CAPÍTULO 3 – DIALOGANDO COM A REALIDADE
3.2 Perspectivas metodológicas
A metodologia, em geral, mostra-se uma parte bastante complexa do trabalho científico. Como observa Minayo (1994, p.43), “mais que uma descrição formal dos métodos e técnicas a serem utilizados, indica as opções e a leitura operacional que o pesquisador faz do quadro teórico”. Dessa maneira, toda prática de pesquisa tem uma filosofia do pesquisador implícita, intencional ou não, onde diferentes concepções da realidade implicam diferentes abordagens na escolha metodológica.
Como dito anteriormente30, este trabalho de pesquisa pretende abranger, alicerçado pelas ações da Ação Griô Nacional, as contribuições que o diálogo com os saberes populares podem trazer para as práticas educativas escolares. Para isso, além de rastrear e mapear as atividades da Ação Griô Nacional, buscamos investigar as concepções e práticas dos professores e gestores da escola municipal Malê Debalê, local de inserção desta Ação e campo desta pesquisa. Dessa forma, nos aventuramos por um terreno complexo de relações, contradições e hierarquias, que envolve valores e atitudes de diferentes sujeitos, com diferentes referências sociais e históricas.
Neste sentido, tanto o contexto quanto o objetivo deste estudo nos conduzem à uma compreensão mais profunda de determinados fenômenos sociais, apoiados na condição de maior relevância dos aspectos subjetivos, não podendo, portanto, serem reduzidos a elementos quantificáveis. Assim, foi feita a opção pela pesquisa qualitativa.
Segundo Minayo (1994), a pesquisa qualitativa:
(...) se preocupa, nas ciências sociais, com um nível de realidade que não pode ser quantificado. Ou seja, ela trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalizações de variáveis (p.22).
Dessa forma, há na essência da pesquisa qualitativa um profundo envolvimento com as subjetividades, condição ímpar para investigações referentes ao mundo social, pois suas análises prescindem o contexto apenas dos fatos observáveis e se estruturam muito mais na compreensão das particularidades e significados dos fenômenos. De acordo como Macedo (2004, p.82), “é no seio da história das epistemologias qualitativas que percebe-se um resgate e uma afirmação da subjetividade enquanto âmbito significativo para se compreender pela pesquisa a especificidade da ação humana em sociedade”.
Nesta perspectiva, Merleau-Ponty aponta que:
A aquisição mais importante da fenomenologia foi sem dúvida ter unido o extremo subjetivismo ao extremo objetivismo em sua noção do mundo (...). O mundo fenomenológico é não o ser puro, mas o sentido que transparece na intersecção de minhas experiências com aquelas do outro, pela engrenagem de umas nas outras; ele é portanto inseparável da subjetividade e da intersubjetividade que formam sua unidade.... (1999, p.18).
Assim, inspirados pela fenomenologia crítica como movimento filosófico desta pesquisa, procuramos desvendar os fenômenos para além das aparências, aguçando o olhar para o mundo dos significados implícitos, que permeiam o mundo social.
(...) furta-se a validação do já conhecido sem prévia reflexão e volta- se para o não pensado, através de uma reflexão exaustiva sobre o objeto do seu estudo, denunciando os pressupostos subjacentes (1989, p.66).
Entendemos, então, como fundamental para desvendar esses campos de significados das ações e relações humanas a imersão na realidade observada, buscando na convivência, na interação máxima com o grupo investigado e nas relações ali construídas cotidianamente, o substrato para compreender em profundidade certos fenômenos.
Assim, fortalecemos nossas relações com a escola municipal Malê Debalê, intensificando a presença no local, maximizando as participações nas atividades, interagindo com os atores escolares, ou seja, compartilhando a vida cotidiana da comunidade escolar, pois, como afirma Brandão (1984, p.38), “a convivência do investigador com a pessoa ou grupo estudado cria condições privilegiadas para que o processo de observação seja conduzido e dê acesso a uma compreensão que de outro modo não seria possível”.
Neste viés, assumimos os princípios da observação participante como ferramenta metodológica para a condução desta pesquisa.
Segundo Queiroz (2007), a observação participante consiste na inserção do pesquisador no interior do grupo pesquisado, interagindo no seu cotidiano, buscando observar, apreender e compreender os significados da realidade social que o rodeia. Dessa forma, para o autor:
Na observação participante é preciso atentar para o aspecto ético e para o perfil íntimo das relações sociais, ao lado das tradições e costumes, o tom e a importância que lhe são atribuídos, as ideias, os motivos e os sentimentos do grupo na compreensão da totalidade, verbalizados por eles próprios mediante suas categorias de pensamento. Assim, é preciso observar o conjunto das regras formuladas ou implícitas nas atividades dos componentes de um grupo social (p. 278).
É importante ressaltar que, neste caso, observar não significa apenas ver, examinar, mas sim “mergulhar na espessura do real, captar a lógica dinâmica e
contraditória do discurso de cada ator social e seu relacionamento com os outros atores e situações (...)” (Oliveira e Oliveira, 1986, p.25).
Para colaborar com esse processo de desvendamento dos aspectos e dinâmicas das estruturas e relações sociais (neste caso o cotidiano de uma escola pública), nos utilizamos também do recurso da entrevista não-estruturada, como forma de provocar o afloramento de informações mais profundas, intrínsecas, banhadas por ideologias e afetividades.
Parga Nina costuma definir a entrevista não-estruturada como “conversa com finalidade”, em que:
(...) o roteiro serve de orientação, de baliza para o pesquisador e não de cerceamento da fala dos entrevistados. A ordem dos assuntos abordados não obedece a uma sequência rígida, e sim, é determinada frequentemente pelas próprias preocupações e ênfases que os entrevistados dão aos assuntos em pauta (apud Minayo, 1999, p.122).
Isso não significa dizer que as entrevistas não-estruturadas devam ser realizadas na base da intuição ou do bom senso; ao contrário, cada conversa que realizamos nesse trabalho perpassa pelos pressupostos teóricos, e foi conduzida no sentido de provocar a emersão de conteúdos afetivos, culturais e ideológicos latentes nos entrevistados, contemplando os diferentes aspectos que circundam os objetivos desta pesquisa.
Dessa forma, compartilhar o cotidiano da escola municipal Malê Debalê, observando-o de forma intensa, sistemática e consciente aliado aos conteúdos verbalizados nas inúmeras “conversas com finalidade” realizadas ao longo da estada em campo, possibilitaram, além do acesso a informações antes consideradas de domínio privado do grupo, a reunião de uma diversidade de dados. Entretanto, como afirma Thiollent, “os dados por si só não são geradores de conceitos nem de explicações” (1987, p.17). É necessário que cada dado, de cada observação, de cada entrevista, seja minuciosamente analisado para “tentar encontrar os sintomas relativos aos sistemas de representações, de condutas, de valorizações afetivas, e de regras sociais (...)” (ibid).
Para isso, em nossas análises, voltamos nossa atenção para os elementos subjacentes aos discursos e práticas que se manifestaram nas entrevistas e observações realizadas com a comunidade da escola Malê Debalê, procurando, como orientam Barros e Lehfeld (1999), significados nas relações estabelecidas entre as falas individuais, as afetividades, as culturas, as ideologias, enfim, nas relações estabelecidas entre as ações e contradições do cotidiano escolar.