• Nenhum resultado encontrado

144pessoa que vive com o sofrimento e que por isso de uma forma geral procura em s

No documento Decidir,informado. Um estudo em hemodiálise (páginas 153-157)

mesmo algo em que se possa apoiar; e a esperança é, sem dúvida, o grande apoio que sentem:

«O médico vai-me dizendo que o rim pode chegar a qualquer momento…embora já ande nisto há 3 anos…tenho o protocolo de transplante em dia, mas…vou esperar…tenho força» AR

«As vezes sinto-me só, desacredito na cura, mas conservo a esperança de ser transplantado, pois para mim o transplante é a cura. Gostava que as pessoas fossem mais favoráveis á doação de órgãos. As filas de espera são enormes e o sofrimento também…» av

Notei igualmente que enfrentar esta situação desafia as emoções; a esperança tenta superar as crises e ao mesmo tempo é muitas vezes vista como uma oportunidade para crescimento pessoal.

«O que vivo, faz-me partilhar com pessoas que estão em igual situação… sinto que partilhamos sentimentos comuns que no fundo nos faz sentir apoiadas e que também faz crescer em nós solidariedade…pois o desejo que temos para nós também existe para aqueles que fazem tratamento connosco e que nos são mais próximos» az

Neste sentido 385 o mesmo autor, afirma que para manusear o desenvolvimento do processo da doença e tentar viver, o IRC emite respostas activas frente aos desafios, que englobam mecanismos cognitivos e emocionais de acordo com a sua identidade e o seu estilo de vida. O indivíduo que adopta estas estratégias adaptativas, como “ter esperança” acaba por ter o poder de transformar a doença num processo construtivo Assim, situado no contexto do curso da vida da pessoa, a situação poderá articular-se com experiências do passado e do futuro, levando o doente a experimentar novos caminhos e, consequentemente, fazer uma reestruturação da sua existência.

«No início do tratamento não conseguia ir à igreja; pois pensava: Porque é que Deus fez isto comigo?...mas com o decorrer do dia-a-dia vi que é muito importante compartilhar as nossas dificuldades com Deus e esperar que de alguma forma ele

385

145

nos ajude. Hoje entendi isso e rezo todos os dias, pedindo protecção para mim e para os outros. Aprendi também a agradecer pelo facto de estar viva…”ax

Constatamos que os doentes lutam com determinação, aprendendo a apoiar-se na fé, a profunda ligação que paulatinamente foram estabelecendo com Deus. Encaram as dificuldades tentando romper as barreiras, buscando ajuda, agarrados à esperança que um dia tudo melhora com a realização do transplante. RODRIGUES386 reflecte sobre a espiritualidade relatando que nos últimos anos, o enfoque na dimensão espiritual da saúde tem revelado que a sua prática, ligada à religiosidade, causa benefícios físicos, podendo prolongar a sobrevivência em condições crónicas.

Enfrentar a cronicidade da doença renal envolve a compreensão, pelo doente, do seu significado, e dos reflexos no seu quotidiano: nas relações, na concepção de vida, devido ás alterações físicas e emocionais que representam obstáculos ao seguimento do tratamento

O autor, tece comentários em relação as reacções do ser humano, dizendo que todos visam aos mesmos objectivos: o desejo de se manter vivo, de se realizar, de conservar intacta a identidade constituída e de defender-se contra tudo o que ameaça esses propósitos. A força do sujeito reside nessa continuidade e nessa monotonia.”

A análise desta unidade temática mostra uma vivência marcada por desafios, revelações e esperança, empreendendo uma luta constante para vencer dificuldades na tentativa de não se renderem a elas. Uma das características centrais que sobressaem é a determinação que os doentes sentem em mobilizar as suas forças para continuar o tratamento. Apoiados, muitas vezes, nos que se encontram em igual situação, não se permitem deixar levar pelo desânimo e por sentimentos negativos. Tentam sim, esperar… ir buscar ajuda …ajuda esta ancorada na fé em Deus, renovando as suas esperanças de que possam ser submetidos ao transplante Renal.

As narrativas mostram que o ”verbo esperar” torna-se tão imperativo como o” verbo

respirar”. Podemos dizer que, com a hemodiálise, a vida transforma-se numa estação

de comboios onde o amor, na espera, ensina a ver o futuro, a desejá-lo, a organizar tudo para que ele seja possível. Para estes doentes é mais fácil esperar do que desistir, é mais fácil desejar do que esquecer, é mais fácil sonhar do que perder…E para quem vive a sonhar, é muito mais fácil viver.

386

147

CONCLUSÕES CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este estudo tentou perceber a vivência da informação no processo de adesão e adaptação à hemodiálise, dentro de uma concepção menos mecanizada, dando prioridade à sua influência nas interacções sociais, familiares e com a equipe de saúde. Assim, conceptualizei a problemática da informação como sendo um fenómeno único, mas estando em interacção com múltiplos factores e integrado no seu contexto. Parti do princípio que cada doente antes de mais, é uma pessoa responsável pelas suas decisões, e sendo os valores de liberdade e autonomia individual indiscutíveis no processo do direito à informação, tentei perceber se os mesmos eram sentidos e vividos pelos participantes.

No decorrer da análise foi possível perceber o quanto a experiência com a doença renal crónica é complexa e como são muitas as limitações que a hemodiálise cria na vida social e familiar destes doentes. Ficou explícito que enfrentar este processo, envolve a compreensão pelo doente do seu significado e dos reflexos que o tratamento manifesta no seu quotidiano, devido às alterações físicas e emocionais que representa.

Chegou, assim, o momento de reflectir sobre os aspectos mais significativos do que foi encontrado, não pretendendo no entanto fazer generalizações, pois os significados encontrados dizem respeito a vivências particulares e únicas.

No que respeita à falta de poder que os doentes referem ter sentido ao decidir iniciar hemodiálise, esta foi resultado da informação sobre a necessidade urgente de tratamento, como sendo a única alternativa para resolver as questões ligadas ao

148

No documento Decidir,informado. Um estudo em hemodiálise (páginas 153-157)