3.1 PARADIGMA DA PESQUISA
3.1.1 Pesquisa interpretativista e hermenêutica
Com origem etimológica no verbo ermeneúein, a hermenêutica apresenta tradução do grego, que significa expressar, expor ou traduzir. Esses significados podem ser entendidos como um movimento de compreensibilidade, mediação de sentido, retornando do exterior
76 para o interior do significado (GRONDIN, 1991). A hermenêutica também é vista uma disciplina filológica – uma técnica de leitura orientada para a compreensão das obras da Antiguidade Clássica, textos religiosos, etc. (JAPIASSU, 1994).
O filósofo Hans Georg Gadamer (1997) defende que a interpretação, antes de ser um método, é a manifestação de uma condição do homem, pois o intérprete que dialoga com uma obra está já estabelecido no horizonte aberto pela obra (é o “círculo hermenêutico”), é a explicação da ligação entre o intérprete e a tradição da qual provém o interpretado. É a busca pelo significado oculto do texto (GADAMER, 1997).
Em contrapartida, a hermenêutica – como forma de interpretação, era empregada em textos profanos na mitologia e na área jurídica, resultando em uma espécie de regionalização.
Friedrich Schleiermacher, partir do século XIX, desenvolveu trabalhos em torno da tentativa de unificação dessas hermenêuticas regionais/especiais em uma hermenêutica geral/universal, a fim de introduzir a questão do texto/contexto. Schleiermacher também considerava a hermenêutica como a arte da compreensão, que tinha foco no saber prático, e não teórico: “a práxis ou a técnica da boa interpretação de um texto falado ou escrito”. Também a conceitua como a reconstrução histórica e divinatória objetiva e subjetiva de um dado discurso (CORETH, 1973).
O também filósofo alemão, Wilhelm Dilthey, enfatizou a teoria da “visão do mundo”, em que entende que o viver é a interpretação do mundo natural: em uma de suas obras -
Introdução ao estudo das ciências humanas (1883) – tece críticas à perspectiva positivista
da explanação acerca do homem que indaga a clareza da sua natureza social e histórica (JAPIASSU e MARCONDES, 1995).
Com base nos textos de Schliermacher, Dilthey elabora a duplicidade de ciências da natureza e de ciências do espírito, diferenciando-se através de um método de análise elucidativo, adicionado de um sistema de compreensão descritiva:
Ao pretender dar um fundamento às ciências particulares do homem, Dilthey postula a criação de novos métodos e de conceitos psicológicos mais sutis adaptados à vida histórica; ademais procura evidenciar, em todas as manifestações humanas, a totalidade da visão psíquica, a ação do homem todo,
77 com sua vontade, sensibilidade e imaginação (JAPIASSU & MARCONDES, 1995, p.73).
Ao relatar as ideias influentes da fenomenologia para a hermenêutica filosófica, Siebeneichler (1983) apontou Husserl no desempenho de um importante papel na recolocação, de forma crítica, da ciência e a técnica no contexto do sujeito. Husserl também apontou para uma relação intencional entre espírito e mundo, na tentativa de elucidar a questão da consciência, do sujeito humano: utilizando a metodologia da “epoché4” e da redução fenomenológica, deparou-se com um instrumento esclarecedor da consciência, transcendendo o psicologismo e o historicismo predominantes na época (SIEBENEICHLER, 1983). Tendo em conta que esta pesquisa não utiliza o paradigma fenomenológico, estas considerações visam sobretudo salientar a importância do sujeito- pesquisador que, na qualidade hermeneuta, utiliza o interpretativismo como modelo investigativo.
Nessa perspectiva, sob a ótica de Ricouer (1978), como modelo interpretativo a hermenêutica acarreta no entendimento dos signos e de si:
Ao propor religar a linguagem simbólica à compreensão de si, penso satisfazer o desejo mais profundo da hermenêutica. Toda interpretação se propõe a vencer um afastamento, uma distância, entre a época cultural revoluta, à qual pertence o texto, e o próprio intérprete. Portanto, o que ele persegue, através da compreensão do outro, é a ampliação da própria compreensão de si mesmo. Assim, toda hermenêutica é, explícita ou implicitamente, compreensão de si mesmo mediante a compreensão do outro (RICOUER, 1978, p.18).
Desse modo, o objetivo do interpretativismo proposto pela hermenêutica é a compreensão dos sentidos: o conteúdo típico humano expresso em qualquer contexto histórico, não havendo apenas os fatos dados e acontecimentos externos, mas, carregados de significação, sentido e valores (DEMO, 1981).
4 EPOCHÉ (gr. éTtoxií). Suspensão do juízo, que caracteriza a atitude dos céticos antigos, particularmente
de Pirro; consiste em não aceitar nem refutar, em não afirmar nem negar. O contrário dessa atitude é o dogmatismo, em que se dá assentimento a alguma coisa obscura, que constitui objeto de pesquisa científica (SEXTO EMPÍRICO, Pirr. hyp., I, 10, 13). (ABBAGNANO, 1998).
78 A interpretação é essencial em praticamente todos os campos do conhecimento humano, pois este trabalho revela o grande propósito de superação, de romper um distanciamento cultural, incorporando seu sentido (RICOEUR, 1978).
Em face do exposto, optou-se pelo interpretativismo de matriz hermenêutica como paradigma de pesquisa. Considerou-se a afirmação de Ricoeur, que explicita que
O compreender não se dirige, pois, à apreensão de um fato, mas à de uma possibilidade de ser. Não devemos perder de vista esse ponto quando tirarmos as consequências metodológicas dessa análise: compreender um texto, diremos, não é descobrir um sentido inerte que nele estaria contido, mas revelar a possibilidade de ser indicada pelo texto. Dessa forma, seremos fiéis ao compreender heideggeriano que é, essencialmente, um projetar num ser- lançado prévio (RICOEUR, 1983, p.33).
Também foi ponderada a reflexão acerca do paradigma interpretativista, que não vê o mundo independentemente das práticas sociais e seus significados: o entendimento do observador está consolidado em seus próprios significados, pois ele é um relator passivo, mas um agente ativo (BORTONI-RICARDO, 2008).
3.2 ESTRATÉGIA DE PESQUISA
O detalhamento da estratégia da pesquisa se dará através da abordagem da pesquisa, tipo de pesquisa e objetivos da pesquisa, que serão descritos abaixo.
3.2.1 Abordagem da pesquisa
A presente pesquisa é transversal, com caráter qualitativo, e segundo Creswell (2007), esta é descrita como um processo que emprega diferentes alegações do conhecimento, estratégias de investigação e métodos de coleta e análise de dados.
Diversos aspectos surgem durante um estudo qualitativo. As questões de pesquisa podem mudar [...]. O processo de coleta de dados pode mudar à medida que [...] o pesquisador descobre os melhores locais para entender o fenômeno central de interesse. A teoria ou padrão geral de entendimento vai surgir à medida que ela começa com códigos iniciais, desenvolve-se em temas
79 mais amplos e resulta em uma teoria baseada na realidade ou na interpretação ampla (CRESWELL, 2007).
De acordo com Creswell (2007), os procedimentos qualitativos apresentam grande contraste com os métodos da pesquisa quantitativa, empregando diferentes estratégias de investigação e coleta de dados. Malhotra (2001) relata que a escolha pela abordagem qualitativa se dá pelo fato de ser proporcionada melhor compreensão do problema estudado, sendo definida como uma metodologia de pesquisa não estruturada, explorando e baseando-se em pequenas amostras.
As posições qualitativas, conforme Triviños (1987), baseiam-se especialmente em matrizes interpretativistas do conhecimento. Como indicado, esta pesquisa identifica-se, em certa medida, com:
- Os enfoques subjetivistas-compreensivistas, com suporte nas ideias de Schleiermacher, Weber, Dilthey e também em Jaspers, Heidegger, Marcel, Husserl e ainda Sartre, que privilegiam os aspectos conscienciais, subjetivos dos atores (percepções, processos de conscientização, de compreensão do contexto cultural, da realidade a-histórica, da relevância dos fenômenos pelos significados que eles têm para o sujeito (para o ator etc) (TRIVIÑOS, 1987. p.116).
Triviños (1987) acrescenta que esta linha de pesquisa quantitativa se apresenta como alternativa metodológica ante o positivismo quantitativista – expresso, por exemplo, nas pesquisas de cunho estrutural funcionalista. Este não será realizado e/ou discutido na consecução deste projeto.
Nessa pesquisa, o tratamento qualitativo maneja os dados averiguando seu significado e usando como alicerce o material coletado das distintas fontes na intenção de inventariar os sentidos, as singularidades, por meio da interpretação hermenêutica.
3.2.2 Tipo da pesquisa
De acordo com Gil (2002), Yin (2001) e Vergara (2000), a pesquisa foi denominada de acordo com os seguintes aspectos: quanto aos fins e quanto aos meios. A pesquisa foi caracterizada como descritiva, qualitativa, bibliográfica e documental.
80 Descritiva porque objetivou descrever as características dos modelos de regulação do setor de telecomunicações, identificando aspectos como as estratégias e modelos, os serviços de regulação no Brasil, tipos de órgãos governamentais de regulação, seu histórico, suas atribuições, sua composição, subordinação, autonomia, legislação aplicável, recursos disponíveis e atividades atuais; documental, mediante a utilização de documentos internos destas instituições, disponíveis para consulta pública (GIL, 2002) e bibliográfica, pois foram utilizados materiais e informações já publicadas referentes ao tema da pesquisa e às instituições observadas (VERGARA, 2000).
Quanto aos tipos, a pesquisa pode ser quantitativa e qualitativa, sendo que neste estudo optou-se pela pesquisa qualitativa. Segundo Silva e Menezes, a pesquisa qualitativa
[...] considera que há uma relação dinâmica entre o mundo real e o sujeito, isto é, um vínculo indissociável entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito que não pode ser traduzido em números. A interpretação dos fenômenos e atribuição de significados são básicos no processo qualitativo. Não requer o uso de métodos e técnicas estatísticas. O ambiente natural é a fonte direta para coleta de dados e o pesquisador é o instrumento-chave. O processo e seu significado são os focos principais de abordagem (SILVA, MENEZES, 2005. p. 20)
De acordo com Vergara (2000), a presente pesquisa pode ser caracterizada como bibliográfica por ser um estudo estruturado com base em material publicado em livros, revistas, jornais e redes eletrônicas. Isto é, material acessível ao público em geral. Como vantagem, este tipo de pesquisa apresenta ao explorador ferramentas analíticas para qualquer tipo de investigação, podendo também esgotar-se em si mesma. Já a pesquisa documental é aquela realizada em documentos conservados por órgãos públicos e privados de qualquer natureza, através de pessoas, registros, canais, regulamentos, circulares, ofícios, memorandos, balancetes, comunicações informais, filmes, microfilmes, fotografias, dentre outras (VERGARA, 2000).
No caso da pesquisa documental, Guimarães, Oliveira e Ramos (2011) referem que esta, muitas vezes, pode ser confundida com a pesquisa bibliográfica, e para que esse equívoco não ocorra é importante deixar claro alguns pontos.
81 A pesquisa documental é caracterizada pela consulta dos dados em documentos sem algum tratamento científico, como relatórios, reportagens de jornais, revistas, cartas, filmes, gravações, fotografias, entre outras matérias de divulgação (OLIVEIRA, 2007), ou quando elaborada a partir de materiais que não receberam tratamento analítico (GIL, 2002).
O uso de várias fontes de evidências [...] permite que o pesquisador dedique- se a uma ampla diversidade de questões históricas, comportamentais e de atitudes. A vantagem mais importante, no entanto, é o desenvolvimento de linhas convergentes de investigação [...] (YIN, 2001).
Complementando, Triviños (1987) expõe que a técnica de triangulação tem como finalidade elementar o maior alcance na descrição, na explicação e na compreensão do objeto em estudo.
3.3 OBJETO DO ESTUDO
O presente estudo contempla como objeto de investigação a estratégia da adoção do modelo de regulação e o impacto suscitado no setor de telecomunicações.
Visando escrutinar a estratégia e seus impactos, o estudo do modelo de regulação é realizado por meio de uma investigação da literatura e documental, que vai do marco teórico - Teoria Institucional chegando até o papel empreendedor do Estado -, estrutura das agências de regulação e levantamento dos dados sobre a estratégia de adoção do modelo de regulação no setor de telecomunicações.
3.4 COLETA DE DADOS
Após e paralelamente à pesquisa bibliográfica e elaboração de referencial teórico, iniciou- se pesquisa documental, coletando-se dados secundários em páginas da web (internet e
intranet), legislação federal relacionada ao assunto e demais documentos disponíveis à
82 Foram coletadas informações referentes à estratégia do modelo de regulação dos serviços públicos, relacionadas ao setor de telecomunicações.
Parte dos dados foi obtida por meio de pesquisa no site da Agência Nacional de Telecomunicações – ANATEL, em documentos de acesso público. Foram priorizadas as informações entre o período dos anos de 2005 a 2015, embora seja possível observar abrangência temporal superior em alguns dados.
Também foram utilizados os Relatórios Anuais da Anatel, do exercício de 1999 a 2015, disponíveis na página da Agência - com exceção do ano de 2002, que estava indisponível.