2 CARACTERIZANDO A AFETIVIDADE COMO PRINCÍPIO E A MONOGAMIA
2.2 Monogamia
2.2.2 O mito da monogamia
2.2.2.1 Perspectiva jurídica
Em uma perspectiva jurídica, o Direito Canônico foi fundamental para a construção da envergadura e do cerne da concepção da família e da conjugalidade. Nem mesmo a Revolução Francesa, que proclamou a separação entre Igreja e Estado, teve a capacidade de eliminar totalmente a influência desse Direito no âmbito da regulação matrimonial (SILVA, 2013, p. 68-69).
Para entender tal ingerência da Igreja nos assuntos relacionados ao matrimônio e, por conseguinte, compreender algumas das razões do mito da monogamia, cumpre destacar aspectos pertinentes ao Concílio de Trento, um referencial importante por ter condensado o pensamento – que se perpetuou por séculos – da Igreja Católica quanto ao matrimônio (SILVA, 2013, p. 68).
A Reforma religiosa, decorrente das grandes transformações econômicas, culturais, sociais e políticas havidas na Europa ao longo dos séculos XV e XVI, atingiu fortemente a autoridade da Igreja no âmbito do casamento. Como reação, ela passou a adotar, no Concílio de Trento (que ocorreu de 1545 a 1563), medidas importantes quanto ao matrimônio (MALUF, 2010, p. 22).
De acordo com Marcos Alves da Silva (2013, p. 68-69):
O Concílio de Trento, instalado em 13.12.1545, estendeu-se por quase duas décadas. Representou uma resposta à Reforma Protestante. Seus decretos expressam as máximas da chamada Contrarreforma. Os grandes temas que se colocavam para a Igreja, desde questões dogmáticas, disciplinares e de ordem, foram tratados. Entre as questões doutrinárias estava a problemática dos sacramentos, e, como um deles, o casamento foi consagrado e burilado. A doutrina geral dos sacramentos começou a ser discutida na VII sessão, em março de 1547, porém, somente em 11.11.1563, na XXIV sessão, foram promulgados doze cânones e um decreto, De Reformatione Matrimonii, e também o chamado Decreto Tametsi.
O cânone I do aludido Concílio declarou o casamento como um dos sete sacramentos da Igreja Católica Romana. Com isso, a Igreja chamou para si a autoridade de estabelecer as condições de validade do casamento, com o intuito de regulá-lo de maneira detalhada (SILVA, 2013, p. 70).
Após o Concílio de Trento, diversos escritos de moral prática foram publicados, sob a forma de compilações catequéticas de regras simples de conduta que buscavam propagar o ideário do sacramento do matrimônio moldado pelo Concílio (SILVA, 2013, p. 71).
Isso significa que a origem de um controle geral, bem como da uniformização das regras do casamento, revela-os como uma obra da Igreja. Mesmo porque, antes do Concílio de Trento, a despeito das normas esparsas elaboradas pela Igreja Católica Romana, o casamento traduzia uma cerimônia doméstica de caráter privado (SILVA, 2013, p. 71).
Por sua vez, o cânone II do Concílio de Trento edificou a monogamia como princípio norteador do casamento (SILVA, 2013, p. 74), ao estabelecer que “se alguém disser que é lícito aos cristãos ter, ao mesmo tempo, muitas mulheres e que isso não está proibido por nenhuma lei divina, será excomungado” (CÁNONES, 2013).
O Decreto Tametsi, de 1563, fez com que o casamento se tornasse um contrato solene, por meio do qual deveriam ser observadas diversas formalidades, levando os casamentos clandestinos à nulidade, pois o matrimônio deve ser realizado in face ecclesiae (MALUF, 2010, p. 22).
Em seu capítulo VIII, ao tratar da condenação do concubinato, o aludido Decreto estabelece uma verdadeira gradação. Para os homens solteiros, caracterizava um pecado grave, enquanto que, para os casados, um pecado gravíssimo, notadamente quando as concubinas fossem trazidas e mantidas na casa da família (SILVA, 2013, p. 76).
As punições se diferenciavam quanto aos homens e às concubinas. Aqueles seriam advertidos a abandonar o estado de concubinato, sob pena de, não atendendo, serem excomungados. Para as concubinas os castigos eram mais rigorosos, inclusive com a expulsão da cidade, se assim entendesse a autoridade eclesiástica (SILVA, 2013, p. 76).
Com efeito, é fácil constatar, nos termos dos ensinamentos de Marcos Alves da Silva (2013, p. 76), que:
O Concílio de Trento, certamente, uniformizou a matéria atinente ao casamento e traçou as diretrizes para a sua regulação. Entre os princípios enunciados, o da monogamia foi consagrado com toda clareza e força, influenciando a concepção jurídica da conjugalidade até os dias atuais, e só experimentando arrefecimento a partir da segunda metade do século XX.
As normas matrimoniais elaboradas pelo Concílio de Trento se impuseram em Portugal não apenas por força da legislação eclesiástica, mas, também, como consequência de um bem-sucedido movimento pastoral doutrinário e catequético, por intermédio de obras didáticas e de cunho moral (SILVA, 2013, p. 77).
Em 1564, o Estado português e a Santa Sé mantinham uma grande parceria. Desse modo, a preocupação em obedecer e tornar viável a execução pronta e integral das disposições da Igreja em Portugal é explicada pela reunião dos dois poderes, espiritual e temporal (SILVA, 2013, p. 80).
A Igreja como que se incorporava ao Estado para o trato das matérias aprovadas no Concílio de Trento, o que também justifica a grande força dos decretos tridentinos no Direito português (SILVA, 2013, p. 81).
Dessa forma, nos países católicos, as diretrizes tridentinas relativas à regulação do matrimônio tiveram ampla propagação, apoiando-se não somente por força da lei, mas também por intermédio de um significativo esforço catequético. “[...] A fixação deste modelo de casamento na cultura e no imaginário destes povos latinos será transposta com certa fluência para a legislação civil mesmo depois das revoluções burguesas” (SILVA, 2013, p. 82).
Até a Revolução Francesa de 1789, não apenas na França, mas em todos os Estados europeus de origem latina, as doutrinas tridentinas sobre o matrimônio tinham sido referendadas pelo Poder Público, de forma que, quanto à conjugalidade, a lei da Igreja era a lei do Estado (SILVA, 2013, p. 82).
É certo que a Revolução Francesa representou um rompimento entre Estado e Igreja. A passagem do casamento das mãos da Igreja para as mãos do Estado resultou, nos primeiros momentos, em uma verdadeira sacralização da laicidade. Entretanto, Marcos Alves da Silva (2013, p. 83) afirma que esse movimento não teve o condão de se impor41, mesmo porque “[...] por meio da Concordata de 180142, o casamento religioso voltou a ser admitido paralelamente ao civil”.
41
Vale mencionar a existência de opinião em sentido contrário: “A revogação do Édito de Nantes, em 1685, conduziu à perda do caráter sacramental do casamento. Assim, com o monopólio da Igreja, em matéria de casamento, posto em cheque, abriu-se espaço para a regulamentação dos mesmos pelo Estado, levando a uma secularização e laicização do casamento, geradas pelos ideais da Revolução Francesa e dos seus efeitos no Código Civil de 1805. O casamento passou a ser definido como um contrato civil (art. 7o, Tít. 2 da Constituição Francesa de 1791), seguido da autorização do divórcio por lei (votada em 20 de setembro de 1792). Como lecionam os Mazeaud, os ideais dos filósofos do século XVIII transformaram o casamento numa verdadeira união livre, formando-se e dissolvendo-se ao prazer dos contraentes (defendeu Rousseau a ideia do estado de natureza em matéria de constituição familiar, e entendeu Voltaire que o divórcio era uma necessidade natural), observadas as formalidades estabelecidas na lei. Retira-se, assim, da família, seu fundamento principal: o casamento, passando-se a perquirir, desse modo, a equiparação jurídica das diversas formas de composição familiar, bem como o status legal da prole advinda da pluralidade dessas relações.” (MALUF, 2010, p. 22-23).
42
Cumpre trazer maiores explicações acerca dessa Concordata: “No começo do século XIX ainda persistia esse primado do Estado sobre a Igreja, levado às suas extremas consequências quando Napoleão firmou com o Papa Pio VII, em 1801, a Concordata, na qual se declarava expressamente que ‘a Igreja ficava sujeita ao Estado’. E quando o Papa descumpriu as ordens do Imperador francês, este o aprisionou e anexou ao seu Império todos os Estados papais, inclusive Roma” (MALUF, 2011, p. 380).
O Código Civil francês de 1804 permaneceu fiel aos princípios consagrados na Constituição francesa de 1791, de maneira que o casamento continuou sendo regulado pela lei civil. Por outro lado, o diploma legal incorporou boa parte do regramento e das formalidades do casamento canônico, notadamente quanto aos impedimentos, às nulidades, ao pátrio poder e ao poder marital. “[...] Em matéria matrimonial o direito civil ainda estava muito arraigado ao Antigo Regime [...]” (SILVA, 2013, p. 84).
Com efeito, do controle da Igreja, o casamento passa ao controle do Estado. A pretensão do Concílio de Trento de uniformização do matrimônio passa a ser exercida pelo Estado. Não se trata de uma transformação, mas, sim, de uma simples transposição (SILVA, 2013, p. 85).
Se na França a ligação entre Igreja e Estado em matéria de casamento é altamente perceptível, no Brasil, em razão da tardia proclamação da República, essa conexão foi ainda mais notável (SILVA, 2013, p. 85).
Assim, a era da codificação transformou os Códigos Civis em verdadeiros estatutos de exclusão. O reconhecimento de uma única família – a formada pelo casamento –, a elaboração de um catálogo taxativo de impedimentos matrimoniais, a consagração civil de um sacramento religioso – consubstanciado na indissolubilidade do vínculo matrimonial –, a estigmatização dos filhos advindos fora do casamento, entre outros aspectos, fizeram com que vários sujeitos fossem colocados à margem do sistema jurídico (SILVA, 2013, p. 86-87).
Nesse cenário, Marcos Alves da Silva (2013, p. 88) assevera que:
O princípio da monogamia consagrado nos sistemas jurídicos inspirados nas codificações oitocentistas prestar-se-á como uma luva à realização das finalidades patrimonialistas, que têm como consequência, ou efeito colateral, o estabelecimento de páreas civis, especialmente, um contingente significativo de mulheres43 que jamais ascenderão à condição de cidadania propalada pelo ideário liberal republicano, cidadania esta que deveria ter no Código Civil sua expressão jurídica de maior fôlego.
Ainda de acordo com Marcos Alves da Silva (2013, p. 89, grifo nosso), a codificação exerceu influência marcante em diversos países:
[...] O Código de Napoleão será referência e inspiração para outros tantos códigos nos séculos XIX e XX. A pretensão de um direito natural positivado abrangerá a regulação das relações de família e, em seu âmbito, o princípio da monogamia
43
Em decorrência da consagração do princípio da monogamia como um dogma do Direito de Família, as mulheres que optam por não segui-lo sofrem pesadas consequências. Nesse sentido, a professora norte- americana Jade Aguilar (2013, p. 107, tradução nossa) afirma que: “[...] Ao rejeitarem a monogamia, as mulheres experimentam repercussões particularmente graves. Entre as consequências menos graves estão ser rotulada como ‘promíscua’ e ter sua moralidade questionada; entre as consequências mais graves está a perda de seus filhos, familiares, amigos, trabalhos e/ou suas reputações. Essas repercussões vão muito além da mera desaprovação social de um comportamento ‘desviante’ [...]”.
desponta como um pressuposto inquestionável, recepcionado da ordem natural das coisas. Sob esse manto mítico da racionalidade iluminista, o princípio passa, praticamente, incólume até o último quadrante do século XX.