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PESSOAS QUE PODEM SOLICITAR O REGISTRO DA MARCA.

No documento As marcas de certificação (páginas 153-157)

x x x Aprovação do regulamento de utilização da marca

NASCIMENTO, CONTEÚDO DO DIREITO E RSPONSABILIDADE DO TITULAR DA MARCA DE CERTIFICAÇÃO

2.2 PESSOAS QUE PODEM SOLICITAR O REGISTRO DA MARCA.

Quanto à titularidade da Marca de Certificação, o artigo 128 da LPIB 9.279/96 estabelece que qualquer tipo de pessoa física ou jurídica, de caráter privado ou público, nacional ou não, pode obter no Brasil o registro de uma marca desta categoria, salvo aquela que, por força de sua atividade, tenha interesse direto sobre o produto ou serviço para os quais seja solicitada a Marca de Certificação.263

Esta amplitude que em princípio a LPIB 9.279/96 consagra às pessoas que podem solicitar o registro de uma Marca de Certificação, constitui a regra geral que se observa no Direito Comparado, exceto no caso da legislação francesa, que consagra expressamente uma proibição para que as pessoas físicas possam solicitar o registro de uma Marca Coletiva de certificação. 264

No entanto, a referida amplitude é objeto de algumas limitações que irão concretizar a legitimidade das pessoas que podem solicitar uma Marca de Certificação, tal como será analisado no item seguinte.

2.2.1 Legitimidade

O parágrafo 3º do artigo 128 da LPIB 9.279/96 consagra como uma restrição da legitimação para solicitar o registro de uma Marca de Certificação a ausência na pessoa do solicitante de interesse econômico ou industrial direto sobre os produtos ou serviços certificados.

Neste sentido, observamos que o legislador introduz como pressuposto de restrição da legitimação da pessoa do solicitante de uma Marca de Certificação a incompatibilidade da função de certificação com a produção e comercialização por parte do titular da Marca de Certificação, de produtos ou serviços em relação aos quais a marca será utilizada.

263

Art. 128 LPIB 9.279/96: “Podem requerer registro de marca as pessoas físicas ou jurídicas de direito público ou de direito privado. […] § 3º O registro da marca de certificação só poderá ser requerido por pessoa sem interesse comercial ou industrial direto no produto ou serviço atestado.”

264

En Francia una persona física no podrá ser titular de una Marca Colectiva de certificação, tampoco aquellas que fabriquen, importen o vendan productos designados con la misma marca. Vid. Art. L 715-2.1 CPIF: « […] Une marque collective de certification ne peut être déposée que par une personne morale qui n'est ni fabricant, ni importateur, ni vendeur des produits ou services;»

No entanto, o sentido real do referido pressuposto é mais que uma restrição de legitimidade no solicitante, é a consagração do princípio geral de proibição de uso da marca pelo titular, o qual se fundamenta na necessidade de proteger a independência do titular como administrador de um serviço de certificação, evitando que a essência da função da marca seja alterada em interesse próprio do titular, com o conseqüente desequilíbrio do mercado.265

Por outro lado, nos termos em que a legislação brasileira estabelece a restrição à legitimidade que temos analisado, esta pode ser entendida como uma limitação ao exercício do direito de liberdade de empresa do solicitante da Marca de Certificação, o que simplesmente excede a finalidade perseguida por meio do regime legal da Marca de Certificação em relação ao princípio de não uso direto de este tipo de marca por parte do titular. 266

Além disso, devemos realizar algumas considerações a respeito da expressão utilizada pelo legislador no referido parágrafo 3o do artigo 128 da LPIB 9.279/96, de pessoa sem

interesse comercial ou industrial direto no produto ou serviço atestado. A expressão de

interesse direto quanto ao produto ou serviço certificado deve ser entendida não somente sobre produtos ou serviço fabricados ou comercializados pelo próprio solicitante, mas também em relação a serviços e produtos fabricados ou comercializados por pessoas com as quais o solicitante da marca esteja vinculado economicamente. É este o sentido que a legislação espanhola consagra no artigo 73. e) da LME 17/2001.267

Quanto ao interesse direto do solicitante sobre os mesmos produtos ou serviços que a marca atesta, cremos que para que se cumpra com a finalidade de consagração do princípio de

265

A este respecto, la jurisprudencia americana ha dejado en claro que en relación al uso de la Marca de Certificación, en ningún caso, el titular puede utilizar en sus propios productos o servicios, una marca de producto o de servicio idéntica a la Marca de Certificación con la que certifica los productos o servicios de terceros. Tales usos resultan por la propia naturaleza de las referidas marcas, mutuamente excluyentes, por ende, prohibido por ley darle a la Marca de Certificación, un uso que no sea el de certificar de forma exclusividade. Vid. United States. Patent Office Trademark Trial and Appeal Board, decided Dec. 12, 1968. 160 U.S.P.Q. 495. op. cit., p. 2-4;

Art. 188 D-486: “El titular de la Marca de Certificação podrá autorizar su uso a cualquier persona cuyo producto o servicio cumpla las condiciones establecidas en el reglamento de uso de la marca. La Marca de

Certificação no podrá usarse en relación con productos o servicios producidos, prestados o comercializados por el propio titular de la marca.” -la negrita es nuestra-

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La limitación en relación a la legitimación del titular de la marca de garantía, aún cuando plenamente justificada por la propia función caracterizadora de esta categoría de marca y como medio para impedir conflicto de intereses y atentados contra la libre competencia. No obstante, ha sido considerada como una medida exagerada, innecesaria y reiterativa. Exagerada en tanto que la prohibición debe circunscribirse al hecho que el titular de una marca de garantía no puede aplicar tal marca sobre productos o servicios iguales o semejantes que él mismo fabrique o comercialice. Pero que, de modo alguno debe ser utilizado como una restricción para la titularidad de la marca. Innecesaria y reiterativa, ya que tal prohibición constituye igualmente una causa de caducidad del registro de la Marca de Certificación. Vid. LARGO GIL, Rita. op. cit., 2001, p. 149-150.

267

Art. 73 LME 17/2001: “Causas de caducidad. […] e) Que el titular ha utilizado la marca para los productos o servicios que él mismo o una persona que esté económicamente vinculada con él fabrique o suministre.”

não uso da referida Marca de Certificação, deve estender-se tal interesse por parte do titular da marca a produtos ou serviços iguais ou semelhantes. Igualmente, podemos observar que o referido princípio é consagrado com tal alcance pelo legislador da LME 17/2001.268

Ainda que a legislação brasileira exclua sem uma causa razoável a possibilidade de solicitar o registro de uma Marca de Certificação geográfica, acreditamos ser oportuno expressar que em relação às pessoas legitimadas para solicitar o registro de uma Marca de Certificação do tipo que certifica a procedência geográfica de produtos ou serviços, o legislador americano estabelece como restrição no referido tipo de marca que esta somente poderá ser solicitada por um órgão do governo, seja nacional ou estatal, ou por um organismo com a correspondente autorização governamental.

Extrema restrição é justificada na consideração de que somente um ente que detenha o poder de governo do Estado considere-se apto a certificar a origem geográfica e controlar o uso da marca em produtos ou serviços procedentes da localidade, em beneficio e equilíbrio dos diferentes interesses envolvidos, reprimindo o uso ilegal deste tipo marca.269

2.2.2 Capacidade para certificar

Agora passaremos a tecer algumas considerações ao tema da capacidade certificadora do titular da Marca de Certificação, uma vez que, tal como foi apontado no Capítulo 1, a necessidade de capacidade do solicitante para certificar é estabelecida no Direito Comparado a partir de diferente posições. De fato, partimos da premissa de que tal necessidade é entendida pela legislação na LPIB 9.279/96 – cfr, artigo 128 -, em um sentido amplo, isto é, que o solicitante da marca conte com uma infra-estrutura organizada que lhe permita cumprir com a função certificadora da marca.

268

Art. 68.2 LME 17/2001: “No podrán solicitar marcas de garantía quienes fabriquen o comercialicen productos o servicios idénticos o similares a aquellos para los que fuera a registrarse la citada marca.”

269

§ 4 (2) 15 U.S.C. § 1054 Lanham Act: “Subject to the provisions relating to the registration of trademarks, so far as they are applicable, collective and certification marks, including indications of regional origin, shall be registrable under this Act, in the same manner and with the same effect as are trademarks, by persons, and nations, States, municipalities, and the like, exercising legitimate control over the use of the marks sought to be registered, even though not possessing an industrial or commercial establishment, and when registered they shall be entitled to the protection provided herein in the case of trademarks, except in the case of certification marks when used so as to represent falsely that the owner or a user thereof makes or sells the goods or performs the services on or in connection with which such mark is used. Applications and procedure under this section shall conform as nearly as practicable to those prescribed for the registration of trademarks.”

Esta visão sobre a necessidade de capacidade que difere da necessidade de capacidade exigida pelas legislações da Grã-Bretanha e da França, que em seus respectivos ordenamentos jurídicos consagram a expressão “competente para certificar”, entendendo tal termo em sentido estrito, denotando honestidade e confiança, razão pela qual, na prática, nos referidos países a exigência de tal capacidade do solicitante da marca deva ser reconhecida por parte do Órgão administrativo correspondente, que no caso da Grã-Bretanha é a própria Oficina de Marcas,270 e na França é o Conseil d’Etat.271

Cremos na necessidade de acreditar a capacidade para certificar por parte do titular no caso de países com economias em desenvolvimento, nos quais, por razões de ordem cultural e econômica, seus mercados nacionais são evidentemente sistemas frágeis não bem determinados em termos de uma concorrência leal e livre. Tal circunstância é, obviamente, uma das razões para que, frente ao desenvolvimento de mercados internacionais, a tendência atual em matéria de certificação de produtos e serviços seja a acreditação do

270

Anexo 2 párrafo 7(1) (b) Trade Marks Act: “A certification mark shall not be registered unless: […] (b) the applicant is competent to certify the goods or services for which the mark is to be registered.”

La Oficina de marcas de Gran Bretaña, pone especial énfasis al valorar la capacidad en el solicitante de la Marca de Certificación desde dos aspectos: el primero, una capacidad interna valorada en el hecho de que él mismo cuente con los mecanismos técnicos -sistemas de comprobaciones y examen de muestras de productos para cada caso-, en fin, que cuenta con un sistema de control adecuado que asegura la función de certificación y que el control sobre los productos o servicios será llevado a cabo de forma satisfatoria; y un segundo aspecto o capacidad externa donde ésta es contrastada en directa relación con el interés general que la marca pretende proteger y el potencial del titular como autoridad para certificar en el mercado, isto es, la capacidad como el poder o grado de confianza que ostenta como certificador en el mercado. Vid. DAWSON, Norma. op. cit., p. 31; LADAS, Stephen P. op. cit., p. 1300; ANNAND, Ruth E.; NORMAN, Helen E. Blackstone’s

Guide to the Trade Marks Act 1994. Londres, 1994. p. 229.

El reconocimiento de capacidad del solicitante, por parte de la Oficina de marcas como Órgano administrativo correspondiente, se considera como un acto de carácter esencialmente instrumental, para la consolidación del elemento subjetivo -solicitante-, en la solicitud de registro de la Marca de Certificación. Vid. BELSON, Jeffrey. op. cit., 2002a. p. 349.

271

El CcF, establece que los organismos certificadores están obligados a acreditar su competencia y eficacia en el control de la calidad u origen de los productos amparados con la Marca Colectiva de certificación; para lo cual deberán ofrecer garantías de imparcialidad e independencia en su atividad; y, estar reconocidos por el Conseil d’Etat como la autoridad administrativa competente. Vid. Art. L 715-2.5 CPIF: « […] La demande d'enregistrement est rejetée lorsqu'elle ne satisfait pas aux conditions fixées par la législation applicable à la certification; […]»; Art. L115-23-2 CcF: «La procédure de délivrance des labels agricoles et des certificats de conformité est définie à l'article L. 643-5 du code rural, ci-après reproduit: Art. L. 643-5 - Les labels agricoles et les certificats de conformité sont délivrés par des organismes certificateurs agréés par l'autorité administrative. Seuls peuvent être agréés les organismes accrédités par une instance reconnue à cet effet par l'autorité administrative. Les organismes certificateurs doivent offrir des garanties d'impartialité et d'indépendance et n'être, notamment, ni producteurs, ni fabricants, ni importateurs, ni vendeurs de produits de même nature et justifier de leur compétence et de l'efficacité de leur contrôle. L'agrément ne peut être accordé que sur vérification de ces conditions et de la capacité de l'organisme à assurer les contrôles de la qualité des produits dotés de labels ou de certificats de conformité; Art. L115-28 CcF: « Peuvent seuls procéder à la certification de produits ou de services les organismes qui ont déposé auprès de l'autorité administrative une déclaration relative à leur activité et contenant notamment toutes informations nécessaires en ce qui concerne les mesures destinées à garantir leur impartialité et leur compétence. […]. Les organismes certificateurs déposent comme marques collectives de certification, conformément à la législation sur les marques de fabrique, de commerce et de service, le signe distinctif qui, le cas échéant, accompagne ou materialise la certification.»

titular/certificador da Marca de Certificação ante a entidade ou órgão administrativo correspondente.272

A importância da exigência de capacidade do titular da Marca de Certificação pode ser sentida quando a legislação consagra expressamente como causa de extinção do direito sobre a Marca de Certificação, que a entidade ou titular da Marca de Certificação deixe de existir, - art. 151.I da LPIB 9.279/96.273

Neste sentido, a expressão deixe de existir deve ser entendida como abarcando a incapacidade que sobrevém ao titular para que tecnicamente cumpra com a função certificadora e o controle de uso da marca sobre os produtos ou serviços para os quais é solicitada. Da mesma forma, no caso do titular ter facultado outra entidade para realizar a atividade da certificação e de controle sobre os produtos ou serviços que a marca acompanha, sem que tal possibilidade tenha sido contemplada no próprio regulamento de utilização da marca.274

No documento As marcas de certificação (páginas 153-157)

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