REVISTA ANGLO SAXONICA
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logie Pathologique, de Émile Lauvrière, a obra de Alfred Mezières W. Goethe: les œuvres expliquées par la vie (Pizarro 2007: 31). Jerónimo Pizarro relacionou estas últimas leituras com as reflexões em torno do génio e da loucura, temas caros à teoria da degenerescência, facto comprovado na série de ensaios projectados em 1906, de que três fragmentos, intitulados “Edgar Allan Poe – character and work” e ainda “The followers of Poe” (Pessoa, Génio e Loucura I 34-35), são um exemplo. Esta presença assume- -se na perspectiva da continuidade tardia do interesse em torno do para - digma biologista que acentuara, ao longo da segunda metade do século XIX, a condição patológica do génio e a sua redução à família de outros sujeitos desviantes como os criminosos, os anarquistas ou os loucos. Max Nordau dominará em 1892 com Entartung(Dégénérescence) este discurso ao acentuar as implicações nefastas do fenómeno ao nível civilizacional pelo poder sugestivo exercido sobre as massas, corrompendo com o seu exem plo e obras as gerações posteriores. Daniel Pick destacou, a propósito do discurso sobre a degenerescência, a desvalorização ou mesmo anulação da metáfora a favor da literalidade da linguagem do artista (115) e da sua análise física, defendida nos estudos sobre os estigmas fisionómicos (seguindo a linha dos estudos de Lombroso e Morel), a que concorrem pseudo-ciências como a frenologia. A demonização do génio degenerado constituía uma base profilática contra os perigos morais que anunciavam a hipótese do recuo civilizacional para o primitivismo anárquico. A condi - ção de originalidade do génio, marca do seu carácter excepcional, é reduzida à superficialidade de um sintoma entre outras representações de superfície como a excentricidade, o egotismo, a misantropia, o sentido estético exacer - bado e a profunda actividade introspectiva (Ridge 54).
As relações muitas vezes ambíguas entre Pessoa e as obras de Nordau, que conhecera pelo menos desde 1904, centram-se sobretudo na questão da resistência do pensamento artístico a qualquer tentativa totalizadora de conhecimento. Para Pessoa, a degenerescência do artista é uma possibi - li da de que não se confunde com o poder artístico de “esthetisar o pensa - men to”(Génio e LoucuraI 380) e com a condição de obscuridade do acto criativo. Neste contexto, a escrita de Edgar Allan Poe surge exem plar mente ao valorizar o paradoxo como meio de garantir no discurso a obscuridade através da contradição, forma privilegiada de exposição da contingência. Este último conceito não deve ser entendido apenas na acepção da possi -
PESSOA, POE E A APRENDIZAGEM DA CONTINGÊNCIA
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bilidade (como nas proposições contingentes em filosofia e lógica), mas ainda, como admite Manuel Frias Martins, a propósito do conceito de matéria negra, algo que se apresenta “como um estado de inde ter minação referencial a partir do qual um mundo ou um universo labi ríntico de mundos possíveis se projecta como ficção” (136). O contributo de Poe na apreensão da incerteza, do mistério que advém da ambiguidade, ou, em termos éticos e estéticos, na abertura do caminho para o conceito de mentira artística, é assimilado desde muito cedo. Entre Novembro e Dezem bro de 1905 as suas notas pessoais registam poemas que considera “pure poesque” ou “poesque, complicated with Baudelaire and Rollinat style” (Pessoa, Escritos Autobiográficos 22), designação que merece desde logo algumas observações.Antoine Compagnon, em Le Démon de la Théorie, aponta para a sua riqueza de acepções quando inventaria a acumulação de sentidos que o termo estilo tem vindo a receber ao longo dos séculos. Como norma, ornamento, desvio, tipo, sintoma, cultura (Compagnon 205), a designação acompanha o não menos complexo problema da individualidade (Buffon, no século XVIII, proclamou esta correspondência com a célebre fórmula “O estilo é o homem”) ao pressupor a singularidade de uma obra e a neces - si dade de uma escrita. Tomando a acepção de sintoma, o estilo adquire, por sua vez, a ambiguidade que decorre de duas versões que considera equí - vocas: por um lado, a sua objectividade enquanto código de uma expres - são pessoal, e, por outro, a subjectividade como reflexo da singu laridade, fazendo neste sentido apelo para a diversidade do indivíduo, em oposição à regularidade do código de expressão. Compagnon faz associar esta concep ção de visão singular codificada como marca do sujeito no discurso à questão do génio, integrando-a na confluência entre a faculdade de análise que torna possível a norma e certas condições próprias da subjectividade (201). Num breve artigo sobre o tema, Poe faz recair precisamente na faculdade de análise um dos sinais da habilidade do homem de génio ao expor a maquinaria do efeito que pretende (Poems and Essays 326). Já em “Philosophy of Composition”, a reflexão sobre o efeito de originalidade advém da habilidade do poeta em compor lucidamente os seus textos, em oposição a todos aqueles que “prefer having it understood that they compose by a species of fine frenzy – an ecstatic intuition” (ibid. 165). Por sua parte, Pessoa recorda em Heróstratoa capacidade de raciocínio de Poe
como expressão formal do talento, impondo em simultâneo uma reflexão sobre os seus limites. O caso do tipo mental do escritor, tratado entre aqueles que apenas equilibram o génio com uma só das qualidades da inteligência, reflecte a complementaridade entre o raciocínio e a capacidade contingente da imaginação, desvalorizando o papel totalizador da primeira:
We have types like Poe – genius and one element (reasoning) of cleverness. (His philosophical ability was a fiction, got out of dreams, and this is shown by his incapacity to reason clearly on philosophical matters, in spite of his admirable reasoning powers. His criticism, too, is false; it is built out of reasoning, as in his celebrated self-delusion of the building of “The Raven”, no very remarkable poem, by the bye.) (Pessoa, Heróstrato 185-186).
No texto introdutório das suas traduções de “O Baile das Chamas” e de “William Wilson” (1923), Pessoa fará ainda notar os pormenores de subti - leza de Edgar Allan Poe como crítico, além da justaposição na sua persona - lidade complexa “de uma imaginação vizinha da vesânia com um raciocínio frio e lúcido” (Crítica 214). O estilo “poesque” não suscita adesão sem que ocorra uma atitude crítica ou que intervenha a capacidade de reflec tir sobre as suas ambiguidades, assim como não pode ser determinado tomando unicamente a obra por esta se sustentar em zonas obscuras ou contra - ditórias. A leitura crítica de Pessoa, em Heróstrato, sobre “Philosophy of Composition”, tida como uma “auto-ilusão” nascida do raciocínio, pode comparar-se às conclusões de Pierre Macherey (25-29) sobre o carácter ficcio nal deste texto, por suscitar a mitificação da ilusão normativa do traba lho do autor, a partir do “presente de grego” que implica expor a sua habilidade técnica. Procurar desmistificar o papel da intuição e da espon - taneidade do criador através das deduções sistemáticas apresenta-se, na sua opinião, como parte de uma estratégia que pretende antes destacar o efeito contrário. A vontade de verdade do autor, ao fazer uso da primeira pessoa e desvelando um mecanismo, mais não faz do que expor eloquentemente, à maneira do “double Dupin” (o analisador e o criador) de Poe, o compro - misso contingente de fornecer ao mesmo tempo duas tendências justa - postas, tomando por inseparáveis a ficção e a obra que supostamente explica a sua génese. Partindo da forma como ponto de visão, o autor torna-se ele mesmo participante no jogo ficcional que o coloca em destaque;
2O texto do conto “The Door” será citado a partir dos fragmentos publicados por
Jerónimo Pizarro em Escritos sobre Génio e Loucura, II, 459-487.
incluindo-se no texto, estabelece a transição entre a sua condição empírica e a sua participação textual. A explicação torna-se, deste modo, cúmplice da contingência que cerca o autor como origem da ficção, empreendimento que Pessoa agiliza nos posteriores metatextos como na célebre carta a Adolfo Casais Monteiro de 1935, onde oferece aos leitores a ilusão da suposta unidade entre sujeito e texto. O estilo “poesque”, em suma, mais do que a apren dizagem de um modelo, suscita um campo de possibilidades onde a explicação se defronta com a indeterminação e a penumbra. Não se trata, de resto, de uma questão unicamente perceptível em Pessoa, se pensarmos que, em 1881, Paul Bourget (1-17) caracterizava o estilo da decadência a partir do estudo de Baudelaire, reconhecendo o contributo de Edgar Allan Poe não tanto como influência mas como o paradigma específico de um modo de conceber a modernidade, aquela que se apresenta dilacerada entre o contingente e a análise improvável quanto a resultados dessa mesma contingência.
3. “The Door” – breve ensaio sobre a contingência
Nos fragmentos conhecidos do conto pessoano “The Door”, redigido entre 15 de Março e 27 de Abril de 19062, encontraremos alguns momentos relacionados com a descoberta da contingência tanto do acto criativo como da identidade. Uma voz demente trata da enunciação grotesca de eventos passados, seguindo neste contexto uma estratégia seme - lhante à de vários contos de Poe, como “Berenice”, “Morella”, “William Wilson” ou “The Imp of The Perverse”. A presença da loucura não consiste, todavia, num apelo à condição psicopatológica que ou é substrato ou consequência de um acontecimento, mas pode ser vista ainda como a marca da diferenciação do sujeito (o génio apresenta características similares às dos loucos), verificando-se como uma estratégia de diversificação do eu que, em combinação com o monólogo dramático, evidencia o investimento na representação de estados de fluidez do sujeito. Numa linha desenvolvida