• Nenhum resultado encontrado

Perspectivismo e filosofia experimental

No documento O(s) perspectivismo(s) de Nietzsche (páginas 87-108)

CAPÍTULO I AS PERSPECTIVAS DO PERSPECTIVISMO

Seção 2 – As palavras sobre Nietzsche

2.5 Perspectivismo e filosofia experimental

Em Perspektiven des Perspektivismus (1992), um “Gedankschrift” in memoriam a Kaulbach, Volker Gerhardt (1944-) comenta que o debate filosófico acerca do perspectivismo está apenas no começo, e que, em língua alemã, ele é indissociável do nome de Kaulbach.

Numa rápida descrição da trajetória filosófica de seu mestre, Gerhardt (1992) relembra que desde cedo Kaulbach se ocupou com o “ponto de vista da ligação” (Standortbindung) entre conhecimento e ação, o que se pode notar p. ex. em Philosophie der Beschreibung (1968) que empreende uma análise das filosofias teóricas e práticas de Aristóteles, Leibniz, Hegel e Kant, visando compreender o “ponto de partida” (Ausgangsposition) da universal pretensão humana por verdade e legalidade.

Na verdade, tanto o interesse pela intersecção entre os domínios teórico e prático quanto o seu quadro de interlocutores, em especial Kant, definem o próprio ponto de vista que orienta as obras de Kaulbach, inclusive aquelas dedicadas a Nietzsche e ao perspectivismo, como Nietzsches Idee einer Experimentalphilosophie (1980) e Philosophie des Perspektivismus (1990). Sob esse ponto de vista, na primeira dessas obras, Kaulbach

79 Referimo-nos especialmente a Nietzsche, Seine Philosophie der Gegensätze und die Gegensätze seiner Philosophie (1971) e Nietzsches Lehre vom Willen zur Macht (1974).

(1980) avalia que a linguagem de Nietzsche envereda por caminhos estranhos ao do pensamento metódico.

Essa particularidade do pensamento de Nietzsche, entretanto, não significa uma “renúncia a um filosofar sério” (Verzicht auf ernsthaftes Philosophieren), tampouco conduz a uma “arbitrariedade mental” (gedankliche Willkür). Pelo contrário, neste (contra)procedimento reside justamente o elemento distintivo de sua filosofia, uma filosofia experimental que para constituir-se como tal avalia, contrasta, põe à prova, “experimenta”, certos métodos do pensamento filosófico, especialmente os modernos:

É minha intenção demonstrar que os conteúdos da metafísica de Nietzsche são adequados a seu método experimental e a ele pertencem [a tradição que remonta a Descartes e Kant, RBDV]. No sentido amplo, esta asserção exprime que esse método experimental acolhe em si tanto as características da filosofia crítica quanto da dialética, e estas devem permitir perceber o quanto a primeira se distancia da segunda. (Kaulbach, 1980, p. IX)80.

A metafísica de Nietzsche “acolhe” (aufnehmen) tanto características da filosofia crítica, quanto da filosofia dialética; na verdade não só delas, mas ainda da “abordagem metódica” (metodischer Ansatz) de Descartes81 e do “modelo monadológico” de Leibniz,

apenas para citar aqueles que recebem mais destaque em sua investigação82. No contexto da

filosofia experimental, porém, tal “acolhimento” possui um significado bastante específico: como esclarece Kaulbach (1980), o experimento fundamental de Nietzsche consiste em avaliar o “para quê” (Wozu?) do pensar e do agir sob o ponto de vista (Standpunkt) da vida, procedimento que segundo o intérprete deixa transparecer sua herança kantiana83, na

medida em que reitera a primazia da razão prática sobre a razão teórica.

80 Tradução nossa. No original: “Es ist meine Absicht, den Nachweis zu führen, daß die “Inhalte” der

Metaphysik Nietzsches seiner Experimentalmethode angemessen sind und zu ihr gehören. Die weite Behauptung lautet, daß diese Experimentalmethode Züge der kritischen wie der dialektischen Philosophie ebenso in sich aufnimmt und sie wirksam werden läßt, wie sie sich von dieser distanziert” (Kaulbach, 1980, p. IX).

81 Cf.: Kaulbach (1980, p. 90): “Das Konzept Nietzsches von der philosophischen Methode, welches er in

Auseinandersetzung mit Descartes festlegt, macht auch von den in der „Dialektik" seit Kant gewonnenen Möglichkeiten der Kritik und Entlarvung Gebrauch. Es ist von Bedeutung, auf die Stellung zu achten, die Nietzsche der durch die Methoden der Kritik und Entlarvung bestimmten Tradition gegenüber einnimmt”.

82 No que concerne a Leibniz, p. ex., segundo Kaulbach (1980) Nietzsche encontra em sua teoria das mônadas

o modelo que necessitava para fazer um apelo filosófico ao corpo e a terra, colocando os afetos e os quanta de vontade, sendo que “cada quanta é o estado de um pensamento e vontade, que corresponde a uma perspectiva de mundo” (Kaulbach, 1980, p. XI), na linha de frente de sua filosofia, rejeitando assim a assertiva idealista de que todo ser vivo obedece aos ditames da consciência racional.

Pode-se dizer, portanto, que a filosofia experimental de Nietzsche se constrói com e contra o “conteúdo” (alguns métodos da filosofia moderna), e a “forma” (a primazia kantiana da razão prática sobre a teórica) do pensamento moderno, o que faz dela a insígnia de uma tensão: Nietzsche seria uma espécie de “moderno anti-moderno”, o pensador que faz a experiência radical dos limites do pensar na modernidade. Assim, além do registro amplo que envolve a intersecção entre os domínios teórico e prático e todo um quadro de referenciais, a intepretação de Kaulbach sobre Nietzsche e seu perspectivismo ainda é balizada pela ideia de uma tensão entre a sua “metafísica” e o programa teórico da modernidade84. A partir desses pressupostos podemos nos acercar da interpretação do

perspectivismo por Kaulbach.

Em sua marcha obstinada por controle, rememora Kaulbach (1990), a tradição metafísica identificou o “pensável” ao “existente”, instituindo uma verdade unilateral que

84 A importância do perspectivismo na tensão entre Nietzsche e os modernos é reconhecida por Kaulbach já

em Nietzsches Idee einer Experimentalphilosophie, cujo capítulo II é dedicado a discutir “O caráter perspectivístico da realidade e o método do uso das perspectivas” (Der perspektivische Charakter der

Wirklichkeit und die Methode des perspektivengebrauchs). A premissa maior de Kaulbach (1980) nesse

capítulo diz que em Nietzsche o mundo é o resultado (Ergebnis) do esboço criativo (schaffenden Entwerfens) de perspectivas de mundo que orientam o pensar e o agir. Dentre as premissas menores interessa-nos destacar duas: i) o vínculo da ideia do mundo como criação em Nietzsche com as filosofias de Hegel e Kant; ii) a análise do niilismo e do eterno retorno sob a ótica desta filosofia da criação, cujo interesse é mostrar como a própria filosofia de Nietzsche pode ser entendida realização do pressuposto do mundo como criação (caracterizando p. ex. o niilismo como uma condição de desilusão ou ausência de sentido). Se compararmos esse argumento apenas aos títulos dos três capítulos de Philosophie des Perspektivismus (1990), – i) “O perspectivismo transcendental de Kant”, ii) O perspectivismo de Hegel”, e iii) O perspectivismo como autoconhecimento da autarquia dos sentidos por Nietzsche –, perceberemos que tanto a “intenção” (Absicht) do intérprete quanto o seu quadro de referenciais teóricos permanece pouco alterado. Gerhardt (1992) esclarece que na obra de 1990 a intenção de Kaulbach foi reconstituir as “figuras fundamentais do pensamento” (grundlegenden Denkfiguren) perspectivista, reconstituição que, segundo avaliamos, amplia e aprofunda alguns elementos desenvolvidos no capítulo de 1980. Gerhardt (1992) acrescenta ainda que Kaulbach planejava redigir um segundo volume para Philosophie des Perspektivismus, no qual trataria do desenvolvimento sistemático do princípio do pensamento (Denkansatz) do perspectivismo, o que não foi possível dada a sua morte em maio de 1992. Vale frisar que, ainda que se constitua como uma interpretação “global” do pensamento Nietzsche, o objeto de análise de Nietzsches Idee einer Experimentalphilosophie é “somente” a filosofia de Nietzsche, ao passo que Philosophie des Perspektivismus é uma obra temática sobre o perspectivismo, em que Nietzsche aparece como uma das frentes de interesse. Como nosso interesse recai sobre o perspectivismo de Nietzsche, e não o de Hegel ou Kant, ainda que reconheçamos tanto a sua importância para a compreensão do perspectivismo de Nietzsche quanto para a interpretação de Kaulbach, focaremos nossa investigação no capítulo sobre Nietzsche da obra de 1990, que leremos à luz do capítulo sobre o perspectivismo na obra de 1980. Com isso poderemos compreender, mesmo que brevemente, as conexões do perspectivismo de Nietzsche com o perspectivismo de Hegel e Kant, e ainda a sua especificidade.

submete a natureza à razão para torná-la compreensível, “reconhecível” (erkennbar)85. Com

o advento da modernidade, cujo programa teórico é indissociável da investigação sobre a origem, o limite e as possibilidades do conhecimento86, desencadeia-se um processo que

culminará com a autocrítica da razão, que colocará em xeque a obsoleta unilateralidade da verdade metafísica em prol de um pensamento plural, uma filosofia perspectivista:

Uma filosofia perspectivista consiste na ideia de que uma perspectiva que interpreta o mundo dessa maneira não deve ser justificada como possuindo um verdadeiro objeto, uma vez que ela não chega a nenhum testemunho objetivo,

85 Neste sentido, Cf.: “Der Philosoph der Vernunft hat seinen Stand auf dem Boden des >ich denke< bzw. >ich

will< genommen und beansprucht von ihm aus für seine Ich-vernunft, daß sie Herrin des Leibes und seiner Vermögen ist und diese auf ihre Seite zu ziehen vermag. In der Perspektive dieses Standpunktes versteht sich Vernunft als das Vermögen, welches dem Leib an Einsicht überlegen ist, aber seiner Kräfte bedarf, um sich verwirklichen zu können: in dieser Perspektive kommt der Gedanke der List der Vernunft auf, welche die einsichtslosen Leidenschaften aufgrund ihrer Überlegenheit an Einsicht für sich arbeiten läßt. Die Einnahme der Stellung, die der idealistische Philosoph seinein Leib gegenüber behauptet, indem er diesen der reinen Vernunft unterordnet, deklariert Nietzsche als lebensfeindlich, als Zeichen der Verachtung des Leibes. In dieser Perspektive wird der Leib als unvernünftig und unfähig zu eigner Einsicht, zum Erkennen, Wollen, Schaffen von Weltperspektiven gedeutet. Nur der reinen Vernunft wird die Fähigkeit zugebilligt, dem Menschen eine Welt zu verschaffen, in deren Perspektive er Erfüllung seiner Sinnerwartung zu finden vermag”. (Kaulbach, 1990, p. 295)

86 Cf. Historisches Wörterbuch der Philosophie: ERKENNTNISTHEORIE, Erkenntnislehre, Erkenntniskritik.

HWPh: Historisches Wörterbuch der Philosophie, S. 5734 (vgl. HWPh Bd. 2, S. 684): “Die erkenntnistheoretische Fragestellung am Beginn der Neuzeit bricht in dem Moment auf, als es gelingt, sich der Naturerkenntnis so zu bemächtigen, daß jede dem Wissen heterogene normative Instanz als Entmächtigung des Menschen erscheinen muß (J. KEPLER, G. GALILEI, I. NEWTON, P. GASSENDI, R. BOYLE, F. BACON). Die notwendige Selbstvergewisserung des menschlichen Erkennens wird als Aufgabe in klassischer Weise von R. DESCARTES formuliert, auf den sich alle folgende E. mehr oder minder ausdrücklich bezieht: Weil nur noch die menschliche Gewißheit als Instanz aller Erkenntnis akzeptiert werden kann, wird das Ich-Denke die Grundlage (das ausgezeichnete «Subjectum») als «fundamentum inconcussum» alles wissenschaftlichen Wissens. Dem entspricht die Reduktion aller bezweifelbaren objektiven Erkenntnis. Weil jede Erkenntnis von Gegenständen («Objekten») nur gewiß sein kann, wenn ihre Gewißheit vom intuitiv gewissen Ich-Denke her «deduziert» wird, entsteht zwischen dem Erkennen und seinem Gegenstand «eine sie schlechthin scheidende Grenze», die es als notwendig erscheinen läßt, sich vor dem Erkennen über das Erkennen als Werkzeug und Mittel zu verständigen. Das so entstandene «Subjekt-Objekt-Problem» als fundamentale Frage der Philosophie überhaupt bestimmt alle folgenden erkenntnistheoretischen Untersuchungen bei J. LOCKE, dessen ‹Essay concerning human understanding› (1690) meist als erster Traktat der E. betrachtet wird, sowie bei G. BERKELEY, D. HUME, G. W. LEIBNIZ u.a. Auch die Auffassung der Metaphysik in der Leibniz-Wolffschen Schule steht in dieser Kontinuität, so wenn A. G. BAUMGARTEN die Metaphysik als «scientia primorum in humana cognitione principiorum» bestimmt. Dagegen bleibt die «gnoseologia» nach scholastischer Tradition eine gegenständliche «scientia cognitionis in genere», die in Analogie zur Logik (als «Logica latiori significatu») die Lenkung des Denkens durch Regeln zum Inhalt hat. Durch die Philosophie KANTS kommt die E. (häufig als ‹Erkenntniskritik› bezeichnet) auf eine neue Problemebene. Die ‹Kritik der reinen Vernunft› prüft den Anspruch metaphysischer Erkenntnisse, die unabhängig von aller Erfahrung gelten sollen. Dazu ist eine transzendentale Erkenntnis «unserer Erkenntnisart von Gegenständen, insofern diese a priori möglich sein soll» notwendig. E. als Erkenntniskritik wird zur Frage nach den Regeln a priori, den Bedingungen der Möglichkeit der Erkenntnis der Gegenstände und damit zugleich der Gegenstände der Erkenntnis. E. als Frage nach der «quaestio iuris» des Erkennens kann nur in einer Theorie dieser apriorischen, Erkenntnis und Gegenstand erst ermöglichenden Synthesisleistung bestehen. Während das erste Motiv der Kantschen E. die Frage nach der Möglichkeit der

teórico, sobre o mundo; ela deve atestar, muito mais, seu sentido de verdade, na medida em que coloca o sujeito na situação de transferir-se para o mundo, que lhe oferece um sentido de acordo com sua posição em relação ao ser. Quando o perspectivismo representa a ideia de uma verdade do sentido, a qual adequa uma perspectiva a uma tomada de posição singular em relação ao ser, então ele se volta contra a exigência de uma verdade justificada em si mesma, universalmente válida: ele aparece muito mais como o reconhecimento de uma verdade para mim. (Kaulbach, 1990, p. IX)87

A filosofia perspectivista, corolário do projeto de autocrítica da razão, alarga os horizontes de possibilidade do pensar e agir humanos, rechaçando a exigência de uma verdade universalmente válida, “testemunho” objetivo do real, em prol de uma verdade do sentido (Sinnwahrheit), articulada no universo perspectivístico do(s) sujeito(s) e suas relações88.

Isso não significa que a razão deva ser expatriada do pensamento; pelo contrário, o poder da razão precisa ser considerado na geração e construção de sentido das perspectivas, porém numa distância crítica em que seus limites sejam observados. A filosofia perspectivista, portanto, não se constitui como uma simples investida contra a razão ou uma espécie irracionalismo, e sim como uma renúncia à ditadura unilateral do sentido instituída pela razão na metafísica clássica.

Kant, com sua crítica às pretensões absolutas do pensamento dogmático, deu um passo significativo rumo a filosofia perspectivista, ao demonstrar, como sintetiza Kaulbach

Metaphysik ist, kann man J. G. FICHTES Frage: «Wie ist Gehalt und Form einer Wissenschaft überhaupt, d.h. wie ist die Wissenschaft selbst möglich» als Ausweitung der transzendentalen Fragestellung auf wissenschaftliches Wissen überhaupt verstehen. Demgegenüber lehnt G. W. F. HEGEL die erkenntnistheoretische Problemstellung im Ansatz ab und wird mit seiner Forderung nach einem Mißtrauen gegenüber dem unkritisch angesetzten Erkenntnisbegriff der E. Vorläufer für manche moderne Ablehnung der erkenntnistheoretischen Fragestellung: «Sie setzt nämlich Vorstellungen von dem Erkennen als einem Werkzeuge und Medium, auch einen Unterschied unserer selbst von diesem Erkennen voraus; vorzüglich aber dies, daß das Absolute auf einer Seite stehe und das Erkennen auf der andern Seite für sich und getrennt von dem Absoluten doch etwas Reelles»”.

87 Tradução nossa. No original: “Perspektivistische Philosophie besteht auf dem Gedanken, dass eine

weltinterpretierende Perspektive dieser Art nicht als objektwahre zu erweisen ist, da es ihr nicht auf theoretische, objektive Aussagen über die Welt ankommt; vielmehr ist ihr Sinnwahrheit zu bescheinigen, da sie das Subjekt in den Stand setzt, sich in eine Welt zu versetzen, die ihm einen seiner Stellung zum Sein angemessenen Sinn bietet. Wenn der Perspektivismus den Gedanken der Sinnwahrheit vertritt, die einer Perspektive für je ein charakteristisches Stellungsnehmen zum Sein eignet, dann wendet er sich gegen den Anspruch auf eine allgemein geltende, beweisende Wahrheit an sich: vielmehr tritt er für die Anerkennung einer Wahrheit je für mich ein”. (Kaulbach, 1990, p. IX)

88 Cf. Kaulbach (1990, p. VIII): “Einer Perspektive wird “Wahrheit” für das Subjekt zugesprochen werden,

wenn sie es vermag, ihm eine Welt zu verschaffen, in der er eine dem Charakter seiner Stellung zum Sein und seiner Sinnerwartung gemässe Sinngebung erkennen kann”.

(1990, p. 211) pensando nos postulados do pensamento empírico em geral89, que

“postulados são reivindicações e exigências para interpretar nosso mundo de um modo determinado [...]”, portanto:

A um juízo metafísico como este pode ser concedido unicamente o lugar central de uma perspectiva, de um pensamento-guia, de uma visão-guia, isto é, de uma forma/um jeito sobre o modo como esse ‘objeto’ deve ser pensado e dito. (Kaulbach, 1990, p. 211)90

Nossas afirmações filosóficas (philosophischen Sätzen), nossas “proposições” para usar um termo da lógica, não se referem a objetos, mas aos tipos de pensamento que deles podemos ter. Nós tratamos os objetos “como se” os conhecêssemos, quando na verdade apenas temos acesso ao conjunto de significados da linguagem, e não ao real objetivo.

O perspectivismo de Kant toma a forma de uma metafísica do sentido, que se realiza por meio não de um impulso ao conhecimento (Erkenntnistrieb), no sentido de um impulso ao conhecimento objetivo, mas de uma tarefa de autoconhecimento, que se circunscreve numa hermenêutica crítica das proposições sobre o mundo. Nesse sentido, acrescenta o comentador, a razão perspectiva não é dependente do conhecimento objetivo das coisas, pelo contrário, ela é autossuficiente e autárquica, o que também não significa que ela estabeleça uma relação de confronto com o mundo objetivo das coisas, e sim que ela cria uma perspectiva dele que se adequa de modo plausível à expectativa do agente e pensante em seu sentido de verdade, portanto:

Nisso se reconhece que o perspectivismo em Kant deixa-se entender como programa de libertação da reivindicação dogmática do saber global objetivo e [como programa] da liberdade para uma interpretação global autárquica, própria à razão, razão esta que não depende de validação por parte do objeto-mundo. Ela pode por si mesma satisfazer a necessidade de significado. Mediante o conhecimento da perspectiva de um mundo, no qual encontro um sentido para as minhas ações, a razão perspectivista me concede uma orientação sobre o mundo (Kaulbach, 1990, p. 214)91.

89 Cf. Kant, 2008, pp. 238 ss.

90 Tradução nossa. No original: “Postulate sind Forderungen und Aufforderungen, unsere Welt in einer

bestimmten Art zu deuten. [...] Einen metaphysischen Urteil wie diesem ist allein der Stellenwert einer Perspektive, einer Denk- und Sehanleitung, d.h. einer Art und weise über die Art zuzubilligen, wie diesen "Gegenstand" gedacht und gesprochen werden solle”. (Kaulbach, 1990, p. 211)

91 Tradução nossa. No original: “Daran wird erkennbar, dass sich der Perspektivismus bei Kant als Programm

der Befreiung vom dogmatischen Anspruch objektiven Weltwissens und der Freiheit zur autarken, vernunft- eigenen Weltdeutung verstehen lässt, bei welcher Vernunft nicht auf Bestätigung von seiten der Objektwelt angewiesen ist. Sie vermag ganz auf sich selbst gestellt die Notwendigkeit der Sinnerfüllung zu sichern. Durch Erkenntnis der Perspektive einer Welt, in welcher ich Sinn für mein Handeln zu finden vermag,

Na contramão do dogmatismo, Kant estabelece que a necessidade de sentido pode ser respondida por um perspectivismo cuja interpretação do mundo fornece uma orientação ao pensar e agir humanos. Ocorre que, em Kant, a razão não só é quem responde à necessidade de sentido, como é ela quem pergunta por ela, ou seja, a necessidade de sentido é uma necessidade universal da razão pura, logo: “O status (Stand) da reflexão filosófica e sua perspectiva deve ser superior ao projeto de mundo do pensante e agente: ele deve ser maior do que isso” (Kaulbach, 1990, p. 213)92.

É neste ponto que, segundo Kaulbach (1990), o perspectivismo de Nietzsche se distancia especialmente do de Kant, pois “Nietzsche não tem em vista uma necessidade geral da razão pura do “eu penso”, mas a vida individual e a perspectiva de interpretação de mundo de cada homem, decidas por ele, é a sua filosofia” (Kaulbach, 1990, p. 216)93. Para

a filosofia experimental de Nietzsche, a necessidade do pensar é recolhida (erfassen) pela transformação histórica, por isso não se trata de uma necessidade universal da razão e sim de uma necessidade histórica do vivente, que enseja não um Stand “superior ao mundo do agente e pensante”, mas justamente um Stand intrínseco a ele, histórico.

Na verdade, o deslocamento da necessidade universal da razão para a necessidade histórica do sujeito é um dos elementos distintivos do segundo movimento da filosofia perspectivista, representado por Hegel. Numa revisão crítica do pensamento kantiano, o filósofo da Fenomenologia do Espírito chama a atenção para a “situação histórico- dialética” do sujeito94. Como explica Vaz (1992, pp. 10-11):

gewährt mir perspektivische Vernunft auch eine Orientierung in der Welt”. (Kaulbach, 1990, p. 214)

92 Tradução nossa. No original: “Der Stand der philosophischen Reflexion und seine Perspektive muss daher

dem des Weltentwurfes der Denkenden und Handelnden selbst überlegen sein: er muss höher liegen als dieser”. (Kaulbach, 1990, p. 213)

93 Tradução nossa. No original: “Bei Nietzsche ist nicht ein allgemeines Bedürfnis der reinen Vernunft des

“Ich denke” im Blick, sondern jeweils das Leben des individuellen Menschen, und die Perspektive der Weltdeutung, zu der er sich entscheiden hat, ist seine Philosophie”. (Kaulbach, 1990, p. 216)

94 Cf., p. ex.: Hegel (1992, p. 30 18): “A substância viva é o ser, que na verdade é sujeito, ou - o que significa

o mesmo - que é na verdade efetivo, mas só à medida que é o movimento do pôr-se-a-si-mesmo, ou a mediação consigo mesmo do tomar-se-outro. Como sujeito, é a negatividade pura e simples, e justamente por isso é o fracionamento do simples ou a duplicação oponente, que é de novo a negação dessa diversidade indiferente e de seu oposto. Só essa igualdade reinstaurando-se, ou só a reflexão em si mesmo no seu ser- Outro, é que são o verdadeiro; e não uma unidade originária enquanto tal, ou uma unidade imediata enquanto

No documento O(s) perspectivismo(s) de Nietzsche (páginas 87-108)