CAPÍTULO I – HOMICÍDIOS INTRAFAMILIARES
1.4. Modelos explicativos
1.4.3. Perspetiva psicológica
Na perspetiva psicológica teremos em conta as diferentes abordagens da psicologia da agressividade, dado que este conceito encontra–se intrinsecamente associado ao da violência, bem como algumas das reflexões da designada psicologia criminal, uma vez que se trata do capítulo da criminologia que encerra a perspetiva psicológica.
Cordeiro refere que a “violência humana resulta de uma falência das capacidades de comunicação e de negociação entre as pessoas, dependendo igualmente de uma falha de
33 Crime_Qualquer violação grave da lei moral, civil ou religiosa, ato ilícito. Ato condenável, de consequências
desagradáveis.
34 Trata-se da aplicação racional das leis da genética à reprodução humana, com o objetivo de obter melhorias
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internalização da norma, do que é ou não permitido, do bem e do mal” (Cordeiro, 2011, p. 45). As correntes psicodinâmicas afirmam que ao nascermos transportamos em nós pulsões agressivas e pulsões libidinais capazes de garantir o desenvolvimento da pessoa, do grupo, da qualidade e da espécie. É do “jogo das duas tendências do desenvolvimento humano, as pulsões libidinais, o instinto de vida e as pulsões agressivas, a agressividade que segundo esta corrente irá depender o desenvolvimento equilibrado e harmonioso da nossa personalidade.
A agressividade descontrolada pode conduzir à violência, destruição e morte do outro, mas a incapacidade de exercer a agressividade normal abre as portas à passividade e à total dependência do outro, conduzindo à destruição do próprio (Cordeiro, 2011). A prespetiva freudiana, a agressão remete para a agressividade. Mas, a agressividade para além de maligna, e destrutiva, também pode ser benigna e orientada para a combatividade em que a mesma se exprime pela competição e pela criatividade. A agressividade segundo a escola psicanalítica é considerada como uma pulsão, projeção do instinto de morte ou de destruição, para Sigumd Freud, ou uma manifestação de um desejo de poder sobre o outro e de afirmação de si, para Alfred Adler (Moser, 2001 in Dorot & Parot, 2001).
Desconhe-se povo, cultura ou época histórica em que a agressividade não seja um fenómeno entre grupos e no seio da própria família. Na espécie humana é comum a violência entre os seus membros. Os etologistas35 consideram duas formas de agressão, a
intra-específica, contra os membros da mesma espécie e a interespecífica, para com as outras espécies. Ao contrário da espécie humana que se agridem na disputa de qualquer superioridade étnica, religiosa, ideológica, económica, algumas espécies animais lutam com os seus pares de acordo com certos “códigos” aceites no grupo quer ao nível da seleção natural quer ao nível da disputa da fêmea e da liderança do grupo. O instinto da morte é utilizado quando do exterior ameaçam de morte a espécie e recorrem a condutas de apaziguamento para evitar ferir de morte os seus iguais, por exemplo, as viboras não se mordem, dão cabeçadas até uma ser vencida; os animais mais fracos evitam o ataque e fogem, os carnívoros matam os animais que necessitam para comer, desta forma e através deste sistema de inibição evitam a autodestruição da sua espécie. A agressividade tem um valor biológico positivo no sentido da conquista e proteção do território (Lorenz). A etologia humana e animal revelam que em situação de perigo as espécies animais aumentam a sua coesão, e de proteção da espécie, no entanto quando os territórios estão sobrelotados
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de aninmais da mesma espécie as manifestações de agressividade entre eles aumentam, e numa família , ou num grupo de amigos, conhecidos ou desconhecidos, a agressividade tende a aumentar (Cordeiro, 2011).
A violência não tem de ser necessariamente agressiva, uma crítica privada ou uma manifestação pública não tem de ser necessariamente violentos. As formas de violência moral exercida pelas pessoas dominantes, a posse de um bem, de um saber, de um saber- fazer pode ser sentida pelos que disso estão desprovidos como uma violência que lhes é feita pelo possuidor, daí a violência do retorno (Anzieu, 2001 , in Doron & Parot, 2001).
Todos os dias testemunhamos violência nas nossas casas, ruas , escolas e tribunais, os mídia emitem reportagens provocando uma ressonância perturbadora afectando quem as visiona no seu comportamento em paralelo ao analisar a violência familiar esta deve começar por uma análise das circunstâncias em que decorreu a infância dos pais abusadores. Não existe uma aceitação homogénea do termo agressão, as várias posições são inconciliáveis, os comportamentalistas consideram agressão todo e qualquer comportamento que , prejudica ou magoa o outro; os neocomportamentalistas definem agressão como uma intenção de magoar ou de prejudicar o outro, a posição cognitivista considera o comportamento agressivo se intencional ou transgressor da norma que rege a situação em que ocorre. Na psicologia social a agressão surge como um controlo manipulativo de origem sociogénico. Para Bandura os comportamentos de agressão são o resultado de aprendizagem, nomeadamente por observação reforçando a explicação sobre as condições de ocorrência de uma agressão, sem excluir a origem endógena do comportamento (Moser, 2001 in Dorot & Parot, 2001). A agressão reforça_se pela obtenção de recompensas, status,
aprovação, e sendo persistente pode não ser só o reforço do resultado positivo ou negativo do comportamento agressivo mas de um fracasso ao tentar aprender modos não agressivos (Cordeiro, 2011).
De acordo com as várias prespectivas, que têm tentado compreender o fenómeno da agressão, ora dão mais ênfase aos processos de aprendizagem e experiência, cognitivos ou afectivos, ora aos determinantes externos e internos. As teorias da agressão humana atribuem tanto à sua instigação como à regulação a mecanismos intrapsíquicos que podem ultrapassar a capacidade de controlo da pessoa (Cordeiro, 2011). De acordo com as teorias mecanicistas, a agressividade constitui–se numa reação a um ou mais estímulos, adquirida através de mecanismos de condicionamento, pressupondo, por conseguinte, a existência de estímulos suscetíveis de desencadear agressividade. A maior parte desses estímulos são
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aprendidos a partir de situações precedentes, tratando–se da aprendizagem mais fácil de adquirir e também da mais duradoura no tempo. Segundo as teorias cognitivas e o modeling
behavior, a agressividade aprende–se através da imitação de modelos com grande
significado afetivo, operando–se, por sua vez, tal processo através das experiências vividas, como agradáveis ou desagradáveis, pelo próprio sujeito, que as seleciona e lhes atribui significado (Furtuoso, 2005).
Baseando–se na noção de imitação tais modelos cognitivistas não poderão explicar todas as formas de aprendizagem da agressividade. Sucede que não só os mecanismos inerentes à interiorização dos modelos agressivos afetam a personalidade dos sujeitos no seu todo (pelo que aquela não se faz através da imitação, mas através de um processo de identificação ao ofensor) mas também por modelos considerados fortes, os veiculados pelos órgãos de informação e vividos como expressão duma elite, os mais interiorizados. (Caneghem, 1978 citado por Furtuoso, 2005).
Segundo Dollard et al. (1939) e Lewin (1935) os estímulos e os modelos que levam à agressão só têm efeito sobre os sujeitos cujo sistema de motivações (necessidades, desejos e aspirações insatisfeitos) conduzam a tal. Dollard et al (1939) sustentam a tese central de que o comportamento agressivo de um sujeito é resultado de frustrações sofridas anteriormente por esse mesmo sujeito e, reconhecem que nem todas as frustrações conduzem à agressão, isto é, um indivíduo pode vivenciar frustrações e não vir a manifestar comportamentos agressivos. O conceito de frustração utilizado por estes autores, para Furtuoso (2005) é definido como um ou mais obstáculos (externos e internos) à ação de um sujeito quando este tenta alcançar um certo fim.
A hipótese frustração-agressão remete para uma relação inata entre frustração, estimulo antecedente, e a agressão. Donde, nesta prespetiva todo o comportamento de agressão seria consequência da frustração. No entanto a investigação sugere coisa diferente, Berkowitz considerada que a frustração só provoca a agressão se a estimulação aversiva produzir um estado de cólera, que irá aumentar a disponibilidade para responder por meio de agressão em situações adequadas perante a presença de estímulos evocadores da agressão, e não é só a frustração que provoca a agressão, mas também o insulto, o ataque, as ofensas ao amor-próprio, à dignidade e à reputação.
Pese embora a hipótese frustração–agressão constituir uma posição teórica relevante, designadamente no campo da criminologia, vários autores, consideram que a frustração enquanto obstáculo posto à ação dos indivíduos (...) não suscita nestes uma
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tendência para agir de modo mais agressivo que indivíduos que não sofreram frustrações (Glória, 1981).
No quadro da chamada psicologia criminal, Dias e Andrade (1992) destacam, no âmbito das teorias que designam de psicodinâmicas, a teoria do condicionamento de Eysenck e as criminologias psicanalíticas.
Segundo a teoria do condicionamento de Eysenck em 1977, 1989, 1990, a propensão para o crime é universal, mas geralmente contrariada pela consciência; esta é perspetivada como um sistema de respostas condicionadas pela moral, adquirida durante a infância e a adolescência, sendo a aprendizagem social reduzida ao modelo pavloviano do condicionamento e a socialização encarada como um processo de aquisição de respostas condicionadas (Dias & Andrade, 1992).
De acordo com Frutuoso (2005) não obstante a rejeição da ideia do delinquente nato, registam–se semelhanças entre as criminologias psicanalíticas, designadamente a freudiana e a criminologia Lombrosiana: ambas têm como património cultural comum o positivismo, o darwinismo e o atavismo como explicação do crime, pois, nas primeiras, o delinquente ou criminoso representa um certo regresso ao homem primitivo, não relativamente às formas antropológicas, mas sim à estrutura psíquica. A criminologia freudiana ao estabelecer uma ligação entre o complexo de Édipo e a repetição do parricídio (crime original da espécie humana) cai numa espécie de lombrosianismo psicológico.
Em termos de soluções/respostas, as criminologias psicanalíticas advogam que o crime em si não é uma doença, mas antes um sintoma de doença que radica em equilíbrios patológicos ou desequilíbrios das diferentes tensões intrapsíquicas, pelo que é o criminoso e não o crime que deve ser punido. As críticas a estas teorias assentam no facto destas estarem imbuídas do espírito totalitarista da Europa do início de século e na defesa do Direito Penal, considerado imprescindível enquanto sistema de controlo social.
As experiências de Zimbardo em 1972, bem como as de Milgram em 1974 permitem concluir que as relações agressivas, traduzidas em situações de conflito dual podem aviltar–se de duas maneiras, as quais constituem duas patologias aparentemente opostas mas muitas vezes ligadas em alternância: a maneira sadomasoquista, caracterizada por um hiper–envolvimento afetivo na perceção do outro; ou a maneira esquizo–paranóide, com falta de envolvimento afetivo quase total, que os criminologistas designam de falta de envolvimento afetivo criminógeno do ponto de vista das vítimas (Caneghem, 1978 citado
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por Furtuoso, 2005). A experiência de Zimbardo permite concluir que não só a personalidade, mas também as relações sociais podem ser alteradas por uma situação social.