Parte II – Os contos de fadas: um contributo para o desenvolvimento da criança
2.3. O Conto no desenvolvimento da criança
2.3.2. Perspetiva do desenvolvimento
A compreensão e a importância dos contos de fadas dependem bastante da idade e do nível de desenvolvimento da criança (Lubetsky, 1989). Aos cinco anos, a criança tem muita dificuldade em separar a realidade da fantasia. É mais ou menos nesta idade que os contos de fadas se tornam verdadeiramente significativos (Bettelheim, 2002).
A criança com menos de um ano está a aprender a diferenciar-se do mundo exterior, descrito como o estágio sensório-motor de Piaget. Ela adquire prazer com a gratificação oral (descrição de Freud) e descobre um saudável sentido de confiança através das experiências com os seus cuidadores (o primeiro estágio descrito por Erikson) (Lubetsky, 1989).
Posteriormente, com as experiências dos dois aos três anos tudo no mundo gira em torno dele, sendo referido por Piaget como a fase egocêntrica da criança, denominada pré-operacional. A criança começa a usar a linguagem, ocorre a coordenação do desenvolvimento motor, e passa a ver os pais como a força dominante. O medo do abandono e a luta para tentar controlar e ganhar autonomia na sua vida (a segunda fase de Erikson), e o controlo sobre a função intestinal, podem ser encontradas na fase anal (Lubetsky, 1989).
A fase dos quatro para os cinco anos é marcada pelas lutas e conflitos com os pais. A criança aprende a identificar-se com o progenitor do mesmo sexo como forma de possuir o progenitor do sexo oposto, sem medo de represálias, como descrito por Freud, no complexo de Édipo.
Tal corresponde ao desenvolvimento da iniciativa, e não a sentimentos de culpa (Lubetsky, 1989).
Dos seis aos doze anos, a entrada na escola e o longo período de latência que Freud relatou como a repressão dos impulsos libidinosos. Isso permite que a energia que possuem se possa transformar em atividade laboriosa, e não num sentimento de inferioridade. Ocorre também o desenvolvimento de operações concretas básicas para o desenvolvimento mental. A criança, em idade escolar, desenvolve um superego que lhe permite seguir um padrão de regras impostas pelos pais e, assim consegue fazer a separação entre o ambiente familiar e o mundo dos amigos e da escola. Às vezes, a ansiedade pode ser manifestada em sintomas como pesadelos, enurese, obstipação ou fobias (Lubetsky, 1989).
Para a criança em idade escolar, os contos de fadas podem começar a parecer muito irreais ou infantis, e outras formas do repertório da fantasia podem surgir, como as histórias de banda desenhada, desenhos animados e videojogos. Muitos dos temas das histórias de banda desenhada ou desenhos animados permitem que as crianças se identifiquem com os poderosos super-heróis que triunfam, encorajam a expressão de raiva através de batalhas, ou facilitam a resolução de conflitos interpessoais. O que permite o desenvolvimento da iniciativa, da construção e da confiança. Os videojogos são outra forma de fantasia que podem facilitar a sublimação da agressividade, expressão de raiva, pensamentos de poder ou controlo. No entanto, os videojogos podem facilitar o desenvolvimento de um espírito competitivo, aumentar a autoconfiança, e promover a socialização dos pares, quando realizado em atividade de grupo e não solitariamente (Gardner, 1989).
Finalmente, a entrada na adolescência provoca não só alterações físicas, bem como desperta os impulsos libidinosos descritos por Freud que se encontram latentes. A identidade do ego, o papel da conformidade e a interação social cresce à medida que ocorrem os processos do pensamento operacional (última etapa de Piaget no desenvolvimento cognitivo). O adolescente aprende a conquistar a independência dos seus pensamentos, ações e sentimentos, levando à intimidade e escolha do companheiro (Lubetsky, 1989).
É o conto de fadas que confronta a criança perante o domínio de várias funções do seu desenvolvimento (Lubetsky, 1989). Para o adolescente, a fantasia serve como um veículo para dominar a ansiedade, facilitando a separação e a individualização, e a delimitação do ego ("dentro e fora de mim".
Uma das atividades desenvolvidas por nós em contexto de Pré-Escolar, nesse sentido, foi a criação de um conto de fadas, intitulado de “O Fio Mágico”. Cada criança sugeria um bocadinho da história, e essa história ia sendo registada por nós. As frases eram soltas e nem sempre existia um fio condutor, mas através de questões colocadas por nós, as crianças acabavam por situar-se na história e prosseguir com as suas ideias. Seguidamente, como forma de registo da atividade, as crianças desenharam as personagens e alguns elementos do cenário. No final, construímos um livro com as ilustrações selecionadas pelo grupo. Relativamente ao título da história, sugerimos alguns, e por votação foi selecionado “O Fio Mágico”. A imaginação e a criatividade do grupo foram notórias, pois apesar de poucas personagens, a história era repleta de ação e suspense. No final, o Príncipe e a Princesa viveram felizes para sempre, como acontece na maioria dos contos de fadas. As crianças demonstraram bastante motivação pela atividade e deram-na a conhecer aos pais, levando o livro para casa, aleatoriamente. Os pais, por sua vez, elogiaram bastante a atividade e alguns voluntariaram-se para contarem a história ao grupo.
O Fio Mágico
“Era uma vez uma linda princesa chamada Maria, que vivia num enorme castelo no meio da floresta.
Certo dia, a princesa foi convidada para uma das melhores festas do reino, era a festa de anos do príncipe Pedro. A princesa Maria desde logo se entusiasmou com a ideia e resolveu fazer um bolo delicioso para levar.
No dia da festa, vestiu o seu vestido mais bonito para ficar linda aos olhos do príncipe, mas havia um problema para resolver… A princesa Maria não sabia como ir para o castelo, nem qual o melhor caminho para lá chegar, então pediu ajuda ao seu fio mágico… “Fio mágico ajuda-me a decidir…”
Desde logo o fio mágico lhe disse para pegar no seu coche e não seguir pelo caminho da direita, para não passar pelo caminho onde moravam as bruxas más, que elas eram muito perigosas e podiam fazer-lhe mal. A princesa entrou no coche toda apressada que nem se lembrou do que o fio mágico lhe tinha dito e seguiu pelo caminho da direita.
Andou andou andou, até que apareceu no meio do caminho a bruxa má, que queria fazer com que os cavalos voltassem para trás e não levassem a princesa até ao castelo. Mas a Maria lembrou-se de uma vez mais pedir ajuda ao seu fio mágico e com um toque de magia a bruxa má logo desapareceu e os cavalos correram a toda a velocidade, em direção ao castelo.
Já atrasada, finalmente a princesa chegou ao castelo, onde a festa já tinha começado. Havia música e todas as pessoas dançavam. A princesa entregou o bolo ao príncipe e deu-lhe um enorme beijo de parabéns.
O Príncipe Pedro aproveitou que todas as pessoas estavam reunidas para pedir a princesa Maria em casamento.
A princesa respondeu que sim com um enorme sorriso no rosto e a partir desse dia mais nada nem ninguém os conseguiu separar.” (As ilustrações encontram-se no cd em anexo)
Com essa atividade pretendi desenvolver os seguintes objetivos pedagógicos:
Desenvolver a criatividade e imaginação; Desenvolver o raciocínio;
Promover o gosto pela participação de atividades em grupo; Expressar-se oralmente de forma autónoma e correta; Explorar as possibilidades lúdicas da linguagem; Memorizar e reproduzir contos;
Identificar personagens e protagonistas de um conto; Promover o gosto pelos contos de fadas;
Valores transmitidos:
Amor;
Dicotomia bem/mal; Coragem;
2.4. A linguagem simbólica de um conto de fadas: análise do conto “ A
Branca de Neve e os sete anões”
Como forma de ilustrar o simbolismo presente nos contos de fadas, é importante analisar um conto em particular para perceber de que forma a magia consegue modelar o pensamento infantil.
Atentemos na famosa história da Branca de Neve e os sete anões, dos Irmãos Grimm, considerado um clássico da literatura para a infância. Neste conto, pretende-se transmitir a mensagem que o atingir da maturidade física não é sinónimo de maturidade intelectual e entrada afetiva no mundo adulto, que é aqui representado pelo casamento. É importante que a criança saiba que tem ainda um longo caminho pela frente até que a sua personalidade esteja madura. Só neste momento é que poderá encontrar um parceiro para estabelecer relações íntimas características da idade adulta. Na história da Branca de Neve, este parceiro é o príncipe que liberta a Branca de Neve do sono no caixão, em que esta amadureceu para depois a ele se unir. Pretende-se com este simbolismo transmitir que é necessário refrear as nossas paixões, esperando pelo momento certo, se não estas acabarão por se destruir (Mesquita, 2011).
Este conto tem como objetivo que a criança compreenda as diferentes fases de desenvolvimento. Os primeiros anos de vida da Branca de Neve, fase de total dependência da criança, são referidos sem lugar a qualquer problema, mesmo esta tendo sido criada por uma madrasta após a morte da mãe. Porém quando faz sete anos é expulsa do castelo onde vive, porque a madrasta (bruxa não tradicional) é obcecada pela beleza eterna, não admitindo adversários. Assim quando a Branca de Neve é abandonada na floresta, no desconhecido, é representado o processo de amadurecimento (Mesquita, 2011).
O conto pretende retratar a temática da beleza e do narcisismo, muito bem representado pela madrasta ao usar o espelho mágico (“Espelho meu, espelho meu! Diz-me se no mundo há mulher mais bela do que eu?”), enquanto olho universal que tudo sabe e nada esconde (Mesquita, 2011).
A Branca de Neve adormece após ter comido a maçã envenenada, sendo este tempo a representação da pausa para amadurecer. Durante três dias, o corpo, mantido num caixão de vidro, é velado pelos sete anões, e surgindo ao seu lado três pássaros com simbologia distinta. Uma coruja, pássaro da morte que aqui também representa a sabedoria, um corvo enquanto chefe das forças mais negras, simboliza a consciência de quem amadurece, e por último uma pomba como símbolo da inocência e do amor (Mesquita, 2011).
O facto de as aves surgirem em número triplo é novamente um apontamento para a simbologia dos números no mundo da magia. Três é também o número de provas que a Branca de Neve será submetida pela sua madrasta até alcançar a vitória. Na primeira vez que a Branca de Neve é visitada pela madrasta, esta aproveita o facto de os anões terem ido trabalhar para simular uma velha vendedora ambulante, e ao tentar vender-lhe um corpete aperta-o em demasia para asfixiar a jovem. Esta cai inanimada no chão, no entanto os anões chegam a tempo de a socorrer. Na próxima visita, a madrasta surge novamente disfarçada e oferece à Branca de Neve uma travessa para o cabelo que se encontra envenenada, caindo a bela jovem novamente sem sentidos. Por fim, a madrasta com um novo disfarce, desta feita de camponesa, oferece uma maçã envenenada. Desta vez, a madrasta usa da sua astúcia para enganar a Branca de Neve, pois para provar que a maçã ada tem, come metade, só que a metade branca, enquanto a Branca de Neve ao comer a metade vermelha cai novamente inanimada, não podendo, desta vez, ser salva pelos anões. A cor encarnada poderá ser a representação da entrada na maturidade sexual da jovem (Mesquita, 2011).
O aparecimento do príncipe será a representação do fim do processo de amadurecimento, pois quando este pretende levar a Branca de Neve, esta solta o pedaço de maçã deglutida voltando à vida. Tal significa que apenas depois de ter pago o preço da ingenuidade pode voltar à vida, renascendo para uma nova etapa (Mesquita, 2011).
Um outro número mágico também referido é o sete. A Branca de Neve, aos sete anos, encontra uma casa com sete anões, sete utensílios (sete camas, sete copos, sete pratos, sete garfos, sete candeeiros), depara-se com sete perguntas dos anões quando a encontram. Sete são também as tarefas domésticas a desempenhar pela Branca de Neve e também sete as vezes qua bruxa pergunta ao espelho quem é a mais bela do mundo. A madrasta e a banca de neve vivem ainda em mundos diferentes separados por sete montanhas (Mesquita, 2011).
Nesta história, temos ainda a representação dos ciúmes e a inveja da madrasta, procurando a morte da Branca de Neve como forma de resolver os seus problemas (Mesquita, 2011).
Como todos os contos de fadas, procura-se transmitir que, no final, só o bem vencerá e serão os bons que conseguirão viver felizes para sempre.
Assim, os contos de fadas podem não conseguir ensinar determinadas condições específicas da vida atual, no entanto conseguem dar respostas a problemas considerados universais, como o processo de envelhecimento, a morte, a inveja e o ciúme, entre outros. Através de uma linguagem simbólica, a criança consegue compreender as situações, pois os contos utilizam a linguagem da magia e do sonho (Mesquita, 2011).