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O PROGRAMA DE CONTEÚDOS E EMENTÁRIO EFETIVADO EM SALA DE AULA

ESTADO AUTORITÁRIO, CENSURA E IMPRENSA: GAZETA DE

O PROGRAMA DE CONTEÚDOS E EMENTÁRIO EFETIVADO EM SALA DE AULA

A turma na qual a pesquisa foi realizada foi uma turma do 5º ano e as aulas aconteciam três vezes por semana e deveriam durar em média 40 minutos, mas geralmente duravam em média, 20 minutos. A turma era formada por 27 alunos, 15 meninas e 12 meninos com idades entre 9 e 11anos. A maneira como as aulas aconteciam eram padronizadas, desenvolvendo-se diariamente da mesma forma. As carteiras organizadas do mesmo jeito, a professora sempre no mesmo lugar a frente da turma realizando a leitura do texto contido no livro didático, fazendo algumas observações, alguns questionamentos sem, contudo, aguardar a resposta dos alunos. As atividades/exercícios eram realizadas em casa. Acompanhemos uma das aulas desenvolvidas.

Na aula do dia 2 de abril, os assuntos abordados foram a riqueza proporcionada pela produção do açúcar e as capitanias hereditárias. Ao falar sobre os engenhos a professora disse que os índios não quiseram mais trabalhar quando as plantações de açúcar foram crescendo, que eles não queriam trabalhar no ritmo pesado que tinha sido com o pau-brasil porque eles estavam acostumados a pescar, caçar e plantar na hora deles, então recusaram-se a trabalhar no plantio e transformação da cana-de-açúcar. Comentou também que, para que o trabalho dos engenhos desse certo os portugueses trouxeram escravos da África para trabalhar pegando no pesado. Afirmou também que muitos eram comprados e perguntou aos alunos: “Pode comprar gente?” Os alunos responderam: “Não!” Ela disse “isso mesmo, não pode!” Informou o quanto os negros foram maltratados, espancados quando desobedeciam ou não davam conta do serviço, que não recebiam dinheiro em troca do trabalho, somente comida de má qualidade, quando comiam, e a dormida era no chão sem conforto nenhum. Mencionou que isso havia acontecido antes e que hoje em dia não podia fazer mais não. Que somos um povo miscigenado,

169 somos frutos da mistura de europeus que vieram para cá, dos índios que aqui já viviam e de negros que foram trazidos para cá (DIÁRIO DE CAMPO, 02/04/2012).

Ao indicar às crianças que os índios se recusaram a trabalhar nos engenhos, sem contextualizar que essa posição foi uma resistência dos grupos indígenas à dominação colonial, permanece uma imagem equivocada de que os mesmos eram preguiçosos, apesar dela não ter utilizado esta palavra. Contudo, em suas expressões faciais e entonação de voz ao dizer que os índios não queriam mais trabalhar para os portugueses porque estavam acostumados a pescar, caçar e plantar, por isso não estavam acostumados ao serviço pesado, denuncia uma discriminação em relação aos indígenas. Mais uma vez os índios são tratados como pessoas que, por resistirem ao trabalho escravo não seriam merecedores de reconhecimento porque representam a formação de um povo acomodado.

Segundo a narrativa da professora, em relação à troca da mão de obra indígena pela africana, os negros foram trazidos para o Brasil devido à recusa dos indígenas em trabalhar pesado e por serem mais fortes do que os índios. Durante esta aula ela não se referiu aos negros como africanos e escravos, somente fez a ligação no final da aula quando disse que os escravos trazidos da África eram homens e mulheres negros que foram retirados do seu país para trabalhar aqui. Nessas circunstâncias podemos perceber que

[...] O currículo é, sem dúvida, entre outras coisas, um texto racial. A questão da raça e da etnia não é simplesmente um “tema transversal”: ela é uma questão central de conhecimento, poder e identidade. O conhecimento sobre raça e etnia incorporado no currículo não pode ser separado daquilo que as crianças e jovens se tornarão como seres sociais (SILVA, 2004, p. 102).

Nesta perspectiva o tratamento dado pela professora aos negros que foram escravizados não proporciona aos alunos um momento de reflexão, mesmo que ela tenha lido no livro e comentado o quanto os negros foram maltratados pelos europeus. Ao não proporcionar uma reflexão historicamente situada sobre a produção da escravidão e o aparato cultural, econômico e político que a sustentou, não possibilita que as crianças compreendam que o preconceito e a exclusão social do negro na sociedade brasileira, é uma produção histórica temporalmente situada, mas que se perpetua nas relações sociais vivenciadas no cotidiano.

É importante frisar aqui que, em nenhum momento da aula, a professora usou a palavra preconceito em relação à população negra no Brasil e assim deixou de tratar de

170 um assunto pertinente em nossa sociedade e vivenciado pelas crianças. Essa postura comprova que “a identidade étnica e racial é, desde o começo, uma questão de saber e poder” (SILVA, 2004, p. 100). E sendo assim

A identidade é sempre uma relação: o que eu sou só se define pelo que não sou; a definição de minha identidade é sempre dependente da identidade do Outro. [...] A identidade não é uma coisa da natureza; ela é definida num processo de significação: é preciso que, socialmente, lhe seja atribuído um significado (SILVA, 2004, p. 106). Neste sentindo a “construção da identidade é um fenômeno que se produz em referência aos outros, em referência aos critérios de aceitabilidade, de admissibilidade, de credibilidade, e que se faz por meio de negociação direta com os outros” (POLLAK, 1992, p. 5). Deste modo, entendemos que os processos de identificação são construídos socialmente, nas relações existentes entre os indivíduos, entre os grupos sociais.

CONCLUSÕES

A proposta curricular do município de Aracaju apesar de apresentar uma perspectiva da Nova História, é efetivada neste caso, numa orientação positivista através de uma prática pedagógica tradicional. O positivismo é a perspectiva historiográfica que presenciamos quando a história narrada pelo livro didático e lida pela professora durante as aulas apresenta uma versão europeizada dos acontecimentos que marcaram a colonização portuguesa do Brasil. A história, como afirma Furet (1979, p. 123) nunca é inocente. Ela representa uma versão que corresponde, frequentemente, a visão de um determinado grupo social.

A utilização do livro didático persiste como orientador das aulas, mesmo o município possuindo uma proposta curricular. A história narrada aos alunos acaba por impedir que os educandos percebam-se como parte da história, e não se identifiquem como pertencentes à nação e ou ao grupo social, porque não compreendem os processos que envolvem a construção das relações sociais.

Contudo, a partir do que observamos e analisamos, as práticas realizadas na sala de aula limitam os processos de identificação dos alunos com a História, porque não possibilitam aos sujeitos conhecimentos que sejam válidos para a compreensão de mundo e da estrutura social na qual eles vivem, sem apresentar a diversidade social existente, o que acaba por ocultar e silenciar indivíduos e grupos sociais, inviabilizando a percepção dos alunos como sujeitos históricos e construtores da História.

171 Notas

[1] Pesquisa vinculada ao PROGRAMA DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA - PIIC, da Universidade Federal de Sergipe, referente ao período de 2011-2012.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARACAJU. Prefeitura Municipal. Secretaria Municipal de Aracaju. Programa de conteúdos curriculares do ensino fundamental e para a educação de jovens e adultos – EJA da rede municipal de Aracaju/Secretaria de Educação. Aracaju: SEMED, 2008. 601p.

FURET, François. A oficina da História. Tradução revista por Adriano Duarte Rodrigues Lisboa: Gradiva, 1979, p. 109-135.

GIL, Antonio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2002.

MACEDO, Vanessa dos Santos. Ensino de história: reflexões sobre os fundamentos teórico-metodológicos na proposta pedagógica do município de Aracaju para os anos iniciais do ensino fundamental. In: ANAIS II Seminário Visões do Mundo Contemporâneo: as estações da história: do grande inverno russo à primavera árabe. São Cristovão, UFS, 2012.

MAQUES, Warlen Fernandes Soares. Pesquisa qualitativa em educação: reflexões.

2004. Disponível em:

<<http://www.psicopedagogia.com.br/artigos/artigo.asp?entrID=592>>. Acesso em: 23 de jan. 2012.

MARTINS, Maria Alice Hofman. “Dizer e fazer usando o Logo Gráfico: um caso de afasia semântica”. 2002. Disponível em: <<http://mariaalicehof5.vilabol.uol.com.br/>>.

Acesso em: 23 jan. 2012.

MEC. Portal ideb. Disponível em:

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NADAI, Elza. O ensino de história no Brasil: trajetória e perspectiva. Revista Brasileira de História, São Paulo. set. 92/ago. 93, v. 13, nº 25/26, p. 143-162.

POLLAK, Michael. Memória e identidade social. Tradução de Monique Augras. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 5, nº 10, 1992. Disponivel em: << http://www.historicidadecom.net63.net/memoria_e_identidade_social.pdf>> Acesso em: 23 jan. 2012.

SILVA, Tomaz Tadeu da Silva. Documentos de identidade: uma introdução às teorias do currículo. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.

172 A ESSÊNCIA DE UM CONFLITO: QUANDO O MODELO ELEITORAL DO

LESOTO DEFLAGROU A CRISE DE 1998

Autor: Cléverton Bezerra da Silva Graduando em Relações Internacionais / UFS [email protected] Orientador: Profª Drª Tereza Cristina Nascimento França (NRI/UFS)

A essência de um conflito: um apanhado teórico

Para iniciar a análise sobre a crise do Lesoto de 1998, primeiramente, é necessário esclarecer o conceito de conflito e de segurança que será trabalhado pelo presente escrito. O conceito de conflito, de um lado, está relacionado a divergências nas relações e diálogos entre as partes, levando à impossibilidade de coexistência de interesses, necessidades e pontos de vista das mesmas. O conceito de segurança, por outro lado, está relacionada ao State Building, ou seja, o processo de formação do Estado (AYOOB, 1986).

Cruzando ambos os conceitos, o que se destaca é que conflito e segurança não

correspondem necessariamente ao choque violento entre dois Estados, configurando um estado de guerra. Partindo dessa constatação, usa-se, com limitações, os argumentos de Noberto Bobbio, em “Teoria Geral da Política” e Hedley Bull, em “A Sociedade Anárquica”, como suporte dessa constatação. Ambos os autores entram em concordância ao argumentar que há um intermediário entre guerra e paz, o que desloca o conflito de uma lógica restrita de guerra (SILVA; BARRETO, 2011), no entanto não avançam em análises sobre uma lógica infra-estatal de conflitos, tornando necessário, para esse fim, conjuga suas ideias com o conceito de

segurança ligado ao State Building de Ayoob.

Firmado o caráter distanciado da lógica da guerra do conflito, retoma-se o argumento de Oliver Ramsbotham: “Conflitos são dinâmicos, podem crescer ou diminuir e são constituídos por uma teia complexa de atitudes e comportamentos que podem assumir suas próprias realidades” (RAMSBOTHAM, 2011). Depreende-se desse argumento que o caráter dinâmico torna o conflito imprevisível, uma vez que não há como ter certeza de se o conflito irá crescer ou diminuir, no entanto essa imprevisibilidade comporta a montagem de análises prospectivas, com a formulação de diferentes cenários que permitem identificar as diversas atitudes e comportamentos que podem fazer com o conflito escale ou atenue.

173 Terminada a discussão em torno do conceito de conflito e de segurança, é importante ressaltar o modelo de conflito social prolongado de Edward E. Azar, em “The management of protracted social conflict”. Azar divide o seu modelo em cinco pontos:

1. Contexto: relacionado, por exemplo, a questões coloniais, multiétnicas e históricas; 2. Necessidades: relacionadas à necessidade de reconhecimento de identidade e cultura, a

necessidades de acesso à participação econômica e política e a necessidades de segurança;

3. Capacidade: relacionada à questão militar, à governança e a padrões de ligação na política e na economia internacional;

4. Atores: relacionados aos atores estatais e aos grupos populares;

5. Conflito: através da dinâmica dos pontos anteriores, o mesmo é estabelecido (MIALL, 2004, p. 6).

No quinto ponto do modelo de Edward E. Azar, será importante promover uma comunicação com o esquema da dinâmica entre os fatores (agravadores e atenuantes) e as fases (pré-violência, crise, escalada, prolongamento, pós-acordo), como desenvolvido por Hugh Miall:

FONTE: MIALL, 2004, p. 7

A essência de um conflito: a crise do Lesoto de 1998

Antes de se ater à crise de 1998 em si e suas consequências, é importante retornar até o resultado das eleições de março de 1993, que teve considerável relação com a crise que viria a ocorrer cinco anos depois. Nas eleições desse ano, o Basutoland Congress Party (BCP) venceu, com 74,7% do voto popular, e conseguiu todos os 65 assentos da Assembleia Nacional do país. Apesar de as eleições terem sido reconhecidas como legítima por observadores internacionais, o resultado das mesmas foi rejeitado pelo Basotho National Party (BNP).

174 Desde as eleições de 1965, na qual o BNP vencera o BCP, o primeiro partido tinha predominado no governo do país. Essa predominância governamental, a partir de 1974, foi mantida através da centralização do governo, mas após pressões externas e internas a favor da democratização do Lesoto, quase duas décadas depois, o BNP não resistiu às pressões, o que levou ao retorno do exílio da liderança do BCP e à mobilização popular durante o preparo das eleições de 1993.

Em 1993, o BCP subiu ao poder, no entanto o seu governo enfrentou problemas, devido, principalmente, a um golpe de Estado monárquico executado, em agosto de 1994, encorajado pelo BNP e apoiado pelo exército do país (majoritariamente inclinado para o BNP). O golpe enfrentou oposição popular e regional e, em setembro de 1996, após pressões diplomáticas, o governo do BCP foi restabelecido no poder. O partido da situação enfrentou disputas internas pela liderança do partido que levaram à saída do primeiro-ministro Ntsu Mokhehle do partido e à formação, em junho de 1997, de um novo partido, Lesotho Congress of Democrats (LCD), pelo próprio Mokhehle, com o apoio da maioria do Parlamento. O primeiro ministro declarou o LCD como o partido governante, levando o BCP ao status de oposição.

Alcançando a crise de 1998, são identificáveis duas diferenças fundamentais entre o quadro eleitoral desse ano e o de 1993: os assentos da Assembleia Nacional aumentaram de sessenta e cinco para oitenta e a administração da eleição de 1998 ficou a cargo da Independent Electoral Comission (IEC), para evitar que o governo tivesse facilidade para influenciar as eleições, no entanto, antes da eleição de maio, a mesma enfrentaria desconfiança por parte dos partidos da oposição, por certas irregularidades por parte da mesma concernentes à atualização numérica do eleitorado.

As eleições desse ano foram assistidas por 550 observadores internacionais ou nacionais do Lesoto. Esses observadores abarcaram em torno de dois terços dos locais de votos e concluíram que as eleições foram conduzidas de acordo com os padrões internacionais. O resultado das eleições para os três principais partidos estão expostos no seguinte quadro:

1993 1998 Variação

Votos registrados 763,930 837,608 76,678

BCP 398,355 (74.7%) 61,995 (10.4%) - 336,360

175

BNP 120,686 (22,6%) 145,210 (24.4%) 24,524

FONTE: SOUTHALL; FOX, 1999, p. 678

O fato de o LCD somente não ter obtido um dos assentos da Assembleia Nacional levou o BNP e o BCP a se aliarem em oposição, por acreditarem que o resultado da eleição tinha sido forjado. A oposição se mobilizou protestando pelas eleições que eles consideraram fraudulenta. Para dar suporte ao que se estabelecia como uma crise emergente, setores da mídia sul-africana e internacional abarcaram o caso da oposição e aumentavam as tensões entre diferentes facções do exército. Com o aumento das tensões, em agosto de 1998, diplomatas da SADC, liderados por um ministro sul- africano, deslocaram-se ao Lesoto para estimular um acordo negociado. No entanto, para conseguir com que ambas as partes, o LCD e a oposição, aceitassem a negociação, seria necessário que a questão das eleições, a raiz da crise, fosse resolvida. Para tal, o governo sul-africano designou uma comissão da SADC, que iria examinar as eleições no país e adjudicar a validade do resultado, aceita pelo governo do LCD.

O relatório resultante da investigação da comissão foi completado, no entanto não foi apresentado aos partidos do Lesoto como requerido. No meio tempo do atraso da comissão para apresentar o resultado do estudo, o governo do Lesoto perdeu o controle da situação interna do país e grupos armados da oposição assumiram o controle da capital. Liberado em 17 de setembro de 1998 o relatório da comissão examinadora do SADC argumentou que tinham ocorrido falhas administrativas no processo eleitoral, no entanto elas não invalidavam o resultado da eleição. A situação no país então recrudesceu ainda mais e o mesmo se tornou ingovernável. Diante disso, uma intervanção armada foi colocada em ação. No dia 22 de setembro de 1998, a South African National Defense Force (SANDF), depois com a adesão de Botsuana, se deslocou para o Lesoto. Ao fim da existência dessa intervenção, o país permaneceu dividido. Mmutle afirma que a intervenção militar não foi tão eficiente quanto poderia ter sido, porque o maior problema enfrentado pelas partes interventoras foi o não percebimento de que a causa das tensões no Lesoto não eram as partes em conflito, mas o modelo eleitoral usado.

A essência de um conflito: teoria x realidade

Tomando por base a dinâmica entre os conceitos de conflito e segurança adotada no presente trabalho, a crise do Lesoto de 1998 pode ser considerada um conflito internacional,

176 uma vez que houve divergências nas relações e diálogos entre o partido da situação, LCD, e os partidos da oposição, BCP e BNP, no que concerne ao resultado da eleição de 1998. O modelo eleitoral inadequado do Lesoto vigente até essa eleição permitia a concentração política nas mãos do partido da situação, dessa forma, tal modelo eleitoral permitia o surgimento de instabilidades políticas, que ameaçavam o desenvolvimento e o estabelecimento do Estado do Lesoto. É necessário ainda ressaltar o pensamento de Raymond Aron, em “Paz e Guerra entre as Nações”. O teórico afirma que a maneira que as unidades políticas se organizam é fundamental para determinar as circunstâncias e os objetivos dos conflitos (ARON, 2002, P. 225). Esse pensamento dá suporte à qualidade de conflito à crise do Lesoto de 1998, uma vez que permite o enquadramento da questão eleitoral como determinante das circunstâncias dessa convulsão.

Estabelecida a qualidade de conflito da crise do Lesoto de 1998, é importante apontar os fatores determinantes para a ocorrência do mesmo. Em relação ao modelo de Azar, no que concerne ao primeiro ponto do modelo, percebe-se que o contexto da supracitada crise esteve relacionado ao modelo eleitoral do Lesoto, que concentrava o poder político nas mãos do partido da situação, excluindo a participação de outros partidos, pois, apesar de ter obtido 60 por cento dos votos, o LCD conseguiu preencher 79 assentos dos 80 da Assembleia Geral. Relativo ao segundo ponto, percebe-se que as necessidades estiveram relacionadas à necessidade de participação política, uma vez que o supracitado modelo eleitoral era excludente, e de segurança, uma vez que, diante da suposta corrupção representada no resultado da eleição de 1998, os partidos da oposição promoveram manifestações contra tal resultado. No que concerne ao terceiro ponto, a capacidade esteve ligada à governança no Lesoto, uma vez que a vitória eleitoral do LCD não fora considerada legítima pelos partidos da oposição. Percebe-se, ademais, que os atores envolvidos nesse conflito, o quarto ponto do modelo, foi, de um lado, o LCD, e, de outro lado, os partidos da oposição, principalmente o BCP e o BNP. Diante da dinâmica entre esses quatro pontos, o conflito da crise de 1998 no Lesoto foi instituída. Apesar de, como já citado, existir de forma clara partes no conflito do Lesoto, a hostilidade e a violência entre as mesmas não alcançou o nível de violência que pudesse caracterizar uma Guerra Civil, dessa forma, a crise do Lesoto se enquadra nos pensamentos de Bobbio e Bull, de um intermediário entre guerra e paz.

Entrelaçando o modelo de Eward Azar e o esquema de Hugh Miall, percebe-se que, na fase de pré-violência da crise de 1998 no Lesoto sobressaiu o fator agravador, o contexto da mesma, o modelo eleitoral do Lesoto. Na fase de estabelecimento da crise, o elemento que deflagrou a mesma foi o resultado da eleição de 1998. Nesse ponto, é importante retomar o argumento de Oliver Ramsbotham de que o conflito pode agravar ou atenuar, através de uma rede complexa de atitudes e comportamentos. Transportando esse pensamento para a fase de crise do conflito de 1998 no Lesoto, sobressaem os elementos agravadores: setores da mídia sul-

177 africana e internacional que defendiam a causa da oposição, o comportamento da comissão da SADC encarregada de examinar as eleições do país, o atraso da mesma em entregar o relatório resultante de sua investigação e a intervenção da África do Sul no país.

Ao fim da intervenção sul-africana no Lesoto, é iniciada a fase de prolongamento do conflito, na qual se sobressaíram os elementos atenuadores. Nessa fase, o governo e oposição chegaram a um acordo sobre os assuntos eleitorais, que incluíam ponto como novas eleições para acontecer em 15 ou 18 meses, a formulação de um código de conduta para partidos