críticos; as organizações teatrais como universo de legitimação e significação simbólica; análise do discurso; estudos de gênero diversidade e pós-modernidade e estudos ligados ao poder.

Cabe aqui uma digressão. Em muitos casos, apesar de chamarem-se escolas da Administração na condição de disciplina, ainda persiste a nomenclatura de Teoria Geral da Administração (TGA), em vez de Teorias ou Escolas da Administração. O mesmo acontece com a disciplina Teoria Organizacional (TO), como se houvesse uma só e total explicação para a realidade organizacional, não

2 Motta e Vasconcelos (2008), para efeitos didáticos, classifica em: Escola Clássica de Administração e

Administração Científica; Escola de Relações Humanas; Teorias da Motivação e Liderança; Processos decisórios nas organizações; O estruturalismo e a Teoria da Burocracia; Teoria dos sistemas abertos e a perspectiva sociotécnica das Organizações; O Sistema e a contingência; Desenvolvimento Organizacional; Visão transversal; Homem, Organização e Meio Ambiente. Abrange ainda aos enfoques teóricos denominados por ele de Pós-contingencias: Cultura Organizacional; Aprendizagem organizacional; Poder nas Organizações, Teorias ambientais e Psicanálise e Psicodinâmica Organizacional.

explicitando que há uma gama de estudos que tratam das relações sociais mantidas nas organizações e que sua observação pode ocorrer sob lentes diversas.

Quanto ao uso dessa nomenclatura, é provável que para manter o status quo de ciência, ser mais credível haver uma teoria geral ao invés de teorias, garantindo certo poder de convencimento de que são estudos respaldados cientificamente. Infere-se também que, dado o recorrente amparo em outras ciências conforme já dito anteriormente, a nomenclatura usada adjetiva uma característica própria e inerente à Administração, consolidando sua área de estudo dentro dos estudos organizacionais.

Outra possibilidade de divisão histórica da Ciência da Administração, (CHEVALLIER; LOSCHAK, 1980), ou managerial (CHANLAT, 1999) nos é apresentada em três momentos.

O primeiro compreende ao período do fim do século XIX até a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) que corresponde ao período no qual o aperfeiçoamento das técnicas de controle do trabalho inspirou a Administração a ser ciência, ocorrendo o aparecimento dos primeiros gestores assalariados e das primeiras escolas de gestão, bem como das associações de dirigente e das publicações especializadas. O segundo período abrange o fim dos anos 1940 a início dos anos 1980, período em que surge a sociedade de consumo de massa e ocorre uma expansão de consultorias de management, crescimento de empresas e da Terceirização da Economia com a crescente demanda para empregos na área de gestão. O terceiro período, que foi a partir dos anos 1980, apresenta uma forte tendência à competitividade, Globalização e imperativo financeiro. No entanto, paralelas à eficácia na gestão, outras exigências são requeridas à organização, como competências jurídicas, ambientais, sociais e fiscais conduzindo as organizações às ações estratégicas.

Diante dessa breve descrição histórica, observamos que a história da Ciência Administrativa normalmente é contada do ponto de vista do norte epistêmico para o sul, seja pela origem dos autores, publicações ou teorias, sobremodo devido à perspectiva histórica, peculiar a cada contexto em seu espaço/tempo, o que estamos denominando de conhecimento-regulação; conhecimento baseado no paradigma dominante.

É salutar acrescentar que, sendo a Ciência da Administração historicamente nascente no Norte, em especial Estados Unidos, França e Inglaterra, os sujeitos e

objetos validados para contar e serem referenciados na história das organizações, da gestão e dos negócios, bem como das personalidades relacionados a essas três esferas, concentram-se nesses países. Indubitavelmente não são frequentes relatos de histórias de negócios, gestão e organizações procedentes do sul epistêmico, ou seja, países considerados periféricos, ou seja, em desenvolvimento. Exceto quando se enquadram no estereótipo da “boa gestão”, como caracteriza Faria (2013) ao descrever sob a luz da descolonialidade, o demérito dado a empresas familiares em detrimento das grandes corporações, categorizando de “boa gestão” os modelos de gestão validados no norte, em especial nos Estados Unidos, e por “má gestão”, os modelos que não aderem a esse cânone. Ou, quando se relacionam a experiências classificadas como empreendimentos sociais, que remetem a tecnologias de gestão social, configuradas no sul global, dado às características de baixa cobertura social das comunidades desses países.

Tais experiências, comumente classificadas como uma área diversificada da gestão e que, à luz de um paradigma racional dominante, leva a condições de inserção no mercado de trabalho ou de melhorias à qualidade de vida de comunidades carentes, exemplos repassados na academia sob a égide da gestão social ou da administração de organizações de terceiro setor, por vezes inseridas como disciplinas optativas, eletivas ou complementares na vida acadêmica dos estudantes em formação, mas que aderem a uma racionalidade instrumental.

No tocante à perspectiva histórica, acompanhamos recentemente no Brasil, um movimento na área da administração que busca (COSTA;BARROS; MARTINS, 2010):

 Resgatar os aspectos históricos e interculturais em oposição à descontextualização das práticas organizacionais;

 Ressaltar a contribuição teórica e, aproximar os pesquisadores do contexto nacional por meio do uso do método histórico.

Conforme afirmamos anteriormente, a Administração se fez e se faz no contexto histórico. Cabe então manter uma observância quanto ao locus dessa historiografia. Portanto, seguindo o pensamento dos autores citados, esses estudos apresentam alguns limites e possibilidades.

Como limite, subscrevem o processo de hegemonização do conhecimento dado ao paradigma funcionalista sociológico, o qual não incentiva a perspectiva de

novos objetos, novos olhares, e novas abordagens. Sendo esse o paradigma que se sobressai nas análises organizacional ou administrativa, esse é um limite aos avanços dos estudos que consideram o método histórico. Outro limite trata da aceitação de que o olhar histórico está apoiado em uma perspectiva tanto epistêmica quanto política; entretanto, como é sabido, o método histórico é subscrito pela lente do historiador, salientando-se que apesar dessa especificidade, de igual modo se opõem aos modelos funcionalistas de pesquisas. Apesar dos limites apresentados, Costa, Barros e Martins (2010, p. 297), distinguem como possibilidades:

(1) refletir sobre a práxis social do pesquisador, uma vez que cada época seleciona novos temas que, no fundo, falam mais de suas próprias inquietações e convicções do que em tempos memoráveis; (2) considerar novas fontes, novos problemas e novas abordagens, uma vez que a tomada de consciência da construção social do fato histórico e da não inocência do documento descortina os processos de manipulação que se manifestam em todos os níveis da constituição do saber histórico e administrativo; e

(3) perceber que novas perguntas podem deslocar o foco de análise do exógeno para o local, o que pode contribuir para o desenvolvimento de análises mais críticas sobre ideologias administrativas correntes.

Dado às limitações e às possibilidades consideradas, corroboramos com os autores quanto à aproximação com uma mudança paradigmática, uma vez que a possibilidade do método histórico desvela outro olhar, outra consciência.