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147PESSOA, POE E A APRENDIZAGEM DA CONTINGÊNCIA

No documento Happy Birthday, Mr. Poe! (páginas 145-149)

REVISTA ANGLO SAXONICA

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desde John Keats, este aspecto permitir-lhe-ia a metamorfose contínua e, citando João Almeida Flor, “leituras caleidoscópicas do real ao adoptar estratégias de dissociação, multiplicação e alterização do Eu, oculto (mas também revelado) nas personagens-máscaras que assume para por ele dizerem o mundo”(14).

A história do narrador de “The Door” é a do herói decadente que, cerebralmente, vai reconstituindo a antropomorfização progressiva de uma porta à qual se vai aglutinando uma identidade perversa abstracta – “the spirit of the door, the Unknown, the Unconceivable, the Abstract, the Thing” (Pessoa, Génio e Loucura II 487). A escolha de um objecto que, como afirmava G.K. Chesterton (66) a propósito dos batentes das portas, tem tanta significação que qualquer pessoa inteligente seria capaz de encher volumes de poesia sobre o tema, parece escapar a qualquer tentativa de expli cação, apesar de a sua presença constituir o ponto de conflito e o moti - vo para a reflexão contínua sobre a instabilidade do sujeito. A banali dade do assunto leva-o inversamente a tecer considerações importantes sobre a identidade e a convocar criticamente o conceito de perverso de Poe, assu - mido em “The Imp of The Perverse” na perspectiva de uma força humana inelutável e contingente subtraível a qualquer tentativa de análise:

My mental distraction under this attraction is little susceptible of analysis. You may have heard or read of the faculty of the human mind which Poe calls «perverseness» and which he asserts to be as surely a human characteristic as anyone of the motive or of the intellectual faculties. Poe has both mistaken and not mistaken; but he neglected to analyse this faculty with persistency and with care (Pessoa, Génio e Loucura II 482). Uma vez mais, o escritor é envolvido no texto como vestígio que merece refutação ao ser-lhe concedido um espaço metatextual onde a sua auto - ridade é convocada criticamente, como se a faculdade de análise não tivesse bastado para interpretar convenientemente o conceito ou não admitisse de forma suficiente a atitude céptica e paradoxal perante a existência, aspecto que Stanley Cavell, a propósito de “The Imp of the Perverse”, julgou um dos pontos centrais do conceito de “perverseness” (Cavell 216). A obsessão pela porta mergulha as suas raízes no obscuro, mas é remetida ao regime paradoxal da análise sem intuitos explicativos pela contingência que um acto desta natureza envolve. A desmistificação da certeza surge em alguns

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momentos do conto, como em “we can classify, conjecture – never explain” (Pessoa, Génio e Loucura II 481), conjugada neste passo com o problema do conhecimento do sujeito. O modo enfático como defende a contin gên - cia identifica-se com os limites de uma abordagem que pretende ver como objectivo final da análise a explicação para fenómenos confinados a entida - des vazias (“non-entities”), dominados pela hipótese de literalidade da linguagem e da clareza da explicação, características pouco consistentes na descrição de fenómenos contingentes como a criatividade obscura da loucura do sujeito, uma existência vivida na alternativa dilacerada entre a consciência e a fronteira da sua negação.

A antropomorfização progressiva da entidade perversa acompanha a história do fascínio paradoxal pela fragmentação de uma consciência que inicialmente se pretende ver isenta de perversão; como refere, “I am not what is termed perverse, my character, shall I add, has even little of an impul sive and of a primitive nature. I have the coolness of the cultivated man united to the sensibility of the artistic soul. I see therefore no reason for what I am to recount”(479). Ironicamente, a partir de um impulso incontrolável, o sujeito vai trilhando os passos que, pela descoberta do mistério, se reflectem na alteração da sua personalidade:

There were two elements in my fear and attraction to the door – personality and mystery, vagueness, unknowness. It was, I shall allow, something like the horror and the fascination of the abyss. But it was more dreadful, as it added to this mystery, and vagueness the character of a personality. In this respect it was quite as horrible as fear of spiritus. But it was more horrible, still, for it attached all these ideas of mystery, of vague attraction, of vague fear, of more vague and more horrible personality to so material, so laughably common a thing as a door, in this sense, in this connection more than unspeakably horrible (483).

A aproximação entre a contingência e a personalidade conjuga-se na assump ção do grotesco (assinalamos a paronímia entre o estilo “poesque” e “grotesque”) e da figuração desse outro exemplo paradoxal de duplo que é o louco lúcido, pela possibilidade de conciliação de duas vertentes que também aqui se justapõem: a não consciência, o mistério incontrolável e inex plicável da existência, e a lucidez fria do analisador que conduz ao

excesso de consciência, características que vemos coexistir, entre outros exem - plos, nas reflexões do narrador de “Eleonore”, que a seguir trans cre vemos:

We will say, then, that I am mad. I grant, at least, that there are two distinct conditions of my mental existence – the condition of a lucid reason, not to be disputed, and belonging to the memory of events forming the first epoch of my life – and a condition of shadow and doubt, appertaining to the present, and to the recollection of what constitutes the second great era of my being (Poe, Short Fiction76).

A loucura lúcida como modo de inscrição do paradoxo no sujeito estabelece ainda a possibilidade de transição entre o saber activo e a sensação, orien - tação que, dominada pela originalidade, se torna nesta perspectiva uma das características do génio. Reconhecendo-se alegoricamente como inadap - tado, o artista orienta a sua vida para a sensação e para a inteligência e não para a acção ou a vontade, maldição prometaica que lhe garante ficcional - mente a marca da incompreensão. O excesso de pensamento provocado pela contemplação da porta não advém da sua existência como signo literal mas do acto de análise que o acompanha. A atracção pelo inexplicável surge a par com o medo, permitindo a analogia entre a sensação perversa des - pertada e o objecto, transformado no receptáculo simbólico de um mundo de ideias contingentes. A porta vai adquirindo um estatuto onto lógico que parte da sensação indefinida e não de qualquer acto explicativo. No final do conto, a descrição de um terramoto no castelo tem significa ti vamente como consequência, num primeiro momento, a coexistência para doxal da sensação de desabamento e não desabamento das suas paredes, momento em que se evoca o paradoxo de Zenão sobre Aquiles e a Tartaruga e o argu - mento contra o movimento (Pessoa, Génio e Loucura487). Por ins tan tes, o paradoxo aponta no sentido da contingência das sensações dado que a interferência do observador condiciona o conceito de movi mento sem que afecte o desfecho grotesco da narrativa com a morte dos familiares, grotes - camente esmagados e transformados numa massa informe de matéria primitiva: “part crushed to nothing the fair body of my wife; part (...) crushed the body of my child to nothing, to pulp, to rottenable stuff, to not living dirt, to dust, to matter, matter, matter” (ibid.). A infinita frag men tação do corpo até à informidade primordial, semelhante ao des - fecho grotesco do Visconde da Aveleda no conto de Álvaro do Carvalhal

“Os Canibais”(1866), também ele se decompondo e transformando numa massa informe e compacta que se consumirá na lareira, faz-se acompanhar pelo movimento auditivo suscitado pela queda da porta, o esmagamento (“crunch”) onde permanecia a sua natureza escondida (“in that crunch there was the hidden nature of a door”(ibid.). O pormenor descritivo de super fície, à maneira de Poe, encerra o conto revelando a natureza da rela - ção contingente entre a análise, a sensação e o desfecho improvável, entre a dor da consciência que finalmente compre ende a natureza do mistério e a impossibilidade de se precaver contra um mundo aberto de possibilidades noumenais e misteriosas que as sensações não conseguem fazer compre - ender na totalidade. A originalidade do génio ostenta a marca perversa da sua auto-degradação, vivenciada através de diferentes versões da sua contin - gência que Fernando Pessoa retomará em experiências posteriores (citamos, a título de exemplo, O Livro do Desassossegoe o Primeiro Fausto).

4. Alexander Search e a contingência da superfície

No mesmo período de composição deste conto, outras perso na li - dades pessoanas adoptavam discursos semelhantes no tocante a versões da figuração paradoxal do louco lúcido, com assinaturas e biografias próprias e sofrendo dos estigmas da degenerescência como a dipsomania de Charles Robert Anon (que a partilhava com o autor de “The Raven”), ou a nevrose de pensar de Alexander Search. A presença de Poe nesta última persona li - dade é particularmente reveladora em vários passos da sua obra, sobretudo nos contos em que é indicado como autoridade em relação a tópicos recor - rentes como a mania of doubt, definida em certo trecho pessoano a partir da experiência de leitura de “Berenice” enquanto “a hallucinatory intensity of intellectual perception” (Pessoa, Génio e Loucura I 23-50). Neste conto, tal como em “The Door”, a monomania de Egaeus toma como base a fixação do seu interesse em matérias vulgares, neste caso os dentes de Berenice que, no final do conto, serão arrancados do suposto cadáver da amada. Esta concentração excessiva num pormenor que nos instantes iniciais da narrativa apenas suscita um interesse de superfície fará parte, na perspectiva de Xavier Garnier (465), da arte de descrição de Poe ao fazer prevalecer o mistério pelo afastamento de qualquer efeito de profun didade. Alexander Search convoca em alguns poemas interesses semelhantes mas

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