Antes, porém, de passarmos à análise dos caracteres do Selbst nietzscheano, é preciso dizer que na língua alemã o termo selbst é um advérbio demonstrativo que ordinariamente significa “mesmo” ou “próprio”, mas que, ao grafá-lo com inicial maiúscula (Selbst), Nietzsche o substantiva e assim torna-o o “dispositivo que [lhe] permite colocar a hipótese de um princípio de unidade antropológico por ele designado por vontade de poder”46.
Aliás, em uma das anotações em que Nietzsche refere-se à vontade de poder é possível identificar outro experimento de pensamento que maneja para referir-se ao Selbst: o Etwas – valendo assinalar que etwas é originariamente um pronome indefinido que, à semelhança do Selbst, Nietzsche substantiva ao grafá-lo com inicial maiúscula:
A vontade de poder interpreta [...] a vontade de poder delimita, determina graus, diferenciações de poder. Meras diferenciações de poder não poderiam ainda sentir-se como tais: tem que haver ali um Algo [Etwas] disposto a crescer que interpreta todo outro Algo [Etwas] que pretende crescer a respeito de seu valor [...]47
Ademais, a associação do Selbst ao Etwas encontra-se já no próprio discurso Dos desprezadores do corpo de Assim falou Zaratustra, quando Nietzsche assinala que “alma é apenas uma palavra para um Algo no corpo” [ein Etwas am Leibe]”48, ou seja, para o Selbst, o
44 Paul-Laurent Assoun, op. cit., p. 199. 45 Anot. 1885, 2[68].
46 António Marques, Mapeando o sujeito em Nietzsche: a distinção entre o Ich (“eu”) e o Selbst (“si mesmo”),
p. 22 – destacamos. Cfr. tb. Christian Niemeyer, Diccionario Nietzsche, verbete Cuerpo, p. 124. 47 Anot. 1885, 2[148].
48 ZA, I, Dos desprezadores do corpo. Ein Etwas am Leibe: “um Algo no corpo” – Acompanhamos as versões propostas por Paulo César de Souza (“um algo no corpo”) e por Alejandro Martín Navarro (“un algo que hay en el cuerpo” – para a tradução de ZA para a edição espanhola das Obras Completas de Nietzsche). Todavia, como Nietzsche procede, grafamos Etwas com inicial maiúscula. Vale registrar que as demais traduções
impulso soberano cuja identificação ao Etwas também promove ao asseverar que,
à mercê de um encanto [Banne] invisível [...], Algo [Etwas] [nos filósofos] os conduz, Algo [Etwas] os impele a uma ordem definida, um após o outro, precisamente aquele inato e sistemático parentesco entre os conceitos. Seu pensamento, na realidade, não é tanto descoberta quanto reconhecimento, relembrança, um retorno àquela distante, antiquíssima economia global da alma [Gesammt-Haushalt der Seele], da qual em outro tempo aqueles conceitos brotaram – nesse sentido, filosofar é um atavismo de primeiríssima ordem [...] O encanto exercido por determinadas funções gramaticais é, em última instância, o encanto de condições raciais e juízos de valor fisiológicos [...]49
Neste contexto, em um tópico posterior ainda de Além de bem e mal, Nietzsche também usa a expressão “economia global” ao referir-se aos “impulsos [Affekte] de ódio, inveja, cupidez e ânsia de domínio” como “Algo [Etwas] que tem que estar presente, por princípio e de modo essencial, na economia global da vida [Gesammt-Haushalte des Lebens], e em consequência deve ser realçado, se a vida é para ser realçada”50.
Aliás, esta correspondência é também assinalada por Carl Gustav Jung, quando assevera:
Este "algo" é-nos estranho e, no entanto, próximo; sendo plenamente o que somos, é incognoscível, um centro virtual de misteriosa constituição e que poderá exigir tudo [...] E é saudável prestar ouvidos a essa voz.
Dei a este ponto central o nome de Selbst. Intelectualmente, não passa de um conceito psicológico, de uma construção que serve para exprimir o incognoscível que, obviamente, ultrapassa os limites da nossa capacidade de compreender [...] Tal paradoxo é inevitável como sempre que tentamos definir o que ultrapassa os limites de nossa compreensão.51
O Selbst corresponde, pois, ao Algo que não dorme – “Algo não dorme” (“Etwas nicht schläft”), algo conta as horas e o despertará”52 – a que Nietzsche refere-se em A gaia ciência,
brasileira, espanhola e francesa consultadas trazem “alguma coisa no corpo”, “algo en lo cuerpo” e “quelque chose dans le corps”.
49 ABM, 20 – destacamos. Banne: “encanto” – Todavia, Paulo César de Souza (in ABM, nf 54) esclarece:
O termo alemão evoca mais do que “encanto”. Bann designava, na Idade Média, o domínio ou jurisdição do senhor, seu direito de instituir proibições e castigos, e o próprio castigo ou proibição. Tinha – tem – igualmente o sentido de desterro ou excomunhão (no caso da Igreja), aplicando-se também ao território onde vale a proibição
50 ABM, 23.
51 Carl Gustav Jung, O Eu e o Inconsciente, p. 123. Para as transcrições dos escritos de Jung mantemos o termo original alemão Selbst.
52 GC, Pr, 2. Vale registrar que no escrito intitulado Sobre os estados de ânimo, de 1864 (onde, como dissemos, ocorre o primeiro uso expressivo do termo Trieb), Nietzsche questiona: “O que determina, em última instância, a vontade?” e imediatamente a seguir assinala: “Oh, quão frequentemente dorme a vontade e em vigília permanecem apenas os impulsos e inclinações!” (Anot. 1864, 17[5], in Obras completas, vol. I, p. 218 –
uma analogia ao “Isso pensa [Es denkt]” inscrito em Além de bem e mal53, sobre o que vale tecer uma breve digressão.
Na língua alemã, o termo es é um pronome pessoal do gênero neutro que Nietzsche substantiva ao grafá-lo com inicial maiúscula para designar o impulso soberano, à semelhança do que faz com Selbst e Etwas.
Trata-se de uma acepção que teria gênese nas obras Vermischte Schriften (Escritos variados – 1801), de Georg Christoph Lichtenberg54, e Wider den Dualismus von Leib und Seele,Fleisch und Geist (Contra o dualismo do corpo e da alma, carne e espírito – 1846), de Ludwig Feuerbach55 e que teria influenciado sobremaneira os filósofos Søren Kierkegaard56 e Friedrich Nietzsche e, a partir deste, a então incipiente psicanálise de matiz freudiana do início do século XX, de forma que neste ponto impõe-se enfrentar uma questão fundamental, relativa ao significado de Es para estas instâncias de pensamento, pois, como bem observa Peter Pál Pelbart, “não é casual que [...] a ciência de Freud [...], através de Groddeck, tenha ido buscar em Nietzsche o termo mais enigmático, inumano e neutro (exterior e profundo
destacamos).
53 ABM, 17. Por esta razão, aliás, para a edição portuguesa deste escrito o tradutor Hermann Pflüger optou por
“Algo pensa”. Sobre a influência do pensamento de Nietzsche em suas concepções, Jung assevera: “O pensamento de Nietzsche foi uma das primeiras influências espirituais que eu experimentei. Tudo então era novidade, e era o que havia de mais próximo a mim” (Seminar on Nietzsche’s Zaratustra, p. 1301, apud Sofia Barbosa de Godois, Jung leitor de Nietzsche: o processo de individuação e "O Zaratustra", p. 60).
54 Georg Christoph Lichtenberg (1742–1799), filósofo, escritor e matemático alemão. Em seus Vermischte Schriften consta: “Man sollte eigentlich nicht sagen: Ich denke, sondern: Es denkt‹?, que é possível verter por: “Você realmente não deveria dizer: Eu penso, mas Isso pensa?”.
55 Ludwig Andreas Feuerbach (1804-1872), filósofo alemão cujo pensamento é considerado uma transição entre
o idealismo (sobretudo de Hegel) e o materialismo histórico de Karl Marx e o materialismo cientificista da segunda metade do século XIX. Suas principais obras são A essência do cristianismo (1841), Princípios da filosofia do futuro (1843) e A essência da religião (1846). Acerca da influência de Lichtenberg e de Feuerbach sobre o Es nietzscheano, cfr. Nikolaos Loukidelis, Quellen von Nietzsches Verständnis und Kritik des Cartesischen Cogito, Ergo. Sum (Nietzsche Studien; nº 34, 2005. pp. 300-328) e Bernd Nitzschke, Zur Herkunft des “Es”: Freud, Groddeck, Nietzsche – Schopenhauer und E. von Hartmann (Psyche – Zeitschrift für Psychoanalyse und ihre anwendungen, 1983, n. 37, p. 769-804.
56 Søren Aabye Kierkegaard (1813–1855), filósofo dinamarquês, considerado o primeiro filósofo existencialista.
A ideia do Selbst (Selv, na língua dinamarquesa) encontra-se já nas linhas iniciais de sua obra O desespero humano (1849), onde assinala (p.195):
O homem é espírito. Mas o que é espírito? É o Selv. Mas, nesse caso, o [que é o] Selv? O Selv é uma relação, que não se estabelece com qualquer coisa de alheio a si, mas consigo própria. Mais e melhor do que na relação propriamente dita, ele consiste no orientar-se dessa relação para a própria interioridade. O Selv não é a relação em si, mas sim o seu voltar-se sobre si própria, o conhecimento que ela tem de si própria depois de estabelecida.
Para uma análise panorâmica dos paralelismos e diferenças entre os pensamentos de Kierkegaard e de Nietzsche, cfr. Álvaro Valls, Kierkegaard, um leitor de Nietzsche avant la lettre (Cadernos Nietzsche, n. 21, 2006, p. 47-62).
Por fim, vale trazer a lição de Jung (O Eu e o Inconsciente, p. 69) a respeito da “razão artística” característica do inconsciente, no que aproxima-se do pensamento de Nietzsche:,
[A mentalidade do inconsciente] é de caráter instintivo, não tem funções diferenciadas, nem pensa segundo os moldes daquilo que entendemos por "pensar". Ele somente cria uma imagem que responde à situação da consciência; esta imagem é tão impregnada de idéia como de sentimento e poderá ser tudo, menos o produto de uma reflexão racionalista. Seria mais certo considerarmos tal imagem como uma visão artística.
ao mesmo tempo) – o Es”57.