2 CONSTITUIÇÃO E DESENVOLVIMENTO DO CONHECIMENTO EM
2.1 AS PERSPECTIVAS CONSTITUINTES DO CONHECIMENTO EM
2.1.2 A perspectiva sociológica
Sob a perspectiva sociológica, Chevallier; Loschak (1980), afirmam ser uma área que possibilita uma gama variada de estudos, como o da sociologia política que possui interesse na administração pública e nos contextos de poder, nos quais essa administração está inserida; e a sociologia das organizações, que inclui organizações de diversas naturezas e assenta-se sobre o postulado de que, para o funcionamento de uma organização, não se pode basear apenas em regulamentos, mas também na motivação e comportamento dos atores envolvidos, o que se constitui para França Filho (2009) na área de comportamento organizacional.
Vivemos em um mundo onde as organizações são partes constituintes de nossas vidas; trabalhamos, estudamos, usufruímos de uma série de bens e serviços produzidos e /ou comercializados em organizações e, sendo assim, do ponto de vista sociológico, os estudos da área da Administração possuem interesse na atuação dessas organizações, seja para um cunho mais processual e técnico seja para um estudo de formas de poder, socialização, gênero, entre outros.
Portanto, em ambos, sociologia das organizações ou comportamento organizacional, os conteúdos estão associados a uma possibilidade de compreensão das organizações, interação dos seus atores e os processos que circundam sua existência, manutenção e sustentabilidade.
Para tal, essas organizações não podem ser vistas descoladas da sociedade e do contexto no qual estão imersas, considerando a dinâmica e constituição dessa sociedade. Do ponto de vista de Chanlat (1999), a dinâmica e o tipo de sociedade que estamos construindo assenta-se em três pontos: a hegemonia do econômico; o culto da empresa e o consequente crescimento do pensamento empresarial sobre as pessoas, pontos que estão interligados e que suscitam duas perspectivas. Uma de que há certo glamour na área administrativa, dado às exposições midiáticas sobre empresas e negócios; os gurus da Administração, com receitas de sucesso para todos que desejam empreender; e a outra visão, a hegemonia econômica, que se efetua nas relações preponderantes como fim último da Administração, nas quais se enfatiza o fim nos resultados, e não nas relações.
O crescente aumento do pensamento empresarial, ou da cultura do management é algo que do ponto de vista sociológico interessa aos estudiosos da área, onde o conjunto de valores, conceitos, jargões próprios das organizações em sua maioria privadas, são associados ao mundo da vida: performance empresarial; clima e cultura organizacional; alinhamento estratégico; ou quando simplesmente sugerimos em conversas informais às pessoas, que tomem a direção das suas vidas; dentre outras possibilidades de uma hermenêutica empresarial. São possibilidades de tornar a administração cada vez mais presente no cotidiano, sendo essa presença estabelecida sob uma ótica de regulação a qual falaremos mais adiante.
A cultura do management é compreendida por Wood Júnior, Tonelli e Cooke (2011, p. 237), como um conjunto de pressupostos compartilhados entre empresas e sociedade que incluem:
a) a crença no livre mercado;
b) uma visão das pessoas como empresários de si mesmos;
c) a percepção da gestão como um meio para a excelência maciça individual e a melhoria coletiva;
d) a utilização maciça de símbolos e palavras-chaves relacionadas ao management (por exemplo, a inovação, sucesso e excelência); e) a convicção de que os conhecimentos de gestão permitem a otimização das atividades organizadas.
A popularidade da gestão pode ser considerada quando observamos o número de estudantes nos cursos superiores em administração, fomentando essa cultura do management na qual o gestor apresenta-se como figura central e apto a perpetuar a hegemonia política e econômica da atualidade.
De acordo com os quadros adiante, percebemos o que já chamávamos atenção na introdução deste trabalho, o crescimento considerável de matrículas presenciais no ensino superior no curso de Administração e com a inserção dos cursos superiores de tecnologia, ampliando-se o leque de possibilidades na área por meio de curso cujo foco é mais restrito a uma área específica de atuação dentro do vasto campo da Administração.
Observar esses números nos possibilita duas análises por intermédio da formação concebida pelo Ensino Superior. A primeira de que há uma possibilidade de proporcionar uma formação capaz de potencializar o compromisso social desses profissionais com a sua realidade nacional e, assim, minimizar os efeitos de uma cultura do management e de uma colonialidade, permitindo o reconhecimento de conhecimentos outros.
A outra análise trata de uma possibilidade de que, o que está posto é a única forma de conduzir as ações como profissional, perpetuando-se a ignorância sobre outras possibilidades. Dessa forma, na primeira análise, poderíamos proporcionar um legado diferente às futuras gerações de administradores/gestores e, por conseguinte, às organizações, numa transformação que não asseguramos ser melhor ou pior que a situação atual, mas dentro de uma pluralidade mais coerente com o nosso cotidiano e com o nosso tempo.
Na segunda análise, estaremos sendo reprodutores de um status quo. Sobremodo, a observância irrestrita de uma única alternativa epistêmica é perturbadora, e tal perspectiva avança sobre a vida social dos indivíduos.
Considerando-se a sociedade envolta por organizações, é observável o fato de constituir-se e perpetuar-se o conhecimento em Administração apenas sob esse viés epistêmico, ou próximo a um conhecimento-regulação.
Quadro 2 – Total de matrículas no ensino superior presencial no Brasil
CURSOS TOTAL DE MATRICULAS
2014 2013 2012 2011 2010 TOTAL DE MATRICULAS GRADUAÇÃO PRESENCIAL 6.486.171 6.152.405 5.923.838 5.746.762 5.449.120 Direito 812.897 769.173 736.586 722.800 694.447 Administração 623.373 643.048 668.985 702.987 705.690 Pedagogia 320.694 319.571 307.296 305.103 297.581 Engenharia civil 312.154 254.779 196.744 143.630 99.521 Ciências contábeis 267.977 257.516 249.529 239.488 224.228 Enfermagem 248.594 227.823 233.926 243.597 244.568 Psicologia 207.070 179.892 162.280 147.270 136.420 Engenharia de produção 154.449 137.853 124.666 108.552 87.208 Arquitetura e urbanismo 144.920 120.667 101.339 86.163 73.631 Fisioterapia 128.873 109.190 102.649 101.191 99.216 Fonte: MEC, 2016.
Quadro 3 – Classificação por número de matrículas no Ensino Superior Presencial no Brasil
CURSOS CLASSIFICAÇÃO ANUAL
2014 2013 2012 2011 2010 TOTAL DE MATRICULAS GRADUAÇÃO PRESENCIAL - - - - - Direito 1 1 1 1 2 Administração 2 2 2 2 1 Pedagogia 3 3 3 3 3 Engenharia civil 4 5 6 7 10 Ciências contábeis 5 4 4 5 5 Enfermagem 6 6 5 4 4 Psicologia 7 7 7 6 6 Engenharia de produção 8 8 8 10 13 Arquitetura e urbanismo 9 10 13 14 15 Fisioterapia 10 13 12 13 11 Fonte: MEC, 2016