5. PERSPECTIVAS PRODUTOS E ESPÉCIES
5.2 PESCA DE ATUNS E AFINS
O projeto Protuna (Desenvolvimento Tecnológico para a Captura de Grandes Pelágicos Oceânicos na costa norte do Brasil) atuou entre os anos de 2000 e 2002 com espinhel pelágico na região norte do Brasil, em frente aos Estados do Pará, Amapá e Maranhão, capturando 36 espécies de atuns e afins. Estas espécies estão amplamente distribuídas na área que se estende desde o talude continental até ultrapassar as 200 milhas da ZEE (Figura 47).
Figura 47: Área de ocorrência das espécies de atuns e afins na costa norte de Brasil.Fonte: Asano-Filho et al. (2004).
Dentre as espécies mais abundantes entre os atuns e afins, destaca-se o espadarte (Figura 48). Na costa norte, a espécie representa 43% da captura total de atuns e afins (ASANO-FILHO
et al., 2004b). Indivíduos com comprimento de 0,74 até 3,90 m (incluindo juvenis a adultos)são capturados na área durante todo o ano, exceto no primeiro trimeste. Entretanto, o maior volume de captura se dá entre os meses de abril a junho (ASANO-FILHO et al., 2004c).
A distribuição do espadarte na costa norte do Brasil ocorre entre as latitudes 06o32’11”N e 00o 08’04”N, tendo sido mais abundante na área adjacente ao estado do Amapá entre as latitudes 02 e 05°N (ASANO-FILHO et al., 2004) (Figura 49).
-53 -51 -49 -47 -45 -43 -41 -39 -37 -35 -33 -31 -29 Longitude -53 -51 -49 -47 -45 -43 -41 -39 -37 -35 -33 -31 -29 -4 -2 1 3 5 7 L a ti tu d e -4 -2 1 3 5 7 Cabo Orange Amapá Ilha do Marajó Pará Maranhão
Figura 49: Ocorrência do espadarte na costa norte de Brasil. Fonte: Asano-Filho et al. (2004).
A Albacora-laje (Figura 50) é também bastante abundante na região e ocorre entre as latitudes 06o11’15”N e 00o 08’04”N, com maiores abundâncias na área adjacente ao estado do Amapá, entre as latitudes 02 e 05°N (Figura 51). No Atlântico Oeste Equatorial, indivíduos maturam com 3,4 anos e podem viver até 6,5 anos (191 cm comprimento furcal) (LESSA & DUARTE-NETO, 2004). Este atum representa 25% da captura total de atuns e afins na costa norte e 58,3% entre os atuns (ASANO-FILHO et al., 2004b). Indivíduos com 0,90 até 1,90 m de comprimento furcal são capturados na área, durante todo o ano, exceto no primeiro trimeste, entretanto, o maior volume de captura, ocorre entre os meses de abril e junho (ASANO-FILHO et
al., 2004b).
-52 -50 -48 -46 -44 -42 -40 -38 -36 -34 -32 -30 Longitude -52 -50 -48 -46 -44 -42 -40 -38 -36 -34 -32 -30 -3 -2 -1 -0 1 2 3 4 5 6 7 L a ti tu d e -3 -2 -1 -0 1 2 3 4 5 6 7 Amapá Ilha de Marajó Pará Maranhão Cabo Orange Cabo Cassiporé Cabo Norte Cabo Maguari
Figura 51: Ocorrência da albacora lage na costa norte de Brasil. Fonte: Asano-Filho (2004). Outras espécies de tubarões e agulhões estão presentes na costa norte do Brasil. O Tubarão azul foi registrado pela pesca exploratória e no Atlântico Sudoeste Equatorial, não há informações disponíveis sobre a biologia da espécie para a costa norte do Brasil. A composição da captura indica que, na região, esse tubarão representa 20,5% da captura entre os tubarões (1% da captura total de atuns e afins). Indivíduos com 1,30 até 2,60 m de comprimento total foram capturados na área durante os segundos e os terceiros trimestres do ano (ASANO-FILHO et al., 2004b), indicando a presença de indivíduos juvenis e adultos. O tubarão-estrangeiro foi coletado no Atlântico Sudoeste Equatorial indicam que o tubarão-estrangeiro tem crescimento muito lento e pode atingir até 325 cm e 17 anos (LESSA et al., 1999c). Amostras obtidas na costa norte mostram que os indivíduos maturam a partir de 190 cm (PINHEIRO et al., 2004). Os dados dos cruzeiros revelaram que esse tubarão representa 39,5% da captura entre os tubarões (3% da captura total de atuns e afins). Indivíduos com 1,30 até 2,60 m de comprimento total (juvenis e adultos) são capturados nesta área durante o segundo e terceiro trimestres do ano (ASANO- FILHO et al., 2004b).
Dentre os agulhões, na região norte foram registrados o agulhão vela, agulhão branco e agulhão negro. Os dados do cruzeiro na região norte mostram que o Agulhão-Vela representa 44% em peso (66% em número) da captura entre os agulhões e 4% da captura total entre os atuns e afins (ASANO-FILHO et al., 2004b). Indivíduos de 1,10 a 2,50 cm (incluindo juvenis e adultos) são capturados na área, durante todo o ano, exceto no primeiro trimeste. O Agulhão negro, nessa região, representa 44% em peso (19% em número) da captura entre os agulhões e
3% da captura total entre os atuns e afins (ASANO-FILHO et al., 2004b). Indivíduos com 1,55 até 3,20 m são capturados na área durante os segundos e os terceiros trimestres do ano. A costa norte não parece ser uma área de berçário para a espécie. O agulhão negro é um dos peixes de bico mais abundantes da plataforma, tendo sido obtida uma média de 4,47 kg/100 anzóis durante pesquisas experimentais realizadas entre os anos de 2001 e 2002 (ASANO-FILHO et al., 2004c). Sobre o Agulhão Branco as informações obtidas através das prospecções revelaram que, na costa norte, essa espécie representa 10% em peso (13 % em número) da captura entre os agulhões e 1% da captura total dos atuns e afins (ASANO-FILHO et al., 2004b). Indivíduos com 1,53 até 2,90 m são capturados na área durante os segundos e os terceiros trimestres do ano. A costa norte não parece ser uma área de berçário para a espécie.
Na região Norte, a pesca de atuns e afins com espinhel pelágico teve início no ano de 2000 com a entrada de duas embarcações sediadas no município de Curuçá (PA). Essas embarcações estiveram em atividade durante não mais de 1 ano, tendo interrompido sua operação por motivos administrativos (ASANO-FILHO et al., 2004c). As capturas de atuns, agulhões e dourado são pequenas, com uma média de 375,3 t entre 2001 e 2005 (Figura 52). As capturas registradas do espadarte são, em média, inferiores a 10,5 t.
0 50 100 150 200 250 2001 2002 2003 2004 2005 Ano P rod uç ã o tot a l (t ) Agulhão Atum Dourado Espadarte
Figura 52: Desembarque anual (em t) de atuns, agulhões, dourado e espadarte. Fonte: Serviço de Inspeção Federal-SIF / Ministério da Agricultura.
Atualmente a frota atuneira do Pará é constituída por embarcações de ferro (Figura 53), tendo comprimento variável entre 18 e 32 m, potência do motor com média de 345 HP e
capacidade de estocagem mínima de 20 t e máxima de 70. Entre os equipamentos existentes nas embarcações, citam-se o radar, GPS, ecossonda, sonar e power block. As viagens duram em média 23,8 dias, sendo realizadas no máximo uma viagem por mês. São capturados, por viagem, entre 8 e 60 t de atuns e afins (Tabela 15). De acordo com ASANO-FILHO et. al. (2004c), as embarcações possuem uma pequena câmara frigorífica onde são estocadas as iscas. São utilizados espinheis pelágicos derivantes com a linha principal de poliamida monofilamento e comprimento total de 50 milhas náuticas (92.600 m), onde, por lance, em média, eram utilizados 1.250 anzóis (ASANO-FILHO et. al.,2004c) (Figura 54).
Tabela 15: Caracterização da pescaria de atum e afins.
Frota / Espécie Comprimento (m) Estocagem (t)
Atum
mínimo máximo média mínimo máximo média
18 32 23,4 20 70 34
Potência (hp) Duração (dias)
mínima máxima média mínimo máximo média
270 425 345 15 50 23,8
Freqüência (mês) Produção (t)
mínima máxima média mínima máxima média
0,5 1 0,9 8 60 21,8
Equipamentos acústicos (%) Mecanização (%)
GPS Ecossonda Sonar Radar Guincho Power block
100 100 100 100 0 100
A pesca do atum acontece o ano todo e ocorre em função da lua. A melhor lua para capturar o atum é a cheia. As embarcações geralmente chegam ao pesqueiro em torno de 8 a 10 dias antes da lua cheia (saem do porto de origem no período da lua nova seguindo para o quarto crescente), a fim de preparar os apetrechos para pescaria. As embarcações realizam aproximadamente 10 viagens por ano e o intervalo de uma viagem para outra gira em torno de 5 a 10 dias. São lançados na água 45 milhas de espinhel long line. O barco atuneiro é armado na cidade de Natal (RN) e o desembarque da produção também acontece na mesma capital. A pescaria acontece, principalmente, na costa nordeste do Brasil. Entretanto, foi relatado que cerca de 2 a 3 vezes por ano, a pesca acontece na costa norte.
empresa está com a pesca do atum totalmente parada desde 2007, em função da baixa taxa cambial. Esta empresa, caso adquira recursos Pro - Frota, não pretende utilizá-lo para a captura do atum. Na outra se registrou o oposto, apesar da baixa taxa cambial, as embarcações estão operando normalmente e caso a empresa consiga se enquadrar no Pro-Frota, deseja remanejar três de suas embarcações que capturam camarão para a pesca do atum.
Figura 53: Embarcação comercial de médio porte utilizada para a realização das pescarias de atuns e afins com espinhel pelágico monofilamento. Fonte: Asano-Filho et al. (2004c).
Figura 54: Plano do espinhel monofilamento pelágico derivante utilizado nas pescarias comerciais de atuns e afins. Fonte: Asano-Filho et al. (2004c).
Quando embarcados ainda vivos, os peixes são mortos a bordo e depois sangrados. Após este processo, primeiramente são retiradas as nadadeiras e a cabeça, e posteriormente as vísceras. O “charuto” passa então por um processo de assepsia (limpeza total) e em seguida é embalado em saco de pano e conservado no gelo. Estes peixes, pelo fato de terem sido embarcados ainda vivos,
chegam à indústria com melhor qualidade (ASANO-FILHO et al. 2004c). Quando embarcado morto, o atum passa pelo mesmo processamento dos embarcados vivos. Dependendo do tempo de exposição na água após ser fisgado pelo espinhel e, se depois de morto ainda estiver submerso, o peixe apresenta um escurecimento da carne, comumente chamado “chocolate”, o que resulta em um pescado de baixa qualidade. Este pescado, então, é destinado ao mercado interno. Em casos extremos de escurecimento, o peixe é descartado (ASANO-FILHO et al. 2004c).
A produtividade de atuns e afins na costa norte parece ser promissora, uma vez que a abundância média desse grupo (em kg/100 anzóis), obtidas por embarcações atuantes na região entre 2000 e 2002, variou entre 83,81 e 196,31 kg/100 anzóis (ASANO-FILHO et al., 2004c). Esse valor foi compatível ao rendimento médio obtido na costa central, que variou de 109 kg/100 anzóis (inverno) a 196,2 kg/100 anzóis (verão) no talude continental (OLAVO et al., 2005), e bastante próximo aos rendimentos obtidos por embarcações da frota arrendada que usam espinhel de monofilamento no Nordeste do Brasil (161,3 kg/100 anzóis) (HAZIN et al., 2001b; HAZIN & HAZIN, 1999). A região norte também registra uma abundância média para o espadarte e albacora-laje (média de 54,18 e 28,68 kg/100 anzóis, respectivamente), superior à obtida para a costa central: 19,1 no inverno a 66,8 kg/100 anzóis no verão, para o espadarte, e 1,7 e 3,3 kg/100 anzóis, no verão e inverno, respectivamente, para a albacora-laje (OLAVO et al., 2005).
A pesca do atum gera despesas em torno de R$ 110.000, para as empresas do Pará, o gasto com o óleo representa o maior dos custos, cerca de R$ 25.000. Além destes, também são registradas despesas com gelo, isca (lula importada), luzes químicas (1.600 luzes), rancho etc. Nas entrevistas, os donos dos barcos atuneiros afirmam que em função do baixo valor cambial, a pesca não está dando lucro e que a mesma está apenas mantendo o funcionamento da empresa. Adicionalmente registram que o melhor câmbio para gerar lucros seria de R$ 2,80 a R$ 3,00.
Na região nordeste do Brasil a rentabilidade da pesca variou entre barco e entre anos (1984 a 1999). O maior e menor custo total de uma embarcação variou de US$ 307.107,09 e US$ 6.990,48, respectivamente. Estes custos geram lucros médios positivos de US$ 93.281,71 e
Tabela 16: Custo total e lucro (médio) por barco atuneiro na região nordeste do Brasil.
Barco Custo total (US$) Lucro (US$)
Barco - 1 107.201,07 19.407,28 Barco - 2 57.092,28 -6.041,64 Barco - 3 69.708,46 -11.773,45 Barco - 4 64.668,06 2.812,23 Barco - 5 307.107,09 93.281,71 Barco - 6 22.695,37 1.111,91 Barco - 7 6.990,48 -482,83
Fonte: Pedrosa et al. (2002).
Os entrevistados nas empresas do Pará revelaram que são muitas as dificuldades sobre a pesca do atum, destacam-se a falta de mão-de-obra qualificada e a limitação de escoamento, pois não existem vôos específicos e pesqueiros menos produtivos e mais sazonais (pesqueiros do nordeste são melhores). Adicionalmente registraram que na cidade de Natal (RN), antes das embarcações partirem para a pesca, faz-se toda uma programação de escoamento da produção para a exportação. Atualmente, outro entrave existente sobre a pesca do atum é a baixa taxa cambial, que está gerando a paralisação de algumas frotas.