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PERSPECTIVAS DA COMUNIDADE MARGINALIZADA – BAIRRO SANTA MARIA

ESTADO AUTORITÁRIO, CENSURA E IMPRENSA: GAZETA DE

PERSPECTIVAS DA COMUNIDADE MARGINALIZADA – BAIRRO SANTA MARIA

Autora: Maria Aline Matos de Oliveira Graduanda em História/UFS – Bolsista PIBID/CAPES [email protected] Co- autora: Taís Danielle Alcântara de Araújo Silva Graduanda em História/UFS – Bolsista PIBID/CAPES [email protected] Orientadora: Prof.ª Drª. Célia Costa Cardoso (DHI/UFS) [email protected] Introdução

A condição social inferior em que se encontram comunidades do município de Aracaju está sendo de forma crescente objeto de estudo e análise de diversos campos do saber. Ainda hoje, muitas destas se encontram em uma realidade à parte do convívio social, privação de recursos e assistências públicas. Em contrapartida existe também uma criação de imagem social sem nenhum tipo de problemas, associada ao símbolo de mudanças, avanço e qualidade de vida que estão ligadas a uma gestão urbana que prevalece na capital e que não condiz com a situação aqui trabalhada. Optamos por

136 expor essa discussão apresentando o Bairro Santa Maria e as contradições alí encontradas para tentar compreender os aspectos revelados que prevalecem desde o inicio de sua formação. Nosso objetivo de pesquisa ainda em curso foi atentar para a reflexão das consequências do descaso para toda sociedade, dentre os quais podemos verificar o crescimento da violência e marginalização.

Do povoado Terra dura ao bairro Santa Maria

Aracaju é a capital de Sergipe o menor estado do Brasil, foi fundada no ano de 1855 com a transferência da capital, anteriormente São Cristóvão. Ela é a segunda cidade planejada do país, cujo projeto foi elaborado pelo engenheiro José Basílio Sebastião Pirro. Foi no século XX que ocorreu o processo de ocupação da periferia da cidade, com intensos fluxos migratórios de uma população de baixa renda que veio da zona rural para trabalhar no setor secundário e não encontraram emprego, no entanto eles foram trabalhar no mercado informal em serviços domésticos, biscates, vendas ambulantes, para conseguir recursos financeiros de subsistência na sustentação das suas famílias. A formação do bairro Santa Maria, antigo povoado Terra Dura [1] está diretamente ligado ao crescimento urbano da cidade como um todo, e muitas vezes acarreta diversos problemas não só no estado de Sergipe, como também em diversos estados do país. Neste sentido Antônio Carlos Campos afirma:

“O crescimento acelerado da população urbana no Brasil nas últimas quatro décadas, gerou sérios problemas infraestruturais nas cidades já consideradas metrópoles nacionais e nas principais capitais estaduais, uma vez que o ritmo dos investimentos urbanos direcionados à provisão de serviços, geração de empregos e planejamentos não acompanhou essa processo”. (CAMPOS, 2006, p. 223)

De acordo com o relatório ambiental (SEPLAM, 2004) a área do atual bairro Santa Maria, era ocupada com atividades rurais, apresentando manguezais, cerrados e remanescentes da Mata Atlântica, as pessoas residentes eram trabalhadores rurais e pescadores que viviam praticamente isolados de Aracaju. No inicio do século XX, com a construção do canal de Santa Maria ligando à bacia do rio Sergipe a do Vasa Barris, com o objetivo de facilitar a acessibilidade, a área foi ocupada pelas pessoas que foram trabalhar nas obras, assim surgiu pequenos sítios com coqueiros, fruteiras e cultivos alimentícios, dando origem ao povoado.

137 A ocupação urbana iniciou-se a partir de 1932, sendo que a aceleração deu-se a partir da década de oitenta com a implantação de conjuntos habitacionais a fim de atender a demanda por parte de uma população de baixa renda, porém sem infraestrutura, irregulares, de risco e sem preservação ambiental. As casas deveriam ser destinadas as famílias com renda de 1 a 4 salários mínimos, mas, até hoje não foram construídas. As casas existentes são 1800, construídas em regime de mutirão pela Fundese numa tentativa de associar à moradia as condições de trabalho.

Essas características representam um reflexo da formação de favelas no Brasil, no bairro Santa Maria não poderia ser diferente, a população de origem são homens e mulheres pobres que não tinham condição de morar em outros locais, foram se unido formando barracos sem a menor condição de subsistência, sem políticas publicas que amenizassem os seus sofrimentos, e assim, foi se proliferando essa comunidade de pessoas marginalizadas pela sociedade. Na atualidade o bairro apresenta altos índices de violência, a comunidade sofre sem a menor infraestrutura, com ruas sem calçamentos, esgoto a céu aberto, falte de segurança, escolas insuficientes e com posto de saúde que não atende as necessidades dessa população, esses motivos representam a formação de uma comunidade carente em todos os aspectos.

“Para os negros, camponeses, trabalhadores rurais e urbanos, favelados, menores abandonados e delinquentes juvenis, mendigos, domésticas e outros grupos discriminados, oprimidos ou marginalizados, às vezes chamados de o lixo da sociedade”. (MOONEN, 1988, p.59-60)

Ainda na década de oitenta, a transferência da lixeira do bairro Soledade localizada no município de Nossa Senhora do Socorro para o bairro Santa Maria, atraiu pessoas para trabalhar como catadores, e com isso a presença de vetores transmissores de doenças resultantes do acúmulo e disposição inadequada do lixo, como também implicou na degradação ambiental, desvalorização dos terrenos, desconforto e insegurança para a população.

Ótica periférica? Ou uma realidade desconhecida?

No dia 12 do mês de outubro do ano fluente, nos deslocamos até a comunidade do bairro Santa Maria, mais precisamente no conjunto Jardim Recreio conversando e colhendo depoimentos dos moradores sob a ótica hisórica/social e econômica. As

138 entrevistas totalizaram (24) vinte e quatro, mediante um pequeno questionário onde podemos verificar as condições de moradia, saneamento básico, disponibilidade de transporte, educação, saúde e principalmente discriminação no que pertine as ofertas de trabalho e renda.

No início da pesquisa tivemos algumas resistências por parte dos entrevistados que relutavam em responder, mas com as explicações de que se tratava de um levantamento para estudo pelos alunos da Universidade Federal de Sergipe aos poucos fomos obtendo confiança e receptividade por parte dos moradores da região sobre o estudo. Podemos notar que existem muitas dificuldades: o déficit na infraestrutura, pois na maioria das ruas o esgoto é a céu aberto, muito lixo acumulado nas proximidades, as ruas não possuem calçamento, as moradias são precárias, de taipa inclusive, em algumas casas ainda é utilizado o fogo á lenha, isso denota a situação de baixa renda e pobreza em que se encontram. Uma entrevistada sobrevive de 30 reais semanais, proveniente da venda de materiais recicláveis do lixão do bairro, assim se no bairro não há o mínimo de estrutura, os moradores nem cogitam a hipótese da existência de praças e complexos esportivos, ou quaisquer tipo de lazer.

Em relação á segurança, a insatisfação da comunidade foi unânime. O policiamento não é eficaz; deixando a população insegura e com um sentimento de impotência, visto que não podem fazer muita coisa para modificar esse quadro que também pode ser constatado no trasporte público, que só passa no Jardim Recreio até ás 19h00min horas, dificultanto a vida dos que dependem desse meio de locomoção. Privando-os do mínimo direito de ir e vir assegurado pela nossa constituição.

O caos da saúde pública também é refletido na comunidade pesquisada. Pode-se dizer que há racionamento de fichas para o atendimento. Um depoimento dado informou que o posto de saúde disponibiliza uma ficha para cada família, no entanto a consulta só será realizada, em média a partir de 30 a 60 dias.

Os moradores sofrem preconceito em relação ao mercado de trabalho por morar em periferia, visto no depoimento de um dos moradores que afirma que ele, assim como muitos de seus familiares e conhecidos, utiliza endereço de outros bairros como a Farolândia, pois se colocarem seu verdadeiro endereço possivelmente não consegue o emprego. As empresas e a própria sociedade têm preconceito com essas comunidades marginalizadas, essa postura demonstra a construção do esteriótipo de que esses indivíduos, por morar em favelas são delinquentes e desonestos, uma opinião bastante equivocada. Podemos constatar que, o que leva essa população a morar lá é a falta de

139 condições finaceiras e oportunidades, e que nem por isso os indivíduos deixam de trabalhar e batalhar por um futuro melhor para si e seus filhos.

- O questionário constou das seguintes indagações: 1-Há quanto tempo o(a) senhor(a) mora no bairro? 2-Quantas pessoas residem em sua casa?

3-Qual a renda familiar? 4-Avalie a segurança do bairro. 5-Avalie o posto de saúde. 6-Qualifique as escolas.

7-Como é o transporte público?

8-Em relação ao mercado de trabalho, o (a) senhor(a) já sofreu algum tipo de preconceito pela localização?

9-O bairro oferece algum tipo de lazer (praças, complexos esportivos)?

Tabulação de amostragem de pesquisa:

1. Pessoas entrevistadas...24 2. Tempo em que vivem no bairro (média em anos)...10 3. Renda familiar (salarios mínimos)...1 4. Pessoas residentes na habitação (média)...5 5. Transporte público...ruim 6. Dificuldades de conseguir emprego devido a sua localização ...sim 7. Escolas...ruim 8. Praças...(0)zero 9. Lazer...(0)zero

Politicas públicas na cidade da “qualidade de vida”

A sociedade é formada por um conjunto de pessoas que tem características e aspectos singulares, a politica é o meio de organização que une e regulamenta as comunidades, com suas leis e normas facilitando a pratica e eficácia da mesma. As politicas públicas são responsáveis pela elaboração de projetos que beneficie a sociedade em geral. Em relação às comunidades carentes de Aracaju, em especifico o bairro pesquisado Santa Maria, pode-se revelar o quanto essas pessoas sofrem por falta de estrutura física e de condições de subsistência. A cidade da qualidade de vida é o

140 slogan publicitário dos governantes, representando de maneira arbitrária um fato que não coincide com a realidade das comunidades menos favorecidas.

O bairro Santo Maria é considerado uma favela porque esta a margem da sociedade, não por está afastado do centro comercial ou geograficamente dos bairros privilegiados, mas por problemas de diversas ordens alí presentes. A qualidade ainda não chegou nesse ambiente, o direito a moradia, saúde, educação, lazer, previsto na constituição brasileira infelizmente não é visto por esses cidadãos e cidadãs que possuem muito pouco para suprir as suas necessidades, esse fato concretiza o tema abordado. Nesse sentido Maria Celia Paoli cita:

“De maneira geral, a noção de marginalidade propôs-se a caracterizar certos processos recentes do desenvolvimento de sociedades ou países latino-americanos, processos estes referidos, no plano econômico, ao crescimento do desemprego, do subemprego, da falta de estabilidade e produtividade em certas ocupações, à pauperização acompanhados de um estilo de participação politica oscilante e ambígua”(PAOLI, 1978, p.34).

Politicas públicas necessárias para tornar Aracaju uma cidade de qualidade, deve ser desenvolvida no âmbito da igualdade social, diminuição da miséria, pobreza e investimentos no desenvolvimento de projetos para aumentar os empregos nas comunidades necessitadas. Esse fato é o sonho de toda sociedade, no entanto, para que isso aconteça às dificuldades serão imensas, porque é mais fácil colocar essas populações no invisível e divulgar para todo o país que há qualidade de vida em toda a sociedade aracajuana. O bairro mais populoso da capital com 50,000 habitantes não faz parte desta analise do governo. Há um interesse econômico e politico dos governantes na tentativa de camuflar as dificuldades presentes nesse bairro.

As estratégias politicas dos governantes ao mudar o nome do bairro de Terra Dura para Santa Maria, a construção de conjuntos habitacionais, temos o exemplo do conjunto Marivam, revelam uma tentativa de elitização dessa localidade, com casas bem estruturadas, e condomínios luxuosos. Temos uma nova visão imposta pelo governo, em relação ao bairro que tenta mostrar o lado bom dos investimentos, não representando uma totalidade real, pois o conjunto Jardim Receio, já abortado na pesquisa aqui presente, é um exemplo de descaço e esquecimento, com falta de todos os tipos de infraestrutura, um local com extrema miséria.

141 Conclusões parciais da pesquisa

Apesar de nossa pesquisa ainda se encontrar em fase inicial, podemos afirmar que essa temática requer uma longa e talvez polêmica abordagem. Porém, é de fundamental importância procurar fazer com que seja ouvida e apresentada à voz de um povo que desde muito tempo é carente de atenção. Não podemos negar que as diversas melhorias sociais vêm acontecendo em nosso estado. Contudo ainda há um longo caminho a ser percorrido. Esse, menos vinculado à imagem da ordem vigente que já alcançou um desenvolvimento pleno e que agora desfruta o status alcançado. Nosso objetivo enquanto estudante foi questionar se realmente há uma qualidade de vida em Aracaju. Constatamos através de todos os dados coletados a concretização de que Aracaju não é a capital da qualidade de vida, pois ela não alcança a todos e sim a uma minoria da sociedade.

Notas:

[1] A mudança do nome para bairro Santa Maria foi denominada segundo a lei municipal de Aracaju nº 2811, de 08 de maio de 2000.

Referencias Bibliográficas

RIBEIRO, Darcy. O dilema da América Latina: estruturas de poder e forcas insurgentes. 2. ed. Petrópolis RJ: Vozes, 1979. 273 p.

HOGAN, Daniel J.; KOWARICK, Lúcio. LUIZ ANTONIO MACHADO DA SILVA. MANOEL TOSTA BERLINCK. MARIA CELIA PAOLI. Cidade usos e abusos. São Paulo: Brasiliense, 1978. 166 p.

CAMPOS, A. C. “A construção da cidade Segregada: O papel do Estado na Urbanização de Aracaju”. In: O Ambiente Urbano: Visões geográficas de Aracaju. Aracaju, Editora UFS-SE. P.p 223-246. (2006).

MOONEN, Frans. Antropologia aplicada. São Paulo: Ática, 1988. 71 p.

SEBRAE: In: Diagnóstico bairro Santa Maria, URBE - Programa Sebrae para o desenvolvimento sustentável em áreas metropolitanas. Aracaju, 2007.

VIEIRA, E. C. J. Políticas Urbanas e construção da imagem da cidade: Da Terra Dura ao bairro Santa Maria em Aracaju-SE, Ano de Obtenção: 2011.