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O fio/ ação de Ananse movimento negro brasileiro – cumprindo a missão de desvendar os olhos da sociedade e tirá-la do torpor, fazendo-a enxergar suas próprias mazelas – há muito vem chamando atenção para as desigualdades raciais, desde o fio/ação Frente Negra Brasileira, 1930261. E mais, mostrando que a desigualdade possui “cor”. É preta, é parda, é negra. Essa voz que, historicamente, clama por justiça, hoje conta com incontestáveis aliados que são os dados numéricos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Instituto de Pesquisas Econômica e Aplicada (IPEA), quando esses órgãos analisam o Brasil a partir do corte racial262. Os dados comprovam que a sociedade brasileira deve à população negra um tratamento digno fundado na eqüidade.

Marcelo Paixão, economista, intelectual ativista do fio/ ação movimento negro, realizou um trabalho patrocinado pela Federação de Órgãos para a Assistência Social e Educacional (FASE), do Rio de Janeiro, que trata da elaboração do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) com recorte racial. Vale dizer que o referido estudo apresenta o mesmo rigor metodológico utilizado pelo Programa das Nações Unidas (PNUD) quando da elaboração do IDH de 174 nações do planeta que fazem parte do sistema ONU. O IDH brasileiro, para o ano de 1997 colocava o país na septuagésima nona posição. Entretanto, se o país fosse constituído apenas pela população preta e parda (negra) ocuparia a centésima oitava posição no ranking das nações. Se constituído, apenas pelos brancos, ocuparia a quadragésima nona posição do ranking, conforme o ensaio realizado por Marcelo Paixão.

Portanto, qualquer medida que se queira séria, de combate à pobreza, deve levar em conta as relações raciais. Significa dizer que as políticas públicas de cunho universalistas não darão conta de resolver a questão da desigualdade num país em que as relações sociais são intrinsecamente ligadas às relações raciais. Para serem

261 “Vamos falar do Centro Cívico Palmares, uma associação praticamente precursora da Frente Negra. (Toda preocupação era aquela: unir os negros para uma luta de reivindicação junto aos governos, para que eles ouvissem nosso apelo. [...] O Clarim começou em 1924 e o Palmares foi de mais ou menos 1926 a 1929”. Depoimento de Correia Leite. In: LEITE, José Correia. E disse o velho militante. 19. ed. São Paulo: Nova América, 2007, p. 74 -75.

262 O estudo do IPEA a que me refiro se intitula Desigualdades Raciais no Brasil, org. Por Ricardo Henriques e foi o estudo que subsidiou o documento brasileiro para a III Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerâncias Correlatas. Foi a primeira vez que o Estado brasileiro realizou um estudo sobre a desigualdade fazendo o recorte racial.

conseqüentes, para terem efetividade, as políticas públicas de cunho universalistas, têm que ser acompanhadas de política de ação afirmativa.

O tema da discriminação racial e do racismo passou a fazer parte da agenda do Estado brasileiro, no processo preparatório da III Conferência Mundial Contra o Racismo, a Discriminação Racial e Intolerância Correlata que aconteceu em Durban em 2001. Quando o Brasil elaborou o Relatório brasileiro fundamentou-se num estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômicas e Aplicadas – IPEA – sobre a desigualdade racial no Brasil. O referido Relatório assumiu existência de racismo e de discriminação racial no país. A comissão responsável pela elaboração do Relatório foi constituída pelo Ministério das Relações Exteriores, Procuradoria Geral da República, Secretaria Especial de Direitos Humanos, Ministério da Justiça, Ministério do Planejamento/IPEA, Fundação Cultural Palmares-MINC e por militantes do fio/ação movimento negro. Esse Relatório recebeu a contribuição das Conferências estaduais preparatórias que aconteceram em quase todas as unidades da federação visando a colher propostas dos movimentos negros nos estados. As conferências preparatórias foram patrocinadas pelo Departamento de Direitos Humanos do MRE e a Secretaria Especial de Direitos Humanos, ou pela Fundação Cultural Palmares.

Os Seminários Regionais Preparatórios foram organizadas a partir de temas de interesse da população negra, de forma a ampliar e diversificar a discussão, tanto assim que a conferência do Amapá tratou de “Racismo, meio ambiente e desenvolvimento sustentável”; a do Pará de “Racismo, mito da democracia racial, religiosidade de matriz africana e Comunidades Indígenas” e assim por diante263.

O trabalho do IPEA que subsidiou o Relatório oficial do Brasil, Desigualdades raciais no Brasil, consiste numa pesquisa sistematizada pelo professor Ricardo Henriques. Trata-se de um trabalho detalhado e completo cruzando os indicadores de emprego, renda escolaridade expectativa de vida, classe, idade situação familiar e de região ao longo de 70 anos, desde 1929. Não é demais lembrar que esta foi a primeira vez que o IPEA trabalhou fazendo recorte racial nos diversos indicadores sociais. A conclusão do trabalho é a de que há uma profunda desigualdade racial no país. Os pardos sempre estão em desvantagens em relação aos brancos e os pretos acumulam, ainda, maior desvantagem, em relação aos brancos. Os dados demonstram que o

263 Sobre o assunto, verificar os Anais dos Semanários Regionais Preparatórios, publicado pelo MRE e SEDH, em 2001.

pertencimento racial no Brasil define a situação socioeconômica das pessoas.

Uma das conclusões óbvias é a de que a pobreza é negra. Diante da gravidade exposta pelos dados, considero importante tecer um breve comentário sobre a pesquisa.

Portanto, conforme a pesquisa, população do Brasil é de aproximadamente 180 milhões de pessoas, 47% desse total é constituído de pessoas negras (40% pardas e 7% de pretos); do total da população brasileira, 25 milhões vivem abaixo da linha de pobreza, ou seja, vive em condição de indigência, definida como a situação daquelas pessoas que não consomem o número de calorias mínimo recomendado pela Organização das Nações Unidas-ONU. Desses 25 milhões, 70% são pretos e pardos – negros –. Ainda mais. Do total da população, 58 milhões vivem na condição de pobreza, desse total, 63% são negros.

No ano de 2000 o IPEA fez um desdobramento da pesquisa para verificar a desigualdade racial nas diversas fases da vida. No desdobramento, verificou que na faixa de zero a seis anos a pobreza atinge 51% das crianças brasileiras; desse total, 38% são de crianças brancas e 65% são de crianças negras, demonstrando que adesvantagem dos negros em relação aos brancos começa muito cedo, desde a infância. O que implica dizer que para cada 100 crianças pobres de cor branca, existem 170 crianças negras pobres.

Na faixa entre 7 e 14 anos, o percentual de brancos pobres é de 31%, enquanto o de negros pobres é de 61%. Na faixa entre 15 e 24 anos o percentual de brancos pobres é de 22%, enquanto o de negros pobres é de 47%. Como se pode observar, a desvantagem dos negros começa na infância, segue na adolescência e permanece na vida adulta, É uma desvantagem crônica. Motivo que por si só, aponta para a necessidade de intervenção do Estado, no sentido da implantação de políticas públicas não apenas de combate à pobreza – política de cunho universalista. Mas, além das políticas públicas de cunho universalista, se faz necessário a implantação de medidas específicas com o objetivo de reduzir ou eliminar as desvantagens acumuladas em decorrência da discriminação racial – políticas de ação afirmativa.

O fato de se apontar para a necessidade das políticas específicas que indicam um “foco” específico, não anula, de modo algum, a necessidade das políticas de cunho universalista. Ao contrário. Os investimentos em políticas públicas universalistas devem continuar a fim de que o Estado cumpra o papel de garantir o bem- estar -social de todos. Entretanto, se grupos que compõem esse todo, são vítimas de discriminação e por

isso, acumulam desigualdades. A esses grupos, o Estado deve destinar

Programas de políticas com foco específico, a fim de que alcancem patamar de igualdade, em relação aos grupos não discriminados e possam, então, fazer parte do todo, em condições de igualdade de direito, de tratamento e de oportunidade. Significa dizer que as políticas de ação afirmativa não se opõem às políticas públicas de cunho universalistas, na verdade, elas funcionam como um reforço, uma espécie de complemento necessário que visa à construção da igualdade material com base em critérios socioeconômicos.

Continuando a linha de demonstrar a desigualdade, a pesquisa do IPEA apresenta dados estatísticos alarmantes, no que diz respeito à média educacional. O estudo mostra que ao longo do século XX, a média educacional do país melhorou. O que quer dizer que aconteceram melhoras constantes. Contudo, a diferença entre brancos e negros não se alterara, ao longo do século. Isso que dizer que um jovem negro, no que tange à educação, herdou a desvantagem racial sofrida pelo avô que, por sua vez, passou para o seu pai, e esse legado lhe foi transmitido. Há uma curva nas linhas paralelas a separar a escolaridade média entre brancos e negros, um fosso histórico entre brancos e negros.

Diante dos dados, a conclusão obvia é a de que apenas as políticas públicas, de cunho universalista, na área da educação, não serão suficientes para eliminar o fosso da média de escolaridade. Deverá haver medidas específicas com essa finalidade. Políticas que visem à construção de uma convergência e assim, a média de escolaridade possa caminhar em linha única sem que haja desvantagem para as pessoas negras. Os mesmos dados indicam que apenas o percentual de 30% da população negra consegue terminar o ensino fundamental menor - primeira à quarta série. A conseqüência direta desse fato vai gerar a presença na sociedade de jovens negros com menos anos de estudos. Jovens despreparados para o mercado de trabalho e sem condições nenhuma de mobilidade social na fase adulta.

O mais trágico é que esta análise do IPEA se dá no final do século XX e início do século XXI. Isso demonstra que, após mais de um século de abolida a escravidão, os descendentes dos africanos, no Brasil, ainda não têm chance de competir num patamar de igualdade, em relação aos brancos, no que diz respeito aos benefícios e riquezas que eles ajudaram a construir. Aqui, vale lembrar que a conclusão a que chega o IPEA não é de todo nova, pois o trabalho do professor Carlos Hasenbalg, realizado na década e

1970, sobre Discriminação e Desigualdade Raciais no Brasil, já se tornara um clássico sobre o assunto.

Como se pode observar, o estudo sobre a desigualdade racial no país, tendo como pano de fundo o racismo e a discriminação racial, embora recente, não se constitui numa novidade. O próprio professor Carlos Hasenbalg continua sua pesquisa e publica outras obras sobre o assunto. Entre elas, Estrutura social, mobilidade e raça, (1988), esta em co-autoria com Nelson do Valle e Silva; Relações raciais no Brasil contemporâneo (1992); e Origens e destinos, desigualdades raciais ao longo da vida (2003). Portanto, embora timidamente, a academia já se pronunciara sobre o assunto. Com efeito, sobre este assunto já me reportei no primeiro capítulo desta tese.

Entretanto, o professor Carlos Hasenbalg, no último capítulo de sua obra Discriminação e desigualdades raciais no Brasil, faz uma análise sobre a inserção, na sociedade brasileira, dos herdeiros de Ananse, no período pós-abolição. Essa análise demonstra que a mobilidade social ascendente experimentada pelos herdeiros de Ananse foi bastante restrita, fato que não apenas acentuou a desigualdade como a perpetua, até os nossos dias. E mais, na apresentação feita à primeira edição observa que o mito da democracia racial funciona como uma espécie de impedimento de ordem ideológica que prejudicou a possibilidade de criação e produção de uma identidade coletiva dos herdeiros de Ananse: “a adscrição racial fracassou na produção de uma identidade coletiva e de uma mobilização política de negros e mulatos com o fim de exigir igualdade efetiva com os brasileiros brancos ou, noutros termos, de reivindicar que a mitologia racial se tornasse uma realidade” 264.

Considero que a observação feita pelo professor Carlos Hasenbalg não era desconhecida dos herdeiros da deusa, que bem ou mal, a despeito de toda ordem de dificuldades, não perderam o ânimo para lutar. Contudo, a assertiva pode ser lida como é uma espécie de prenúncio do rumo que a luta irá seguir, a partir do final da década de 1970.

O sentimento de identidade coletiva era algo que os herdeiros de Ananse haviam deixado escapar. Ou melhor, digo que num primeiro momento, os africanos escravizados trazidos pelo tráfico, transformaram o território perdido, o continente africano, em símbolo de identidade coletiva. Entretanto, este símbolo perdeu-se, ao

264 HASENBALG, Carlos. Discriminação e desigualdades raciais no Brasil. Belo Horizonte: editora da UFMG; Rio de Janeiro: IUPERJ. 2- ed. 2005; p. 20 Apresentação à primeira edição.

longo do tempo. Foi cada vez ficando mais distante, talvez nem tanto pelo

tempo, mas, em conseqüência dos esforços empreendidos pelo antagonista, para apagar a África da memória dos descendentes dos africanos escravizados. Construir outro símbolo de identidade coletiva capaz de unir o fio/ação movimento negro exigirá uma longa caminhada. Neste momento, abro um espaço para pensar e relatar, não a longa caminhada, mas, fazer um breve resumo do processo de construção dessa identidade coletiva dos herdeiros de Ananse do fio/ação movimento negro contemporâneo. Nesta perspectiva, o novo símbolo de identidade coletiva construído, contemporaneamente pelos herdeiros de Ananse no Brasil, não estará mais no território africano, e sim, em território brasileiro.