4.3 Coleta de dados
4.4.3 Sobre a observação participante
Após a reaproximação inicial com o campo, iniciaram-se os procedimentos associados à observação participante, com início na manhã do dia 26 de maio de 2009 e término na manhã do dia 24 de agosto do mesmo ano.
A observação foi realizada antes, durante e depois das entrevistas, nos três turnos de trabalho da unidade, ou seja, matutino, vespertino e noturno, em todos os dias da semana, em dias consecutivos, ou ocasionalmente alternados, perfazendo um total de 76 turnos e completando, aproximadamente, 450 horas de observação. Este procedimento foi desenvolvido em períodos de tempo variáveis, na dependência da dinâmica de trabalho e qualidade dos dados fornecidos durante o período de coleta. Ou seja, nos dias em que os dados se mostravam mais ricos, na dependência do estado de saúde (gravíssimo, com risco iminente de morte) ou avançado processo de morrer de um determinado paciente, a pesquisadora permaneceu em campo por até cerca de dezoito horas ininterruptas.
Os fatos a serem observados foram delineados de acordo com os objetivos desta investigação, ou seja, reações e sentimentos da equipe frente ao paciente terminal e morte do paciente; reações e sentimentos frente à obstinação terapêutica; convívio profissional com os pacientes terminais e com aqueles em estado grave, com prognóstico de morte em breve; conflitos e discussões durante as tomadas de decisão sobre investir ou não no doente terminal; registro das decisões e papel da equipe neste contexto, dentre outras questões pertinentes à temática em estudo que, por acaso, surgissem.
Assim sendo, tendo em vista os temas que constituem o objeto desta investigação, como afirma Minayo (2008), foram efetivadas observações referentes a conversas informais, comportamentos, gestos, expressões, crenças, hábitos, usos, costumes, os quais, dentre outros fatores, constituem o quadro das representações sociais.
Dessa forma, foi metodicamente observada a equipe que desempenhava seu trabalho na UTI, como forma de complementar os dados obtidos durante as entrevistas. Dentre os profissionais observados, além de médicos e enfermeiros, estavam os fisioterapeutas, nutricionistas, técnicos de enfermagem, funcionários da limpeza e manutenção da unidade, secretária, alunos da graduação (cursos de Medicina, Enfermagem e Fisioterapia), que estavam presentes durante os estágios ou no desempenho das atividades de bolsa de trabalho. E, também, foram observados os próprios pacientes internados na UTI, de modo especial aqueles fora de possibilidades terapêuticas. Estas pessoas (outros profissionais, estudantes, pacientes etc.) não foram delimitadas, a priori, como sujeitos da pesquisa, contudo foram
observadas a partir do momento em que interagiam com médicos e enfermeiros e abordavam questões que se relacionavam com o presente estudo.
Assim sendo, eventualmente, foram observados pacientes, sobretudo durante os cuidados proporcionados pela equipe, e também familiares durante os horários de visitas. Nesse ponto, atentou-se para os diálogos mantidos entre estes e os membros da equipe, especialmente durante a comunicação do óbito. Nesta última ocasião, a pesquisadora solicitava, previamente, o consentimento do médico para que pudesse participar desse processo. Por vezes, já acostumados com a presença da pesquisadora na UTI, os próprios profissionais tomavam a iniciativa de convidá-la a participar de determinadas situações relacionadas ao tema do estudo.
O caráter participante da observação produziu-se de diversas formas. A pesquisadora procurou envolver-se (até certo ponto) com o trabalho da equipe, a fim de aumentar a sua aproximação com os membros desta, auxiliando, muitas vezes, os enfermeiros e a equipe de enfermagem nos seus afazeres técnicos.
Durante o período de observação, também se participou, de modo frequente, dos rounds15 realizados pela equipe, mas compostos, mormente, pelo médico plantonista e pelos residentes, ocasiões, durante as quais se pôde obter grande quantidade de dados referentes às decisões e conflitos de conduta para com o paciente terminal. Os rounds são reuniões que, além do caráter técnico, possuem um caráter educacional e são chefiados pelo médico de plantão do turno. Os médicos residentes avaliam e evoluem os pacientes que estão sob seus cuidados, no princípio da manhã, e, por volta das 11 horas, o round inicia-se, terminando cerca de uma hora depois. Raramente é realizado à tarde, ou não é realizado, visto que é um procedimento imprescindível para o bom andamento da rotina de cuidados na unidade. Nessas reuniões são apresentados todos os casos dos pacientes internados na UTI e sua evolução clínica diária a fim de serem discutidas, iniciadas, reavaliadas ou retiradas as condutas terapêuticas adotadas a priori.
Normalmente, quando há três médicos residentes na UTI no mês, cada um se responsabiliza por três pacientes. Dessa forma, o residente apresenta cada um dos seus casos e os discute com o restante da equipe, especialmente com o médico de plantão, o qual, por vezes, é chamado de “professor” pelos colegas recém-formados. São discussões enriquecedoras, à medida que possibilitam que todos os participantes possam discorrer a respeito das decisões sobre a conduta que será realizada. As discussões mais acaloradas são,
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Round, neste contexto, não foge muito da tradução original da palavra (rodada), porque diz respeito à sequência de reuniões realizadas pela equipe da UTI.
certamente, aquelas vinculadas ao fim da vida, ocasiões nas quais, eventualmente, ocorrem algumas discordâncias entre investir, ou não, no paciente terminal. Este fato será detalhado, posteriormente, durante a apresentação dos resultados.
Assim sendo, participou-se, de forma ativa, ora como pesquisadora, ora como enfermeira, ora como ambas, do cotidiano laboral da UTI no intuito de desenvolver uma adequada integração com a equipe e, sobretudo, com os sujeitos que seriam entrevistados.
Quanto ao registro dos dados observados, este foi efetuado em um diário de campo, que se configurou em um caderno com cerca de 160 páginas manuscritas. Neste diário de campo, como afirma Minayo (2008), são registradas todas as informações não advindas das entrevistas formais, como já explanando.
As anotações se basearam em visualizações de fatos ocorridos e narrações de acontecimentos, diálogos, atitudes e comportamentos dos membros da equipe, acessos a documentos e registros, todos descritos detalhadamente. As anotações contemplaram as partes descritiva e analítica, conforme já mencionado, segundo Lüdke e André (2007). Na primeira parte foi contemplada a descrição dos sujeitos, local, acontecimentos e atividades presenciados, além do comportamento e sentimentos da própria observadora. A segunda parte, de cunho analítico, considerou as reflexões relacionadas aos fatos notados, mudanças na perspectiva da pesquisadora e esclarecimentos que, acaso, fossem necessários.