Capítulo IV: Ensino Religioso e a base epistemológica
1. Pesquisa empírica sob o olhar qualitativo
Já está assinalado no presente trabalho a necessidade de profissional habilitado para o exercício do Ensino Religioso, talvez a última fase na progressiva discussão sobre as carências e as várias dificuldades dessa área de conhecimento. No entanto, optamos pela sua menção logo no início de nossa análise para melhor visualização da origem da problemática no contexto escolar, objeto de nossa pesquisa empírica. Conforme observado também no início de nossa exposição, o perfil dos profissionais mostra as formações específicas para as disciplinas obrigatórias da base nacional
comum, exceto no Ensino Religioso. Em nenhum dos casos de nossos sujeitos consta a habilitação específica nessa área de conhecimento.
Destacam-se as indicações feitas nas seguintes respostas: Catequese para crianças, evangelização a domicílio, Teologia para leigos e habilitação em História – como consideradas apropriadas para o Ensino Religioso nos termos do Artigo 33 da Lei nº 9394 de 20 de dezembro de 1996, alterada no mesmo artigo pela Lei nº 9475 de 1997. Tendo em vista esse entendimento sobre a profissionalização na respectiva disciplina, a percepção epistemológica de Ensino Religioso está sujeita aos saberes provenientes daquelas indicações, diga-se equivocadas, feitas pelos nossos sujeitos.
Mas, ainda que tais indicações tenham ocorrido em pequeno número, isso já confirma uma das hipóteses descritas no presente trabalho e que consiste em elemento negativo para a ampliação regularizada do Ensino Religioso enquanto componente curricular, assim como um risco para a ausência de quaisquer formas de proselitismo ou de intolerância religiosa. Nessa discussão, Rosa Gitana Krob Meneghetti20 já ressalta, desde longa data, que:
A tese da necessidade de criar cursos de Licenciatura em Ensino Religioso e, por extensão, da criação da profissão de Professor de Ensino Religioso é bastante clara, partilhada também por João Décio Passos, na ocasião do envio conjunto de documento institucional, ao MEC, sobre o necessário avanço da legislação federal, que reconhece o Ensino Religioso como componente curricular, até a etapa da formação do profissional (responsabilidade das universidades) e até os sistemas estaduais de ensino que deveriam legislar sobre a profissão. O número de sujeitos que reconheceram a ausência de formação em Ensino Religioso representa a maioria no universo destacado na rede pública municipal de ensino fundamental de Mogi Guaçu/SP. Isso demonstra o desconhecimento da epistemologia do Ensino Religioso, cuja base sugerida nessa exposição está voltada para as Ciências da Religião. A indefinição epistemológica do Ensino Religioso torna- se um elemento prejudicial à prática pedagógica e ao crescente desenvolvimento de uma educação voltada para a construção da cidadania.
Observa-se o paradoxo constatado na pesquisa empírica realizada na rede pública municipal de ensino fundamental, da cidade de Mogi Guaçu/SP, que mostra ser uma sociedade religiosa, visto por meio de práticas confessionais (exemplos: orações diárias no espaço escolar, criação da Capelania Escolar, entre outras), mas que faz
“vistas grossas” ao Ensino Religioso. Há receptividade à prática relacionada a religião, no entanto, em se tratando do Ensino Religioso enquanto campo deliberado para estudá- la, observa-se o descuido por sua aplicabilidade no contexto escolar.
Por outro lado, os dados obtidos sobre a disciplina Ensino Religioso em relação às outras mostra a receptividade totalmente favorável a esse componente curricular, pois em nenhuma resposta houve a sinalização de que o Ensino Religioso pode ser dispensado do conjunto delas; mas, ao contrário, figura tão importante quanto todas as demais disciplinas; e, para alguns, ainda que em menor número, se faz indispensável.
Outro ponto de interesse no nosso levantamento de dados diz respeito à orientação escolar dirigida ao Ensino Religioso presente no discurso dos sujeitos. Ainda que poucos tenham indicado possuir formação nessa área de conhecimento e muitos reconheceram não tê-la, quando questionados sobre as atividades diretas e indiretas relacionadas à disciplina, as respostas mostram o entendimento que perpassa a prática pedagógica, mesmo sem a oficialização dela.
Em quaisquer dos casos de resposta positiva à realização de atividade direta no Ensino Religioso nota-se que estão voltadas ao estabelecimento da disciplina comportamental, como meio para a solução de conflito entre os pares; ou à oração de início das atividades escolares do dia, em alguns casos, feita de forma dirigida – Pai Nosso, recitação de Salmos, oração com conteúdo específico proposto pelo docente responsável pela classe ou aula – e, em outros casos de forma espontânea. Observamos ainda alguns temas diferentes: a religião como elemento cultural; a influência histórica da religião; Jerusalém como berço das religiões monoteístas. No entanto, somente dois sujeitos assinalaram os respectivos temas em suas atividades.
Interessante a relação entre as respostas de atividades diretamente voltadas ao Ensino Religioso e as respostas de atividades indiretamente voltadas ao componente curricular: estas também estão ligadas à disciplina comportamental ou às orações, como aquelas. E nas duas atividades – diretas ou indiretas – o ponto dos valores éticos e morais como base para a formação do estudante foi um dos mais citados. No entanto, nas atividades indiretas estão mais declarados os assuntos relacionados à religião, ora como dado geral para a conduta humana, ora como aspecto ligado à determinada confessionalidade, visto por meio das seguintes indicações: diálogo ou reflexão sobre amizade, amor ao próximo, caridade, Deus como criador, direitos humanos, família, igualdade, princípios de fé, valorização da vida, virtudes, respeito, solidariedade. Alguns desses pontos têm como referência os exemplos de Jesus Cristo.
Destaca-se também que os principais motivos indicados para a não realização de atividades diretas ou indiretas ligadas ao Ensino Religioso foram os seguintes: não se trata de uma disciplina obrigatória enquanto componente curricular; e o mais citado ainda: a falta de conhecimento sobre o Ensino Religioso e o consequente despreparo ou receio diante dos conteúdos afins. Em menor número, mas também indicados com destaque, estão: a diversidade religiosa presente na sala de aula como fator de conflito entre os pares, tornando-se motivo de inibição docente para o trato do assunto; e ainda: a dificuldade docente de ter a imparcialidade em relação à própria religião. Por fim: a falta de tempo, seja pela exigência no cumprimento do planejamento específico para cada período letivo, seja pela alternância de EMEF a EMEF em função do reduzido número de aula em cada unidade escolar ou mesmo classe.
No conjunto de atividades diretas mencionadas, destaca-se também a única menção feita aos ritos culturais do candomblé na capoeira; e, no conjunto de atividades indiretas citadas destaca-se igualmente a única menção feita à influência do budismo e xintoísmo nas artes marciais. Mesmo diante da necessidade de maiores esclarecimentos nesses quesitos, a ênfase está na lembrança singular de religiões diferentes daquelas essencialmente cristãs, praticamente as que se sobressaem nas respostas obtidas tanto pela denominação explícita quanto pelos elementos que lhe são afins.
Outro dado que nos parece muito peculiar no resultado das atividades ligadas ao Ensino Religioso diz respeito à preocupação docente com a própria religião, cuja prática pode ser inclinada ao proselitismo, ainda que de forma involuntária; e, que está relacionada à ideia já exposta de que religião é assunto familiar, portanto, de ensinamento no lar, sem a necessidade de interferência escolar nessa questão.
O dilema sobre a presença ou não do Ensino Religioso na instituição escolar, especialmente pública, tem obtido reforço na polêmica entre a disciplina ser obrigatória ou facultativa, na qual está amparada uma das justificativas da secretaria municipal de educação de Mogi Guaçu para abdicar do componente curricular nos termos exigidos pela Lei nº 9475 de 22 de julho de 1997, ainda que sob a dubiedade legal que interfere na propositura de um Ensino Religioso comprometido com as Ciências da Religião, e em resposta à sociedade plural como a existente no Brasil.
O despreparo de gestores públicos, decorrente da falta de esclarecimento epistemológico sobre o Ensino Religioso, aliado à facultatividade da disciplina, que a fragiliza enquanto componente curricular; a ausência de formação profissional para o exercício em âmbito escolar; e a presença cada vez maior, de “políticos religiosos” nas
esferas de poder público; podem ser considerados fatores de inibição para o Ensino Religioso como disciplina regular nos currículos escolares, conforme previsto na Lei de Diretrizes e Base da Educação Nacional.