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Perspectivismo: o campo de força dos impulsos

No documento Ego fatum: Nietzsche e o imperativo do impulso (páginas 129-135)

4.3 I mpulsos: valorações além de bem e mal

4.3.2 Perspectivismo: o campo de força dos impulsos

92 Neste mesmo sentido: “Morfologia dos impulsos [Affecte]: referência dos mesmos à vontade de poder” (Anot.

1886, 6[26]) e “Psicologia (teoria dos impulsos [Affektenlehre] como morfologia da vontade de poder” (Anot. 1888, 13[2]). Neste contexto, Nietzsche apropria-se das ideias de Théodule Ribot (Las enfermidades de la memória, p. 58), que assinala que “o estudo [da natureza da memória] não deve ser apenas uma fisiologia, senão uma morfologia, ou seja, uma história de suas transformações”.

93 Anot. 1885, 2[148]. Segundo João Constâncio (op. cit., p. 164-165), “a diferença entre a visão de Nietzsche e a

de Schopenhauer é que, para o primeiro, as pulsões [ou impulsos] são de fato percepções – e, sendo percepções, não são ‘cegas’: são, antes, ‘seletivas, inteligentes, atentas’ (cf. KSA II. 577, 37[4]), i. e., têm intrinsecamente uma relação com o mundo exterior, e esta reação co-determina e constantemente altera o sentido ou o conteúdo que elas adquirem”.

94 Anot. 1885, 2[151]. 95 Anot.1886, 7[60].

96.. Por fim, cabe registrar que.

97 Anot. 1885, 2[190]. No original: “Wer legt aus? – Unsere Affekte”.

O estatuto dos impulsos no pensamento de Nietzsche compreende outro relevante aspecto: o Perspectivismo, assim grafado porque no pensamento de Nietzsche o termo “perspectiva” possui pelo menos duas acepções: por um lado, “perspectiva” tem o significado corriqueiro de “ponto de vista”, – a exemplo de quando Nietzsche diz que “situo cada investigação particular dentro de uma perspectiva mais ampla possível”99, quando então refere-se à “perspectiva metafísica”100, quando refere-se à “mísera perspectiva da vantagem pública”101 ou quando refere-se ao “círculo concêntrico” que há em torno de cada ser, a partir do qual “medimos o mundo, chamamos a isso perto e àquilo longe, a isso grande e àquilo pequeno, a isso duro e àquilo macio: a esse medir chamamos ‘perceber’102.

Por outro lado, “perspectiva” possui a acepção de âmbito de cada impulso, ou seja, seu campo de força, o que Nietzsche denota através da substantivação do adjetivo correlato através do uso da inicial maiúscula: Perspektivische103 – como igualmente grafamos. É o que ressai quando assevera que “também no reino do inorgânico somente seu entorno entra em consideração para um átomo de força [Kraftatom] [...] Eis o núcleo do Perspectivismo [...]”104 ou quando escreve: “O ‘conhecimento’ em relação às condições de vida. O ‘Perspectivismo’”105, a denotar que o Perspectivismo consiste em uma “porção de interpretação incorporada [einverleibten Stücks Interpretation], nosso ponto de vista

Perspectivista”106.

Neste sentido:

Você deve aprender o Perspectivismo que há em cada valoração – o deslocamento, a distorção e a aparente teleologia dos horizontes, e tudo o que relaciona-se ao Perspectivismo [...] Você deve aprender [...] a própria vida como condicionada pelo Perspectivismo e sua injustiça [...]107

O Perspectivismo designa, assim, a “visão unilateral [de cada impulso] a respeito da coisa ou evento”108. Noutras palavras:

99 Carta a Hermann Mushacke, de 13 de fevereiro de 1868 – BVN 561. 100 Anot. 1870, 7[124].

101 CI, Excursões de um extemporâneo, 50. 102 A, 117.

103 Daí porque em ABM, Pr. Cornelius Heim, Isabelle Hildebrand e Jean Gratien traduzem Perspektivische por

“perspectivisme” e Andrés Sánchez Pascual por “caratere prospettico”.

104 Anot. 1885, 36[20]. 105 Anot. 1885, 39[13].

106 Anot. 1886, 7[2] – destacamos. 107 HDH I, Pr., 6.

Todas as valorações são o resultado de determinadas quantidades de força e do grau de consciência que tenha-se a seu respeito: são as leis do Perspectivismo, em cada caso segundo seja um homem ou um povo – o que está próximo é importante, necessário etc.109

Neste contexto, “cada impulso é uma espécie de ânsia de domínio, cada um tem sua Perspectiva, que quer impor como norma a todos os demais impulsos”110; “Todo centro de força tem sua perspectiva para o resto inteiro, ou seja, sua valoração inteiramente determinada, seu tipo de ação, seu tipo de resistência”111.

Daí porque Nietzsche considera o Perspectivismo “a condição fundamental de toda vida”112, uma vez que “precisamente o Perspectivismo [é] necessário, em virtude do qual cada centro de força – e não apenas o homem – constrói a partir de si o resto do mundo, ou seja, mede-o, manipula-o, configura-o segundo sua força”113, o que, todavia, é contraposto pela “invenção platônica do puro espírito e do bem em si [...], que significou virar a verdade de cabeça para baixo e negar o Perspectivismo”114 porque a metafísica implica a desconsideração das exigências fisiológicas em prol de uma visão ciclópica que por isso mesmo limita o horizonte de expansão da vida, quando o Perspectivismo, por seu turno, é o que possibilita a mais ampla “diversidade de perspectivas e interpretações afetivas”115, aquilo que permite o

“ver-em-geral-e-em-conjunto”116.

É este o sentido do seguinte trecho da Terceira dissertação de Para a genealogia da moral, em que Nietzsche maneja ambas as acepções de “perspectiva”:

De agora em diante, senhores filósofos, guardemo-nos bem contra a antiga, perigosa fábula conceitual que estabelece um “puro sujeito do conhecimento, isento de vontade, alheio à dor e ao tempo”, guardemo-nos dos tentáculos de conceitos contraditórios como “razão pura”, “espiritualidade absoluta”, “conhecimento em si”; – tudo isso pede que imagine-se um olho que não pode absolutamente ser imaginado, um olho voltado para direção nenhuma, no qual as forças ativas e interpretativas, as que fazem com que ver seja ver- algo, estejam imobilizadas, ausentes; exige-se do olho, portanto, algo absurdo e sem sentido. Existe apenas um ver perspectivista, apenas um “conhecer” perspectivista; e quanto mais impulsos [Affekte], quanto mais olhos, diferentes olhos soubermos empregar para ver uma mesma coisa, tanto mais completo será nosso “conceito” a respeito dela, tanto mais

109 Anot. 1884, 25[460]. 110 Anot. 1886, 7[60]. 111 Anot. 1888, 14[184]. 112 ABM, Pr. 113 Anot. 1888, 14[186]. Cfr. tb. Anot. 1884, 27[27]. 114 ABM, Pr.

115 Respectivamente, Anot. 1885, 1[58] e GM, III, 12. 116 Anot. 1885, 40[21].

completa será nossa “objetividade”.117

A primeira parte do trecho transcrito estabelece um contramovimento à ideia de “puro sujeito do conhecimento” (ou seja, a um pretenso movimento no sentido de “contemplar a si no espelho do espírito”118), cuja admissão implicaria atribuir um caráter “absurdo e sem sentido” ao intelecto: “por um lado, preparado para a visão perspectivista necessária para que seres precisamente de nosso tipo possam manter-se na existência; por outro lado, ao mesmo tempo dotado de uma capacidade de compreensão dessa mesma visão perspectivista como perspectivista”119. Em uma palavra: admiti-lo configuraria precisamente o que Nietzsche denomina de “ilusão perspectivista”:

Se nosso “eu” é para nós o único ser de acordo com o qual fazemos e compreendemos todo ser: muito bem, então está justificada a dúvida de se há aqui uma ilusão perspectivista – a unidade aparente em que tudo se une como em uma linha do horizonte.120

Ademais, a metáfora do olho assinala também o movimento, a mudança de visão que

permite o único ver perspectivista, o “conhecer” perspectivístico: não no sentido do conhecimento preconizado pela metafísica, mas no sentido de “uma doutrina perspectivista

dos impulsos [Affekte]”121, e igualmente não no sentido de um relativismo, senão como um

experimento de pensamento que designa a multiplicidade de valorações que os impulsos

são e que, a partir daí, configuramos o mundo.

Quanto à segunda parte do trecho transcrito, Nietzsche assevera que

A partir de cada um de nossos impulsos primordiais [Grundtriebe] há uma estimação perspectivista diferente em relação a todo acontecer e a toda vivência. Cada um desses impulsos sente-se, em relação a cada um dos demais, inibido ou favorecido, adulado, cada um tem sua própria lei evolutiva (suas ascensões e quedas, seu tempo etc.) – e um perece quando o outro cresce.122

A partir daí – diz Nietzsche – o mundo torna-se novamente infinito para nós:

Nosso novo “infinito”. – [...] Penso que hoje, pelo menos, estamos 117 GM, III, 12 – destacamos. 118 Cfr. Anot. 1884, 26[432]. 119Anot.1886, 6[23]. Cfr. tb. GC, 374 e Anot.1885, 40[21]. 120 Anot. 1885, 2[91]. 121 Anot. 1887, 9[8] – destacamos. 122 Anot. 1885, 1[58].

distanciados da ridícula imodéstia de decretar, a partir de nosso ângulo, que somente dele é possível ter perspectivas. O mundo tornou-se novamente “infinito” para nós:na medida em que não podemos rejeitar a possibilidade de que ele encerre infinitas interpretações. Mais uma vez acomete-nos o grande tremor – mas quem teria vontade de imediatamente divinizar de novo, à maneira antiga, esse monstro do mundo desconhecido? E passar a adorar o desconhecido como “o ser desconhecido”? Ah, nesse desconhecido estão incluídas demasiadas possibilidades não divinas de interpretação, demasiada diabrura, estupidez, tolice de interpretação – nossa própria, humana, demasiado humana, que bem conhecemos...123

Ademais, vale assinalar que, sob a perspectiva fisiopsicológica nietzscheana, o corpo não é constituído (quer por células, sequer por átomos), tampouco é um espaço ou um meio: nesse novo caminho, “até mesmo o corpo, entendido como substância ou matéria, deve ter sua efetividade questionada”124.

Isto porque, na perspectiva de superação tanto das acepções idealistas quanto das acepções materialistas, “o que unitariamente chamamos ‘corpo’ no nível da consciência não é mais que uma ficção que designa uma simplificação, uma redução lógica e abstrata que o converte em um mero conceito”125.

É o próprio Nietzsche a assinalar:

Quão indigentes têm sido até agora os filósofos, quando a eles a linguagem, pelo menos a gramática, não lhes sugere em conjunto o que neles é “povo”! Nas palavras acham-se verdades, pelo menos pressentimentos da verdade: assim todos o creem firmemente: daí a tenacidade com que agarram-se ao “sujeito”, “corpo”, “alma”, “espírito”. Que desgraça encontra-se naquele erro mumificado que esconde a palavra “abstração”! Como se o que com ela indica-se surgisse mediante a supressão e não mediante o sublinhar, ressaltar, reforçar! [...]126

Assim entrevistas as temáticas relativas ao alcance da assertiva de Nietzsche segundo a qual “O corpo é uma grande razão”, cumpre, doravante, enfrentar a primeira questão relacionada ao sentido dessa afirmação: O que torna o corpo uma grande razão?

123 GC, 374 – destacamos. Eloquente exemplo desta “possibilidade não divina de interpretação” oferece-nos

António Marques (A filosofia perspectivista de Nietzsche, p. 75 – destacamos):

Isso significa que, para Nietzsche, a autopreservação é ela própria uma perspectiva (possível, mas secundária) dos mecanismos da vida. O ponto de vista da vontade de poder dá-nos um horizonte do

possível e do poiético, um horizonte por isso muito mais vasto do que aquele que seria criado por uma vontade de viver.

124 Miguel Angel de Barrenechea, Nietzsche e o corpo, p. 49-50.

125 Diego Sánchez Meca, Nietzsche: la experiencia dionisíaca del mundo, p. 125. 126 Anot. 1885, 40[6] – destacamos.

Capítulo 5

Selbst

Não dormes sob os ciprestes, Pois não há sono no mundo. ...

O corpo é a sombra das vestes Que encobrem teu ser profundo.

Fernando Pessoa

No documento Ego fatum: Nietzsche e o imperativo do impulso (páginas 129-135)