Durante o trabalho de campo, os sujeitos desenvolvem uma intensa relação de intersubjetividade e integração social com o pesquisador, como afirma Minayo (2008). No seu decorrer, especialmente no que se refere aos procedimentos técnicos para a sua operacionalização, surgiram diversas questões, sobretudo interpessoais, que ora facilitaram a coleta de dados, ora a dificultaram. Entretanto, como acontecimentos plausíveis de acontecer, estas questões não acarretaram problemas significantes na elaboração deste estudo.
Vivenciaram-se momentos de intensas dificuldades, mas também momentos de grata satisfação, de maneira especial pela integração com a equipe, mesmo que por um período curto e passageiro de tempo. Mas também existiram períodos nos quais se observaram tensões, especulações, curiosidades e risos, que, por vezes, tomaram conta do ambiente e cujo motivo era, justamente, o objeto da presente investigação.
4.5.1 Facilidades
No início, logo na entrada no campo, pôde-se contar com enorme receptividade, devido ao bom acolhimento propiciado pelos membros da equipe, de modo geral. Esta receptividade aumentou com o passar do tempo na UTI e perdurou para além da finalização das observações na unidade.
Como foi explicitado anteriormente, já se trazia conhecimento prévio do campo e sua dinâmica, além da maior parte dos sujeitos a serem estudados. Este foi o principal ponto facilitador para a efetivação da observação, uma vez que a pesquisadora permaneceria uma considerável parte da pesquisa em campo. Dessa forma, o bom relacionamento interpessoal foi positivamente relevante para a coleta dos dados durante as semanas que se passaram.
Outro ponto importante a ser destacado é o fato de a equipe, salvas algumas exceções, mostrar-se envolvida na pesquisa ou interessada pelo assunto. De modo especial, os médicos contratados, os quais se mostraram, muitas vezes, disponíveis espontânea e voluntariamente a abordar a temática estudada. Por vezes, até mesmo solicitavam a realização da entrevista. Apesar de ser considerado um assunto de poucas palavras, alguns profissionais, eventualmente, abordavam a temática concernente à morte e processo de morrer com a pesquisadora nas mais diferentes situações. A dúvida era: isso seria demonstração de interesse pelo tema ou seria, tão somente, um desejo de poder falar, abertamente, sobre angústias ou desabafos com alguém externo ao local de trabalho?
Como pesquisadora, sentia-se satisfação pela realização deste estudo quando tais fatos aconteciam, uma vez que se podia notar que a sua presença em campo não estava, pelo menos explicitamente, embaraçando a dinâmica da unidade ou incomodando a vida dos profissionais que lá trabalham. Outro exemplo: quando a pesquisadora se ausentava por um ou dois dias, logo em sua chegada, um ou outro profissional aproximava-se para indagar: “por que você não veio ontem?”, “esqueceu da gente?”, “achei que você não ia mais voltar!”, e assim por diante. Estas perguntas advinham, sobretudo, dos médicos e técnicos de enfermagem.
A flexibilidade de horários dos médicos também foi um ponto positivo. Tal fato ocorre porque a dinâmica do seu trabalho dentro da UTI do HUSM é distinta da enfermagem, como antes comentado.
O período de observação foi ricamente repleto de dados. Este fato foi até mesmo comentado, declaradamente, pelos profissionais, como algo positivo para a pesquisa, visto que proporcionou a obtenção de um número considerável de informações. As discussões geradas, as atitudes, as conversas e as situações vivenciadas compuseram-se em fatos que colaboraram
densamente para a aquisição de dados sobre elementos que pudessem responder à questão norteadora desta pesquisa.
4.5.2 Contratempos
Um dos fatores que tolheram, de certo modo, a coleta de dados foi o período de férias dos profissionais no qual as entrevistas foram realizadas. Dessa forma, tornou-se deveras complicado realizá-las em momentos que, por exemplo, havia um único enfermeiro no turno em que, se não fosse período de férias, haveria dois. Cabe salientar que foi oferecido aos profissionais realizar a entrevista em local externo à UTI. Todavia, os mesmos preferiram que tudo fosse feito na unidade, como forma de facilitar o andamento das atividades.
Com os médicos contratados, aconteceu, relativamente, a mesma coisa. Devido a esses fatores, ocorreu um significativo atraso na execução das entrevistas, retardando a análise de alguns dados. Quanto aos médicos residentes, há, durante o segundo ano de residência, o período de estágio optativo fora do HUSM, comumente realizado em Porto Alegre, no qual os residentes já iniciam um contato mais íntimo com a próxima residência, da subespecialidade. Estes contratempos dificultaram o contato com alguns dos profissionais, e, com isso, foram postergadas algumas entrevistas.
Por sua vez, a escassez e/ou impossibilidade de horários de alguns enfermeiros limitou bastante a coleta de dados, fato que, em um determinado momento, tornou-se impossível proceder a algumas entrevistas. Desse modo, houve enfermeiros, que, mesmo afirmando aceitar integrar o corpus dos entrevistados, ou mencionando que ainda tinham dúvidas sobre sua participação, não conseguiram disponibilizar tempo para tal.
Contemporaneamente, um fato inédito ocorrido em pesquisas de campo, acredita-se, foi o surto de gripe Influenza A H1N116, que incidiu sobre a cidade de Santa Maria, com o primeiro caso confirmado do Brasil. Este fato gerou enorme estresse entre a equipe (e também na pesquisadora), devido às muitas interrogações relativas à doença, ao grau de transmissibilidade e altos índices de mortalidade em adultos jovens. A equipe encontrava-se
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A epidemia brasileira de gripe Influenza A H1N1 teve início em junho de 2009, quando uma jovem proveniente do interior do Rio Grande do Sul foi internada na UTI Adulto do HUSM com grave insuficiência respiratória e piora progressiva do quadro. Ela permaneceu um mês internada. O estresse gerado pelo contato frequente das autoridades da Secretaria Estadual de Saúde, por exemplo, acarretou grande inquietação na equipe e modificou, a olhos vistos, a dinâmica de trabalho na unidade. Poucos dias depois da internação, a menina completou seus 15 anos na UTI, fato que comoveu a equipe, fazendo-a refletir, em alguns momentos, sobre os sofrimentos e angústias gerados pela morte da criança e do jovem, especialmente em um momento no qual a imprensa fazia tanto sensacionalismo com base no caso.
bastante apreensiva, nervosa, ansiosa, e, durante as entrevistas, inclusive, apareceram falas que identificaram a jovem internada em estado grave e o seu risco de morte.
Com isso, obrigatoriamente como medidas de controle de contaminação e transmissão do vírus Influenza A H1N1, por determinação do Núcleo de Vigilância Epidemiológica Hospitalar (NVEH) do HUSM, foi requerido que se diminuísse o fluxo de pessoas circulantes na UTI. Tal fato fez a pesquisadora refletir e reavaliar a necessidade de sua presença tão constante na unidade. No início do surto, continuou-se em campo, mas, no decorrer dos dias, com o aumento da epidemia, após a chegada de novos casos na UTI e pelo perigo iminente de contágio e transmissão, optou-se por diminuir a frequência da presença em campo. O que, de fato, sucedeu, mas sem provocar prejuízos maiores à coleta de dados.
Estes acontecimentos geraram na pesquisadora certa consternação pelo atraso na coleta de dados, sobretudo nas entrevistas, além do receio de se adoentar. Ao mesmo tempo, pelo ritmo de coleta de dados em campo, evidenciou-se uma relativa fadiga, que se deu gradativamente, após as várias horas e semanas de presença durável em campo.