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CAPÍTULO 3 – DIALOGANDO COM A REALIDADE

3.1 Primeiras aproximações

O encantador encontro com o espaço da escola Malê Debalê se deu de forma inesperada. Pouco tempo depois de minha estada na sede do Grãos de Luz e Griô, na cidade de Lençóis, recebi o convite de Márcio Caíres para participar de um evento que aconteceria na cidade de Salvador, no espaço de uma escola municipal do bairro de Itapuã, e contaria com a presença do Grãos de Luz e Griô.

Assim, no dia 10 de junho de 2011, pela manhã, me dirigi ao endereço enviado por Márcio. Chegando ao local, para minha surpresa, tratava-se de uma escola municipal localizada no mesmo espaço de funcionamento do tradicional bloco afro baiano, o Malê Debalê. Ao adentrar aquele espaço, deparei-me com um ambiente físico que em nada remetia a uma escola pública convencional. Paredes matizadas, emblemas e cores do bloco carnavalesco Malê Debalê, painéis pintados com os rostos de heróis negros e indígenas – outros símbolos e referências. Naquele momento, foi impossível identificar o que era escola e o que era bloco.

Paredes do refeitório. Escola Municipal Malê Debalê.

Com o início das atividades, descobri que se tratavam de parte de um curso de formação continuada para professores promovido pela instituição durante todo o ano de 2011, que apresentou como tema geral: Caminhos da Escola: Vivências e Saberes para a Inclusão das Relações Étnico-raciais. Segundo a direção da escola, tratava-se de um projeto sistematizado pela professora da unidade e griô-aprendiz, Edméia Nascimento, que tinha como parte dos objetivos apresentar e introduzir concepções e práticas da Ação Griô naquela comunidade escolar (alunos, professores e gestores), a partir da discussão de temas relevantes para o cotidiano do espaço. Assim, a realização deste curso efetivou 22 encontros, reunindo professores, gestores, poder público, educandos, palestrantes e mestres da cultura popular, abordando e discutindo temáticas relativas: à convivência pacífica entre religiões, às relações étnico-raciais, aos afro-ameríndios para o processo de democratização, às temáticas indígenas na escola, ao racismo institucional, aos quilombos urbanos, dentre outras.

Nesta ocasião, o tema específico abordado foi: Vivências e saberes com mestres e griôs de tradição oral. Este encontro, sob a orientação de Edméia Nascimento (Mel Griô), contou com a participação de grupos e mestres da cultura popular, representantes da Secretaria Municipal de Educação, de Pontos de Cultura, e do Grãos de Luz e Griô. As impressões neste dia foram bastante positivas. Havia uma participação efetiva das professoras da escola durante as palestras e dinâmicas propostas; algumas apresentações de canto e dança protagonizadas pelos alunos da unidade demonstravam o envolvimento e a alegria das crianças em participarem do projeto; e notava-se, também, uma mobilização de todos os funcionários da escola na organização do evento.

Atividade cultural apresentada durante o curso de formação: Caminhos da Escola: Vivências e

Saberes para a Inclusão das Relações Étnico-raciais. Escola municipal Malê Debalê, junho/2011.

No decorrer das atividades pude conversar com algumas professoras e coordenadoras da escola sobre o projeto de formação continuada, e as opiniões e

expectativas eram sempre otimistas em relação aos resultados e possibilidades criadas com a iniciativa.

Neste mesmo evento, relatando meu interesse a respeito dos temas abordados durante o curso e colocando meus anseios em relação ao projeto de pesquisa, houve o convite, por parte da diretora da unidade, Rosyvone Pereira, para que eu me aproximasse do espaço. Dessa forma, esse encontro representou o primeiro dia de minha pesquisa de campo, a qual se estendeu por toda trajetória de construção deste trabalho.

Costumo afirmar que eu não escolhi o campo de minha pesquisa, fui escolhida por ele. Reconheci naquele espaço um mundo de contextos, pessoas, informações e possibilidades conectados diretamente ao cerne do meu trabalho. Além de me encontrar com um espaço público de educação formal em diálogo direto com as propostas da Ação Griô, me percebi diante de um manancial de nuances e subjetividades aflorando num local onde a tradição de um bloco afro, o Malê Debalê, mistura-se, cotidianamente, com a vida escolar de sua comunidade.

Fundado em 23 de março de 1979, no bairro de Itapuã, a Sociedade Cultural, Recreativa e Carnavalesca Malê Debalê, ou simplesmente bloco afro Malê Debalê, foi criado por um grupo de moradores que desejava ver seu bairro representado no carnaval de Salvador.

Os diálogos com as vivências trazidas por jovens de outros bairros, moldados ao jeito “Itapuazeiro” de ser, formaram o alicerce para a criação de uma entidade que “além de carnavalesca e promotora de valores significativos da cultura negra, também fosse um espaço de afirmação positiva da história e do sentido do bairro de Itapuã, da Lagoa do Abaeté e arredores” (Malê Debalê).

Assim, para os fundadores do bloco:

(...) é possível afirmar que a história do Malê Debalê se confunde com os mistérios da Lagoa do Abaeté, fonte de inspiração e afirmação de uma comunidade composta por pescadores, lavadeiras, quituteiras, artesões e artistas. Aqui, um espaço de possibilidades e encantos (Malê Debalê).

Segundo Carlos Eduardo Santana:

O nome do bloco é uma homenagem aos Malês, negros muçulmanos, que lutaram contra o processo de escravidão, representando na Bahia, uma resistência ativa. Portanto, o Malê Debalê , como afrodescendente, tem na história dos Malês, um mito de referência, o que de certa forma confere a missão de não apenas contá-la, mas, principalmente, se tornar um exemplo dessa história, seguindo e interferindo na cultura baiana com a mesma postura de resistência à dominação de seus ancestrais (2009).

Josélio de Araújo, membro fundador e atual presidente do bloco, complementa afirmando que o nome Debalê foi uma criação de seus próprios fundadores, e que traduz uma ideia de positividade, de alegria.

Parte da trajetória do bloco pude conhecer através das longas e prazerosas tardes que passei conversando com Seu Délcio Silva, mais conhecido como Seu Peruano, 74 anos de vida, há 42 anos morador de Itapuã, membro e funcionário do Malê Debalê desde sua fundação.

Foram vários os momentos em que passei sentada à frente da sede do bloco conversando com Seu Peruano. Conversávamos sobre muitos assuntos, sobre política, sobre a história do bloco, a história de Itapuã, sobre a escola, e outros. Porém, quando pedi que ele me concedesse um “entrevista”, onde eu pudesse gravar ou anotar as informações, ele logo se recusou. Disse que não, que para isso ele precisava se preparar. Mas nunca Seu Peruano se preparou para nossa “entrevista”. Assim, desisti de entrevistá-lo, continuamos nossas prosas mesmo, cheias de memórias e histórias, e que, autorizadas por ele, contemplam este trabalho.

Seu Délcio Silva, Seu Peruano.

Segundo Seu Peruano, o bloco foi criado para levar o carnaval para o bairro de Itapuã, que não participava do carnaval de Salvador. “No início a sede do bloco era num outro lugar; era tudo aberto, tinha os ensaios e a comunidade ficava num areião que tinha perto da lagoa [do Abaeté]”29. Ele narra como o lugar ficava repleto de gente de todas as idades brincando e dançando. Conta saudoso, como Abaeté era bonita, com a areia branquinha e as lavadeiras trabalhando lá, mas que hoje não se pode mais, e que se tornou até um local bastante perigoso, com muitos assaltos.

29 Lagoa de águas escuras, cercada pelas areias brancas das dunas, Abaeté situa-se na área de

proteção ambiental do Parque Metropolitano Lagoas e Dunas do Abaeté, no bairro de Itapuã, Salvador, BA.

Atualmente o bloco afro Malê Debalê possui sede própria, localizada no Parque Metropolitano do Abaeté, onde ocorrem os ensaios para o carnaval, bem como outras atividades ligadas ao bloco, como festas, aulas de dança, de capoeira, e de percussão para crianças (malezinho).

Com relação à escola, Seu Peruano relata que foi iniciativa da vereadora Olívia Santana que, ao conhecer a localização, o espaço e a comunidade que o Malê Debalê atendia, lançou a proposta. Assim, os dirigentes do bloco se reuniram, discutiram e acataram a ideia, uma vez que o espaço físico ficava ocioso durante a semana, e essa seria uma forma, também, de atender a população do entorno. Para Seu Peruano a escola é muito importante para aquele local, pois “é um lugar onde os meninos podem se encontrar, se conhecer, já que o Malê é, praticamente, a única opção pra nossa comunidade, até de lazer mesmo”.

E assim, desde 2006, o bloco cede parte de seu espaço para o funcionamento de uma escola de educação infantil e ensino fundamental, que passou a se chamar Escola Municipal Malê Debalê.

Durante o primeiro semestre de minha estada na escola, continuei participando dos eventos relativos ao curso de formação continuada, além de visitar o local em dias variados. Com esta aproximação, em 2011, embora meu relacionamento com as professoras e gestoras tenha se estreitado bastante, procurei não intervir diretamente nas atividades realizadas. Limitei-me a observar e perguntar, informalmente, sobre alguns hábitos e procedimentos que ocorriam. Essa forma de aproximação, menos direcionada, possibilitou meu trânsito por diversos espaços e momentos do cotidiano da escola. Pude estar nas salas de aula, observando métodos e condutas, nas festas, no pátio durante os intervalos, observando as relações entre os alunos e dos alunos com os professores e funcionários, a relação das famílias com a escola, da escola com o bloco afro que divide o espaço; enfim, transitar pelo que havia de formal e informal na escola.

Em fevereiro de 2012, com início do ano letivo, dei continuidade ao trabalho de campo, agora de maneira mais sistemática. Amparada por um carinhoso

acolhimento da gestão e corpo docente da escola, minha presença no espaço tornou-se mais frequente e efetiva. Passei a colaborar com a construção e elaboração de projetos, a me envolver com a organização dos eventos, além de assumir a realização de algumas atividades. É nesta nova etapa do trabalho empírico que minhas relações com esta comunidade escolar se estreitaram, que me foi permitido partilhar os sucessos e os fracassos daquele cotidiano, e que assim, de alguma forma, passei a também fazer parte daquele universo.

Este intenso envolvimento com o local da pesquisa possibilitou minha imersão naquele contexto, e a emersão de uma gama de informações, observações, impressões e sensações que, unidas às concepções teóricas e metodológicas que alicerçam este trabalho, delineiam o corpo de nossas discussões e compreensões.